segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Má ideia

Acordei trêmulo. Era o calor que me fazia inquietar. O sol batia, da janela, dentro de meu quarto e me aquecia a ponto de queimar a pele. O vi com bons olhos. O sol estava ali para isso mesmo: aquecer, queimar... Era descuido meu deixar-me queimando. Por isso, saí dali e fiquei sentado perante a janela vendo a luz do sol mover-se pelo chão com o passar das horas.

O dia foi esvaindo enquanto eu também ia me desfazendo. Eram horas sem fim que passavam, uma a uma, com o sol sumindo aos poucos como meus pensamentos sumiam de mim. O dia ficava a cada instante mais escuro e eu, também, assim estava ficando. Escuro. Sem pensamentos. Vão com tantos pensamentos vãos se esvaindo enquanto me deixavam confuso... 

Levantei-me pouco antes do sol desaparecer no horizonte. Não mais havia luz no chão de meu quarto. A casa, apagada quanto às suas luzes, adentrava a noite comigo dentro a perambular com tantos pensamentos na cabeça. Peguei um cigarro... Soltei toda a fumaça que podia. Eram suspiros que saiam de mim enquanto dentro, bem cá dentro, saiam também devaneios tristes sobre o que era eu na vida.

Pensei-me como um cigarro. Estava sendo fumado pela existência. Eu me transformava a cada dia mais em cinzas. O tempo passa para mim como o fogo passa pelo cigarro. E, disso: deixam-se restos. Restos de mim ficam pela minha vida, por onde passei. Ficaram memórias. E eu? Deixei lembranças?

O cigarro, por onde passou, deixou fumaça, deixou suas cinzas. Éramos parecidos, metaforicamente. Pois a vida me consumia como o fogo consumia o cigarro. Eu fazia alguma fumaça? Deixava algo de bom como sinal de que existi? Alguém se lembraria de mim após minha partida como as pessoas ao redor do cigarro se lembram dele pelo odor característico deixado no recinto enquanto o cigarro se consumiu? Não sei... Era eu apenas uma mente em devaneios sem sentido.

Talvez a rota própria do cigarro tenha mais sentido do que a minha vida. Talvez os desenhos que a fumaça do cigarro fazia no ar de minha sala tivessem mais sentido que meus pensamentos por ora. Apaguei o cigarro... Quem dera pudesse apagar meus pensamentos. Se eu assim o fizesse, talvez apagasse a mim mesmo. Não? Não sei. A questão que me fica é: seria uma má ideia?

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