segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Conivência e retrocesso

de Paulo Stocker. Do personagem: Clovis.
Quando a última gota de petróleo e água (assim como os nossos demais bens naturais) de nosso solo pátrio estiverem entregues às mãos alheias...;

quando o último jornalista idôneo desistir de atuar em prol da informação do nosso povo quanto às atrocidades corriqueiras diárias - inclusive das próprias empresas de informação tidas, entenda-se, por: mídia...;

quando o último negro inocente for morto tido por "suspeito" - e condenado à pena de morte! - simplesmente por ser negro numa sociedade racista...;

quando o último homossexual for morto por intolerantes criminosos - que, infelizmente, recebem o aval da tolerância de seu ódio por certos seres tidos por "religiosos"...;

quando o último sonhador quanto ao fim das desigualdades sociais desistir de sonhar a luta por isso...;

quando o último índio for assassinado e, feito isso, sua terra for tomada e posta a serviço de um latifundiário qualquer...;

quando a última árvore for assassinada para gerar lucros (vendida de forma legal ou ilegal) sem qualquer defesa, sem qualquer punição e sem qualquer alarde quanto à destruição desenfreada da nossa natureza - ficando, além de toda essa atrocidade explícita, nas costas da própria natureza (vítima que é!) a culpa das alterações climáticas que temos criado (culpados que somos!)...;

quando a última mulher for assassinada, espancada e/ou humilhada por mais um homem habitualmente violento que se viu no direito de massacrá-la - tendo dentro de si o discurso de que a mulher é um ser que deveria ser submetido aos homens, sendo tal ideia parte de um raciocínio comum nessa nossa sociedade hipócrita que não se aceita enquanto machista que é...;

quando a última criança perder seu direito de uma infância saudável e produtiva - tendo perdido tal direito ao serem submetidas em sua inocência às tantas imposições diuturnas dos padrões de comportamento vendidos em publicidades nos meios, ditos, de ''cultura''...;

Quando chegar o dia em que todas essas questões acima serão fato consumado: aí então poderemos aceitar a premissa de que "Ordem e Progresso" devem ser substituídos em nossa bandeira. 

Poderíamos homenagear nossa forma de agir enquanto sociedade com, em nossa bandeira, os dizeres: "Conivência ao retrocesso", por exemplo. Seria um lema nacional de fato vigente a crível!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Por uma alma que se vai e pelas que ficam

Que vida é essa onde morrer é somente uma parte dela, mas para muitos é a parte da vida mais esperada? Não raro sabemos de alguém que abdicou da vida; suicidou! Não raro também temos pessoas sofrendo tanto que pediriam antes de mais nada que a morte se lhes chegasse de pronto, ao invés de serem mantidas no sofrimento que estão, estiveram, estariam... 

Doenças! Violências aguda - como um estupro! Violências "crônicas" - como um pai violento agindo no lar sobre uma mãe submissa! Cenários assim, costumeiros que temos por notícia. Deixam crianças expostas a um mundo de atrocidades. Temos um cenário onde as crianças passam horas do dia em casa, mas não conseguem em momento algum ver ali um lar.

Crianças largadas. Possem progenitores, ou seja: um casal que se uniu, gerou a gestação e só! Mas em momento algum foram ou são: pais! Pais, a saber: seriam o que? Pessoas que estão ali não tomando seus filhos por obrigação de serem cuidados, mas com o prazer de vê-los felizes, amparando suas questões, medos, dúvidas... Mas há muitos progenitores no mundo e poucos, quase raros, pais, de fato. 

Nossas crianças ligam a TV sempre. É, decerto, o item de suas casas e vidas que mais lhes dá atenção (metaforicamente, claro). Mais que os próprios pais, é fato. Não raro temos pais que vociferam contra esses (e outros) hábitos dos filhos como o de assistir veementemente TV. Mas também contra os de acessar internet e jogos de vídeo-game. Mas pais esses, não raro, que nunca sentaram-se para exercer o papel de família, de pai e mãe, de apoio, de amigos, de amparo na criação do cenário do lar sonhado e merecido àquelas crianças que se jogam nos vícios tecnológicos um dia e, não raro, pelos mesmos motivos, jogam-se em outros vícios num futuro nem tão distante.

Por um tempo intenso de minha vida, tive a oportunidade de conviver com crianças acometidas por doenças oncológicas. Câncer! Tantas, tantas morreram... De fato, ouvi isso diversas vezes da boca de tão bons exemplos de pais e pacientes: "doença desgraçada essa!". Sim, ela é! Eram os tratamentos longos que sucateavam físico e psiquicamente todos - pacientes e, inclusive, familiares e colegas de trabalho. Eram as doenças que por um momento tínhamos por controladas ou derrotadas, mas que voltavam um dia destruindo todos os sonhos que havia e tinham sido recuperados por esperanças de um futuro novo que aparentemente surgia... Mas eram crianças, Deus, e tantas nos foram retiradas sob dores, traumas, sofrimentos inconcebíveis. Eram crianças...

Ah, as perdas. Todas elas deixam para nós que em algum momento convivemos com crianças que se foram: sorrisos inesquecíveis, abraços eternos, carinhos incomparáveis, frases ditas que nunca nos sairão da cabeça...Rostos e mais rostos que marcam-nos a memória como quadros numa parede. E tantas delas, falando de espírito: imensamente superiores a tantos de nós. Superiores a mim, com certeza. Sorrisos em momentos de desespero. Tranquilidade no jeito de viver as coisas. Obliterando os acessos da ansiedade - que por ora me consumiam na situação, mas a criança mesmo nada esboçava de ansiedade. Uma entrega à vida. Para tantas delas, apesar disso: uma entrega derradeira à morte....

Nessas horas, vendo tantos pequenos que partiram e partem, penso: você que sonha em ser pai ou ser mãe, pense se está sendo merecedor disso. Pense se merece ter em seus braços uma alma para chamar de filho e filha. Pense se será portador de um lar para dar à eles, os pequenos. Não tenha filhos para entregar à sociedade como na cena de O Rei Leão, onde o filhote é mostrado a todo o reino. Filho não é para ser ostentado como: "eu consegui ser pai" ou "eu consegui ser mãe!". Não! Ter filhos não pode ser vitória pessoal, de pai e mãe... Antes de qualquer coisas: ter filhos tem de ser dar apoio para a vitória pessoal daquele que veio e será chamado de filho, fazendo com que ele desfrute de uma vida inteira de amor, cuidados e carinho. Que aos filhos sejam dados lares, não apenas pai e mãe! Há um amplo contexto nisso... Por mais lares!

Por mais lares! Por mais amor! Por menos ostentação de paternidades e maternidades! Talvez eu tenha conseguido mostrar o meu raciocínio hoje. Talvez não... No mais: amem seus filhos e os deixe cientes disso no máximo que consigam! Isso serve de resumo. Muitos pais desde cedo preparam-se para sere enterrados por seus rebentos, mas saibamos todos: essa não é uma realidade inconteste e para todos. Amem! Amém!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 14 de novembro de 2015

Só barro e silêncio!


O rio morreu, Pai...
Estava ali, olha, mas não..!
Não está mais, Pai.
Foi embora - e todos vão?

Veio barro de todo lado...
A água cristalina morreu, Pai.
Agora é rezar, né? Sonho adiado...
Quem vai olhar por nós, Pai?

Ai, que dor me dá, Pai,
Saber que ninguém vê nós...
Nós, todos, tantos, esquecidos. Ai...
Que Deus vele por nós. Estamos sós!

O dinheiro lavou nossos sonhos, Pai!
O barro lavou nossas casas, vidas...
Quem vai nos salvar agora, Pai?
Restam memórias. Uma vida partida...

Sob o barro, um pedaço dela ficou...
Outro pedaço vem ainda conosco, Pai.
Ah, que dó dá de tudo que se passou...
Sem casa, sem rumo, sem sonhos, Pai
(Só barro e silêncio!)
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Homenagem aos mortos e desabrigados na tragédia da barragem rompida na região de Mariana - MG. Todos esquecidos demais pela mídia em relação aos cuidados e apoio que deveriam estar recebendo - e ter recebido - de fato!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Unidade monetária dos sonhos

de Quino



Não se pode murar um sonho!
Sonho é terra aberta, de perder de vista...
Quem planta na terra do sonho,
Colhe frutos vendidos à vista.

Enriquecido, planta mais outro sonho...
Ganhou esperanças, motivação, alegria!
A moeda no sonho não é, decerto, ouro medonho,
Mas o sentimento esperançoso de cada dia.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Sobre a vida, os significados, nós e além

Quando calo e me vejo, penso e me pergunto:
"Que diabos tenho eu feito de minha vida?",
Chego a ter calos nos olhos!
Não que minha vida seja melhor ou pior que de outrem...
Quando assim me pergunto, mais falo de mim
Que da vida em si, decerto!
Sou eu uma alguma coisa muito aquém de tudo que poderia ter sido...
Eu mesmo talvez seja a pior coisa que me sucedeu, penso!




As piores escolhas de minha vida, as fiz com as melhores das intenções.
Sim, dizem: delas, o inferno está cheio - mas também está das indecisões.
Claro! Ora ou outra na vida, algum rumo temos que tomar...
Viver é driblar o ócio, é tomar decisões e fazer escolhas.
Somos, de fato, escravos das consequências,
Mas antes de tudo: somos fadados a escolher, a agir, decidir!
(Somos escravos, a bem dizer, de tantas coisas...)
Não há consequência sem ação, decisão, escolha.
Se seremos levados adiante, a lugar algum, somente tarde saberemos.
Não raro, isso traz consigo uma enormidade de desapontamentos,
Mas viver é também isso: esperar!


O corpo nasce e sua única espera é pela morte.
Nós, entretanto, coisa essa com alma, temos tantos atos e fatos para esperar...
Atos e fatos esses que são, muitos deles, fado -mas outros (tantos!): criação!
Viver é, além de tudo já dito: criar!
Precisamos criar nossos dias, traçar nossos sonhos enquanto motivos para viver...
Precisamos criar vida a cada vez que nossos olhos abrem-se à luz do dia novo.
Precisamos que nossos pulmões abram-se ao desfrute do fluxo do respirar diuturno enquanto assim tenha que ser.
Isso só há de parar quando, no derradeiro instante,
Nossa espera findar-se e, nisso, fundir-se na mesma espera de nosso corpo
Que é:  morrer!


No mais, resta criar atos, fatos, movimentos; tomar decisões; desfrutar; esperar!
Trazer alguma realidade - mesmo que sem sentido ou proveito algum se dê.
Afinal - e por último: viver é traçar horizontes -
Mesmo que, no fundo, de nada isso nos sirva!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Do amor e suas faces


Não quero saber de quantos átomos sou feito.
Quero mesmo é saber dos assuntos do coração!
Um só, mas que seja usado, pois, de todo jeito.
Sem sabê-lo, de que vale a ciência? Tudo é vão!

Amor é desassossego, corrói e nutre, decerto!
Antagônico, não? Sendo um só, é tantos...
É sentimentos tolos, puros, vãos... É incerto!
Ora ébrio por alegrias, ora demente, aos prantos...

De nada serve-se do amor aquele que lhe põe fé!
Fé é esperança de algo bom? Sim,o amor pode ser!
Mas também pode ser mau - ou já o é?
Quando faz-se mau, fere, destrói, a saber...

Amor é figura que se antecipa, entra na frente, cala...
Quem sabe do amor, há de viver como todos
- Mas, tomado por ele, rebaixam-se a consciência, a fala...;
Ficará embotado - em meio a sonhos ou à engôdos!

Ame, porém! De fato: quem sou eu para lhes falar?
Nem tenho opinião certeira, entenda bem,
Mas preciso dizer, deixar fluir... Afinal, apenas calar,
Tira-nos a saúde e tira-nos o tempo - que não mais vem.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier