quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Escolhas

O dia de ontem, às vezes, pode nos parecer distante. Mesmo que poucas horas dele nos separem, sua bagagem de contextos pode, por vezes, afastá-lo de nós de forma um tanto quanto tempestuosa e, por isso, traumática. Lembranças, dores, sorrisos, abraços, beijos e alguns "adeus"ou "até logo" soltos... Passam as horas e o ontem, então, vai-se de nós embora com as pessoas que nos chegaram e que de nós se foram embora... Parece ontem quando não mais a vi... Parece ontem quando não mais a quis... Ou não mais nos quisemos um ao outro, pois sempre há duas versões para cada lado da mesma moeda. 

Há inúmeras desculpas ou explicações para despedidas e términos... Relacionamentos são assim: presente ou passado que nos pertencem. Mas, nosso engano, e sonhar e criar expectativas quanto ao futuro. Do futuro? Nada sabemos, pois ele ainda não está conosco e pode até mesmo nem existir tal qual esperamos de forma esperançosa ou, por vezes, de forma um tanto angustiada...

O ontem traz consigo por vezes uma paz que gostávamos, ou um abraço aquecido que abrandava-nos, um beijo molhado que trazia a nós o conforto e a totalidade da presença dela... Sim, o corpo a corpo que nos plenifica! Mas o dia de ontem também, hoje vejo, não mais me engano, era repleto de dores caladas pela esperança do amanhã juntos... 

Todas as dores, em meio a abraços e beijos, desaparecem por um todo se damo-nos aos braços também da esperanças e dos sonhos de um futuro que ainda não existe, é fato (e pode nem existir!). Éramos dois juntos, sim, aos olhos alheios, mas não um casal, uma dupla real, pois um não completava o outro. Um não preenchia o vazio do outro. Apenas hoje sei e hoje esse é meu presente e hoje isso é meu futuro de ontem. Há um sutil ensinamento nisso... 

Distanciamos por vezes da pessoa amada estando junto dela todo o tempo de todos os dias. É a distância que mais dói. Quilômetros podem transpor um casal que se afasta territorialmente, mas nada supera o afastamento de dois corações distantes, mesmo, todavia, estejam materialmente perto. Há dores que nunca calam surgidas disso. Chega então um derradeiro momento: a hora de partir ao futuro solitário. Felizes daqueles que conseguem tal conclusão inconteste em tempo hábil. Mas o coração por hora atrapalha a mente, mesmo que sã. Esperanças? Plantei-as num jardim que hoje vejo: é seco e sem flor alguma. Aquele jardim era mesmo fadado a uma colheita vazia.

A solidão nos atormenta, por isso, muitos caem na falácia do amor falso e confortável. Relacionamentos fadados ao fracasso que são sustentados pelo medo da solidão ao dia próximo e pelo medo da solidão aos olhos alheios. As pessoas têm medo de ficar sozinhas! Eu já tive tal medo. Não mais o tenho! É como um monstro da infância que não mais existe. Em meio a isso, pode chegar a hora em que nos vemos e sentimos de fato "sozinhos", embora acompanhados estejamos de alguém e digamos isso em sorrisos falsos ao mundo. Esse alguém que dizemos amar, assim dizemos para sustentar o laço falso do amor (já distante e apagado) que nos é confortável saber que é visto pelos olhos alheios atentos. Temos medo de estar só a eles, aos outros, mais que por nós mesmos, é fato.É fato? Acho que sim! 

Antes de ser um casal, precisamos ser dois diferentes que se complementam. Caso isso não ocorra, caso não haja um sentimento (aquele que é sem nome e somente os que amam de fato o têm!), tudo é fadado à infelicidade, chegue ela hoje, amanhã ou, permanecendo no engano, até o fim, carregando -a já desde hoje,.. Daí, um adeus dado na hora certa é a melhor solução que um beijo que sabidamente será correspondido, mas sem o amor que esperávamos; ou um abraço dado aos braços daquela pessoa que internamente sabemos não nos pertencer, não nos completar. Amor é aquilo que faz-nos completar a ausência da parte do todo que esperamos ser, mas nos falta. Amar é estar completo, pleno! Estar completo é sentir-se bem, é achar tudo na vida belo - mesmo que distante, mesmo que ausente esteja o objeto do amor fisicamente. Disso, vê-se que quilômetros territoriais podem ser tolerados, mas distâncias afetivas, corações afetivamente separados, não conseguem sustentar-se juntos sem sofrimento... O peito resolve então calar a batida torta do coração palpitante que tenta negar a atenção dos olhos alheios observando a plenitude que inexiste. Cabe a nós saber quem está conosco e o que ela é quanto ao todo que sonhamos ser, pois, caso não seja parte de nós, mesmo que seja redundante dizer: não nos pertence! 

Por vezes, entretanto, bem no fundo de nossa alma, surge algo que nos diz: "segue em frente". Daí então cabe-nos insistir! Pois outra dor (e talvez pior seja) é perder aquilo que nos pertencia, nos completava, mas não mais está nem estará conosco, pois erramos. Escolhas, a vida nos cobra sempre! Também nos cobra coragem! Cabe a nós saber o que queremos e o que nos falta. Essa é a missão do coração que bate sustentando a vida que, num outro alguém, há de se completar, mas os olhos por vezes estão cegos. É necessário saber enxergar, às vezes mais que apenas sentir!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Negativas


Não ao comunismo!
Não ao comum, à esmo!
Não ao comum abismo!
Não a ti e a mim mesmo!

Não a nós!
Não aos outros!
Não há nós...
Não há outros...

Não há nada!
Não há o todo!
Tudo é nada!
Tudo é lodo!

Tudo é rastro...
Caminho que se perde.
Tudo é pasto
Infinito, que não se mede.

Somos poucos...
Somos nada....
Somos roucos,
Alma calada!

Não ao homem!
Não à mulher!
Não ao ontem!
Não ao que vier!

Não a tudo!
Não ao caminho!
Não ao que é profundo!
Sim ao que é sozinho!

Não ao coletivo!
Não ao que é do povo!
Não ao antes redivivo!
Não ao que há hoje de novo!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Antes de partir


Caso tudo se te mostre difícil quando resolveres amar, ame assim mesmo. Não te aflijas, nem chores, nem te sintas jogado, à esmo. Às pessoas que te são importantes, haverá amor a ser dado, mesmo que delas nada recebas. 

A falta de amor, por vezes, se faz pior que a morte? Sim. Há toda uma verdade nisso. Digo e repito: há! Porém, se te fizeres frio e calculista como todos à sua falta se permitem ser, quão diferente deles tú serás? O que poderás deles dizer?

Faças para o entorno aquilo que te cabe. Justifique o amor amando! Não negues doar amor caso o mundo te esteja negando. Ame, acima de tudo, pois amor é sentimento a ser dado de graça, sem dramas, sem pirraça... 

Amor é sentimento a caminhar por tapetes vermelhos. Não cabe dentro de nós quando existe, nem pode-se destiná-lo apenas aos espelhos. Ame a todos, não apenas a si! Viva amando antes que te chegue (ou chegue aos que te são queridos) a hora de partir.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Amor ao mundo, amor no mundo


Amo às pessoas com todo amor que há de se ter.
Amo às pessoas que há e as que ainda hão de haver.
Amor é sentimento puro, inconforme, sem destino certo...
Amor é para ser dado, doado a todos que nos tenham perto.
Reter amor? Quem ganha com isso num mundo em desespero?
Amor é na verdade, à todas as coisas que há, o melhor tempero.
Quem vive em amor, vive sorrindo como se tudo fosse lindo...
E quem amor não tem? Vê coisas e pessoas, de si, partindo.
Amor é uma parte do todo que Deus fez criar-se por aí...
Mas há Deus ainda? Fica, nas coisas, a dúvida em si.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 19 de outubro de 2014

Encolhido

Deite-me sozinho, calado, na cama triste. A solidão ocupando mais da metade do espaço que havia ali. Arredei-me para o lado, encolhido. Era assim mesmo que passava tempos dormindo, apequenado, esgotado. A cama acolhia-me num sem fim de possibilidades de não fazer nada, não ir a lugar algum, não ver quem quer que fosse, não existir para além da possibilidade de fingir-me inexistindo. 

Deitado, no silêncio e escuridão do quarto, nada havia, eu não era nada, tudo era nada e nada importava... Era eu ali num berço de águas passadas que transbordavam em mim, sem esperanças de futuro... Deitado encolhido na cama doravante intitulada "nossa", hoje, apenas "minha". 

Em outros tempos, poderia eu externar tristezas chorando, maldizendo a vida, as coisas... Mas de quê adiantaria? No silêncio do quarto, em horas passadas de lágrimas caídas, de lamentos jogados às paredes já sem retratos pendurados, éramos eu e o vazio apenas o que existia. Nada adiantaria nem mudaria em algo. Restava apenas dormir, calar, seguir encolhido e respirar esperando ser a última respiração. Só que não! 

Coração ainda batia, respiração ainda havia... E, disso tudo, o peito jazia calejado, calado. Era tudo quanto havia no mundo: o quarto escuro, sem sentido, eu, a cama e a solidão. Apenas isso!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Insônia


Estive acordado em noites sem fim,
Incontáveis, que deram-se em mim.
O passar do tempo ruía algo no peito.
Passavam-se horas e eu, sem jeito,
Virava de lado a outro tentando dormir.
Busca incansável para ao descanso partir.
De alma inquieta, pode-se chegar ao sono?
Apesar de pensamentos loucos, tantos, sem dono,
Somando-se, desmedidos, sem início ou fim,
Haverá para além da noite descanso para mim?

Deixo de pensar. Paro, mas não estou quieto.
Descubro que há em mim um elo incerto
Entre o hoje, o passado, o amanhã; o porvir...
Eis então que surge a insônia; o sono faz-se partir...
E, de outros mundos, meu descanso se ri de mim.
De lá, em me vendo, deve pensar algo assim:
"Pobre homem tolo, inquieto, não aprende?"
"O ontem que passou, é morto, não entende?"
"O amanhã, incerto, está longe, está ausente."
"De tanto pensar no tempo, há de tornar-se demente."

E eu, em sabendo disso, rio sorrisos loucos.
Sei algo de mim, mas nada sobre a noite! E, aos poucos,
Ela passa, termina e fico eu junto ao dia recém chegado.
O sol brilha, o galo canta, a lua desce e eu, endiabrado,
Sigo acordado a viver mais longas horas pela frente.
Insônia? Sim, há de tornar-me cedo ou tarde demente.
Dessa forma, cedo ou tarde, dar-se-á em mim tal feito.
E eu, acordado, sem saber-me de cérebro desfeito,
Terei enfim promissoras longas noites em sono profundo,
Sabendo que, louco assim, nada mais importará no mundo.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Quem de nós?


Quem de nós pode conter o passar das páginas do livro da vida?
Quem de nós haverá de vencer a morte, a derradeira despedida?
Quem de nós poderá trazer uma alma de volta, a pessoa querida?
Quem de nós poderá vencer medos e ansiedades que vergastam a ferida?
Quem de nós terá suspiros sãos e alegria nas mãos, a despeito da alma doída?
Quem de nós será escolhido pelo riso do outro que nos abrilhante a vida?
Quem de nós sairá do chão, vencendo a dolorosa queda, secando a lágrima caída?
Quem de nós terá em seus filhos, no amigo, o herói em alma de luz ali retida?
Quem de nós será mais que um simples corpo a andar pela Terra, sem vida?
Quem de nós? Quem de nós? Fica a pergunta calada, inquieta, ressentida...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Comensais


Não quero pensar. Muito trabalho daria! Prefiro ser um "pensador comensal". Isso sim! Um comensal das informações prontas da mídia. Seria melhor optar por isso! Mais fácil adquirir um "miojo"de informações pré-moldadas, pré-prontas, e pronto! Trabalho demais daria uma busca precisa pela verdade. Prefiro ser um comensal e vomitar a massa de informação "deglutida" caso me cause nojo!

Antes, todos os cidadãos circulavam pelas cidades até encontrar rodas de conversas, ou em botecos, ou em praças, estavam lá rodas de pessoas. Discutiam, debatiam, cresciam juntas. Respeitavam-se, acima de tudo - não vivi isso, mas imagino...! Ser diferente não necessariamente era problema. O que importava era ser respeitoso! Porém, hábitos de rodas de conversas, rodas de pessoas em locais públicos, passaram a ser ilegais. Sim! Por muitos e muitos anos. Daí então, penso eu, o brasileiro desabituou a pensar em grupo! Desabituou a discutir respeitosamente, pois nem mais discutia. O brasileiro passou a receber "vômitos" de informações mal trabalhadas, ou mal "digeridas", por (chamados assim) jornalistas. A TV (os telejornais em geral) passou a ser a fonte de aprendizado, fonte de busca da realidade, da verdade... As rodas de conversas acabaram definitivamente!

Surgiu também o telefone! Aproximou as pessoas antes tão distantes. Sim! E as cartas? Ah, as cartas... Tantas foram elas na história. Notórias, de notórios pensadores, já foram escritas. Hoje, cartas são apenas aquelas que nos enviam cobrando quer sejam dinheiro ou obrigações. Não mais trocamos cartas de pessoa para pessoa, de mente para mente, de coração para coração. As cartas morreram ou fomos nós? Enfim, as cartas praticamente inexistem...

Surgiu também a internet. Sim! Aproximaram-se ainda mais as pessoas distantes. De forma cada vez mais barata, é fato... E barata, não apenas no sentido de preço. Coloca-se na internet o que bem for entendido como necessário. Mas, e o crivo? A mente do usuário do computador. Sim! É ela o crivo! Alguns ainda têm mentes pensantes, dignas de postar isso ou aquilo, serem seguidos nas redes de twitter, facebook etc; compartilhando, discursando em públicos nacional e internacional dessa forma. Dignos, mui dignos, jornalistas de peso, pensadores de peso, cidadãos de peso há por aí... Porém, comensais utilizam-se desse mecanismo assim como esses. Sim, comensais da TV, da mídia! E desse teatro demoníaco traçado por mentes que interessam-se pela estupidez humana generalizada, o circo social segue... "Vômitos" de informações por todos os lados. Aonde iremos parar?

Fez-se do advento das tecnologias um imenso, enorme, grandioso (para ser o mais redundante possível) passo à humanidade. Porém, somos comensais! Ingerimos mentalmente "miojos" de informações pré-prontas, pré-moldadas, de qualidade "nutricional" muito sabidamente duvidosa... Habituamo-nos com isso. Mas quem se importa? Nossas casas estão respingadas desse vômito. Nossa sociedade também... Discursos cegos, surdos, mudos, para mentes cegas, surdas, mudas... Somos ocos? Somos pedras? Somos tolos? Somos alguma coisa ou são alguma coisa em nosso lugar, por nós? Não sei. Enquanto isso, vomito.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Amarga vida


Pai, tú vês essa gente esquecida, tão cansada,
Largada ao pó da estrada, caminhando em frente?
Pai, tú vês esse povo largado, abandonado, à esmo,
Jogado à Terra como coisa pouca,
Que de tanto implorar, traz a voz rouca,
Querendo de Ti, Pai, algo para si mesmo?
Consegue, Pai, acordar e ver os ossos expostos,
Os corpos esguios, finos de desnutridos, Pai?
Vês com Teus olhos as lágrimas que caem das mães
De filhos perdidos nas drogas, jogados nas rodas
De tiros entre gente grande e pequena nas favelas?
Tribos distintas, Pai, embora não sejamos índios.
Caciques por todos os lados, e o povo seguindo à esmo...
Sim, sozinho, abandonado e de fato, apenas por si mesmo.
É de Ti, Pai, que todos esperam dádivas, bençãos, curas
Pois de cá, Pai, pouco sobra, ninguém se importa, sobram juras
De que um dia alguém irá traçar futuro a eles!

Esse povo parece gente morta, que ninguém quer ver, Pai.
Certa vez, acreditei que tudo estaria caminhando...
Que o rico estaria se lembrando que o pobre sofre; isso é...
É verdade, Pai, sofre tanto, que de canto em canto,
Pede socorro e lhe dão esmola. Pois faltam-lhe saúde, 
Moradia, escola... Falta tudo, Pai, na Terra que criastes...
O homem daqui, não venera a Ti. O que é da fé, esvai!
Ai, como dói saber-me humano, Pai!
Verena o dinheiro, o poder, conforto, riqueza.
Não quer saber do pobre, Pai, nem resolver a pobreza.
Pobreza é sinal de preguiça, dizem eles.
O governo nada tem que cuidar disso.
A riqueza é que tem de ser mantida, aumentada.
Para quê distribuída, repassada? O pobre, Pai, que se lasque!
Tudo dado a ele, é populismo. Tudo dado ao rico, é meritório.
O dinheiro segue em bancos, aos tantos, enterrado sem velório,
Enquanto aqui e ali há um pobre explorado para encher um prato farto.
Deixe, Pai, que o mundo acabe.
Ou deixe então, Pai, que levem os pobres daqui.
Já sofrem demais, pois ninguém vela por eles, Pai.
Estão todos apenas esperando por Ti.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Amarga vida II


O dia de hoje é sempre irrelevante. Será sempre,logo, logo, ontem, e o ontem sempre morrerá. Passado é terra morta que se esquece. Somos feitos para o amanhã.

No amanhã, depositamos esperanças, projetos, expectativas. No amanhã sempre guardam-se ações de nós e dos outros; surpresas por isso! É inabitado, inacabado. O hoje, entretanto, é habitado por nós, habituado conosco. Vira passado logo após o passar de meras 24 horas; morre com isso em tempo ligeiro. Veja, estou falando tolices de novo...

Não quero que me guardem no passado. Não quero ser presente de ninguém. Quero, se me for permitido, ser futuro de quem assim o quiser num retrato de saudade. Como? Causar saudade por não ter sido de ninguém, nem ser também memória de alguém. É o presente que fica da morte precoce, da despedida: permanecemos eternos! Ninguém sabe o que seria do nosso amanhã e cada um, com isso, plasma em sua mente uma história para nós; cria, recria, e surgem mares de saudades desse cenário de esperanças e expectativas. 

Feridas da vida, amarga vida. Perdas do ontem, do hoje, deixadas no eterno pelo sonho do reencontro no amanhã. É o que fica de certos "adeus" que somos obrigados a dar. A morte, sim, vira passado, mas a pessoa é futuro, pois permanece num retrato de memória, como expectativa de reencontro, de futuro. Vivemos pelo amanhã e seremos eternos apenas nele, nunca no hoje.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Abismo


Não voto Aécio. Dilma também não.
Descrente na mudança, fico calado!
Opto por seguir sabedor do fado
De mais quatro anos de corrupção.

Azuis, vermelhos, quantos deles valem?
A oposição sempre diz-se resolutiva!
Enquanto opõe-se ao regime, é altiva,
Mas no poder, espera que todos se calem.

Ainda bem, temos pouca memória...
Ora culpamos a situação, outrora a oposição...
Enquanto isso, o que temos? Falta de opção?
Mal sabemos nós quão tosca é nossa história.

Governos populares? Para quê servem?
Novos candidatos, vencer a mesmice: quem quer?
Melhor será escolher aquele que tiver
Mais cara de mocinho da novela que fazem.

Quantos partidos há? Todos sabem?
Precisamos deles todos para escolher?
Há corruptos demais para se esconder...
São tantos que em 2 ou 3 não cabem.

Melhor será seguir radiante, fingindo otimismo.
Azuis, vermelhos, pretos, amarelos, quiçá?
Há na verdade a falta de um povo, isso que há!
E sem sermos povo, somos gado rumando ao abismo.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Querer


Quero que a vida  curse sem medos. Que os dias tragam, como sucessivos segredos, novas coisas e bençãos aos olhos e sentimentos meus.

Quero desfrutar de dias de paz, de sono tranquilo... Quero saber-me portador daquilo que faz sorrir os sorridentes do mundo... Quero aprender a não me importar com nada -não serei com isso superficial, mas, todavia, basta de ser profundo!

Quero saber doutrinar meus pensamentos para que eu descubra um novo eu que não chore. Quero viver cada dia como se fosse o último e que Deus aprenda a me ouvir antes do tempo em que eu implore.

Se Deus está presente e sobre os olhos dEle existo, por qual motivo tamanho desespero? É Ele que me testa ou sou eu que nisso insisto?
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 5 de outubro de 2014

Acocorado


Na ilha do desespero, quem sai de lá primeiro é o homem que viu-se na cruz. Matando e morrendo, refugiando-se do mundo, o homem sofrido sente as dores da morte que se-lhe faz jus. O homem sozinho sente. O homem sozinho, cala. 

O homem sozinho, demente, constrói em si fortaleza rara. Ninguém penetra a fundo. Qualquer sentimento antigo é findo. Morre então cerca de dúzias de vezes, por amores e desgostos ressentidos, calados ao vento nas dores que vai sentindo, num eterno indo e vindo que a natureza do ser lhe cobra. 

Tão vil é o tempo que se desdobra, tornando eterna cada hora do dia. E o homem sozinho transborda em si as dores que cala no peito transgredido onde o coração batia...

Correm as horas do dia eterno. Corre o eterno nas horas que passam. Passa a incorrer na escuridão, nas cores que vê o cego, correndo como cego, pois vê enxergando com a alma e com o coração...

Alma vazia, peito aberto... Peito arredio, sentimento incerto. Alma voraz que destrói o homem quieto, acocorado no canto como embrião, como feto...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier