segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Sobre quando Simão afundou

Certa vez, ouvi uma reflexão linda. A temática rodeava uma parábola descrita na Bíblia. Nela, Simão (que viria a ser Pedro) abandona a barca e vai até Jesus que chegava andando por sobre as águas até seus apóstolos.

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Simão, olhou. Enxergou ali seu mestre que não afundava. Nunca saberemos o que Simão queria com aquilo, mas quis ir até Jesus. Abandonou a barca.

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O que ocorreu? Simão foi afundando. Afundando. Ele não andava por sobre águas como seu mestre Jesus. Percebeu aquilo e sentiu, de alguma forma, medo. Gritou: "Jesus, salva-me". Repetia seu clamor…

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Jesus, obviamente, o socorreu. Mas Jesus enxergava sempre além. Queria ensinar sempre, e evitou que ele afundasse não apenas como corpo. Ele teria dito: "homem fraco na fé. Por que duvidaste?".

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Talvez, o mestre queria ensinar a partir daquela hora: "qual a sua real pretensão de querer andar por sobre as águas, Simão?". Sinto que Jesus, naquela parábola, tentou ensinar Simão, seus apóstolos e todas pessoas que leriam sobre aquele fato corrido que é (sempre!) necessário aprofundar nosso entendimento quanto ao real significado do cristianismo em nós, nas pessoas, na sociedade.

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Simão, que ainda não era o Pedro que surgiria da experiência de Pentecostes, quis ser como Jesus? Quis arriscar alguma especie de poder nele mesmo? Quis sentir-se mais próximo ao seu mestre, encantá-lo? Mostrar-se devotado? Quis destacar-se e se colocar em evidência? Nunca saberemos. Mas isso não nos impede de refletir tentando aprender.

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Jesus incentivou e alimentou ali o Simão que queria ser além do que era, mas ainda não era Pedro... O Simão que não queria assumir sua fragilidade. O humano Simão queria ser destaque, crescer em si mesmo superando, quem saberá?, uma personalidade ainda ferida por algo?

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Simão foi. Jesus aceitou sua tentativa. Enxergou ali um ensinamento a ser dado. Simão afundou. E nascia a semente de Pedro.

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Nascia ali a semente de um aprendizado ou uma reflexão. Qual cristão somos? O que quer andar por sobre as águas e sentir-se melhor, diferente, "superior"? Temos em nós mais coisas em nós que nos "afundam" ou que nos fazem andar verdadeiramente por sobre as águas da vida?

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A ponte que ligaria por sobre as águas Simão a Jesus não estava ali, nele. Não naquela hora, ainda. Quiçá fosse a humildade? Talvez o peso que fez Simão afundar fosse o sonho e a expectativa da evidência. Uma sombra pretensiosa? Um fragmento de arrogância?

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Cuidado! Cuidado quando tentar andar por sobre as águas. Jesus nos incentiva tentar, mesmo sabendo que quase todos nós afundaremos, ainda cheios de pesos que estamos - ou somos? Jesus, mestre, profundo leitor da alma humana e exímio educador, estará sempre ali nos incentivando como se fôssemos um Simão seu…

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Pare, ouça. Jesus está dizendo: "vai, Simão, converte-se logo em Pedro". O que nos impedirá? O que nos impedirá? Antes de buscar a salvação por algo ou alguém, antes que iniciemos gritos como: "Jesus, salva-me", precisamos entender melhor sobre o que nos está fazendo afundar.

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Já disseram certa vez: "a cura está ligada ao tempo e às vezes também às circunstâncias". Não esperemos apenas pelo tempo. Saibamos enxergar e desnudar as circunstâncias que nos fazem perecer, afundar… Afinal, encerro com essa antiga afirmação: "antes de curar alguém, pergunta-lhe se está disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer" - e afundar.

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_ em homenagem à uma reflexão trazida por Ricardo Melo num domingo aparentemente comum como outro qualquer, mas não foi.

_ texto de Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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