segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Olhos cegos


A matemática revolucionou o mundo. Milhares de anos após rabiscos principiantes nessa arte, surge como uma de suas consequências a tecnologia. Hoje, vê-se um mar de matemática banhando a realidade tecnológica que temos por realidade. Somos seres tecnológicos, talvez também possamos dizer: somos seres matemáticos.

Aprendemos a nos habituar com as consequências dos números. Aos cálculos. E, assim, como em contas comuns, números que entram e saem sem deixar saudades ou vestígios, passamos a ver o mundo. Na matemática humana do viver, entram e saem pessoas das ''contas'' diárias, sem que isso nos preocupe, nos cause dor, ou reflexão. São tantos números que nos são extraídos, ou melhor dizendo: são tantas pessoas que nos são retiradas, subtraídas, sem que isso nos cause qualquer resposta. Somos meros números num universo de matemática e numa Terra de tecnologias infindas. Deixamos o lado humano para arquivos pregressos de nossa história. Hoje habituamo-nos em ser máquina e tratar a nós mesmos, humanos, como meros números que entram e saem, sem qualquer reflexão sobre a existência.

Tantos que morrem por descasos infindos - da saúde, da educação, da segurança pública etc. Tantos que morrem por desistência do viver. Tantos que morrem ainda por fome. Tantos que morrem pela miséria que transpassa continentes... Ah, que matemática torpe habituamos a fazer e basear nela nossos cálculos do dia a dia. Um ser humano que morre é apenas um dado estatístico. É apenas mais um que será velado nos habituais e sem sentido velórios... 

Quando a dor do outro irá nos tocar? Quando as desigualdades irão nos mover e nos ativar o lado humano se é que ainda o temos? Quando ficaremos incomodados com as pessoas que passam frio, ou fome, ou sede, ou humilhações? Quando abdicaremos do conforto dos números somados em notas de dinheiro para pensarmos que a trajetória humana de tantos outros menos felizes que nós merece ser olhada, auxiliada, organizada, até mesmo ser gerida a desgraça deles? Quando romperemos o cordão umbilical que nos liga aos bancos? Quando romperemos a matemática das perdas humanas que nada nos comove? Quando veremos os demais do mundo como gente como nós, não apenas como números? 

Na vida real e no lidar financeiro, aprendemos a somar e adoramos multiplicar - a matemática financeira nos (co)move. Habituamo-nos com o subtrair (e isso não nos causa dor). E não sabemos o que seja dividir! É uma chaga que nos liga a um malfadado futuro de desigualdades perpétuas e a corriqueiros discursos verborrágicos pseudo-altruístas que não duram mais que na véspera do Natal. Temos os olhos cegos para a realidade que nos circunda. Apenas temos olhos para somar, multiplicar, copiar os erros prévios. Sobre repartir, distribuir? Isso deixamos quieto no sermão da montanha e com a reprodução teatral e falsamente comovida da encenação da morte de Cristo através da semana santa. Olhos cegos que não sabem ler aquilo que nos ensinaram, que não sabem enxergar aqueles que de nós precisam. Deus, tenha piedade de nós.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Montes



Acordou; rumou aos montes. Ergueu a cabeça acreditando ser o melhor a fazer. Estava acabrunhado. Esteve triste. Acreditou fielmente que não haveria jeito. Foi caminhar de olhos no horizonte, entretanto.

Deu passos rítmicos, quase simétricos. Habituou-se a agir como máquina. Não sentia. Tentava não pensar. Apenas fazia o que levava-se a acreditar ser o melhor. Tentava assim não sofrer. E, assim, caminhou, caminhou, tentando atingir os montes altos que seus olhos fitavam. Era um dia quente apesar do frio que saia-lhe de dentro. 

Centenas de passos após, lá estava ele ainda a fitar os montes, o horizonte distante que todos habituam-se a ignorar, afinal, andamos todos costumeiramente olhando apenas para baixo, para nossos pés, nossos respectivos umbigos. O horizonte é um mito aos dias de hoje; ele caminhava fitando os montes, apesar disso.

Milhares de passos após, pés cansados, mente enevoada de esperanças e dos medos de não valer a pena toda a caminhada, foi aquele homem andando e atingiu enfim os montes. Olhou bem para eles. Sentiu seus pés tocando o chão, o chão amparando seus pés. Era a fé que orientava a caminhada? Era a caminhada em si que orientava o caminho? Alberto Caeiro teria o que a dizer? Eram montes, ele sabia...

Subidos os montes. Atingido o objetivo, ele transpassou sua antiga visão e percebeu que havia inúmeros outros montes para além daqueles que atingira após milhares de passos sob sol escaldante. Exercício para a fé. Exercício para a razão. Exercício para a esperança, acima de tudo. Afinal, não faltam montes a rumar até eles. Concluiu que faltam motivos para caminhar, isso sim. Ele estava cansado e sem saber por que estava ali e não simplesmente olhando para baixo como todos os outros. Então, olhou para baixo, viu-se e perdeu de vista o horizonte.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 28 de dezembro de 2014

Calor


Olhei lá fora. Vi a paisagem assando. O sol, ditoso, queimava tudo quanto havia. O todo ficava ali, parado, esperando pela noite. Um refresco? Uma chuva? Quiçá caberia e haveria de chegar? Mas não, era apenas o sol e o calor que iam queimando tudo.

Muitos olhavam para a luz. Agradeciam. Clamavam pelo dia. Não eram eles que queimavam, talvez. Percebi então que o sol era luz e destruição, céu e inferno, deus e homem. Era uma dicotomia. A chuva, como tudo que é bom (aparentemente), passageira, era por uns esperada, por outros desdenhada, por mais alguns indiferente era sua presença. Chuva era um acalanto aos preocupados! A chuva era, portanto, como a fé. Uns a tinham ou queriam ter achando ser solução, outros nem tanto, outros nem tinham nem a queriam. Uns explicavam sentindo-se sabedores, outros ainda estudavam sobre ela. Uns atribuíam ciência à chuva, outros davam-lhe poderes misteriosos. Uns apenas a sentiam como Alberto Caeiro frente à natureza... A chuva era um manancial de interpretações para mim naquele dia quente, num mundo escaldado não por água, pela chuva, mas pelo sol endemoniado para mim naquele dia.

Sol queimando. Chão queimado. Chuva longe, mas chegando. O homem comum seguia preocupado e atarefado... Realidade insólita de se ater. Talvez seja o sol que queima meus miolos e deixa-me a divagar. Dentro para fora, entretanto, queimam também meus sentimentos, pensamentos. Qual chuva há de abrandar o fogo que me avizinha ou até mesmo me corrói enquanto penso, enquanto sinto? Não sei. 

O sol, endemoniado naquele dia, corroía o sossego dos cantos onde ainda havia algo de brisa fresca. A chuva, mal entendida, esperava o momento oportuno para cair, independente o quanto precisássemos dela ou a quiséssemos. A noite, branda, calma, porém escura, era o futuro logo ali, por chegar. Mais valeria então apenas deixar o sol queimar e contar o que sobrou à noite. 

Da brisa? Do sossego? Deixe aos ditosos tal qual o sol - que brilham, mesmo que queimem e façam doer aos outros. Nós, tal qual tolos, apenas seguimos confiando na chuva e na fé na natureza, ou em algo que há de existir além do calor que sinto, da brisa que passa, dos pensamentos que esvaem...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O que aprendi no ano de 2014?


Aprendi que pessoas podem ter tudo (casa, comida, esposa, filhos etc) numa vida aparentemente feliz aos olhos desatentos (como nos é habitual nessa sociedade egoísta), porém podem essas mesmas pessoas abrigarem um espírito doente, uma mente doente, uma patologia chamada depressão, doença essa extremamente incapacitante (talvez a mais incapacitante de todas!). Concluí de fato que não estamos atentos ao sofrimento alheio, apenas queremos atenção ao nosso quando precisamos. Além de tudo, concluí que essas pessoas tristes serão julgadas como fracas, como "doentes" no sentido pejorativo e nada construtivo. Afinal: quem quer ajudar alguém? Quem quer tirar um sorriso de um rosto habitualmente choroso? Isso é coisa de palhaço? Para mim, palhaços são sim mais importantes que médicos, que juízes, que políticos, afinal, onde há um sorriso espontâneo, há esperança, há luz interior, há saúde que transpassa os lábios abertos em gargalhadas. Que sejamos mais palhaços então - e mais atentos às pessoas ao nosso redor...

Aprendi que pessoas aparentemente felizes podem também sonhar com a própria morte, mesmo que isso contrarie as expectativas das pessoas ou uma aparente lógica que trazemos do viver. Podem de fato se matar até! Vimos isso com Robin Willians... Saudades eternas daquele grande ator. Aprendi mais ainda que o ser humano pode ser infinitamente cruel, afinal, após a morte desse grande ator, vi tantos comentários desdenhosos quanto à sua ''fraqueza'', sua ''doença'' etc - até pude adquirir mais substrato para descrer no homem após isso.

Vi que mestres também morrem, mas seus ensinamentos nunca. Despedi-me de Rubem Alves. Despedi-me de Suassuna. Foram extirpados do mundo ou levados até perto de Deus, melhor seria pensar assim. Acho que Deus está carente de pessoas boas no céu, afinal, ele têm levado tantas para junto dEle...

Aprendi que gera mais comoção social uma seleção perder de 7 a 1 que saber que, em nosso mundo atual, 1 em cada 8 pessoas passa fome. Um placar muito mais nefasto, mas estamos desdenhosos quanto a isso desde sempre... Afinal, o capitalismo nos educa a apenas querer ter poder, conquistar poder e posse. Os pobres? Eles que se virem, pois, para muitos, ser pobre é sinal de fraqueza, algo assim. Somos adeptos da meritocracia. Isso me faz rir, ou chorar, não sei... Mas, é uma triste realidade saber que somos regidos pela égide do egoísmo acima de tudo. Ainda sobre o assunto anterior, vi inúmeros comentários, debates etc com pessoas digladiando entre si sobre o tal 7 a 1, mas não vi nada sobre esse mapa grotesco da miséria humana. Estamos mal, muito mal.

Revi que ainda morrem pessoas de Ebola e conclui que ainda continuarão a morrer como há dezenas de anos já ocorria, mas ninguém nada fez, nem fará. Aprendi que bastou morrer alguém que não fosse africano para um pandemônio ser criado. Porém, a pandemia foi controlada, seguindo ''apenas'' africanos a morrer. Claro, ninguém mais preocupou-se, aparentemente. Entendi de fato que a indústria de medicamentos, de vacinas etc, não preocupa-se com a saúde das pessoas, ou do mundo, preocupa-se com o dinheiro que a doença pode dar. É mais um ponto falho do capitalismo e do ser humano quando juntam-se: a dor não "dói" se não repercutir em lucros.

Confirmei que o ser humano é a espécie que mais traz risco à própria humanidade. Espécie que mata seus iguais, que deixa-os passar fome e não se comove. Deixa-os morrer de doenças e não se comove. Deixa-os fadados à pobreza eterna que é trazida desde seus ancestrais que nossos antepassados torturaram e exploraram, mas não se comove... Ainda, revivi conclusões simples como: o homem não sabe jogar lixo no lixo; não sabe reciclar; não sabe economizar e proteger os mananciais de água pura; não sabe controlar seu consumismo. Acha que dinheiro pode comprar tudo e resolve tudo, porém, chegará o dia, dia esse profetizado numa frase tão bela, em que o homem entenderá que: ''dinheiro não se come''.

Descobri que heróis da infância morrem. Descobri que mesmo nunca tendo encontrado Roberto Bolaños, ele era para mim (e para tantos outros) como um ente querido. Causou sofrimento sua morte, confesso! Mas, ficou um legado: a arte pura não morre. Ficou também a mensagem: aquilo que é produzido com amor, tamanha pureza e boa vontade torna-se eterno, amado e nunca sai de moda. Valendo-me da frase célebre da obra dele, é fato: quem poderá nos defender? Não sei! Mas espero que em 2015 aprendamos a nos proteger uns dos outros, a amar uns aos outros, a tolerar uns e outros, bem como seus argumentos, respeitando sempre - vi muita atrocidade na nossa democracia nesse malfadado ano. Espero que aprendamos mais sobre aquilo que nos disse aquele que é homenageado em seu nascimento no Natal: Jesus. Porém, de Natal, preocupamo-nos apenas com os presentes. Será? Que em 2015 não seja assim.

Nasce Jesus todo ano e morre Jesus todo ano... Até hoje, entretanto, não entendemos nem um nem outro acontecimento e sua lição. Simbólico? Mitológico? Não interessa. Religião é uma espécie de filosofia que pretende nos tornar melhores, muito embora não a tenhamos usado para isso. Não temos sido melhores! A mesma sociedade que condenou e matou Jesus ainda existe, ainda é a nossa. Matamos heróis ou os deixamos morrer, sem nada fazermos quanto a isso. Cultuamos dinheiro, prazeres, nosso ego. No mais, resta esperar que o ano novo seja bom, desde que assim sejamos também. Afinal, o ano é apenas um emaranhado de dias. O real problema é o amontoado de pessoas que convivem travestidas em seu egoísmo como vestimenta nesse tempo que passa através dos calendários e relógios. Esse ainda será um problema? Talvez... Mas eu sou apenas pessimista.

Aprendi que não adianta criar expectativas. As coisas correm de acordo com uma lógica que não entendemos nem depende de nós planejar. Porém, mesmo assim, tenhamos mais amor, mais paciência, mais sapiência e boas intenções, claro. Sejamos melhores! Fique o desafio! Desconfio que não mudará muito, mas é pessimismo meu. Mas, confesso: nunca é ruim surpreender-se - por outro lado, é sempre péssimo criar expectativas...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Cometa...

Coloquei meus sapatos mais limpos, mais brilhantes e confortáveis. Saí de casa rumo à felicidade. Desliguei celulares, quebrei relógios, larguei o tempo em casa. Levei comigo apenas eu, minhas lembranças e uma garrafa de rum. Afinal, a vida pode ser dura enquanto sóbrio... A caminhada do desapego é longa - e dura também. Quem atinge a sorte de desapegar-se, torna-se rei de si, das coisas, usufrui da calma que Deus deu e retiramos, por nós mesmos, de nós.

Já na rua, caminhando de sapatos agora já nem tão limpos quanto estavam ainda em casa, vi pessoas, vi animais outros, vi carros apressados... Os deletei da visão voluntariamente. Queria caminhar só. Despi-me dos sonhos, das esperanças, da sorte e azar do passado. Fiz-me novo, a caminhar só!

Caminhei! Rumei ao infinito como barco que tenta descobrir novas terras, sem um norte além da fé, sem uma fé além da esperança, sem esperança além de não esperar nada... Sabe-se lá o que se pensa quando não se quer pensar em coisa alguma. 

Estômago rugindo de fome já algumas horas caminhando. Suores novos nascendo do corpo. Cansaço novo surgindo do organismo que saíra da tumba murada; sim, mesmo sujo, com fome, suado e cansado: eu sentia-me vivo. Nada de pensar demais. Nada de sonhar demais. Apenas caminhar e esperar que nada seja esperado; assim, espero eu, que tudo seja tido como novo, sem expectativas.

Não sei se volto. Nem sei aonde estou. Não sei aonde chegarei. Nem sei bem, ao certo, por qual motivo estou caminhando, afinal... Mas o que importa na vida, é fato, é ser estrela cadente que segue a perambular e levar consigo sua luz, seu brilho, mesmo que sinta-se sem caminho determinado. Iluminar! Sim! Que assim seja. Caso haja ainda algo de luz em mim: que brilhe. Se assim o for, quem sabe eu volto, reencontre a todos após encontrar a mim mesmo? Jornada longa, eu sei, mas chega a hora em que precisamos ser errantes tal qual cometa. Perambular no universo que nos é dado, palpável, de chão poeirento, sim, sujo também, conosco vertendo suor e lágrimas, mas buscando levar luz por onde estejamos indo. Isso sim! Ser cometa, mesmo que um dia, chocando-se com algo maior que nós, nos espatifemos...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

J...


Morreu hoje mais uma criança, um adolescente, um jovem inocente que tinha sonhos e esperanças. Nascem hoje: mais uma história triste, uma mãe triste, uma família triste... Eis então outro exemplo de alguém de bem que morre.

Deus deve ser muito convicto de si e de seus desígnios, orgulhoso... Deve confiar muito em que conseguirá recuperar o mundo, afinal Ele tem desperdiçado tantas almas boas, puras, inocentes, todas perdidas sem razão visível ou consolo aparente.

Por trás de cada rosto que chora a morte do ente amado, ficam as dúvidas, ficam as tristezas, fica a revolta. Deus quer o que de nós? Nós, dEle, queremos tanto, é fato, mas Ele não nos ouve mais. Deus saiu a galope pelo espaço e deixou-nos para trás.

Volte, Deus, enquanto houver tempo. Não se apresse por voltar enquanto a esperança ainda exista, pois ela acabou ou, no mínimo, já é difícil ser vista. Traga algo de bom! Se der sorte (ou caso se apresse um pouco), poderá ainda pegar aqui algumas pessoas de bem que restarem. Todas elas estarão sedentas pelo bem e pela paz que sonham.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sobre as pessoas e sobre ser uma esponja

Por vezes você pode se sentir uma esponja. Não se engane. Às vezes chega a hora na vida em que isso te fará pensar, repensar sobre você mesmo... Pare de pensar. É melhor! Pensar cansa e te acaba afastando das pessoas, tornando-te um ser solitário, amargo. Não pense! Mas, também, não se engane e definitivamente entenda: por vezes você pode acabar se sentindo uma esponja. Como assim? Explico:

- "há pessoas na vida que passam anos tomando para si as dores dos outros. Fazem isso, se o fazem por boa vontade, caladas, sem alarde, sem querer mostrarem-se esponja alheia! Fazem simplesmente tentando reduzir a dor humana do outro! Não preocupam em mostrar-se ajudando ninguém, mas chega o dia em que são cobrados por isso, deveras. Quando disse sobre esponja, disse sobre a capacidade que muitas vezes alguns têm de sugar para si as dores do outro, as carências do outro, as demandas afetivas e gerais do outro. Quem torna-se esponja, descobri e lhes conto, nunca pode passar por momentos de solidão, ou de carência - tão humana a esse ponto não pode uma esponja ser! As pessoas acostumam-se com o fato de você ter passado, por vezes, anos, ou boa parte da sua vida, ou, por vezes, sua vida inteira lhes servindo de esponja. As pessoas querem terceirizar seus problemas. Problema seu se você os acolheu em si! As pessoas irão cobrar de você aquilo que antes você sugava para si, amenizando o peso nas costas delas - as dores, as carências, as demandas afetivas e as outras demandas que você puxava para si. As pessoas não se importam com você, de fato, por isso, não espere que elas entendam quando você não mais conseguir ser uma esponja... E não culpe ninguém! Entenda: é característico do ser humano ser doído, ser carente, ser afetivamente doente e, acima de tudo, ser egoísta. O erro é seu se um dia você acreditou que as pessoas se importam com você e se não fez os outros de sua esponja."

Logo, caro amigo, se por algum momento na vida você se depare com a situação em que as pessoas simplesmente não entendem que você não é (pois não consegue!) ser mais esponja, pois você por algum motivo não está bem, pois você está precisando receber coisas e não "puxar coisas" dos outros para si, não se zangue, não se decepcione com elas: elas continuarão sugando de você o que puderem. Culpa sua e somente sua de um dia ter conseguido ser esponja! Se esse dia chegar: apenas siga! Lute para ficar bem logo e, caso lhe seja possível novamente ser esponja dos outros um dia, volte a ser... Mas não se apresse! Ser esponja é doído, mas ainda é o mais certo perto daquilo que as filosofias religiosas nos pregam, correto? Uma pena, claro! Porém, perceba: é o pior caminho para continuar sendo um simples humano, um comum qualquer, sofrendo por suas próprias carências, por suas próprias dores, por suas próprias demandas - quaisquer que elas sejam.

Estamos sós, sempre, mas é preciso aprender a atravessar a solidão - também sozinho! É a chaga de ser humano: saber-se só e, por vezes, mesmo tão bem acompanhado que te penses, verás que estás de fato só e sem a compreensão de ninguém - além, claro, de ainda ser considerado o errado da história...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


domingo, 7 de dezembro de 2014

Fidelidade


Se Deus, por algum motivo, quiser tornar-me ateu, terá de esforçar-se deveras, aos tantos, digo eu!

Fé ele me deu, embora também tenha dado meus prantos, mas quão especial sou eu a ponto de querer ser visto diferente dos outros que são tantos? 

Sou cá um fiel comum, e cada qual com seus problemas - todos a serem solucionados aos poucos...

Deus, é fato, dá fé e pranto. Dá colo através de alguém que se tenha ou, aos solitários, dá um escuro canto para o exercício do pranto. 

Da prece, surge a centelha de esperança que faz-se em manto a proteger o fiel de perder-se...

Ah, fé...! Ah, Deus...! Ah, pranto...! Por quanto mais haveremos de sofrer? Por quanto tempo? Por que tanto?
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Pássaro que voa


A vida vai nos mostrando, aos poucos, de quando em quando, que é preciso às vezes parar, esperar o tempo passar, seguir aguardando até que algo que nos seja belo chegue, permaneça, acalente a alma e o coração inquietos nesse nosso mundo em torvelinho. Digo isso (quando digo de esperar algo de belo que nos chegue...) sobre pessoas, sobre coisas, sobre situações. A vida, saibamos disso ou não (embora cedo ou tarde constataremos isso), é uma infinitude de oportunidades de se perder, mas também de se encontrar. De fato é, relembrando o querido "poetinha", feita da arte do encontro - "embora haja tanto desencontro pela vida".

Esperar! Esperar até que cheguem momentos de paz, de prazer, de amar, de sorrir, de abraçar, mas também de fugir e de chorar - sim, fugas e choros podem ser muito reconfortantes! Chorar por vezes é como um suor da alma, pois, vez ou outra, pegamos nossa alma em fuga. Como assim? Não estou louco. Digo isso, pois há momentos em que temos a alma tão cansada... Cansada de tanto fugir. Cansada de tanto correr atrás de respostas (ou de perguntas?). A alma já tão desanimada, derradeiramente inquieta e sem mais forças. Chegamos, a partir disso, ao ponto de, tal qual nosso corpo numa maratona (e, é fato, a vida é uma maratona!), "suar" pela alma - e o suor da alma é o choro do corpo, choro esse, então, advindo dessas buscas em que se embrenha nosso ser! Entendamos: esse suor é traduzido no corpo material como lágrima, portanto. Estranho? Sim! Mas é essa a conclusão que tiro - afinal, sou um ser estranho.

E, disso, eis que de repente algo aparece. Fato. "Tarda, mas não falha" é uma expressão peculiar - aos otimistas, é claro. Tenho tentado usufruir e trazer desse raciocínio algo para impulsionar o viver. Tal é o fato, então, que algo surge, ressurge, insurge dentro de nós e coloca-nos (cedo ou tarde!) de frente com o novo, com o choque, com o impacto dele por sobre nós causando aquela sensação, coisa sem nome, sem definição, que costuma-se sentir quando encontra-se o caminho que sonhávamos, a coisa que esperávamos, a parte que era ausente - após tempos de incertezas, de apreensões, de procuras em meio ao caos. Felicidade? Seria o nome dessa sensação, desse momento? Não sei o nome ao certo, mas deixo sem definir, pois felicidade é para poucos; é sorte ou não que se tem a alcançar. 

Guimarães Rosa disse que amar é a gente "querer se abraçar com um pássaro que voa". Isso também se faz por definição para a felicidade. Ser feliz é querer abraçar um pássaro que voa também! Seria então amor sinônimo de felicidade? Creio que não - mas já nem creio mais em tantas coisas. Também há outra passagem: '' passarinho que se debruça, o voo já está pronto''. Nessa pérola para reflexão, talvez estivesse intrincada nela a verdade de que: por vezes, é melhor mesmo parar, esperar para enfim alçar o voo desejado. Voar...! Metáfora essa que é linda, embora clichê seja. Por ora, então, apenas espero! Há de haver na vida algo mais que tempo que passa.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier