sábado, 23 de julho de 2016

Preceitos

Graças. Graças a Deus, um pouco de solidão.
Fecho a porta e não há ninguém cá dentro.
Abro os botões da camisa e percebo meu peito, ofegante.
Falta-me ar dentro do que sou apesar dos ventos que entram pela janela.
Vejo pela janela cães passeando pela rua e sou estrangeiro a eles.
Eles não sabem do corpo cheio de ossos que sou.
Desconhecem o contato físico de minha pele
assim como desconhecem todos os outros que perambulam.
Todos, inclusive eu, somos vãos e desconhecidos.
A porta fechada, a janela aberta...
Os ventos tentam assoviar ao entrar tentando me fazer companhia.
Mas eu, que não sou romântico nem nada, peço que calem e
sorrio em desdém, de lado, como quem não quer perceber a presença do outro.
O vento, assim como eu, tem tempo finito para existir.
Ele, por sorte, morre tão logo nasce.
Eu, entretanto, como as demais pessoas do mundo, vivo mais que anos.
Vivo insistindo que a vida vale a pena, pois entender que de nada ela vale
seria como um ultraje às pessoas de cada esquina.
Ah, assuntos vãos que não se conversa com ninguém...
Esse é um: a vida!
Todos tentam manter-se fortes e confiantes de que viver é belo e bom.
Eu sinto um pesar enorme ao perceber que não coaduno com isso.
Entendo, entretanto, que, de fato, a metafísica é uma consequência
de se estar maldisposto.
Daí, penso: sou eu que exerço pensamentos em metafísica?
É todo o resto das pessoas que finge desconhecer a imbecilidade da vida
que assim são?
Ao não encontrar solução para esse impasse, o universo dentro de mim
rosna de raiva para comigo.
Rosna de roçar audíveis sons dentes por dentes...
E eu, cá, sozinho no quarto com janela agora menos aberta que antes,
fecho mais meu coração e crio calos nos dentes.
Tento ler qualquer coisas ou não pensar.
Ou melhor: tento pensar como os que não se atém a nada pensam.
Tento pensar como os que veem a vida como coisa feliz,
mas perco-me dentro de devaneios sem sentido para mim.
Olho de novo pela janela e vejo que não mais há cães, nem pessoas
passeando pelas calçadas. Talvez tenham se ido para suas casas ou
estejam agora desfrutando de uma tarde de sol num parque cheio de
outros cães e outras gentes.
Eu, de cá, isolado como o interior de minha cabeça, sigo digladiando
com minha mente e minha cabeça cria sons que só eu ouço.
Tento manter a solidão insistindo em não abrir mais a janela,
nem abrir a porta.
Fechado, não tendo ninguém, sou mais eu que em outras ocasiões fui.
Sendo algo diante dos outros, sou aquilo que precisam ver em mim.
Engano a eles, engano-me, e todos saem felizes disso, menos eu.
Sou um emaranhado de pensamentos que desconheço a origem
e mais ainda desconheço as respostas.
De fato, concluo que sou daqueles que insiste na metafísica.
Não sou de viver ficções.
Se acho a vida um inferno que Deus criou: pronto, acho!
Não finjo nada diante de mim.
Mas o entorno que vejo é repleto de pessoas repletas de ficções.
Ora a ficção da família feliz, ou do casal satisfeito, ou do amor ao desfrute humano...
Ora, penso: sou eu mesmo um desajustado e maldisposto diante da vida.
Que tenho eu de humano para além de ossos, carne e angústias?
Queria ser ficção e encerrar-me num final feliz qualquer.
Pena que desconheço até os preceitos que me permeiam o presente e perfazem-me...

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