O dia de ontem, às vezes, pode nos parecer distante. Mesmo que poucas horas dele nos separem, sua bagagem de contextos pode, por vezes, afastá-lo de nós de forma um tanto quanto tempestuosa e, por isso, traumática. Lembranças, dores, sorrisos, abraços, beijos e alguns "adeus"ou "até logo" soltos... Passam as horas e o ontem, então, vai-se de nós embora com as pessoas que nos chegaram e que de nós se foram embora... Parece ontem quando não mais a vi... Parece ontem quando não mais a quis... Ou não mais nos quisemos um ao outro, pois sempre há duas versões para cada lado da mesma moeda.
Há inúmeras desculpas ou explicações para despedidas e términos... Relacionamentos são assim: presente ou passado que nos pertencem. Mas, nosso engano, e sonhar e criar expectativas quanto ao futuro. Do futuro? Nada sabemos, pois ele ainda não está conosco e pode até mesmo nem existir tal qual esperamos de forma esperançosa ou, por vezes, de forma um tanto angustiada...
O ontem traz consigo por vezes uma paz que gostávamos, ou um abraço aquecido que abrandava-nos, um beijo molhado que trazia a nós o conforto e a totalidade da presença dela... Sim, o corpo a corpo que nos plenifica! Mas o dia de ontem também, hoje vejo, não mais me engano, era repleto de dores caladas pela esperança do amanhã juntos...
Todas as dores, em meio a abraços e beijos, desaparecem por um todo se damo-nos aos braços também da esperanças e dos sonhos de um futuro que ainda não existe, é fato (e pode nem existir!). Éramos dois juntos, sim, aos olhos alheios, mas não um casal, uma dupla real, pois um não completava o outro. Um não preenchia o vazio do outro. Apenas hoje sei e hoje esse é meu presente e hoje isso é meu futuro de ontem. Há um sutil ensinamento nisso...
Distanciamos por vezes da pessoa amada estando junto dela todo o tempo de todos os dias. É a distância que mais dói. Quilômetros podem transpor um casal que se afasta territorialmente, mas nada supera o afastamento de dois corações distantes, mesmo, todavia, estejam materialmente perto. Há dores que nunca calam surgidas disso. Chega então um derradeiro momento: a hora de partir ao futuro solitário. Felizes daqueles que conseguem tal conclusão inconteste em tempo hábil. Mas o coração por hora atrapalha a mente, mesmo que sã. Esperanças? Plantei-as num jardim que hoje vejo: é seco e sem flor alguma. Aquele jardim era mesmo fadado a uma colheita vazia.
A solidão nos atormenta, por isso, muitos caem na falácia do amor falso e confortável. Relacionamentos fadados ao fracasso que são sustentados pelo medo da solidão ao dia próximo e pelo medo da solidão aos olhos alheios. As pessoas têm medo de ficar sozinhas! Eu já tive tal medo. Não mais o tenho! É como um monstro da infância que não mais existe. Em meio a isso, pode chegar a hora em que nos vemos e sentimos de fato "sozinhos", embora acompanhados estejamos de alguém e digamos isso em sorrisos falsos ao mundo. Esse alguém que dizemos amar, assim dizemos para sustentar o laço falso do amor (já distante e apagado) que nos é confortável saber que é visto pelos olhos alheios atentos. Temos medo de estar só a eles, aos outros, mais que por nós mesmos, é fato.É fato? Acho que sim!
Antes de ser um casal, precisamos ser dois diferentes que se complementam. Caso isso não ocorra, caso não haja um sentimento (aquele que é sem nome e somente os que amam de fato o têm!), tudo é fadado à infelicidade, chegue ela hoje, amanhã ou, permanecendo no engano, até o fim, carregando -a já desde hoje,.. Daí, um adeus dado na hora certa é a melhor solução que um beijo que sabidamente será correspondido, mas sem o amor que esperávamos; ou um abraço dado aos braços daquela pessoa que internamente sabemos não nos pertencer, não nos completar. Amor é aquilo que faz-nos completar a ausência da parte do todo que esperamos ser, mas nos falta. Amar é estar completo, pleno! Estar completo é sentir-se bem, é achar tudo na vida belo - mesmo que distante, mesmo que ausente esteja o objeto do amor fisicamente. Disso, vê-se que quilômetros territoriais podem ser tolerados, mas distâncias afetivas, corações afetivamente separados, não conseguem sustentar-se juntos sem sofrimento... O peito resolve então calar a batida torta do coração palpitante que tenta negar a atenção dos olhos alheios observando a plenitude que inexiste. Cabe a nós saber quem está conosco e o que ela é quanto ao todo que sonhamos ser, pois, caso não seja parte de nós, mesmo que seja redundante dizer: não nos pertence!
Por vezes, entretanto, bem no fundo de nossa alma, surge algo que nos diz: "segue em frente". Daí então cabe-nos insistir! Pois outra dor (e talvez pior seja) é perder aquilo que nos pertencia, nos completava, mas não mais está nem estará conosco, pois erramos. Escolhas, a vida nos cobra sempre! Também nos cobra coragem! Cabe a nós saber o que queremos e o que nos falta. Essa é a missão do coração que bate sustentando a vida que, num outro alguém, há de se completar, mas os olhos por vezes estão cegos. É necessário saber enxergar, às vezes mais que apenas sentir!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier












