terça-feira, 16 de julho de 2013

Levar a palma


Ao dia de amanhã, reservam-se seus mistérios.
Quer sejam realidades de amor ou de impropérios,
As verdades surgem cedo ou tarde, não faltam!

Os momentos de dor passam, os nós se desgastam...
As coisas boas tornam-se claras, as ruins se afastam...
E o real manifesta-se no entorno e na própria caminhada.

Em surpresas, passados os tropeços em meio à jornada,
Tornamo-nos fortes, deveras, corpo firme, alma lavada...
A vida segue e, aos poucos, aquieta e torna-se calma.

Enfim, chega o dia e dá-se o repouso é devido à alma.
Pagam-se tributos de glórias e desgostos, a vida acalma...
Assim conseguimos, sobre nós mesmos, levar a palma!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 14 de julho de 2013

O rosto do resto


Eu estava ali, enquanto ela, vestida de branco, atravessava a rua. Vindo em minha direção enquanto eu, naquele instante, não tinha mais direção alguma. Um momento de perplexidade - era isso apenas! Ela vindo, eu esperando... Algo mágico que apenas descrevem aqueles que amam. 

Parado, olhei bem em seus olhos ao longe, seu rosto! Era ela, ali, tudo e ao mesmo tempo a única coisa que importava no mundo. Pensei em correr e, correndo, ir ao seu encontro, poder tocá-la, mas não pude fazê-lo, pois correndo estragaria a eterna duração daquele instante derradeiro e tão demasiado sublime. Deixei que transcorresse ao seu devido momento! Era algo inconcebível querer adiantar o tempo, correr aquele mágico instante... Queria eu parar o mundo se pudesse, frear o espaço, admirar aqueles segundos degustando aquela imagem, aquele rosto amado, eternamente se possível. 

Seu rosto ficava em minha mente qual tatuagem na alma desde o momento que acusava a memória do instante em que a conheci... Éramos apenas dois desconhecidos naquela época... Hoje, conhecemo-nos? Um pouco mais. Queria degustar aquele e cada um de todos os próximos de nossos reencontros pela vida, até o sempre...

Eram infindas as pessoas na rua, porém apenas aquele rosto a mim interessava. O rosto daquela que era o tema dos suspiros ansiosos daquele que a aguardava de braços abertos. Os demais rostos faziam parte apenas do rosto do resto... De nada importavam a mim ou ao instante! Um simples rosto do resto diante daquele único rosto amado que a mim interessava.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier 

domingo, 7 de julho de 2013

Tela em branco



Ela estava ali enquanto eu, de longe, a olhava. Era triste saber que meus olhos eram apenas uma tela em que ela pintou-se qual musa intocável. Embora meus olhos a fitassem, ela, nem por um instante, suspeitava de minha atenção estar ali nela. Olhos vidrados! Meu atrevimento, entretanto, não chegava ao ponto de permitir a mim aproximar-me ou muito menos tocá-la, dizer algo. Ela, intocável para mim, ocupava um ponto peculiar no espaço: o centro. Ao redor: todo o resto. Pouco importava o que havia nele. Ela estava ali, comigo ao redor girando junto do resto do mundo. Coração pulsando, alma balançando, enquanto o dia passava segundo a segundo comigo ali, em devaneios inertes, sonhando. Eu permanecia parado, admirado, estarrecido mediante minha pequenez naquela cena. Era eu apenas parte do resto que em torno daquela pura imagem girava. Daí, ela, saindo em passos curtos e graciosos, atravessou a rua, sumiu das minhas vistas sem nem mesmo saber-se admirada... Não soube que, a partir de então, meus olhos não tinham mais a quem olhar. Dali em diante, tela em branco, tudo voltou a ser.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier 

A outra margem


O rio parecia raso. Não era! Mesmo assim, o atravessei.
Levei tempos, sofri, chorei. Carreguei-me em prantos, deveras.
Hoje, do outro lado, vejo todo o rio que deixei para trás.
Olho e vejo: pura água que corre, correu e correrá;
Quem passou não fui eu pelo rio, o rio passou por mim.
Era eu apenas um simples sonho de atravessá-lo, 
Sem impor-lhe qualquer risco. Era eu um humano ali, apenas!
Braços mais fortes, os tenho hoje! Pernas mais firmes carregam-me.
O rio passou por mim e deixou-me mais preparado para caminhar.
Sim, de braços fortes e pernas firmes, sou mais apto à terra firme!
Sou assim, depois de tudo, um novo ser que refez-se, 
Lavando-se, sem saber, nas águas daquele rio, tido por inimigo.
O rio passou por mim! Atropelou-me! Inundou-me a alma,
Mas, hoje, eu sei: as águas contra as quais lutei
Foram grandes professoras que ensinaram-me a ser forte, não desistir.
Pedras no caminho? Que a água as leve na correnteza.
Pedras não esforçam-se. Acostumam-se e pronto!
São assim, sésseis, dizendo-se fortes e firmes também. Sólidas!
Porém os anos passam e, lasca a lasca, aos farelos,
A pedra tão imponente outrora vai tornando-se menor, menor...
Eu não! Sou do mesmo tamanho, ou melhor: sou maior!
Sou mais forte e, de fato, proveitosamente firme. Não sou sólido, nem só!
Não sou séssil, nem sou pedra que pára a onda, altiva, imponente!
Sou humano que bate as águas no peito e atravessa o rio.
A vida quer de nós coragem! Rumo à outra margem: atravessemos!
É o segredo dos problemas da vida. Eles querem tornar-nos fortes! 
Não esperam que sejamos assim já de pronto!
A força nasce-nos dos obstáculos, pois não somos pedras.
Não podemos ser sésseis, portanto, nem arrogantes diante da correnteza.
Diante do problema, diante das águas: cabe-nos nadar,
Lutando, braçada a braçada, contra cada golpe das águas.
Assim, ao final da travessia, seremos, enfim, fortes e firmes
E, diferente daqueles que fazem-se pedra: chegaremos ao outro lado!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Refeito...


Peguei um pedaço de coração caído no chão.
Um resto jogado de um coração partido, ali, caído...
Pensei em reconstruí-lo, mas como eu faria aquilo?
Sem os demais pedaços, como uniria e reconstruiria?
Era apenas um pedaço de um coração partido, caído...
Pobre daquele ser que o perdeu. O que afinal sucedeu?
Talvez um desgosto! Mas, eu, ali, via apenas um coração sem rosto.
Por mais que eu tentasse, não via um dono, apenas o abandono.
O coração ali. Eu, estarrecido! Tentei aquecê-lo, com todo zelo,
Mal eu sabia que era um mero pedaço morto de coração. Ou não?
Talvez fossem pedaços espalhados e ali estava um e logo ali mais algum...
Quem sabe o coração partido partiu-se simplesmente por, demente,
Ter perdido a cabeça? Explodiu? De si, fugiu? O dono? Quem o viu?
Dúvidas? Várias, mas o pedaço de coração apenas um, na minha mão.
Por alguns instantes, fiquei ali, parei, pensei. Devolvi o coração ao chão.
Era ali seu lugar. Alguém ali o deixou. Se amou, ou sofreu, não sou eu
Quem irá descobrir, nem penso, nem quero. Apenas espero!
Torço para aquele desconhecido alguém. Que o tire dali partido, caído
E volte a ter algo a pulsar-lhe no peito, que o motive sonhar e viver, refeito!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier