sábado, 30 de novembro de 2013

Duras farpas


Um passo de cada vez
E a vida tornou-se fria.
Dei passos muito lentos,
Muito aquém do que devia.

As horas passaram vãs,
Como gotas que caem ao dia
Molhando o solo de terras pagãs,
Fugindo ao deus que achei que havia.

Deus ouve-nos a diária prece?
Deus está um pouco cansado?
Gota a gota o tempo fenece
E o corpo definha, nosso malgrado...

O tempo esvai-se como pétalas caindo.
As flores morrem aos poucos despetaladas.
Nós, como flores, despetalamo-nos partindo.
E as horas seguem, apesar de Deus, desgraçadas...

Faltam-nos fé ou merecimento?
Temos um mundo de tantos dissabores...
Vejo pela janela apenas sofrimento,
Calçadas repletas de gente em dores.

Dores vãs, quais sejam, como duras farpas...
Não mais respira-se a paz a contento.
Tons de preto tomam conta de nossos mapas!
O mundo segue em escuridão, em farto sofrimento....

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 24 de novembro de 2013

Carrossel


Onde está o sol que não o vejo?
Por detrás dos montes, quiçá...
Sumiu a luz das terras e, de lampejo,
A escuridão tomou conta do que há.

Deixou saudades o sol que outrora havia
A clarear caminhos, reluzindo as flores.
Hoje dão-se passos na escuridão, caminhada vazia...
Nada brilha, nem há calor que acalente as dores.

Somam-se, uma a uma, lágrimas retintas
Do sangue de feridas que marcam, cicatrizes!
Pintam-se os cenários em cores distintas,
Mas todas sem brilho, em escuros matizes.

Mundo estranho sem destino, sem sentido aparente...
A dor, tão evidente, não mais nos agita ou comove!
Segue o mundo repleto de um povo frio e impotente...
Somos parte de um carrossel que não se move.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 23 de novembro de 2013

Encarcerado


Eu atravesso paredes? Sou feito de vento, algo assim? Como ser um pássaro livre numa gaiola? Eu surgo e ressurjo a cada dia do alto de meu habitual poleiro no mundo... Completo frases soltas e solto frases incompletas, desconexas, sim, sem que isso seja do interesse de alguém! Sou recíproco o quanto posso ao mundo, logo sou confuso como tantos outros e vazio...

Sou nada, mas tento ser o que posso. Sou um verme, mas posso ser quem eu quiser nos meus sonhos. Antes de qualquer conceito, sou um comum apenas... O que sou ou o que me define, entretanto? Agonia? Sim, agonia. As grades da gaiola mais eu! Somos feitos um para o outro, quem sabe... A fraqueza do ser e a força do metal nas grades! Elas delimitam meu mundo e ao mesmo tempo o definem. Quem seria eu sem as grades da gaiola que me perfaz? Preso dentro delas consigo pelo menos definir-me algo: encarcerado! Nesse mundo de tantas incertezas, ter qualquer definição já seria alguma coisa...

Gota a gota, despindo-me de mágoas que caem molhando o chão, desprezo o quanto posso dos sofrimentos que ainda ressoam... É melhor criar devaneios sem sentido que perder tempo criando lamentações com sentido qualquer aos ouvidos meus ou alheios. Elas em nada acrescentam nem nos redimem. Quero apenas ater-me ao cárcere, por ora! É, afinal, o que conheço do mundo! É o que tenho! Embora, na verdade, eu seja apenas um verme que sonha voar, quero mesmo sendo ledo engano sentir-me pássaro, não importa se preso, mas pelo menos sentir-me dotado de asas. As terei um dia? Quem sabe? Sei por ora apenas das grades...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A pétala


Pétala que cai, permite-se ao vento! Entrega-se ao momento da queda sem exasperar-se. Leva consigo um resquício da flor que era. Morre no chão, como reles adubo, esquecida, servindo de fomento, mesmo que anônima, a outras flores... Pétala que cai não deixa a flor menos bela! O jardim ou o simples vaso perpetuam-se apesar da queda ocorrida da pétala que lhes falta... Seguem apesar da perda daquele pedaço da flor entregue ao fado de torna-se adubo! 

Ao ver-se caindo, a pétala sofre percebendo que ela, como tantas outras, passou, caiu e, todavia, os espinhos, todos eles, na flor permanecem incólumes como dores que não secam... A pétala ferida cai! Em seu lugar surgirá outra e, assim, estará aquela primeira pétala fadada ao esquecimento... Talvez numa velha e carcomida foto da flor ela apareça, mas de quê isso importa? Segue a pétala a cair e a sonhar que, ao tornar-se adubo, enfim, em paz, a tua memória desvaneça...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier