Um lindo pássaro pousou na árvore de minha vida. Os galhos, apesar de tortuosos, mal cuidados, serviram-lhe ao pouso. Aquele belo pássaro ficou ali por um fração inesquecível de tempo, colorindo a beleza da paisagem, tomando para si toda a atenção da natureza presente no entorno. Entretanto, num dia infeliz, aquela árvore aparentemente imponente, alta, estava doente e seu galho fraquejou, balançou, quebrou e deixou sem avisar o pássaro sem seu pouso, sem chão, sem rumo, sem entender. E o pássaro teve de voar, pois a árvore não se fez forte o suficiente...
O pássaro voou, a árvore quebrada permaneceu sem ser cuidada. Ela era imponente, alta, via-se de longe, mas os que de perto testemunhavam sua presença nunca haviam notado que ela estava doente, nem mesmo o pássaro que pousou ali com toda sua confiança e peito aberto. Mas com o galho caído, faltando-lhe um pedaço, a árvore seguiu doente, sem o pássaro que era como um pedaço seu, o mais importante pedaço. O pássaro era um fragmento alado daquela árvore e que, ciente de suas asas, voou.
Chuvas aconteceram, irrigando a alma e as raízes daquela árvore, e num belo dia, a árvore sentiu-se enfim cuidada, curada... Ela viu-se, entretanto, apesar de agora sã, sozinha, sem ver aonde estava o pássaro. Ele não mais voltou-se a ela. Passava voando sem que a árvore pudesse fazer algo, ou chamar-lhe a atenção. Pousou em outras árvores e aquela árvore vira certa vez aquele pouso. Doeu tanto ver o pássaro por outros galhos... Mas quem veria as lágrimas caídas daquela árvore de alma ferida e doente, aquela árvore tão só? O pássaro seguia procurando outras árvores...
Aquela árvore então, não mais serviu de pouso aquele lindo pássaro, inesquecível pássaro que infelizmente desfrutou de um mal momento daquela árvore e foi vítima de sua doença. Perdera a confiança naquela árvore e ela, sem dar frutos, sem ser pouso para aquele pássaro, permanece viva rezando pelo dia em que ele volte e colora sua paisagem como outrora fora. Como doía não mais ser pouso daquele pássaro...
Nessas horas, lembro de Guimarães Rosa quando quase em uma profecia me disse em um livro seu: ''amar é a gente querer se abraçar com um pássaro que voa''. E meu pássaro voou...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
(ao amor das minhas vidas)




