quarta-feira, 26 de abril de 2017

Por que você sofre?

- “Por que você sofre?”, perguntou-lhe o amigo.

Ele não soube responder. Deu de ombros e apenas afirmou:

- “Não sei. Apenas sinto. E o que sinto me faz sofrer!”.

O amigo olho-o com uma dose de dúvida e uma dose de desprezo. Pensou: “como alguém não sabe por que sofre?”. Pensou, mas não quis delongar a conversa que em nada lhe era instigante.
Despediram-se um do outro. Deram de ombros quando um perguntou ao outro: “Quando nos veremos de novo?”. Ele, o amigo depressivo, sabia que não se encontrariam tão cedo. “Quem tem paciência para alguém deprimido? “, pensou.

A noite ia entrando quando ele, o deprimido homem, chegou em casa. Estava cansado. A labuta diária lhe consumia todas as energias. Ele só se sentia algo refeito após chegar em casa, sentar-se no sofá com uma garrafa de cerveja na mão e a tomava junto com seus remédios de horário contra depressão. Era seu momento de paz.

Ele parava e se perguntava se estaria exagerando. Beber, misturando álcool com remédios controlados? Ora, ninguém o aconselharia a fazer isso, mas, após anos de experiência depressiva, ele encontrou nessa mistura alguns instantes de paz e de algum sentimento que lhe fazia lembrar da alegria.

Sim, ele já sentiu-se alegre um dia. Não era “o depressivo” desde sempre. Não! Fora feliz por inúmeros anos de vida. Era alegre, extrovertido. O centro das amizades de muitos, sabem? Sabem como é isso? Pois é: ele perdera isso tudo.

Hoje, aquele homem que antes fora um jovem feliz, sorridente, brincalhão e falador era um homem quase de meia idade sozinho, completamente solitário, sem amor, sem sorrisos, sem alegria. Onde ele havia feito a quebra de tantos paradigmas na própria vida para ser hoje esse homem sem vida? Ele não sabia ao certo. Nenhum profissional com o qual ele já se consultara havia lhe dado detalhes de como tudo começou.

Mas tudo isso não importava-lhe mais. O que ele se importava era que nem ele nem ninguém lhe davam notícias ou esperanças de quando aquilo acabaria. Quando esse martírio de depressão se resolveria sem ele ter que beber e misturar remédios ao álcool. Quando?
Sem respostas, mais uma vez, dormiu no sofá com a televisão passando algo que ele nem mesmo sabia do que se tratava. Era uma catarse para ele, ali, vendo qualquer coisa na TV, conversar sozinho e contar para si mesmo como havia sido seu dia e terminar a conversa calando-se por ter dormido, cansado demais de si e de tudo que estava.

Ah, o álcool e a vontade enorme de poder ser outra pessoa. Ele lia muito Fernando Pessoa e a cada dia mais aquele poeta introspectivo lhe fazia sentido. A solidão, a metafísica dos chocolates. O estado de se ver mal disposto quando mergulhado nessa metafísica. Sim. Ele era um mal disposto. Ele amava as poesias de Fernando Pessoa. Só não amava a si mesmo. Ele se odiava. Mas a quem isso importava?

Ele já havia incomodado um par de amigos com suas loucuras, com seus desabafos. Já pagara altas quantias em dinheiro para remédios e terapia. Ele não tinha solução. A solução era morrer! Mesmo dormindo ele consultava Fernando Pessoa e, no sonho daquela noite, ele abria uma página onde lia Tabacaria, o trecho que dizia: “não há mendigo que eu não inveje simplesmente por não ser eu”.

Ele queria ser outro. Ele não queria ser nada. Ele não queria ser. Queria apenas não existir. Mas não tinha coragem para isso.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Definição

A loucura, para uns, vem de repente.
Para outros, entretanto, dá-se lentamente.
Qual tanto de loucura há em mim?

Sei bem que eu não sou tão louco assim,
mas cabe, por vezes, pensar, sim,
se estamos com a sanidade mental em dia.

Afinal, na mente há algo como uma guerra fria.
De um lado, sanidade; de outro, loucura e euforia.
Que há dentro de mim que me faz são?

Quantos ''eus'' cabem em mim sob o crivo da razão?
Quantos ''eus'' há em mim, loucos, na contramão?
Sou eu um obstáculo à minha sanidade ou à loucura?

Defrontando-me com meus ''eus'', surge alguma cura?
Resta encontrar, entre a loucura e a razão, a candura
de achar-se repleto de significados - embora todos vãos.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Notas para um epitáfio

É estranho, mas a vontade de me matar está me matando. Sim! Não sou daqueles corajosos que tiram a própria vida, ou daqueles desditosos que procedem assim. Mas não me vejo feliz. Vejo-me sempre refém de mim mesmo em meus medos e sempre mal disposto. Repleto de metafísica... Vejo-me sempre aquém. Repleto de vergonha de mim.

Por que sou assim? Como devo proceder para melhorar? O que devo fazer para correr dessa situação e deixar os dias sofridos de hoje num passado distante? Falta-me sanidade? Falta-me merecimento? Falta-me coragem? Sinto que falta eu a mim mesmo. Sem dó, nem piedade de mim sobre eu, sou isso. Um eterno revés, um contraponto do eu feliz que eu poderia ser, mas não o sou.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Notas curtas

Respire. Pode ser a última vez.
Chore. Pode não haver amanhã.
Clame. Podem não te ouvir depois.
Ame. Pode não haver outro amor.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 4 de abril de 2017

O coração. A pétala frágil que cai.
O amor. O momento seguinte ao silêncio.
A dor. O instante de reflexão.
A paz. A vida encerrada num segundo.
A partida. O momento do sobressalto.
A lágrima. A métrica do adeus.

_ Pedro.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Tão logo

A vida é muito curta para gastarmos tempo esperando que ela dure demais. Não será assim! O passar das horas é atroz. É inevitável. Não retrocede. Não permite espaços para reflexão. O tempo simplesmente passa e cabe a nós passarmos aceitando-o, sem tentar impôr-lhe freios. Eles inexistem. O tempo passa; nós passamos. O passado é tudo o que nos restará tão logo.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Horas

O destino não existe. De fato, concluí que isso é coisa que nos colocam na cabeça. Nossos dias não têm sentido algum, não têm objetivo nenhum. São apenas o passar de horas que não temos o controle sobre elas para poder pará-las. Essa é a parte mais difícil de aceitar, de entender.

As horas passam, estejamos bem ou estejamos mal. Não se importam conosco. Sofrimentos se arrastam por dias, meses, enquanto as horas passam uma a uma sem se importarem com o sofrimento que esteja ocorrendo. Não pense que elas são más. Não! Apenas fazem seu papel que é ''passar''.

Nós passaremos também. Cada um de nós, seres humanos, somos como as horas. Horas que contam tempos diversos. Para uns, a vida, sua hora na Terra, dura anos, algumas dezenas. Para outros, entretanto, menos afortunados, sua ''hora'', sua vida, dura menos que alguns pares de anos. Esses possuem vidas que se dão como uma hora bastante curta, de poucos minutos... 
Mas uma coisa é certa: nossas horas vão passar! Nossa hora vai chegar. Nossa vida vai acabar. E teremos de partir! Poderá ser difícil para uns e poderá ser um alívio para tantos.
A nossa vida, a nossa hora, passará! Nossos relógios da vida serão zerados. As horas passarão, todas! A vida passará, toda! Nós passaremos - e iremos escapar dessa experiência humana que é viver o passar dessas horas esperando, agindo, esperando, agindo (fazendo essas duas coisas em todo o tempo. Ora uma, ora outra coisa).
_ Pedro.

domingo, 2 de abril de 2017

Pedaço de isopor

Sou feito de isopor. Pálido, quebradiço. Esfarelo ao primeiro toque mais intempestivo. Não sei resistir. Apenas tenho existido, seguindo um caminho que desconheço. Afinal, quando se está perdido, qualquer caminho serve. Essa tem sido minha sina, deixada pelo Gato, personagem de Alice no País das Maravilhas, à personagem principal daquela obra tão bela e tão cheia de significados.

Sem se saber para onde se está indo, sem caminho definido, qualquer caminho é lícito e ideal. O importante é caminhar! É chegar mais longe. É tentar ganhar a corrida da vida onde todos competem com todos e só uns poucos conseguem algum sucesso. De minha parte, não tenho conseguido, mas fujo, corro, tento. O caminho vai sendo criado na medida em que caminho.

Por vezes, sinto-me como o verme que se alimenta de restos; alimento-me de meu passado, de minhas indecisões, de minhas decisões erradas. Sou um verme, sim. Corroendo a vida que eu podia levar, mas não levo. A vida é quem me leva. Eu apenas vou sendo guiado para um caminho qualquer desconhecido que dará em algum lugar que também desconheço.

Foram muitas decisões erradas. Foram muitos anos decidindo errado sobre qual caminho tomar. Hoje, num caminho que não reconheço-me nele, olho para os lados e vejo transeuntes insossos; sou mais um ali. Sem vida, sem gosto, sem esperanças. Apenas aguardo o dia em que eu encontre o amor na vida, o amor próprio e encontre a mim mesmo. No mais, tenho apenas me despedaçado como um pedaço de isopor deixado exposto ao tempo.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Aquém

Levaram-me tudo quanto eu tinha.
Não foram minhas roupas, ou dinheiro,
nem muito menos a casa que era minha.
Levaram minhas esperanças por inteiro.

Sem esperanças na vida, nas pessoas, em tudo,
as coisas não correm bem e o coração acelera.
A voz tenta sair, tento reagir, mas estou mudo...
E a ausência de esperanças torna-se querela.

Vou me afundando em inércia, desalento, calado.
Fico olhando os outros e a inveja me vem.
Pego-me sonhando ser outra pessoa. Vejo-me um fardo.
Não consigo ser nada além disso. De mim, sou aquém.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier