terça-feira, 9 de maio de 2017

Outrora

As horas passam e deixam-me um sentimento de derrota.
Não que eu faça do passar das horas uma leitura morta,
mas, de fato, sou menos alegre hoje em termos de perspectivas.

As horas de outrora nas quais fui feliz eram furtivas.
Eu sonhava acordado, sorria sorrisos em verdades altivas.
Mas hoje sobram apenas sentimentos vãos de nostalgia.

A nostalgia deixa-me nauseado enquanto sensação fria
que pouco traz de benefício quanto ao que há versus o que havia.
Do tempo é preciso se atrelar e atentar apenas ao agora.

Por isso, o passar das horas vem a mim e me aflora
sentimento de que devo estar atento ao presente aqui fora
e não ao passado, cá dentro, que me consome em lembranças de outrora.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 6 de maio de 2017

Carta ao amor pe(r)dido

(...) O maior amor que se tem na vida,
Não sei se é o que se tem,
nem sei se é o que se perdeu, além...
O amor na vida é algo que surge,
que floresce e sangra e urge...
Pode ser atual, pode ser do passado.
Pode dar certo e até dar errado.
Mas é preciso, sempre, amar demais!
O importante é não se perder a mão
de amar sempre aos que nos vem e vão.
Amar muito aos que já estão aqui.
Amar muito aos que ainda virão!
É amor a ser dado à mulher amada
e ao filho que está por vir à sua morada.
Não precisamos de lindas histórias de amor!
Precisamos de amor, simples assim, ora.
Pois então que amemos a quem nos clama agora
ou amemos a quem nos amou outrora.
Amor, sempre! De dia e de noite,
todos os dias. Amor leve e calmo, sem açoite!
Amor cafona, quiçá? Amor banal?
Amor que faça nosso sonho de amar real!
Amor pequeno, medíocre, fugaz?
Não! Amor é sentimento que, na gente, faz
coisas outras que nenhum sentimento traz. (...)

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Não sei por que escrevo.
Não vejo nisso nenhum sentido...
Apenas deixo saírem textos, formando acervo
que provavelmente nunca será lido.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O maço

A cada passo, tragava um maço. Sim, era isso que fazia aquele homem. A cada decisão na vida, aflito, fumava seus vários cigarros. Era assim desde muito cedo.

Ele não preocupava-se com os males do cigarro, mas sim com os males de sua ansiedade que era temperada de forma amena aos tragos que dava. A cada suspiro era um pouco de fumaça que via-se sair de onde ele estava.

Porém, como traça, o cigarro foi lhe corroendo por dentro. Chegou um dia que não respirava direito. Ficou ansioso. Fumou mais alguns cigarros ao invés de procurar ajuda. Duas horas depois, estava morto, estirado no chão, sem jeito.

Ninguém nunca entendeu a história daquele homem. Nem muito menos contar essa história traz algum sentido. Mas todos sabiam que ele vivia sozinho, não era de alarido. Sofria de uma tal depressão também... Fora então achado morto em casa, sozinho, sem ninguém, mas com cigarros ao lado. Pobre homem esfumaçado... Aparentemente, quem mais convivia com ele eram o maço e o isqueiro usado.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

... a divagar.

Do nada, ouvi: ''Ei, você aí: tudo bem?''.
Um homem estranho perguntou-me na rua.
Dei de ombros, nem disse sim, nem não também.
O homem olhou-me nos olhos e viu-me de alma nua.

Suas feições eram brandas, de paz...
Parecia-me como um conhecido.
Tinha barba mal feita, cabelos para trás.
Mas, mesmo assim, saí de perto, quase fugido.

Aquele homem lembrou-me Jesus.
Sim, Jesus se importaria comigo e perguntaria
''Como, meu amigo, você tem carregado sua cruz?''
Com soluços e sob lágrimas, assim eu responderia.

Cheguei em casa e dei de cara com a imagem dEle.
Uma foto do homem-Deus na parede.
Observei atentamente meu reflexo no vidro sobre Ele.
Eu, de barba mal feita e cabelos pra trás sentia sede...

Sede de amor. Sede de paixão. Sede de estar vivo.
Essa sede é uma carência, coisa humana.
Vejo o olhar de Jesus sem dor. É tenro, altivo...
Difere do meu olhar à frente de uma mente insana.

A doença consome minha sanidade?
Será que sou mesmo um doente?
Olho como uma utopia a felicidade,
Pois ela nunca está aqui, está sempre à frente...

À frente, ao longe. Não está aqui agora.
Utopias são assim: aquilo que nos faz caminhar.
Já fui feliz, sim, em tempos de outrora.
Hoje fico aqui, sozinho, escrevendo, a divagar...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 1 de maio de 2017

(...) a bem dizer ...

O mundo é e foi sempre repleto de mentes brilhantes. Pensadores, assim os chamamos. Sêneca, um desses, nos diria que não deveríamos nos incomodar com nossas vidas e seus problemas. Afinal, preconizava ele: a vida é curta e precisamos, sim, fazer o melhor dela. Sabido isso, resta-nos concordar e perguntar a nós mesmos: seriamos nós bons discípulos de Sêneca? Temos levado nossas vidas adiante imaginando que precisamos acumular riquezas, p.ex., para desfrutar delas numa velhice atribuída empiricamente a nós? Ou temos vivido o dia de hoje sem pensar em passado e futuro? Enfim: temos sido bons na arte de viver nossas próprias vidas?

Penso que o ideal estoico, como o de Sêneca, fosse que vivêssemos algo ''reclusos'', um tanto quanto longe de outras pessoas, pois o convívio pode nos ser deveras apequenador, entristecedor. Mas isso seria uma fuga. E isso também, além de fuga, não é algo fácil. Temos uma ou outra história de alguém que optou por uma vida reclusa e conseguiu. Mas será que precisamos disso? Somos seres gregários. Vivemos em bando. Em sociedade. Podemos, todavia, viver nessa vida desgastante em sociedade e mesmo assim alcançar alguma paz? Repito: vida desgastante, sim, mas ainda assim é possível de ser desfrutada com algum requinte de alegria e prosperidade - creio! Viver em conjunto com outros seres (sejam eles família, sejam vizinhos, sejam amigos, sejam políticos, sejam quaisquer outros seres) exige de nós todo um controle e cobra de nós obediência a uma enormidade de condutas. Aqui poderíamos divagar um pouco sobre ética, por exemplo, mas não irei me ater a esse quesito. Prossigamos...

Precisamos, em meio ao barulho do todo ao nosso redor, nessa vida agitada do século XXI, aprender a livrarmo-nos de pensamentos negativos, derrotistas, fatalistas. Isso seria uma coisa boa! Somos incentivados ao desânimo e ao destempero a todo jornal, a todo papo de esquina... Precisamos cancelar dentro de nós as emoções desagradáveis que nos maculam e deixam sequelas, cicatrizes. Precisamos encarar a vida com uma boa dose de indiferença? Seria isso? Sim. Na linguagem corriqueira do hoje, poderíamos dizer que, para ser feliz, de forma algo "estoica", devemos ligar o ''foda-se'' (perdão, leitor, pela expressão!). Uma adequada dose de ''não pensar'' e de ''foda-se''. Pronto! Seria aí um bom caminho que poderíamos seguir baseando-nos em algo daqueles que são tidos por estoicos na filosofia antiga. 

Anterior aos estoicos, podemos lembrar de Sócrates em suas andanças pelas ruas fazendo perguntas desconcertantes aos plebeus comuns como ele. Ele perguntava de tudo e queria respostas, embora sempre dissesse que ele mesmo não as tinha, pois como todos sabem, sua frase mais repercutida é: ''só sei que nada sei!''. Ele esperava respostas? Não sei. Sei apenas que ele argumentava e contra-argumentava. Costuma-se creditar ao modelo de Sócrates a ideia de que uma existência sem análise é adequada para o gado, mas não para nós, humanos. Então, quais são as perguntas que temos feito para nós mesmos enquanto caminhamos dentro de casa, nas ruas, no trabalho? Quais atitudes temos tido diante das intempéries pessoais, sociais, políticas, econômicas que se nos apresentam? Quais perguntas temos feito e quantas respostas temos creditado a nós? Coitados de nós... Se Sócrates não sabia nada, imagine o que eu deva pensar de mim?

Ao modelo de Platão, temos nos enganado! Temos dado voz às sombras de realidade que vemos nas paredes de nossa ''caverna''. Ou não? Alguns de nós têm conseguido ir para fora de nossas cavernas e buscado respostas ou encontrado boas perguntas? Não sei. Vejo uma imensa zona de conforto na qual estamos, como plantas, plantados, presos, atolados até as orelhas. 

Quando sairemos de nossas cavernas? É difícil dizer, pois criamos nelas nossas tais zonas de conforto. Quando essa zona é criada, vejo poucas pessoas saindo dela. Mas isso é certo? Ora, somos humanos. Temos o livre arbítrio, não? Quem quiser viver atolado numa ''caverna'', que fique. Porém, acho que precisamos ser mais fortes e mais espertos. Precisamos agir para fora do instinto do conforto e seguir atrás de nossas verdades. Sair por aí perguntando, tal qual Sócrates ou rompendo grilhões para sairmos da caverna de Platão. 

Não podemos nos ater a essa mesmice de aceitar tudo o que nos dão nesse mundo informatizado repleto de pessoas solitárias, mas cheias de informação - embora com pouca formação. Em meio à tantas reflexões nesse mundo moderno, em meio a toda essa história de filosofia (que me consumiu hoje), fico com uma certeza na cabeça pautando-me numa frase atribuída a Hipócrates, um grego antigo: "A vida é curta, a arte é longa". Por isso, ''que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba''! Oswaldo Montenegro cantou isso... E é uma frase linda que cai bem a mim hoje. Não que eu chame de arte esse texto pífio que escrevi, mas creio, sim, na arte. Isso sim!

Tomara que consigamos ouvir filósofos, filosofias, pensadores... Tomara que possamos nos ouvir mais uns aos outros e ficarmos menos atrelados às sombras na parede. Tomara que consigamos ouvir a nós mesmos, inclusive. E que consigamos sair de nossas cavernas escuras e cheias de sombras que julgamos serem a verdade absoluta para nós - e para a vida, a bem dizer...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

... e pensou...

Acordou e olhou para o lado. A cama estava vazia. O coração? Cheio de memórias. A mente? Repleta de insegurança. Ele estava só e aquilo fazia a ele um grande mal. Saiu da cama. Vestiu-se. Fez um café. Avaliou as nuvens no céu para antecipar se choveria ou não. Optou por sair sem o guarda-chuvas. 

Fora de casa, cruzou com um casal vizinho de velhinhos. Os cumprimentou e foi correspondido. Ambos responderam ao mesmo tempo. Ele divagou um pouco sobre aquilo. Nos casais de longa data, acaba que um se torna o outro, o outro se torna o um a ponto até de responderem da mesma forma, ao mesmo tempo, um insignificante ''olá!''. Ele deliciou-se ao ver-se pensando no amor. Viu-se num futuro com uma mulher amada ao lado. Passeando numa praça. Levando consigo suas memórias em conjunto. Cumprimentando vizinhos ao mesmo tempo, da mesma forma...

Ele saiu daquele devaneio meio confuso. Estava já meio atolado em memórias de solidão. Não se via mais com alguém devido suas tantas inseguranças e medos? Ele nem arriscava mais novos amores. Havia perdido o amor que tanto amava por erro pessoal dele... Ele errou! Não costumava se perdoar. Pensou naquilo tudo e pensou de novo...

Parou de pensar em amor, em futuro. Dedicou-se a pensar no hoje. No dia que corria. Então, lembrou-se do boleto no bolso a ser pago. Entrou num caixa rápido e pagou sua conta. Saiu dali algo mais pobre, mas não menos triste. Sabia já que pensar em amor, para ele, havia se tornado um fardo.

Ascendeu um cigarro. Encostou-se numa parede e soltou alguns suspiros esfumaçados. Foram-se 1, 2, 3 cigarros sendo consumidos pelo fogo enquanto ele consumia-se em pensamentos. Viu-se novamente a pensar no amor, na sua solidão. Irritou-se! Jogou a ''bimba'' do cigarro no chão e pisoteou a mesma com toda força. Parecia que queria esmagar outra coisa. Enfim... Seguiu seu caminho e terminou seu dia sozinho como em todos os outros dias recentes de sua vida vazia de amor (ou sentido?).

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier