terça-feira, 26 de maio de 2015

Grito da alma

Passei uma vida inteira calado, por mim esquecido...
Calei minha boca enquanto gritava a minha alma.
O grito que ecoava-me de dentro não foi ouvido...
Ouço-o agora, mas não há remédio que me traga calma.

Quem diria que seria eu um alguém assim?
Antes, tão sorridente ao olhar de todos, eu agradava.
Hoje, de tanto calar-me, ensimesmado, em mim
Soa o tom de desesperança que eu já suspeitava.

As pessoas não nos querem bem, decerto!
Querem apenas que não as incomode nossa tristeza!
É triste e grosseiro afirmar isso como certo, 
Mas foi o que concluí em noites acordado, sob luz acesa.

Queremos a harmonia dos padrões de beleza no mundo!
Aquilo que é triste, destoa dessa mentalidade vigente.
Não há espaço a quem tenha-se por embotado, profundo...
Quem em si mesmo mergulha, faz-se ao mundo demente.

E assim, tido por louco, excêntrico, distante: sigo!
Quisera eu um dia sentir na vida ares de bem estar...
Sim, raras são as pessoas que nos queiram, de fato, consigo,
Mas saibamos todos nós, embotados: abrir portas, recomeçar.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 24 de maio de 2015

Do amor

A gente se viu, parados, de canto...
Fez-se na hora o alarde devido.
Mal sabia eu que, dali, surgia um encanto.
Vi-me no olhar pelo qual fui arremetido.

Fui vendo, aos poucos, se criando
Algo de bom que hoje me perfaz.
Mal sabia eu que, me apaixonando,
Estaria, enfim, redivivo, alcançando a paz.

A paz que faltava, que há tempos eu queria,
Em vendo teus olhos, através deles encontrei.
Em tendo teus braços, toda minh`alma sorria:
Era o amor que faltava - antes, não sabia; hoje sei.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Obscuro

Eu tenho um trunfo. Persisto. De que isso me vale? Afinal, nem é lá uma boa coisa, decerto, mas é o que tenho feito. Passos dados. Passos a dar. E daí? Aonde estarei? Tanto faz. Estarei aonde for, no estado que for, mas, sei desde já, não valeria à pena caminhar mais adiante. Mas, fazer o quê? Eu persisto.

Olho pela janela e vejo a altura relativa, o chão distante, o céu à espreita... As nuvens se riem de mim. Eu, atravessado por uma lança, começo a ver o chão como um berço adequado. Sim. Atravessado! Apunhalei-me, atravessei-me, encurralei-me... Fiz de mim tantas coisas. O que fiz eu para ser tão mal comigo, ora? Hoje vejo... Mas ninguém vê.

Todos sorriem enquanto eu sigo somente a dar passos entre chão e céu, desviando das pessoas e escondendo-me do olhar de desdém das nuvens que são livres, belas, límpidas. Eu? Obscuro.

Ao dia, correndo sem freio pela estrada deserta, vi-me nu, entregue ao vento. Apenas trazia-me poeira. Ela cegava. Sim! Parei. Nada mais eu enxergava... Eram ventos demais para minhas forças, areia demais para meus olhos, devaneios demais para minha mente já insana, realidade demais para minhas pernas fracas, ossos quebradiços com minha alma podre naquele corpo seco como o chão. As pedras eram mais reativas que eu, naquela espécie de sonho, enquanto eu seguia acordado.

À noite, eu estava ainda mais só enquanto ali permanecia parado! Gritei. Nada. Ninguém. Algum sinal? Não. Até mesmo a noite fugia de mim. Suspeitei comigo que ela revezava com o sol... Quem seria aquele que estaria comigo durante as horas dos dias? Ora um, ora outro. E eu? De cá, seguindo, via tudo como quem caminhou muito tempo até estar à beira de um precipício, mas não sabia mais dali em diante andar. Eu não sabia mais. Não sabia nada. Não sei...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Enquanto não chega o Natal

Quando o Natal desse ano chegar, quero estar menos mesquinho. Quero dedicar à data aquele tão apregoado espírito de amar. Com isso, peço desde já: levem para longe de mim qualquer "presentinho".

Somos habituados a estar cegos. Cegueira e tolice, é o que temos. De tanto sonhar em sermos cristãos, inflando egos nessa mesmice, vejo: diante da mensagem de Jesus, somos todos tão pequenos.

Quem de nós quer de fato salvar outrem? Salvar poderia ser visto como dar-se a um destino cruel, a despeito de tornar-se mártir. Ir à alcova, mas deixar livre aquele que salvamos e, por ora, a salvo, para a vida, parte. 

Quem quer isso ou assim faria? A atitudes e verdades como essa, digo eu: habituados não estamos. Queremos na jornada as vitórias e sucessos que havia. Mas dar a outrem quaisquer louros? A quem enganamos?

Se Deus, de fato, a tudo vê, deve Ele estar um tanto chateado. Não é de hoje que deve estar a benzer-se. Afinal, enviou seu filho, que a nós foi dado para perder-se, mas sem ver com isso Sua mensagem entendida? Coitado.  
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 19 de maio de 2015

Nunca contem sobre o mundo às crianças

Ninguém quer ser digno de pena. Ninguém! Mas às vezes, vejo isso ser possível. Claro! Somos humanos e sujeitos às intempéries da vida, quer sejam vindas do mundo externo ou do nosso mundo interno. Tenho pena, em linhas gerais, de nós: humanos! Em tantas medidas, somos algozes de nós mesmos, afinal: construímos nossos mundos interno e externo.

Em meu mundo, conheci certa vez uma pessoa. Era uma pessoa feliz e que irradiava energias pelo bem. Claro, era jovem - diziam na época! "Qual jovem não é assim" - em primeiro momento, pelo menos? Foi sendo formado um cidadão em meio aos sonhos de galgar conquistas coletivas. Não pensava muito em si, em seu destaque pessoal, ou atrair olhares dos outros. Ajudar? Sim! Era um sonho, uma meta maior para ele. Mas quem disse que a vida ajuda quem quer ajudar? Há algo por trás dos interesses - dos anjos, quiçá (ou quem quer que seja) - por apoiarem ou não os que sonham mudar algo. Há de se merecer muito mais que simplesmente sonhar, talvez fosse isso. Mas ele não entendia nada sobre tais merecimentos embora os buscasse - em vão, em vão....

A cada dia, a vida foi convencendo aquela pessoa de que era cansativo e seria difícil pensar em mudar as coisas, mudar rumo ao bem. Árdua tarefa! Ele já suspeitava, pois não era tolo, mas não entendia que seria tão complicado e tantas lhes seriam as intempéries. Quase desanimou em inúmeros momentos. Ele era calado, pacato e um tanto solitário, a bem dizer. Pensava receber um "empurrão" cedo ou tarde em insistindo naquilo - como se diz no linguajar popular. "Empurrão" esse de Deus, de anjos, de alguém qual fosse... Mas ele lutava. Sabia que teria de habituar-se a conviver com a imensa maioria ao entorno desacreditando seus sonhos, desdenhando seus ideais, ironizando sua gana pelo bem. Não via em lugar algum gana por fazer aquilo de bem que está além do habitual conforto burguês que via ter-se por realidade nas suas paisagens diárias. Ele as vislumbrava com tons de reflexão aos moldes a cada dia mais pessimistas, ou realistas, ou algo assim. Como poderia ele definir seus olhos com o tempo passado? "Nietzscherianos"? Ele tentava ver-se como Fernando Pessoa e trazer para si algo dele. Mas nem era mais tão adepto ou digno de poesias...

Ele foi confiando a si a responsabilidade de conviver bem com isso por um longo tempo. Fez-se e refez-se em meio às intempéries as quais foi ultrapassando, mas enquanto elas passavam por ele e ele por elas, algo de si foi sendo perdido. Energia? Algo de essência primeira da alma? Algo de esperança pueril? Não sabia entender. Mas foi perdendo-se, perdendo-se... Viu-se como o vaso furado, com vazamento, que, gota a gota, tornou-se seco.

Aquela pessoa ainda sonhava. Era insistente! Ainda bradava (mesmo que com voz rouca e agora tímida) sobre sonhos, ideais, mas habituou-se a ver que não havia conseguido mudar nada e a entender também que nada mudaria. Desacreditado, viu-se apenas mais um em meio às rotinas do dia a dia, do cotidiano monótono da vida alienada que habituamo-nos ter por realidade. Ninguém quer tomar para si as rédeas da mudança. Sozinho então? Coitado... Triste, ele lembrava dos tempos em que acreditou ser possível fazer assim, mesmo que só. Hoje, ou acompanhado, ou só, ou a dois, ou aos montes: ele não acreditava mais. Via barulho demasiado em sua volta de pessoas que diziam querer mudar o mundo, mudar as coisas - insatisfeitas que estavam com o mundo - mas eis que, era notório: nada faziam. Apenas barulho. Muito barulho.

Olhando o jardim da praça em que habituou refugiar-se, sentado e a refletir, pensou: feliz é o caramujo que esconde-se e se compraz dentro da lentidão de sua caminhada na casca endurecida que, desde cedo, habituou-se e aceitou ter. Ali dentro - dentro de si mesmo, alheio ao entorno que o observa com desdém, ele não liga estar lento diante da velocidade de ações que o mundo exige... Caramujos não preocupam-se, entendeu! Muitas pessoas aprenderam essa lição com os caramujos. Seguem seu caminho mesmo que não as leve a nada, não mudem nada. Continuou refletindo e percebeu: triste é o peito que abre-se com esperanças de um dia ver o mundo melhor do que vê-se... Mas eis que o mundo mostra-se fazedor de pesadelos, desfazendo sonhos e secando coragens - mesmo daqueles que com tanta força sonharam, dormindo ou acordado, jovens ou nem tão jovens assim...

A chuva começou a cair com ele ali, sentado na praça. Levantou-se. Percebeu que as gotas caídas deixavam-lhe com os pés enlameados, deixando por sua vez, passo a passo, um rastro preguiçoso em meio àquela lama toda que, naquele caminhar reflexivo, já ia tomando parte do passado que ia ficando para trás, para trás em mais uma jornada de reflexões vãs que ele teve. Ele via-se um caramujo qualquer agora. Entregou-se! Deixava um rastro na lama... Suas memórias livres, já por ora acobertadas pela falta de esperanças, não mais tomavam frente a nada nem impunham-lhe recomeços. Ele apenas caminhava como outro qualquer! Um mero caramujo lento, pegajoso quiçá, envolto numa casca dura que o alienava. 

Sob chuva, sob sol, o caminho era aquele. Para onde? Em que importava? O importante é mostra-se seguindo, caminhando. Rastejar é uma forma habitual de caminhar - afinal, ele também era agora um caramujo como quase todos os que via no entorno. Concluiu enquanto tentava chegar em casa sob a chuva: "É o que todos querem ver: passos sendo dados!". Mais nos medem pelos passos que damos que pelos sonhos e esperanças que temos - ou trouxemos. O mundo há de nos secar um dia, deveria ele ter percebido antes, mas não se arrependia. Nunca contem isso às crianças. Nunca!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O que bate à nossa porta?

Afinal, o que importa é só o que bate à nossa porta. Foi o que conclui refletindo sentado na calçada vendo todos passando. A tristeza da miséria em nada nos comove, mas caso fiquemos miseráveis um dia, aí sim exigiremos medidas de outrem, do governo inclusive, quiçá. Claro! Desta feita, criticam-se medidas sociais. Quem critica? Todos os que dormem em sua cama confortável, após sua janta farta, prontos para despertar horas após para pegar seus carros e irem para seus empregos garantidos. Não espero mais nada do homem...

"Bolsa-isso", "bolsa-aquilo", isso é coisa para fomentar vagabundos, correto? Peço aos cidadãos que assim pensam: sejam pobres, miseráveis... Sejam descendentes de antepassados que foram escravizados, torturados, expostos às mais vis atrocidades com o objetivo de gerar lucros ao seu senhor. Após serem isso, venham me dizer sobre "bolsa-isso" ou "bolsa-aquilo" com esse habitual tom de deboche. Deixem que batam à sua porta a pobreza e a miséria ou a atrocidade do nosso passado torpe. De fato, não espero mais nada do homem...

Na calçada, tropeçamos. Olhamos para baixo - pois nossos olhos estão sempre voltados para o céu, afinal: somos tão altivos - e eis que sob os nossos pés, estava um mendigo. "Vagabundo", "bêbado" e outros nomes chegam à mente, correto? A culpa é do governo que não desaparece com essa gente - já pensaram assim num país chamado Alemanha... Vocês que assim pensam (e agem): já procuraram conversar com algum ou ajudar de fato? Sabem a história de vida desses? Se suas vidas fossem também ou regada a tragédias, ou a miséria sem fim, ou a um processo depressivo associado ao alcoolismo e uso de drogas, quiçá: vocês estariam em situação diferente? Não! Poderiam sim estar ali, bem ali na calçada sob os pés limpinhos da classe média que passa empavonada - afinal, a classe alta passa de carro e não se dá ao desfrute de caminhar por calçadas. Em sendo vocês aquele mendigo, vocês olhariam nos olhos das pessoas e diriam o que? "Obrigado, estou satisfeito" ou "por favor, me dê uns trocados para comer?". Triste pensar como o conforto endurece e seca a alma das pessoas.  Não espero mais nada das pessoas...

O mundo é cruel, mas as pessoas fazem o mundo! Erros e acertos, quem os faz e se consomem nisso, são os homens. Eis que sonegam-se impostos por todo lado. Em nosso país - esse amontoado de terra produtiva e de gente com propósitos tão diversos -, o acumulado de dívidas desse povo varonil já soma montes acima de um trilhão. Mas é esse mesmo povo devedor que, quando vê seu dinheiro ser mal empregado (ou culmine com aumento de juros, do dólar e da gasolina, claro!), toma para si o discurso da ética, dos bons costumes, visando o aplauso meritório assim como o bandido arrependido... Não! Basta! Não espero mais nada do brasileiro...

O pobre que morre na periferia, ou pelo policial mal remunerado e mal preparado, ou ainda pela bala do traficante enraivecido, não nos comove. Assumam isso! Mas causam enorme comoção mortes de um filho nosso de classe média ou outro da alta. Eis que a comoção é vomitada após isso. Mas não ligamos e nada fazemos pela comoção das mães e pais da periferia. Aparentemente, esquecemos (ou negamos!) o fato de que morrem inocentes há centenas de anos em nosso país e nada fazem (ou fizemos) por eles - quando são pobres e de periferia, que morram! Pobreza, afinal, para nossas classes média e alta, é sinônimo de preguiça, correto? Pobre que busque por si mesmo seu sucesso, não é? Cotas? Claro que não! Quase que ouço alguém indagando nesse momento em tons enraivecidos: "já fazem quase 150 anos que a escravidão acabou", ou ainda: "nossos antepassados curaram o mal que fizeram ao povo traficado para cá em tendo assinado a Lei Áurea". Após rir desse devaneio, penso: esses 150 anos conseguem superar a desgraça feita para com todo esse povo e seus descendentes? Fosse você que pensa daquela maneira um desses afrodescendentes: estaria já perdoando o mal que fizeram aos seus familiares de tão pouco tempo atrás? Negaria que as cotas são no mínimo uma tentativa de retribuição?  Não espero mais nada da mente humana...

Há poucas décadas, retirantes vinham do nordeste empoeirado - eles próprios também empoeirados - sem direito à água, sem dinheiro, quase sem roupas, tendo seus pertences sido colocados em algibeiras ou enrolados como tralhas em pedaços de pano, rumando aos grandes centros para buscar vida digna sonhada - afinal estavam esquecidos há séculos. Caso você passasse por isso, tivesse em seu sangue esse passado, em suas memórias esses rancores: defenderia que bolsa família ou outros incentivos ao fim das desigualdades tenham que acabar ou nem deveriam existir? E o sonho de casa própria? "Minha Casa Minha Vida" é coisa de gente torta, anti-ética, corrupta? Não! São tentativas - mesmo que mal geridas, mas isso é outra questão - de corrigir erros e incongruências do passado. Mas esses erros do passado que tentam corrigir não bateram à nossa porta nem esvaziaram (por centenas de anos) nossas panelas - panelas essas que antes ficavam penduradas, vazias, enquanto nossos estômagos roncavam. Hoje, panelas nossas dão-se ao desfrute de incomodar os vizinhos em "panelaços" pseudo-altruístas ou cívicos. Não, não espero mesmo mais nada do brasileiro, nem de suas mentes...

Aos goles de uma bebida qualquer, agora já na bancada de um bar, penso que a felicidade está naquele que teve a sorte de morrer cedo, quando ainda não entendia o funcionamento e as atrocidades do mundo. Encerrado o último gole daquela noite, concluí: Jesus um dia pregou que compartilhássemos, dividíssemos e que não fôssemos mesquinhos como aqueles ricos que querem levar para a tumba seu ouro. Mas entendo que, quando Jesus disse aquilo, essa coisa toda de compartilhar e ajudar os pobres, talvez Ele estivesse brincando - mas fato é que Deus brincando também devia estar quando nos criou homens tão, digamos assim , hipócritas.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 5 de maio de 2015

Quarto escuro

Torço para que as flores voltem
E fiquemos livres desse jardim de horrores.
Mesmo que nossas forças se esgotem,
Caminhando e cantando, sigamos firmes apesar das dores.

Ora cai um à esquerda; ora cai um à direita...
Estamos ladeados por defuntos e moribundos.
Não resta tempo para a tragédia ser desfeita,
Mas podemos desde agora corrigir nossos mundos.

O meu, o seu, o do vizinho da rua de cima...
Se todos fôssemos unidos, teríamos o bem comum.
Faz-se um país melhor quanto mais o povo se aproxima
Agindo como um por todos. Mas nem mesmo somos um...

Enquanto isso, sem futuro, o povo segue como gado entorpecido.
Qual será a fonte que saciará nossa sede de futuro?
E o educador conta em suas aulas, enquanto apanha, esquecido,
Que noutras épocas trancavam pensadores em quarto escuro...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


Pintando janelas

O brasileiro anda dizendo que quer mudar o país.
Para mim, do que vejo, tudo é muito engraçado.
Será que essa gente anda pesando o que faz e o que diz?
Que nosso povo é cego, eu já havia desconfiado,
Mas surdo também? Glória a Deus, oh povo coitado...
Por séculos fomos colônia portuguesa.
Hoje somos colônia do mercado...
Ademais, quem será nosso dono?
Aquele que pague mais rápido o valor dado?
Quem não nos compraria? Já vendemos tudo no passado.
Querendo mudar a paisagem, eis a brilhante ideia:
O brasileiro pensa em pintar a janela pensando ser isso a panaceia...
E sentado no sofá da sala, assistindo um jornal pútrido,
Tão pútrido quanto o esgoto exposto por debaixo do seu alpendre,
O brasileiro acredita aprender muito da realidade
Enquanto acata às ordens daqueles aos quais o país se rende.
E o povo torna-se carcomido sentado na sala.
Recebendo os vômitos de jornalistas vendidos.
Aplaude as cores novas que colocou na janela e pensa ter tido
A brilhante ideia que salvará o país da desonra.
Esquece que antes de mais nada, é preciso concertar seu próprio esgoto,
Arrumar todo o seu quintal, pagar os impostos, desfazer seus "gatos" e tal.
Mas acredita ele ter feito seu papel simplesmente pintando a janela.
Esqueceu-se completamente que em nada contribuiu para mudar lá fora.
E então, surge a pergunta: querem mesmo mudar a cor da janela?
Que assim seja então. Eis que escolheram o azul agora?
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reflexão existencial, moral ou sabe-se lá a que se presta

Enquanto esperava o dia passar e minha cabeça acalmar diante de certas coisas, li: "Aqueles que dizem: Senhor! Senhor! não entrarão todos no reino dos céus; mas somente entrará aquele que traz a vontade do meu Pai que está nos céus. Vários me dirão naquele dia: Senhor! Senhor! não profetizamos em vosso nome? não expulsamos demônios em vosso nome e não fizemos vários milagres em vosso nome? E então eu lhes direi claramente: retirai-vos de mim, vós que fazeis obras de iniquidade" (São Mateus, cap. VII, v. 21, 22, 23).

Refleti após isso conforme já vinha refletindo há anos na minha caminhada a partir do que já vi e convivi - já não sou tão novo quanto antes. Pensando aos moldes do filho de Deus da era cristã e no "Pai que está nos céus": defendia-se e era pregado que amontoássemos riquezas e as proliferássemos para nosso mero desfrute ou ainda para ostentação aos olhos alheios, inclusive em canais de TV? Queria que fechássemos os olhos aos carentes e expostos aos reveses da vida comum - coisa que boa parte de nós nunca teve a falta de sorte de sofrer? Queria que defendêssemos um sistema de funcionamento social - digamos assim - que baseia-se na chamada "meritocracia"? E, se nesse último item haja um "sim" como resposta: meritocracia não era, para Ele, muito mais um testemunho de elevação espiritual e moral que uma maior adequação ao sistema de produção de riquezas para si próprio - e para o Estado? Ademais, ainda sobre a última frase e progredindo a reflexão: "Zaqueu"(personagem na Bíblia, vide São Lucas, cap XIX, v. 1 a 10) não foi tido por "salvo" quando disse: "se causei dano a alguém, no que quer que seja, eu lhe retribuirei em quádruplo..."? Retribuição essa não tida por financeira, saiba-se ler. 

A história do "muito se pedirá ao que muito recebeu" talvez seja mal interpretada por mim quando vejo o que o mundo é hoje, o que as pessoas almejam e idolatram e mais ainda vendo o que defendem tantos religiosos ditos "cristãos". Sou um confuso, eu acho! Entendo pouco do mundo e menos ainda da religião cristã, percebi, pelo que descubro vendo da obra de Deus nesse planeta o que bradam em nome dEle. 

Ao final das minhas contas, ainda esperando o tempo passar e uma definição conclusiva naquela tarde em que estive avulso do mundo, entendi que, apesar de já passados 2015 anos da era tida por cristã, com tantos cristãos que bradam por aqui e acolá sobre suas riquezas e benesses a si mesmos (pois os que bradam pela defesa dos direitos dos menores pouco ou nada bradam aos ouvidos de forma vã - vide Gandhi, Madre Tereza, Chico Xavier etc), com tantos que se dizem escolhidos e tal: eis que nada aprendemos e o chamado inferno (aos que creem nele) estará cheio de gente conhecida... Para além disso, uma última passagem me vem à mente: "o homem não possui de seu senão aquilo que poderá levar deste mundo". 
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier