terça-feira, 9 de agosto de 2016

O homem do outro planeta


Um homem desceu à Terra.
Era noite. Ninguém percebeu!
Durante a manhã e os dias seguintes,
ele foi inteirando-se da vida humana.
Ele, transfigurado tal qual humano,
foi embrenhando-se na aspereza da vida
daquela espécie pela qual trazia interesse.
Foi observando as pessoas nas ruas,
fingindo-se estranhas, todas, umas às outras.
Poucos sorrisos. Cenhos franzidos.
Barulhos. Buzinas. Gritos.
Gestos furiosos naquilo que chamavam trânsito.
Todos eram transeuntes, ao seu modo,
mas os que andavam em veículos eram mais fortes.
Eles ganhavam espaços por sobre as vias
acuando os transeuntes sem veículos nos cantos,
nas chamadas calçadas.
Ele fingia assombro, mas ninguém parava para lhe ajudar.
Seu rosto de dúvidas permanecia inquietante,
mas ninguém parava para saber daquele rosto.
Por qual motivo ele estaria perplexo?
Estaria perdido?
Sim, ele estava perplexo e perdido.
Ia anoitecendo, as coisas não melhoravam.
O excesso de carros e gente que viu quando era dia,
dava lugar ao silêncio e a pessoas mal vestidas.
Ele não entendia quem eram aquelas pessoas.
As achava tristes! Todas!
Todas em roupas de tons cinzentos, amarronzados...
Eram pessoas travestidas em vestes sujas e ignóbeis, lhe pareceu.
Ninguém dava conta delas!
Apenas uma ou outra pessoas jogava pequenos metais em latas.
Latas que essas pessoas carregavam consigo.
Juntavam cada um daqueles metais como se lhes fosse ouro dado.
As colecionavam? Ele não sabia.
Viu um deles amontoar nas mãos um tanto delas
ao caminho de um lugarejo que vendia coisas de comer.
O homem com os metais nas mãos trocou seus metais por comida.
Sim, era comida!
O homem ficou quieto, com olhar distante, saboreando, aparentemente,
cada pedaço daquilo que seus metais lhe permitiram pegar.
Acabado aquele produto comprado, voltou com seus pertences
ao canto abaixo de uma marquise onde escolheu para dormir.
E conseguiu dormir!
O homem do espaço não entendia nada.
Onde seria a casa daquele homem?
Passavam pessoas, poucas naquela hora da noite,
que se desviavam dos homens como aquele abaixo da marquise.
Sim, eles estavam sujos, mas o homem do espaço não via motivos.
Eram expressões de asco, de espanto, ou um misto daquilo e disso.
Ele não entendia.
Via pessoas saindo com vestes festivas de casas de vários andares...
Arranhacéus, ele entendeu, de gente sobre gente.
Janelas, tantas... E uma única porta por onde saiam veículos e pessoas.
Dentro dos veículos, as pessoas mostravam-se fortes, altivas.
Seria um escudo diante do mundo? Ele não entendeu.
Perdeu o controle de seus pensamentos
quando voltou a olhar o homem da marquise.
Ele dormia. Aparentemente sonhava.
Seus olhos, embora fechados, davam ainda para ver que se mexiam.
Sonhos? Pesadelos?
Ele não entendeu!
Um homem semelhante aquele da marquise passou diante de um veículo.
O dono do veículo apertou um botão que fez soar um som alardeante.
Todos assustaram-se, menos o homem que transitava na rua.
Deixou um pedaço de comida aparentemente suja cair no chão, no susto.
Pegou-o novamente e comeu em seguida.
O homem que passou de dentro do veículo esbravejou contra ele.
Ele, em contrapartida, não se moveu.
Atravessou a rua, abaixou mais ainda a cabeça...
Parece que não havia visto o veículo.
Nem ligou para o fato de quase ter sido atingido, ou até morrido.
Sem entender, o homem do espaço fechou os olhos e se teletransportou.
Voltou à sua realidade, no seu planeta.
Não conseguiu adequar-se ao local onde se pôs para conhecer.
Não queria voltar mais.
Entendeu que as pessoas não são muito de olhar umas às outras.
No planeta em que ele vivia, gestos gentis eram rotina.
Pessoas andavam sempre com roupas limpas, tinham casas para morar.
Alguns moravam em casas empilhadas também - uns sobre os outros.
Mas todos se olhavam, se cumprimentavam, e não havia rostos sofridos lá.
Ele entendeu que seu planeta era diferente
daquele onde passou uma tarde e uma noite.
Voltou sozinho da sua aventura com muitas coisas para pensar.
Teve uma sensação de choro quando lembrou-se do homem da marquise
e do homem que comeu a comida suja caída no chão.
Mas dormiu, mesmo assim.
Acordou novamente com sorriso no rosto
para viver mais um dia em seu planeta.
Desejou mentalmente boa sorte aos homens que vira no planeta que visitou.
E viveu mais um dia em seu pedaço de mundo
além da galáxia que visitara no dia anterior.
Teve pena daquele planeta Terra.
Teve pena dos homens de lá.
Desejou que conhecessem seu planeta e a gentileza que havia nele.
Pensou em fazer algo pelos homens que os sentiu sofrer,
mas nada fez.
Não era da sua conta - assim como ninguém sentia
que era da sua conta, aqui, para fazer algo.

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