O mundo é e foi sempre repleto de mentes brilhantes. Pensadores, assim os chamamos. Sêneca, um desses, nos diria que não deveríamos nos incomodar com nossas vidas e seus problemas. Afinal, preconizava ele: a vida é curta e precisamos, sim, fazer o melhor dela. Sabido isso, resta-nos concordar e perguntar a nós mesmos: seriamos nós bons discípulos de Sêneca? Temos levado nossas vidas adiante imaginando que precisamos acumular riquezas, p.ex., para desfrutar delas numa velhice atribuída empiricamente a nós? Ou temos vivido o dia de hoje sem pensar em passado e futuro? Enfim: temos sido bons na arte de viver nossas próprias vidas?
Penso que o ideal estoico, como o de Sêneca, fosse que vivêssemos algo ''reclusos'', um tanto quanto longe de outras pessoas, pois o convívio pode nos ser deveras apequenador, entristecedor. Mas isso seria uma fuga. E isso também, além de fuga, não é algo fácil. Temos uma ou outra história de alguém que optou por uma vida reclusa e conseguiu. Mas será que precisamos disso? Somos seres gregários. Vivemos em bando. Em sociedade. Podemos, todavia, viver nessa vida desgastante em sociedade e mesmo assim alcançar alguma paz? Repito: vida desgastante, sim, mas ainda assim é possível de ser desfrutada com algum requinte de alegria e prosperidade - creio! Viver em conjunto com outros seres (sejam eles família, sejam vizinhos, sejam amigos, sejam políticos, sejam quaisquer outros seres) exige de nós todo um controle e cobra de nós obediência a uma enormidade de condutas. Aqui poderíamos divagar um pouco sobre ética, por exemplo, mas não irei me ater a esse quesito. Prossigamos...
Precisamos, em meio ao barulho do todo ao nosso redor, nessa vida agitada do século XXI, aprender a livrarmo-nos de pensamentos negativos, derrotistas, fatalistas. Isso seria uma coisa boa! Somos incentivados ao desânimo e ao destempero a todo jornal, a todo papo de esquina... Precisamos cancelar dentro de nós as emoções desagradáveis que nos maculam e deixam sequelas, cicatrizes. Precisamos encarar a vida com uma boa dose de indiferença? Seria isso? Sim. Na linguagem corriqueira do hoje, poderíamos dizer que, para ser feliz, de forma algo "estoica", devemos ligar o ''foda-se'' (perdão, leitor, pela expressão!). Uma adequada dose de ''não pensar'' e de ''foda-se''. Pronto! Seria aí um bom caminho que poderíamos seguir baseando-nos em algo daqueles que são tidos por estoicos na filosofia antiga.
Anterior aos estoicos, podemos lembrar de Sócrates em suas andanças pelas ruas fazendo perguntas desconcertantes aos plebeus comuns como ele. Ele perguntava de tudo e queria respostas, embora sempre dissesse que ele mesmo não as tinha, pois como todos sabem, sua frase mais repercutida é: ''só sei que nada sei!''. Ele esperava respostas? Não sei. Sei apenas que ele argumentava e contra-argumentava. Costuma-se creditar ao modelo de Sócrates a ideia de que uma existência sem análise é adequada para o gado, mas não para nós, humanos. Então, quais são as perguntas que temos feito para nós mesmos enquanto caminhamos dentro de casa, nas ruas, no trabalho? Quais atitudes temos tido diante das intempéries pessoais, sociais, políticas, econômicas que se nos apresentam? Quais perguntas temos feito e quantas respostas temos creditado a nós? Coitados de nós... Se Sócrates não sabia nada, imagine o que eu deva pensar de mim?
Ao modelo de Platão, temos nos enganado! Temos dado voz às sombras de realidade que vemos nas paredes de nossa ''caverna''. Ou não? Alguns de nós têm conseguido ir para fora de nossas cavernas e buscado respostas ou encontrado boas perguntas? Não sei. Vejo uma imensa zona de conforto na qual estamos, como plantas, plantados, presos, atolados até as orelhas.
Quando sairemos de nossas cavernas? É difícil dizer, pois criamos nelas nossas tais zonas de conforto. Quando essa zona é criada, vejo poucas pessoas saindo dela. Mas isso é certo? Ora, somos humanos. Temos o livre arbítrio, não? Quem quiser viver atolado numa ''caverna'', que fique. Porém, acho que precisamos ser mais fortes e mais espertos. Precisamos agir para fora do instinto do conforto e seguir atrás de nossas verdades. Sair por aí perguntando, tal qual Sócrates ou rompendo grilhões para sairmos da caverna de Platão.
Não podemos nos ater a essa mesmice de aceitar tudo o que nos dão nesse mundo informatizado repleto de pessoas solitárias, mas cheias de informação - embora com pouca formação. Em meio à tantas reflexões nesse mundo moderno, em meio a toda essa história de filosofia (que me consumiu hoje), fico com uma certeza na cabeça pautando-me numa frase atribuída a Hipócrates, um grego antigo: "A vida é curta, a arte é longa". Por isso, ''que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba''! Oswaldo Montenegro cantou isso... E é uma frase linda que cai bem a mim hoje. Não que eu chame de arte esse texto pífio que escrevi, mas creio, sim, na arte. Isso sim!
Tomara que consigamos ouvir filósofos, filosofias, pensadores... Tomara que possamos nos ouvir mais uns aos outros e ficarmos menos atrelados às sombras na parede. Tomara que consigamos ouvir a nós mesmos, inclusive. E que consigamos sair de nossas cavernas escuras e cheias de sombras que julgamos serem a verdade absoluta para nós - e para a vida, a bem dizer...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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