quinta-feira, 14 de julho de 2016

Em breve

Vendi-me por uma bagatela.
Mal sabia eu quanto eu custaria...
Vendi-me a preço de bananas...Sim, bananas!
Sou eu um banana, um conto de réis sem sentido.
Levaram-me de mim e pronto.
Ficou um resto vago, insosso.
Sou um cão que ladra sem rumos.
Sim, um cão.
Um cão desperdiçado nas soleiras das portas...
Um cão perdido, malfadado, deveras.

Sou daqueles cães que se vê na rua
e, em vendo, se tem dó
das pulgas que o infestam.
Tenho dó de mim?
Não, tenho pena do que não fui.
Seria eu algo melhor caso o fosse,
Caso pudesse ter sido.
Caso visse a mim mesmo
como vejo hoje.
Saberia eu não ser melhor
que um cão às soleiras das portas que
Sequer querem ser abertas.
Mas, confesso, parte de mim soa em dó.
Sim, tenho dó de mim em partes!
Preciso confessar. Pronto!

Mas não sou ausente do que sou.
O que sou, sou por inteiro. 
Sou a melhor versão de mim
Dentro daquilo que consegui fazer-me.
Mas, sim, sou um reles qualquer.
Sim, sou um nada que teme tanto e quase tudo.
Mas não temo temer, nem nego o temor.
Tenho pavor dos que se enganam
Tomando-se por corajosos...
Corajosos trêmulos.
Feições estéticas de coragem
Que não se perpetuam em ações corajosas.
Coragem exige desprendimento,
Bom senso e visão crítica refinada.
O que seria dos atos de coragem, também,
Sem indignação? Ora...
...
Sou um ancião no corpo ainda jovem
que insiste em viver aguardando algo melhor
enquanto suas esperanças e energias acabam.
Esvaem-se pelas janelas da casa aberta
Que sou, fui, entendendo que há
Um mundo bom, de pessoas boas.
...
Coitado do meu corpo.
Coitado de mim?
Coitado de mim!
Quem dera eu recebesse novas esperanças
Mesmo que com olhos de assombro.
Mas...
Nada.
Nada!
Não me espanto e nada mais me causa alarde
ou - sinceramente - comoção!
Tornei-me tão reles como aquele que nem mesmo conhece
a insignificância de si mesmo!
Mas tento entender-me, 
Naquilo que sou, o que há!
Sem temor de ver aquilo que jamais fui,
Aquilo que tantos esperaram
- e que até persegui ser, mas
Sinto-me hoje em paz sendo um cão.
Cão deitado às soleiras das portas.
Ora aqui, ora acolá,
Aguardando um afago despretensioso.
Um resto de mesa farta qualquer...
E não digo de alimentos do corpo, tão somente.
Desconheço o que as pessoas têm para dar.
E desconheço o que eu mesmo tenha,
Afinal, desconheço o todo que sou
ou quem sou, de fato. 
Mas sei bem que não me incomoda mais em nada
Saber que não sou aquilo que quiseram de mim,
Que esperavam para mim.
Até para ser cão às soleiras da porta,
Há de se aprender a ser tolerado
Pelas pessoas donas das portas, claro.
Nada mais desagradável que ser enxotado, entendo.
Mas sei viver em paz indo de poeta em porta
Recebendo apenas o resto que as pessoas me dão.
Afinal, nesse mundo: quem tem algo mais a oferecer de si senão restos?
Fragmentados em nossa egolatria
Nos discursos esteticamente premeditados,
Vivendo personagens que não somos:
Damos sempre restos. Restos...
Há nada mais que isso nos conteúdos que temos sido enquanto pessoas
Nesse mundo cada vez mais virtual
E sem portas abertas para nada.
Apenas queremos receber. 
Receber. Receber. 
Carências sem fim.
Quem não aprende a amar a si mesmo,
Passa a ser um ser humano solitário
Mesmo que na multidão.
E dou gargalhadas quando alguém me olha,
Vê-me um cão às soleiras das portas
e sente pena de mim.
Estou muito mais rico agora.
Rico, pois preciso de pouco. 
Espero muito pouco, pois aprendi a entender:
Somos pessoas que se educaram a doar pouco.
Receber muito.
Cobrar sempre. 
Por isso: não ladro, apenas deito às soleiras
e contento-me com as migalhas alheias.

...

Eu, do alto de minha sobrevivência ao longo dos dias,
olho para o horizonte e tento pular do prédio mais alto,
mas não tenho coragem ou ânimo nem para subir as escadas.
Ó, eu insosso e sem sucesso:
vá ser algo na vida, homem!
Vá cuidar de algo que não seja o jardim de sua insignificância
da qual colhe tantos frutos insignificantes como você!
Ah, deveras grande é a decepção que cultivamos
quando percebemos, enfim, que nada deu certo.
Tudo quanto era sonhos pueris torna-se farinha, migalhas...
Farinha...
Migalhas...
Farinha, sim!
Não me resta mais que aceitar minha nulidade,
Seguir pisando na farinha que fiz de mim,
Debruçado em minhas mãos
Olhando as migalhas que me dão.
Isso!
Justo!
A farinha que sou do pão que poderia ser?
As migalhas dos outros, por certo,
Ainda me nutrem de alguma maneira.
Poético e trágico.

...

Sou um pó do castelo que ruiu por inteiro?
Ou as cinzas da carta endereçada a deus que queimou-se em brasa?
Algo sem matéria pronta,
sou uma coisa perdida qualquer que
olha-se e apieda-se de si mesma!
Ah, que futuro torpe é esse, meu Deus?
Quantas noites passei em claro achando que estava a traçar nortes...?
Hoje, sem nortes e sem nada além de vislumbres do passado distante,
sinto, em novo vislumbre,
que nem sou, pois não fui o que queria ser;
nem sou o que espero ainda,
pois, na verdade, tanto faz agora.
Tanto faz o que não fui.
Tanto faz o que nem sou.
Tanto faz cada um que depositou em mim ideias sem meu aval.
E nem considero-me algo para ser isso ou aquilo de certo ou de errado.
Sou o que sou, pronto!
Mas fazendo-se novo a cada dia.
Dito isso, tanto faz se sou vivo ou morto
- ou se sou reles ou um homem de sucesso.
Apenas de olhar minha existência, bate-me uma enorme preguiça.
Daquelas que, ao bater, você tem vontade de caçoar de si mesmo!
Caçoo de mim!
Dou gargalhadas.
Caçoo das pessoas!
Dou gargalhadas.
Afinal, que sou eu além de essas linhas insanas, malfadadas,
em um papel que será jogado fora?

...

Sou o poema que surge ou sou o papel que joguei no lixo?
Não sei.
Posso ser ambos,
E, sobre isso, pouco me importa ser algo agora.
Apenas espero chegar logo o dia de amanhã
onde não haverá mais amanhã algum.
Quem sabe consigo essa sorte
de não existir mais, em breve?

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