- “Por
que você sofre?”, perguntou-lhe o amigo.
Ele
não soube responder. Deu de ombros e apenas afirmou:
- “Não
sei. Apenas sinto. E o que sinto me faz sofrer!”.
O
amigo olho-o com uma dose de dúvida e uma dose de desprezo. Pensou: “como
alguém não sabe por que sofre?”. Pensou, mas não quis delongar a conversa que
em nada lhe era instigante.
Despediram-se
um do outro. Deram de ombros quando um perguntou ao outro: “Quando nos veremos
de novo?”. Ele, o amigo depressivo, sabia que não se encontrariam tão cedo. “Quem
tem paciência para alguém deprimido? “, pensou.
A noite ia entrando quando ele, o deprimido homem, chegou em casa. Estava cansado. A labuta diária lhe consumia todas as energias. Ele só se sentia algo refeito após chegar em casa, sentar-se no sofá com uma garrafa de cerveja na mão e a tomava junto com seus remédios de horário contra depressão. Era seu momento de paz.
Ele parava e se perguntava se estaria exagerando. Beber, misturando álcool com remédios controlados? Ora, ninguém o aconselharia a fazer isso, mas, após anos de experiência depressiva, ele encontrou nessa mistura alguns instantes de paz e de algum sentimento que lhe fazia lembrar da alegria.
Sim, ele já sentiu-se alegre um dia. Não era “o depressivo” desde sempre. Não! Fora feliz por inúmeros anos de vida. Era alegre, extrovertido. O centro das amizades de muitos, sabem? Sabem como é isso? Pois é: ele perdera isso tudo.
Hoje, aquele homem que antes fora um jovem feliz, sorridente, brincalhão e falador era um homem quase de meia idade sozinho, completamente solitário, sem amor, sem sorrisos, sem alegria. Onde ele havia feito a quebra de tantos paradigmas na própria vida para ser hoje esse homem sem vida? Ele não sabia ao certo. Nenhum profissional com o qual ele já se consultara havia lhe dado detalhes de como tudo começou.
Mas tudo isso não importava-lhe mais. O que ele se importava era que nem ele nem ninguém lhe davam notícias ou esperanças de quando aquilo acabaria. Quando esse martírio de depressão se resolveria sem ele ter que beber e misturar remédios ao álcool. Quando?
Sem
respostas, mais uma vez, dormiu no sofá com a televisão passando algo que ele
nem mesmo sabia do que se tratava. Era uma catarse para ele, ali, vendo
qualquer coisa na TV, conversar sozinho e contar para si mesmo como havia sido
seu dia e terminar a conversa calando-se por ter dormido, cansado demais de si
e de tudo que estava.
Ah, o álcool e a vontade enorme de poder ser outra pessoa. Ele lia muito Fernando Pessoa e a cada dia mais aquele poeta introspectivo lhe fazia sentido. A solidão, a metafísica dos chocolates. O estado de se ver mal disposto quando mergulhado nessa metafísica. Sim. Ele era um mal disposto. Ele amava as poesias de Fernando Pessoa. Só não amava a si mesmo. Ele se odiava. Mas a quem isso importava?
Ele já havia incomodado um par de amigos com suas loucuras, com seus desabafos. Já pagara altas quantias em dinheiro para remédios e terapia. Ele não tinha solução. A solução era morrer! Mesmo dormindo ele consultava Fernando Pessoa e, no sonho daquela noite, ele abria uma página onde lia Tabacaria, o trecho que dizia: “não há mendigo que eu não inveje simplesmente por não ser eu”.
Ele
queria ser outro. Ele não queria ser nada. Ele não queria ser. Queria apenas
não existir. Mas não tinha coragem para isso.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
