domingo, 25 de agosto de 2013

Cego


Sonhei com um mundo de pessoas cegas. Nesse mundo, todos amavam-se pelo que sentiam, não pelo que viam. Tal era a realidade, tão diferente do que vejo enquanto acordado, que jóias, carros, bens materiais como um todo de nada importavam, apenas a sensação do calor da presença, do carinho no abraço, do amor no beijo, da sinceridade na voz e da doçura no toque que vence qualquer dissabor. Como um todo, eram todos esses itens tidos como necessários, essenciais. E de material, o que queriam todos? Apenas os dois corpos vivos, em carne, que se amavam. Era sim um mundo bom e diferente...

Acordei... Caminhando pelas ruas, vi carros passando, casais aos beijos e abraços, em passeios inocentes nos corredores de shoppings comprando, comprando, ou desfilando à noite como uma disputa de o casal mais bem vestido, mais bem aparentado... O que eu via? Eu estava errado em interpretar aquilo como estranho, ou errado, ou falso? Não o sei... Não entendo o mundo, afinal!

Enquanto eu olhava a realidade, face a face, numa corriqueira manhã de sol, vi tudo isso... Eu estava acordado! Era inevitável comparar as duas realidades: o sonho e o que era real. O dito ''amor'', de permeio no que eu via, semeava-se aos gastos frios nos corredores de lojas cheias, nos bares com mesas repletas de gente, mas todos esses como sendo cenários de conteúdo vazio. Eu pensava que amor não comprava-se, mas talvez eu estivesse errado. É melhor voltar e dormir...

O tempo de ''solidão a dois'' em poucas ocasiões é desfrutado... Tempo esse em que o simples fato de ambos estarem ali, juntos, com o mundo à parte, do mundo alheios, servindo como tudo o que há de melhor. Um ao outro, era o que queriam, ou deveriam querer - ao meu ver! Parece que todos têm a necessidade de mostrarem-se amantes bem sucedidos, ou algo assim, esbanjando e esbanjando-se! Temos, aos meus olhos, um mundo estranho, mas nele, pelo que vejo, cego sou eu.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Pierrô


É estranho pensar que frases tortas possam endireitar qualquer coisa que seja: amizades, amores, relacionamentos como um todo. Frases tortas, o dito por não dito, estremece relações, pois traz em si o mistério negativo do cinismo e, por vezes, o requinte da crueldade velada. Frases tortas? Não servem de nada.

Ontem parei e vi um casal de mãos dadas, trocando farpas. Eram dois amantes? Amavam-se? Aparentemente, tentavam impedir que os de seu entorno percebessem o constrangimento óbvio, mas era inevitável. Eu, ali, estava atento. Como fechar os olhos para aquilo que salta até eles? Não permiti-me insistir em manter-me na mesa. Ergui meu corpo da cadeira fazendo inevitável barulho com algo de grosseria, confesso. Sai, como se diz, pela tangente. O silêncio, devido minha saída, foi ensurdecedor como se eu ali fosse quem estivesse a constranger o casal em farpas trocadas em plena luza daquela noite... Que importa quem entendeu-me de mal jeito?

De pé, sentei no balcão do bar, eterno amigo dos solitários e reflexivos. Não mais olhei em direção à mesa que mantinha, provavelmente, agora, como assunto a falta de educação daquele que saíra sem despedir-se. Pelo menos, caso eu tenha virado o assunto do momento, já nisso eu teria tido alguma utilidade, uma vez que, cessada a discussão entre o casal de amantes, era minha intenção ver todo aquele cenário de falso amor cessar e a paz reinar por sobre eles e, claro, por sobre a mesa já tão demasiado úmida devido às tantas gotas de álcool ali já derramadas...

Sentado, sozinho, ao balcão do bar, aos goles de mais outras e outras bebidas, refleti sobre o amor e não o entendi. O que é? Quando se tem? Quem o tem? Não conclui nada, de fato! Eu mesmo não o tenho, mas quem se diz o tendo, será que tem de fato? Será amor algo que permita-se às desavenças constantes? Será amor aquilo que causa dores desnecessárias, em trocas de farpas às mãos dadas, em plena luz de uma noite clara de verão? Não sei. O que seria o amor, talvez poetas já o tenham tentado definir, mas todos eles morreram assim como suas definições. Talvez, possamos pensar que o amor é como carne: cessada a energia que corre em seu interior, morre! É necessário o sangue para avivar a carne e mantê-la fresca, assim como a vontade de querer bem ao outro, antes de mais nada, é necessária ao amor para poder mantê-lo vivo e, acima de tudo, real. Nada além, talvez... Mas como tantas outras, essa é apenas mais uma tentativa de definição, sem sentido algum...

Amor, antes de mais nada, é sonhar com a felicidade do outro e morrer, mesmo que às custas disso, sabendo-se feliz por ter proporcionado algum sorriso tão esperado e devido, no rosto de quem se ama. Quem ama e faz, em seu ''amor'', sofrer a amada, não ama, penso eu! Nem a amada, nesse caso, ama ou ao amado ou a si mesma, aceitando-se ser pisada e sofrer assim. Amor é troca de bens eternos como os de carinho, de aconchego, de sossego... Amor é paz manifesta em beijos, abraços, amores, até mesmo em ''amassos''. Deita-se nos braços, deleitando-se em abraços sólidos em que ecoam, peito a peito, os corações que fazem-se, naquele instante, tão imensamente felizes a bradar. 

Amor não é troca de bens materiais, ou troca de quaisquer outras coisas que não sejam: amor, amor, amor... Amor é, acima de tudo, saber amar e saber-se amado! Mas temos sabido? Não! Não temos sabido! Estamos perdidos no mar de desamor desse mundo moderno em suas apologias e culto ao dinheiro, ao corpo, às máscaras de falso-amor que vemos nos quatro cantos por onde estivermos... Habitamos um baile de carnaval repleto de máscaras, sim! E, nesse processo da busca por definições e pelo amor propriamente dito, há pierrôs demais por aí espalhados, afinal, somos ou não o país do carnaval?

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Voos altos


Quero trazer na mente a vontade incansável de saber-me vivo.
Quero retomar, a cada novo dia, forte como espero e redivivo.
Mesmo que sem mais forças, quero seguir em passos firmes, adiante!

Nada espero da vida que não sejam coragem, fé, amor radiante...
Que transmitam-se a todos em meu entorno, numa energia tocante,
A fortalecer os porventura fracos, enaltecendo os caídos e desgostosos.

Quero trazer a esperança de futuros dias bons, felizes, venturosos.
Na espera de voos altos para uma vida de paz e amor, em céus ditosos...
Quero saber-me doador de coisas boas, mesmo que não as tenha.

Chegado o dia da despedida, quero queimar as lágrimas como lenha...
Deixar tons de alegria espalhados pelo mundo, à espera do que me venha
E que Deus sirva de força para a espera no consolo puro da fé que se tenha.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


domingo, 11 de agosto de 2013

Em nome do pai




Ao pai, meu pai, um ser humano incomparável,
Do qual sou filho, mas falta-me merecimento:
Dedico algumas letras transcritas nesse momento,
Tentando externar sentimentos meus de amor inefável.

Pai: despertas em mim indescritível admiração!
Ao peito, sinto: o coração bate enquanto o corpo treme
Pela força de um amor inconteste, sublime, puro, perene,
Que torna todo e qualquer outro sentimento do mundo vão.

Pai: por ter permitido que filho teu eu me tornasse, obrigado!
E obrigado pela vida que vivo contigo. Dia após dia, serei grato!
Espero ao menos ser reflexo do homem grande que és, isso é fato,
E que, de mim, possas ter orgulho e a certeza de saber-se amado.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Um


Quero ser algo além desse emaranhado de incertezas. Quero exigir ou extrair de mim algo que me valha num contexto de respostas. Como posso desvencilhar-me desse mal que me consome deixando-me inquieto a ponto de não cessar um instante em pensar tantos pensamentos, ou sentir tantos sentimentos, ou sofrer tantos sofrimentos sem nem mesmo os saber definir?

Qual mundo é o que espero viver? Por qual motivo não adéquo-me a esse ao qual pertenço? Infindas são as perguntas e as possíveis respostas são várias, porém, de mim, digo: sou apenas um e apenas esse que vejo. 
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Sem rumo



Quero a morte que dá-se aos grandes, mesmo não sendo um deles, mesmo não querendo morrer. Quero algo de heroísmo, apenas, sentindo-me importante, quem sabe. Quero o aplauso da morte condecorada, pois, estar vivo, porém vendo-me morto sem percebê-lo, de nada adianta ao ego que, queiramos ou não, nos consome. Não quero essa paz do túmulo descoberto, desse abrigo incerto do corpo que definha em suposta paz, porém faz-se exposto aos vícios, aos desatinos... Assim somos todos: mortos em túmulos descobertos! 

Habitamos numa paz relativa, numa efêmera e parcial realidade de um contato humano distante. Somos falsamente um corpo coletivo! Somos um emaranhado de pessoas que co-habitam, mas não somos uma sociedade, ou um povo... Quando superaremos os muros sobre nós mesmos impostos por própria vontade?

Quero a coroa de papel dada aos que sonham ser rei, mas não merecem tal título. Quero ter poderes e voz! Quero condecorar-me, nem que por mim mesmo tenha de fazê-lo, por minhas próprias mãos já tão sujas de poeira, por desuso tal qual o móvel deixado de lado no abrigo silencioso e monótono do lar esquecido...

Quero sentir-me importante dentro de mim, pois de ser nada já me causa tanto que nem meço mais tamanhos de sofrimentos ou angústias. Quero enfim (e apenas isso!) adentrar, entregue e livre, na silenciosa inexatidão da vida, ou quem sabe, reformulando, quereria antes de tudo a inexatidão do silêncio na vida. 

Quero poder falar sozinho sem ocultar-me. Quero que pelo menos eu me ouça! Quero o silêncio do resto! Quero obrigar-me à liberdade dada à voz que sai-me do fundo, de dentro da alma, do fogo que consome a calma e da calma que morre ao relento no mundo inquieto de meus sentimentos por ora rotos, a transbordar...

Quero fazer-me algo! Quero fazer algo de mim! Quero tornar-me a confecção que ainda não sei ao certo, mas a desejo em me vendo reformulado num dia futuro. Quero acertar pelo menos uma vez no rumo seguido... Quero seguir o rumo certo por ora perdido!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Solilóquio



A vida é dura demais para quem não amolece o coração.
Tudo parece vazio e, com o tempo, ratifica-se: tudo é vão!
O que era absoluto, sob o prisma do desassossego, fica relativo...

Reflexões sobre: ''o que é a vida?'', interessam ou não a quem é vivo?
Parece que apenas na morte reflete-se em tal tema e, sob um tom altivo,
Surgem os que nos olham fingindo-se sabedores de todas as coisas vividas...

Mero sonho tem aquele que mostra-se entendedor do significado das partidas,
Das despedidas, das chegadas, das vindas, das mortes, das vidas, das idas...
Somos meramente seres que simulam uma realidade! Somos sonhos ilustrativos...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Anjo na noite



Um anjo de branco surgiu-me do nada,
E do nada, reluzindo, tornou tudo puro!
As luzes acenderam-se colocando fim ao escuro,
E a noite, até ali de puro breu, clareou-se enluarada.

Tudo parecia ser nada além do comum que a mim havia.
Mas, em certa hora daquele dia do qual nada eu esperava,
Da escuridão pude sentir: Deus enfim me olhava!
E, em meio à noite, lá estava o anjo na mulher que me sorria!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 4 de agosto de 2013

Matizes

Aos berros, tropecei na calçada da vida,
Mas vi-me cair mudo na rua do esquecimento.
Sinto-me hoje como num clima de despedida,
E nisso procuro-me, mas perdi meu momento.

Onde antes havia infindos sonhos pueris,
Hoje vêem-se meras tristezas recalcadas.
O sorriso, por ora, esconde pesares sutis...
Mas ninguém os vê de suas vidas apressadas!

Sim, embriagados! Tamanha rotina nos atropela...
Refletindo, indago: vimemos esperando o quê?
Onde antes havia sonho, resta apenas querela.
Do tempo, mesmo não o vendo, estamos à mercê!

Restam-nos lembranças dos antigos sonhos
De uma saudosa época em que éramos felizes.
Tornamo-nos homens tristes, seres medonhos,
E a  alegria pinta-se apenas em meros matizes.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 3 de agosto de 2013

Fazedor de lagos


Numa tarde simples e vazia,
Ele acordava novamente só.
Perto dele ninguém havia,
Apenas os móveis cobertos de pó.

Há tempos ele não mais saia.
Há tempos nada mais esperava.
Há tempos ninguém percebia
As lágrimas no chão aonde ele estava.

Levantou-se, deu passos rumo à porta,
Porém logo parou e, triste, retrocedeu.
As ruas eram para ele paisagem morta.
Ou era ele o personagem que morreu?

E via-se o chão que continuava molhado...
A paz que faltava transfigurava-se em pranto.
Das lágrimas, surgiam lagos no chão pisado
Postas por sobre ele tal qual um manto.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier