terça-feira, 17 de setembro de 2013

Olhai os Lírios do gueto

Corre o menino pelado na rua, desdenhando de tudo e todos. Na leveza de teu ser, ele corre. Sorri para o mundo. Sorri feito criança, pois criança ele é, criança sempre foi. Em meio aos arranha-céus da cidade, ele passeia seus olhos distraídos sonhando com a infância do outro lado da rua. Como seria lá? Como ele seria lá? Com quem estaria lá? Até quando estaria lá? Pôs-se a meditar, mesmo que apenas uma simples criança ele fosse. Tão pequenino, mas tão real acima de tudo - embora poucos se dessem conta dele, ali.


Via-se distante daquilo, o mundo dos carros, dos aviões... O mundo dos computadores, o mundo das televisões... O mundo do dinheiro fácil! Oh, mundo hostil... Por debaixo de tetos de gesso, em arranha-céus os mais altos, imponentes como que em total empáfia de uma pobre e ignorante nobreza. Ele, criança, apenas tinha teu sorriso e o abraço da mãe alcoólatra. Mãe essa que, apesar de querida, bebia por desgosto tentando dar gosto à sua própria vida. Vida sem esperanças ou expectativas. Ela as havia perdido há muito, quando lhe roubaram o futuro tão sonhado em meio à sua infância problemática, no gueto da cidade imponente, com seus belos e vários arranha-céus para além da realidade hostil que era a dela... O álcool era para aquela mãe o refúgio do ladrão que, tentando esquecer-se dos próprios erros cometidos, abrigava-se por debaixo de um abrigo, um “teto” temporário e irreal que fosse, mas que lhe servisse de alento diante dos medos do amanhã ou dos medos dos próximos segundos na sua vida sabidamente inútil que levava... 

Nascida e criada no gueto, caminhava a criança pela rua. Descendo do morro às pressas, rumo à escola, ao futuro sonhado de forma espantosamente responsável naquele pequeno ser. Morreria, porém, ali, na calçada, saindo do morro para a eternidade, sob um mar de balas que, rodeando o céu, procuravam um alguém que, em as recebendo, cairia ao chão, não pela força da gravidade apenas, mas, sim, pela gravidade dos fatos e da violência à qual ela, aquela criança, tanto se habituou a testemunhar. Caída no chão, com a bala no peito, caminhou para a morte infantil como apenas um dado a mais na estatística nacional, porém, não era uma morte menos triste que as outras.

Como sorria antes do fato, parecia feliz antes da morte. Como morreu com um tiro, parecia bandido. Como parecia bandido e corria pelas ruas em meio à calçada tumultuada, morreu - outro inocente atirado ao chão e à eternidade precocemente! A sociedade foi quem matou quando o deixaram viver ali, à mercê de oportunidades vãs e vis em um mundo violento, em um mundo hipócrita com realidades tão contrastantes e demasiado hostis...


Morre mais uma criança.  Morre mais um na infância sofrida e corrompida. Morre nos pés do morro, chamando pelos braços de um Deus justo. Mas, apesar de tudo, nunca morre a triste realidade do sofrimento do povo, das minorias acuadas por um mundo capitalista e fantasioso que mata essas minorias - ou, para os que o defendem, as deixa morrer - ao invés de erguerem-nas para andarem juntas de todos os demais rumo ao futuro merecido, pois, afinal, somos todos irmãos. Todos iguais! “Humanos é o que sois” - diria Charles Chaplin em seu discurso de ''O Grande Ditador''. Que Deus tenha aquela criança com Ele, pois nos foi retirada como tantas outras, como tantos outros. “Vinde a Mim as criancinhas”. Não era isso que Ele pensou... Não era assim que Ele pediu! 

Crianças: corram nas ruas, mas não corram por medo! Corram simplesmente por serem crianças. Pois: crianças é o que sois! Nunca corram do medo, lhes peço. Se ele existir em vós, pequeninos, sejam crianças apesar deles, sempre! Tiramos a infância de varias gerações com medos de guerras falsas baseadas em interesses escusos, ou ainda fazendo guerras, de fato reais. Façamos a paz para breve, pois da paz conseguiremos o futuro. Do futuro, conseguiremos crianças felizes, enfim! Não deixem de lado as minorias que sofrem. Não deixem de lado as crianças que choram. Olhai os lírios do gueto.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


domingo, 15 de setembro de 2013

Blocos de parede I

Vivemos sufocados! Somos blocos de parede... Acimentados, enclausurados, enquadrados numa rotina dúbia onde trabalhamos para o sustento, mas sustentamos, como consequência desse modelo, uma vida meramente maquinal, de prazeres distantes. A vida é curta demais, então: qual o motivo para vivermos de forma tão corrida?

Nossas noções de prazer não ultrapassam os limites do conceito sonhado por todos de ''poder''! Conceito esse que traduz-se na capacidade meramente financeira de ''poder ter'' ou do ''poder  comprar''... Daí, trabalha-se para ter, para comprar... Trabalha-se, logo, para ter poder - não necessariamente para produzir algo de produtivo! 

Habituamo-nos à visão socialmente aceita de que só é admirável ou só é de sucesso que tem poder! Como atingir poder no mundo? Podendo comprar, podendo ter... É, de fato, mera opinião, mas tudo na vida são meros conceitos! Sociedade, em si, pelo que vejo, é outro mero conceito... Cada um com os seus. Mas, em meio a isso, vem o poder de quem domina órgãos de mídia, com sua peculiar capacidade de influência. Não há espaço para individualidades e novos pensamentos quando o mundo ressoa as (in)verdades impostas pela mídia. 

Somos gado, massa cega de manobra e não necessariamente pensante. Seres humanos de sucesso? Uma vida de sucesso? Qual o fundamento nesse sucesso estabelecido conceitualmente e carro chefe das insinuações capitalistas da mídia? Há tempos perdemos nossa liberdade puramente humana, de buscar felicidade palpável e simples como deveria ser. Estamos numa  querela com o conceito estabelecido de ser livre, atrelados que estamos a um muro imaginário que construímos e que nos prende em nossa cegueira voluntária. Mais que nos cercar, esse muro somos nós, é feito de nós! Todos, um a um, num conceito errôneo de sociedade dita democrática e livre, todos empilhados, acorrentados, como acimentados uns aos outros ao bel-prazer dos ditames daqueles que detém o maior ''poder'', ou, como queiram, maior sucesso... 

Somos uma massa única, dita ''sociedade'' por conceito, porém inertes e sem novos objetivos ou expectativas traçados! O que há em nós além de rotineiros hábitos maquinais? Tudo visa meramente, ao final de cada mês, receber a devida quantia do ''salvador'' salário para consumi-lo conforme os ditames do que nos é imposto como bom pelos modismos corriqueiros e cíclicos. Quem somos nós além de seres que definem-se apenas em conceitos de: gastar e, para isso, desgastar-se? Somos blocos de parede...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 14 de setembro de 2013

Apenas isso


Acordei um dia e percebi o quanto já era tarde. Não das horas do dia, daquele dia, mas tarde para corrigir todas as escolhas erradas da vida até ali vivida. Seria melhor começar uma nova. Isso sim era possível e o caminho mais fácil, claro. No dia de amanhã guardam-se as suas devidas expectativas... Depositei as minhas nele e na minha vontade de mudança. Voltei a dormir.

Acordei... Novo dia, porém o desânimo era o habitual. A desventura do viver consumia a mim mesmo como no dia anterior, o desânimo alastrava-se impedindo-me de erguer o corpo da cama em que eu ainda mantinha-me após despertar. Era outro dia de habitual tristeza já de início. Medicações? Já as usei, mas mantive-me assim, em queda. Álcool, sim, mais que o necessário, mais que meu habitual, mas a queda ainda também mantinha-se... Cigarros? Sim, até mesmo eles, tentando exalar, aos suspiros de fumaça, males internos corrosivos, mas não adiantou.... Era hora de tomar medidas drásticas.

Acordei, levantei-me. O sonho de ser grande um dia estava bem distante... Tornei-me adulto, isso era fato, mas há muito de metafísico no sonho de ser grande, muitas interpretações. Parei, dentre elas, na mais óbvia e tornei-me mero ser insignificante diante de todas as outras conquistas que poderia ter alcançado. É o poder das escolhas erradas que nos consome? É a fraqueza humana que guardo que destrói minhas esperanças? O que de fato sou eu e o que tenho de fazer?

Mais um dia iniciado. Mais uma rotina a ser vivida. Mais obrigações por serem esmiuçadas aos berros em corredores de prédios. Mais um dia da habitual vida maquinal que optamos viver. E, dentro dela, o que sobre de espaço reservado à felicidade? Consumiu-se em desventuras de más escolhas. Não vivemos, apenas cumprimos obrigações sociais, profissionais etc... Dias difíceis! Fazer o quê?

Se não venço nem a mim mesmo, como eu conseguiria mudar todo um esquema que todos habituaram-se a chamar de vida? Como eu, um mero ser filosófico e depressivo convenceria alguém do óbvio, mas óbvio esse que nunca é percebido pelas pessoas? Minhas esperanças mortas não reavivam-se mais... Não depende em nada de mim. Nem eu mesmo tenho podido contar comigo...

Todos sabiam, todos ouviram... Todos tiveram chances de ajudar, dar conselhos, dar amparo, dar novas esperanças na tentativa de recuperar aquele que ali, diante de todos, mantinha-se falsamente erguido. Porém, no fundo, todos sabiam: aos olhos atentos e interessados, aquele ser estava claramente caído! Era mais fácil fingir-se de desentendido. Ninguém, nessa vida medíocre de correr atrás do dinheiro tem tempo de parar para ouvir lamentações e transmitir felicidade e esperanças... Deixem as lágrimas caírem em silêncio dos olhos que quem as guarda... Diante disso, penso: o que fizeram? O que fizeram todos?

Conclui antes de levantar que a vida é uma flor repleta de espinhos e somos jardineiros solitários, de fato solitários... Depende muito mais de nós e há muito mais de espinhos que de flores em meio à história toda. Algo havia de ser feito e, fez-se: outra lágrima caiu, apenas isso....apenas isso...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 8 de setembro de 2013

Era tarde...


Era tarde... Um dia qualquer... Pude vê-lo de longe, mas aproximei, apertei sua mãe... Mal o conhecia, mal ele queria me conhecer, quem sabe... Falaram-me um pouco dele, entretanto, em entrelinhas rasgadas às gotas de lágrimas. Era tão jovem, alegre... Seus pais o amavam tanto... Os amigos, o cercavam. As crianças fascinavam-se com seu jeito. Até os cães nunca latiam pra ele, apenas abanavam-lhe o rabo num gesto carinhoso involuntário e um tanto quanto desajeitado, diga-se de passagem. Todos o amavam. 

Era tarde naquele dia, quando tudo começou: o cansaço, a falta de fôlego, a tosse... Ele já não estava bem há algum tempo, todos sabiam, porém tentavam desconsiderar... Febre? Não. Não havia tido! Até os germes o respeitavam e o amavam. Ele estava só, naquele quarto... 

Por um instante, percebeu: estava acompanhado apenas de sua doença! Os pais haviam afastado-se às lágrimas e demoraram algum tempo para retornar, afinal, queriam refazer-se antes de adentrarem ao quarto... Parece que Deus exigia deles força, força essa que talvez seja o único castigo de quando tornamo-nos pais... Esconderam tudo, engolindo as lágrimas, afinal precisavam comportar-se como se nada estivesse prestes a acontecer...

Era tarde...muito tarde. O mundo parou por um instante quando deu-se o último suspiro, e, no quarto escuro, de chão molhado, foi-se embora para algum lugar aquele menino, lugar esse que nos espera, sem ser conhecido, entretanto. Parte mais uma alma pura que apenas queria tornar-se adulto, apenas isso, mas não pôde...! Era tarde, muito tarde...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Alguém


Alguém, me veja...!
Alguém, me escute...!
Alguém, me fale algo...!
Alguém, me procure hoje...!
Alguém, exista...!
Alguém...
Alguém...
Ainda só,
Cá estou eu...
Sem mais ninguém,...
Ninguém,...
Ninguém...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Não era isso, Charlie...


Tudo quanto acreditei e, a partir disso, fiz, foi baseado em impulsos altruístas e demasiado puritanos, infantis demais para tornarem-se reais. Vejo hoje a enorme sucessão de erros! Tantos, desmedidos... O que tenho hoje? Pés calejados, uma garganta muda, um peito oco, uma alma triste, olhos úmidos e nada além de um passado para lamentar e dele me arrepender. Nada além! Sim, é pessimismo. Sim, pode ser exagero. Sim, eu estou errado - mas acredite: não é a primeira vez!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Reticências


Talvez a premissa despretensiosa de que a esperança ''é a última que morre'' esteja errada. Creio que a esperança é a última que nos decepciona. Embora seja sutil, existe uma enorme, triste e real diferença...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier