FRAGMENTO
Se eu pudesse pegar os anos de vida ainda destinados a mim e dividir doando todos eles à todas as crianças que eu presenciei partindo, como parte do meu ofício, minha profissão, não haveria muito, no final da divisão, para ser dado a cada uma delas, mas com certeza cada segundo existente daquelas amadas vidas, em cada uma daquelas frações a mais de vida, possuiria em si bem como geraria muito mais felicidade (e para muitas pessoas a mais) do que esses anos todos existindo apenas para mim nessa minha vida...
Cada uma delas com quem estive ali, do lado, segurando as mãos na hora da dor e da despedida, levou consigo um pedaço de mim que não tenho mais. Morri um pouco com cada uma delas... Mas elas, para aumentar a dor que ficou em mim, nem com isso ganharam momentos a mais com cada pedaço que perdi em cada morte que houve em mim.
E eu pergunto: por quê? O que posso fazer das horas, meses, anos, décadas que me restam? Gostaria muito de dedicar esse tempo com todas as minhas forças para a construção de algo melhor para as crianças que ainda estão aqui. Ajudando na vitória do mundo ideal que sonhamos contra esse mundo pavoroso, escuro e repleto de indiferença e dor que nós, adultos, perpetuamos. Como proceder a isso? Como, se sou tremendamente incapaz?
Porém, de cada morte que retirou um tanto de mim, entendi por um filme: "nada está morto se você souber olhar direito". Talvez a memória de cada uma delas faça com que cada uma das pessoas que presenciou aqueles momentos derradeiros resolva agir, de fato, por um mundo repleto de pessoas melhores e histórias verdadeiramente felizes.
Crianças nos ensinam muito mais do que conseguimos aprender. Muito mais... E cada uma daquelas que tive a honra em conviver me ensina até hoje...
Nenhum comentário:
Postar um comentário