terça-feira, 28 de abril de 2015

Cumpriu sua sentença

Viver é estar dia após dia em decadência. Decadência essa que não cessa. Por mais que eu abra a porta e deixe de espreitar a alegria por trás de uma simples fresta, a tristeza espreita-me na retaguarda pronta para atirar-se por sobre mim e retirar tudo aquilo que me resta. Eis que a morte surge nesse dia! Afinal, a morte urge. Viver é nada, já disseram...

Viver é acabar-se ao longo das horas. É destrinchar os órgãos vitais como quem luta por sobreviver apesar de saber-se futuro defunto. Decerto, somos todos, sim, "cadáveres adiados" conforme diria Pessoa. Mas o que de mais belo há para além dessa realidade fria? Que viver é também a arte de entreter-se, embora isso seja enganar-se, como quem no âmago do próprio ser convence a si mesmo de que não morrerá e tudo passa a ser tido por eterno. O sonho de deixar marcas pelo mundo. O sonho de nunca morrer. O sonho de ser sempre jovem tal qual Peter Pan. O sonho de haver uma porta que se abre após o último fechar dos olhos com o suspiro derradeiro da morte. Decerto, sonhar em nunca morrer e justificar a vida que existe hoje é o que há para ser feito, afinal por qual motivos haveríamos de pensar em céu e inferno?

Eis que dia após dia consumimos nossas células e nossas energias esvaem-se como que gota a gota. Na decadência do ser que somos, nessas sociedades que habitamos fadadas à derrocada, competimos conosco próprios em relação ao ontem tentando provar para nós mesmos que a decadência inefável está ficando para trás, sendo esquecida ou até mesmo vencida, deixada sobreposta e derrotada por nosso progresso diário, fruto de nossos esforços de sobrevivência. Triste e pueril constatação é a nossa quando pensamos estar enganando a morte, lutando com tanta ênfase para estarmos vivos... E o que seria então o morrer? O cumprir de uma sentença, fato é. Já diria João Grilo na obra célebre de Suassuna: "cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre".

Viver é estar constantemente em decadência e, paralelo a isso, em luta pela sobrevivência. Viver é estar dia após dia mais próximo da morte, futuro certo - triste, mas inegável fato. Viver é estar dia após dia perdendo coisas e pessoas na estrada incerta e inconstante do existir. Viver é tentar entender o que há ao redor, sempre, até que os olhos, já tremendamente cansados de olhar, acompanhando o corpo carcomido pelos anos, percam-se no horizonte que jaz em escuridão enquanto entregam-se ao que há de vir para além do último suspiro.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Que Deus nos ajude

E aquela história em que os tempos de outrora eram mais belos e fáceis que os dias de agora? Quem mais nele vivia que não nossos antepassados que na época havia? O hoje é produto de seus atos, inclusive, e disso haveremos de lhes ser gratos. Mas há o que mais por ser dito que não, no máximo, "obrigado" ao somatório dos fatos?

O hoje é sim esse somatório de atos e fatos, ações produzidas e reproduzidas, de tempos longínquos e recentes. Atitudes honradas bem como atos indecentes: tudo quanto havia (e fizeram: ontem ou hoje) fez-se no tal somatório que nos é o todo que temos. O presente, tal qual agora vemos, é um passo além dado já desde antes. Assim tem que ser! Somos espíritos, seres errantes, e seguimos esse passo já dado rumo ao próximo que será iniciado adiante - sempre adiante.

A história há de nos condenar ou absolver, independente dos esforços que façamos pelo nosso conforto de agora. Os julgamentos que fazemos por ora, nada valem, pois com eles caminhamos pela vida atual que há lá fora. Devemos aguardar o retorno de nossos antepassados e seu reencontro conosco. Quem sabe assim eles possam ver se de fato fizemos o mundo melhorar, tornando a realidade um horizonte cristalino e não mais o vislumbre disforme por detrás de um vidro fosco - que ainda por ora temos.

Assim, quando todos puderem ter ido e vindo, atingido na Terra seu maior potencial, talvez sejamos dignos de agradecer a Deus e tal, mas antes de mais nada Ele também há de nos agradecer, a saber. Cabe então lutar para, dia após dia, fazermos com que mude - na nossa realidade ainda fria - aquilo que mata e consome em dores os tantos que sofrem - já desde antes, mas sem que ainda alguém os ajude. 

Quiçá no futuro, além do hoje que nos aturde, onde todos de novo nos encontraremos mais ou menos radiantes, possamos de olhos novos nos honrar por aquilo que fizemos! Mas antes de tudo, antes de reclamar agora, cabe-nos atentar - já desde hoje - ao que fazemos. Vamos embora então trabalhar, atuar plantando o bem. E que assim o mundo mude! Basta começar por isso: que nos atentemos - e, assim sendo: que Deus nos ajude!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 26 de abril de 2015

Povo brasileiro

Quero terceirizar a minha sorte a um qualquer.
Que seja a um homem novo ou àquela velha mulher.
Afinal, o que sei eu da realidade que me avizinha?
Por nada me interesso e do país sou erva-daninha!
Sou do povo acostumado ao latifúndio, à burguesia...
Penso: pobreza é nada. E riqueza? Meritocracia!
Sei das coisas todas nada mais do que me falam...
Quero o resumo da realidade, e os jornais me calam.
Finjo que entendo qualquer coisa a partir disso!
Começa a novela, esqueço a política - não sou disso.
Sou brasileiro e tenho orgulho, afinal é lindo ter.
Pra ser um hipócrita confortável, tive séculos para aprender.
Ao fim de tudo, apenas peço: me entreguem um bom salário!
Que a mim não falte nada - meu sacrifício não é vicário!
Ouvi na missa: "tantos morrem de fome, quem deles cuidará?"
De nada me interessa - apenas sei que esses tantos há!
Mais fácil ainda: desconsidero! Aprendi: quem esquece avança...
Afinal, ficar pensando nos outros para que? E a esperança?
Que tragam-na os sofredores na tal volta do Cristo.
E não me retirem meu dinheiro, peço hoje - aos berros insisto!
Sobre os que passam fome: quem está preocupado?
Eu muito menos estaria, afinal já me digo um coitado.
Meu sonhos de ser europeu estão a cada dia mais distantes...
Em sonhos, vi-me na Europa, mas ao abrir dos olhos: sou brasileiro como antes.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 9 de abril de 2015


Às vezes me sinto tão burro, mas tão burro, que quase esqueço que na verdade nunca fui inteligente mesmo.

Seguir a vida


Por detrás dessa pessoa a qual me vejo, sozinho, numa alma que segue um qualquer caminho, perco-me no tempo que de mim e por mim passou tendo-me em total desalinho.

Deixei-me levar, intranquilo, permitindo perder-me daquilo que era eu - mas não fui mais, adiante. Seguindo calado, aquietando em mim uma fera assaz solitária, percebi quão atroz foi - e arbitrária! - a decisão de acreditar-me forte.

Pensei que seria fácil vencer os medos que ameaçavam e, com sorte, saberia um dia que fui dono de mim, por assim dizer. Hoje caminho calado, deveras, ansioso mais que antes, cabisbaixo em pensamentos reentrantes que consomem o resto de paz que habita em mim.

Sendo assim, não mais quero viver sozinho, nem tampouco viver a caminhar "de fininho", como dizem. Assim foi como até hoje vivi e nesse hábito me perdi.

Quero ter ao lado uma alma amiga... Enxergar alguém como pessoa querida e que ela dê passos, mesmo que trôpegos, comigo. Quer seja essa figura uma amada, um parente, um amigo, quero saber-me acompanhado de quem quer que seja. Consigo?

Quero não apenas ser como tem sido: eu, acompanhado de mim, condenado a viver comigo - sozinho a desbravar o mundo que por ora vejo e meu mundo de outrora, passado recente ou antigo.

Quero servir ao exército de gente que vive aos pares ou aos montes por esse solo imundo! Gente que sorri sorrisos largos como se não enxergasse esse desespero profundo que temos por mundo.

Quero mais que tudo amar num amor imenso! Quero sentir que ao mundo lá fora eu pertenço mesmo que a sofrer eu veja-me propenso. Antes de tudo quero que eu aprenda estar apto a sorrir!

Quero que em minha existência, por atuações e tantos ensaios, eu faça-me preparado para o momento derradeiro, o clímax, o final da peça de Deus que encenamos: o morrer! Sim, afinal não basta-nos viver, mas precisamos, antes de tudo, aprender a esperar a morte! 

Quem esquece que irá morrer pode até ser tido como "de sorte", mas eis que sua hora chega e a despedida que se avizinha ameaça a paz daquele que era tido por "forte". 

Eis-me aqui, fraco e carcomido, acompanhado hoje, ainda, apenas de mim mesmo e, comigo, sigo na esperança de encontrar alguém no mundo. Em tendo encontrado esse alguém, quero sair desse abismo profundo que cavei em mim e fui ainda além... Afundei, cavando, minha visão da vida, não apenas de mim. 

De tanto cavar, cá estou eu em meio a um lamaçal de esperança carcomida. Disso tudo, tornei-me esse homem que hoje mal sabe (ou nem mesmo quer falar sobre) seguir na vida.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Teoria do máximo

Passamos a vida trabalhando. Passamos os dias somando lucros. Passamos todo nosso tempo planejando o que faremos com o que temos adquirido, nos dias de ontem e hoje, quando enfim atingirmos o amanhã. Com isso, vivemos para o amanhã! Pouco vivemos e usufruímos do presente e do passado - sendo esse último apenas um somatório de passos rumo a um futuro que pode nem chegar.

Habituamos à preocupação com riquezas cada vez maiores a serem acumuladas, afinal temos medo do futuro e poderíamos precisar delas lá. Correto? Pensando assim: as viagens que ainda faremos, a vitória contra as doenças que teremos, a fuga das intempéries da vida que nos virão, a solução da casa própria e o fim do aluguel ainda nos hão de vir, sim? Tantos sonhos para o amanhã! 

O que resta para o hoje? Quem vive o hoje de forma plena? Quem está por aí a dar-se o direito de viajar - deixando por isso de ganhar dinheiro? Quem está passando mais tempo de férias que alguns escassos dias - podendo usufruir da saúde que ainda tem hoje? Quem está por aí a dedicar mais tempo ao lar que ao ofício em horas de trabalho infindas - podendo estar mais tempo em casa junto aos filhos que por ora estão ali? Poderíamos indagar mais uma enormidade de coisas, enumerando, uma por uma, indagação por indagação...

Em nossos dias, todos habituaram-se a trabalhar ao máximo, ganhando o máximo, extraindo de si o máximo para num futuro poderem aproveitar ao máximo - sendo que esse futuro pode até mesmo nem chegar, assim como aquele filho pode nem mesmo estar mais no lar e aquele lar pode também nem mesmo existir mais. 

Ah, como tem sido triste ver o mundo e sabê-lo nos moldes que tem sido exposto às crianças de hoje. Enquanto o dia de amanhã for mais almejado e apreciado que o hoje, seremos fadados à infelicidade e às perdas de esperanças e expectativas. Sociedade depressiva, é o que temos e teremos.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O vômito


Estou enjoado, nauseoso... Quero vomitar. Posso? Acho que não! Vomitar é um ato tido como hostil, nojento, quase despudorado. Deve ser feito às escondidas... Sim? Infelizmente é visto dessa forma! Afinal: alguém não está bem do corpo ou está "passando mal", poderia-se dizer, correto? Sim. Mesmo dessa forma não perdoamos e fazemos cara de nojo...


Porém, nem só vômito sai pela boca das pessoas e chega a causar nojo. Poderíamos pensar o que das opiniões e tantos disparates que vemos por aí nas redes sociais, tendo por álibi a liberdade de expressão? Sim, há os que "vomitam" palavras pela boca! Hoje, com os ímpetos de curtir e comentar coisas na internet sem reflexão, dando opinião em tudo - mesmo sem entender a fundo da maior parte - tantos têm vomitado pela internet. Isso entretanto não é tão sabidamente hostilizado, ou tido por nojento ou ainda desprovido de pudores. Correto? Liberdade de expressão, diriam alguns... Afinal, que tenho eu a ver com isso? Que tudo vá para "o raio que o parta"...


Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 5 de abril de 2015

O cerne da Páscoa


A vida é dura para quem sofre. A vida é sofrida para quem é duro. Amolecer diante da vida, engrandecendo-se diante da dor. Tantos são os segredos da existência. Muito nos foi trazido pela imagem de Cristo e, a partir dela, anualmente recobramos a memória na forma da chamada Semana Santa.

É chegado mais um dia de Páscoa, então. Celebramos em encenações durante os últimos dias a morte de Cristo. Tamanha foi a injustiça em tal história, trazida novamente a nós na festividade cristã dessa semana. Sim, nossos ancestrais foram maus conforme vemos naquela retratação histórica, mas somos muito diferentes hoje? Caso Jesus nascesse em nossos dias, seria ele motivo de clamores de amor e abnegação ou os mesmos clamorosos apelos de ódio e ''justiça'' daquela era tão antiga seriam o norte? Creio que as chagas de maldade e ignorância daquela época ainda estejam arraigadas em nosso ventre enquanto sociedade. Sociedade essa que somos ainda demasiadamente insólita quanto aos ensinamentos transcendentais da figura de Jesus. Toda aquela história e todos os ensinamentos trazidos dela tão corriqueiramente encenados, mas tão pouco vivenciados e refletidos, trazidos à prática na forma de ações ao longo das nossas vidas. Ainda somos os mesmos daquela época? Quem saberia afirmar com certeza...

Tantas dores passamos, tantos golpes rígidos sofremos nessa vida e nossos antepassados nas suas respectivas existências. Mesmo com tudo isso, não aprendemos ainda a ser mais amorosos, mais leves e de coração amolecido diante das intempéries e catástrofes que ainda vemos no mundo. Há tanto sofrimento nas vidas ao nosso redor e nada dele vemos, pelo que podemos observar... Tanta tecnologia, mas ainda tantos pobres e miseráveis. Tantas mentes brilhantes, mas ainda tantas outras mentes (jovens e promissoras) vazias e expostas às atrocidades da violência num mundo sem aparente futuro à elas. Tantas fartura e produção industrial, mas ainda tantos estômagos que roncam dia e noite. Tantos filósofos do passado e livros de auto-ajuda atuais, mais ainda tantas crianças expostas ao mundo cruel dos dramas familiares e sociais que destroem seus sonhos bem como um futuro que lhes seria lícito. 

Ainda há muito a caminhar e muitas cruzes por serem carregadas por muitos inocentes devido nossas capacidades de ''lavar as mãos'' ao invés de agirmos com a retidão que poderíamos ter. Ensinamentos não nos faltam para sermos melhores, sejam eles encarados como religião ou filosofia. Falta-nos apenas superar o conforto cômodo da ignorância. Também seria importante se aprendêssemos que filhos de Deus somos todos, todos dessa única raça: a raça humana!

No mais, eis que Jesus morre em nossa frente novamente e ressuscita ao terceiro dia. Correto? Seria mais produtivo entendermos disso que de fato ele ressurgiu ao terceiro dia, mas para que se fizesse presente em todos os demais dentro de nós, guiando nossas vidas e mais ainda nossos atos. Ainda não aprendemos isso, percebo! Que a figura e imagem trazidas pelo Cristo ressurjam um dia em nós transcendendo as encenações e atingindo em cheio nosso cerne ainda cruel e duro que temos tal qual nossos antepassados tinham e até hoje os condenamos.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 4 de abril de 2015

O medo

Enquanto dormia, o homem fez-se criança. Entrou na terra dos sonhos e logo pôs-se como que em dança. Tudo parecia perfeito! Estava sujeito a temores há muito tempo. Alimentava ele próprio, por medos infindos que trazia, suas dores. Dormindo, tornava-se livre de tudo o que havia. Libertava-se do medo - erva-daninha pela qual jazia.

Acordou! E da terra dos sonhos saiu. Sentia-se refeito! Afinal, quem entrega-se aos sonhos avança quando traz para si esperança? Ninguém saberia responder, mas ele nem perguntava. Entendia apenas que: vencidos os medos, tudo almejado ele poderia alcançar... Era o que ele tinha aprendido dos sonhos! Porém, havia aprendido da vida coisas terríveis.

Foi só pisar novamente no chão do quarto que tudo quanto temia voltou à sua mente. Os medos voltavam. A falta de coragem corroía. A esperança que há poucos momentos havia, ao pisar no chão da real, morria. Sim, o sonho havia acabado ao retornar ao mundo e pisar na sua realidade fria...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier