quarta-feira, 29 de junho de 2016

No topo de si

Temos uma realidade interessante: valorizamos intensamente pessoas que alcançam, por exemplo, as alturas do "topo do mundo". O topo, o ponto mais alto. Isso exige uma performance atlética. Anos de preparo. Semanas à fio detalhando e tentando antever os passos a serem dados, quantos, como serão dados... Tudo milimetricamente sendo traçado. Eis então que, no dia escolhido, um novo atleta vai para seu intento: alcançar topos!

Valorizar o atletismo é um problema para mim? Claro que não. Quem alcança o topo do Everest merece receber muitos "parabéns!". Dedicou-se, lutou, sonhou com isso. Sonhos alcançados são quase sempre dignos de louvores. Mas, e quanto a alcançar o "topo de si mesmo"? Quem prestigia algo assim? Somos atletas do corpo, mas pouco interessados ao exercício das nossas condições e potencialidades da alma? Entendem a questão?

Quando alguém supera seus limites físicos, as redes de televisão e mídia, no geral, aclamam aquela pessoa e rankings são atualizados para esse fim. Mas quem conta o ranking de pessoas que estão lutando contra si mesmas? Quem aclama pessoas que insistem em lutar para vencer suas más condutas, suas más inclinações, tentando elevar-se espiritualmente, moralmente - quiçá? Não vejo rankings, nem benesses prometidas por isso. 

Quem quer elevar-se moral e/ou espiritualmente, de fato, não estará preocupado com regalias, benesses quaisquer ou rankings. Não! Isso não interessa. Se aquele que se "eleva" insiste em manter vaidades é porque ainda não alcançou o topo de si, é fato! Vaidade é algo horrendo e caminha de mãos dadas ao orgulho. São dois fatores de derrocada para todos nós esses dois elementos da alma, da personalidade humana... Não raro, a vaidade e o orgulho de uma pessoa - além de prejudicarem ela própria - prejudicam outros seres. Não, não confie em pessoas que dizem-se (ou tentam se firmar como) "elevadas", mas adoram elogios, adoram benesses por isso/para isso. No mínimo: desconfie dessas pessoas e de seu grau de "elevação" repercutido!

Quanto à reflexão do início, pensemos: de nossa parte, temos valorizado nossa ascensão moral, espiritual? Temos trabalhado nosso espírito? Temos tentado percorrer maratonas de aprimoramento de nossa personalidade? Temos tentado galgar conquistas do ponto de vista do humano que somos além do corpo, da matéria? Temos feito nosso 'sistema circulatório da alma" funcionar circulando coisas para o bem, para a elevação coletiva ao nosso redor e, com isso, para nossa própria elevação? Estamos atentos a elevar nossos padrões de pensamentos para patamares de fraternidade universal? Ou apenas queremos correr maratonas de final de ano para provar que nossos corações batem bem? Corações batendo bem são algo essencial, mas que nossos corações saibam bater "ritmos de amor", de fraternidade, de afetividade, de acolhimento às nossas e às dores do outro...

Coração não é apenas medido quanto à sua saúde em maratonas, em esteiras ou em eletrocardiografias. Não! Corações que funcionam bem são medidos pela quantidade de afetos que geram, pela capacidade de acolhimento que trazem em si. Isso é tão (ou mais) importante quanto ter um coração que funcione bem enquanto bomba de sangue que é. Não? Caso contrário, somos apenas máquinas funcionando bem, e pronto! O que seria uma pena, um desperdício humano à humanidade... E, em sendo assim, como máquinas, pouco nos importariam as outras máquinas ou as nossas condições de "máquina" e "além-máquina". Afinal, maquinaria não pensa, não ama, não faz nada além de ser máquina. De fato é um desperdício apenas trabalhar o maquinário do corpo e esquecer da essência, do "além-máquina" que somos dotados enquanto seres pensantes, dotados também de sentimentos.

Precisamos valorizar conquistas pessoais e incentivá-las (nossas e dos outros). Precisamos disso para a elevação de nós mesmos - espiritualmente, moralmente... Não sei bem uma palavra, única que seja, que defina esses aspectos concernentes às nossas capacidades de sermos dotados de "emoção" nessa nossa evolução de espécie humana. O que define nosso "além-máquina"? Não sei... Mas, independente do termo que defina isso (espiritual, moral etc): que entendamos logo a importância de aprimorarmos esses aspectos de nós mesmos e de nossas crianças. Somente assim poderemos ser melhores e termos um mundo melhor num futuro a médio prazo, pelo menos.

Que sejamos então carne... Que sejamos então ossos... Que sejamos, de certa forma: máquinas que percorrem maratonas e escalam topos de montanhas. Mas que nunca deixemos, em meio a isso, de ser humanos! Que diariamente consigamos galgar mais passos rumo à nossa elevação e rumo à elevação do todo ao derredor de nós. Assim, alcançando mais e mais o topo de si mesmo, o homem poderá amar mais e trazer para a Terra a fraternidade universal que tanto sonhamos e precisamos. E que assim seja desde já!

Desintoxicação

Vivemos em um mundo onde vê-se enorme apreço à estética. Um sorriso bonito é mais aclamado que um sorriso verdadeiro e puro. Hoje em dia, temos a vulgarização de dietas de desintoxicação do organismo custando valores a cada dia mais exorbitantes - tão aclamadas que são por todos que aceitam a premissa de que estão se intoxicando pela boca. E de fato estamos? Creio que sim, mas não serão somente sucos e novos alimentos que nos farão desintoxicar. Pensar somente nas toxinas do corpo e esquecer a intoxicação de nossas almas não nos levará muito além...

Os tóxicos piores que tenho visto vulgarizados nas ruas, em cada esquina presentes, são o ódio, o rancor, os remorsos, as críticas vazias, a desonestidade real e factóide, a má intenção velada e a má intenção realizada, exposta como chaga. São tantos os males tóxicos... Estamos nos intoxicando demais com eles! Nossas almas estão diuturnamente sendo intoxicadas. Seja na vida pessoal, seja na vida social, sentimentos tóxicos nos têm tomado de pronto a cada momento. Adquirimos novos sentimentos que nos intoxicam a cada telejornal, p.ex., ou a cada página de jornal impresso. Não raro, a cada roda de conversa mais tóxicos circulam por nós - sejam eles externados por nós mesmos ou adquiridos, passiva ou ativamente, do outro.

Precisamos desintoxicar a sociedade quanto aos seus tóxicos ódios, ressentimentos, intolerâncias, faltas de amor e fraternidade! Precisamos mais de bons hábitos que de sucos e dietas milagrosas no momento! Precisamos estar desintoxicados desde a alma, desde o coração. Não é somente de corpos esbeltos que precisamos. Nossas almas não estão tão belas a ponto de esquecermos dela... Ademais: um corpo são que não serve ao bem é uma toxina e tanto para o mundo já tão repleto de maldades e traumas aniquilando a felicidade e o bem comum necessários.

Que cada um cuide bem de sua "dieta" mental, espiritual (que seja), pensando a cada noite antes de dormir: "com o que alimentei minha alma e meu coração hoje?". Além disso, parando e se perguntando: "eu intoxiquei alguém com minhas mazelas?". Dessa maneira, pensando e tendo a humildade de correr atrás dos danos que causamos - seja por nossas falas ácidas ou por nossos comentários raivosos e nossas atitudes menos felizes quais sejam: que possamos estar sãos de alma, antes de tudo. Não somente de corpo saudável e esbelto, mas de almas límpidas, sãs e salvas para o bem comum esperado! E que o bem comum seja o foco de todos o mais rápido possível. Para isso, precisamos nos desintoxicar. Precisamos desintoxicar a sociedade, a nós mesmos e, assim, o mundo!

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O homem da rua

Hoje vi um homem da rua - e vi um pouco de mim.
Éramos ele e eu na esquina, sob uma noite de lua.
Enquanto eu passava, ele me olhava e pude enfim
ver a fome nos seus olhos, a sede na sua saliva...
Vi que quase ninguém o enxergava e passavam todos
intocáveis; alguns em postura altiva...
Por um momento, vi-me no chão, ali, com frio
com fome. Vi-me morrendo numa noite escura,
numa rua - ela e eu, sem nomes.
Éramos ali dois seres unidos por nossos olhares.
Eu o via; ele via a mim. Fiquei imaginando
as oferendas que fazem a Deus em altares...
Mas e aos tantos filhos dEle que morrem
em miséria, em cenários assim?
Há tantos pelas ruas, profundamente esfomeados...
Há tantos pelos templos, completamente ensoberbados...
Muitos homens seguem, fiéis, as cartilhas da fé que têm,
mas como não assistem aos miseráveis, humanos abandonados?
Como não lutam contra o sistema de desigualdades em que se inserem?
Sinto que Deus vê tudo por uma fresta que há nos céus.
Deve Ele considerar muitos de seus fiéis,
"homens de bem" na Terra, na verdade como réus.


Viver é uma arte

Acordo. Enceno.
"Viver é uma arte"? Sim!
Mas não transforme em pequeno
Aquele que encare a vida assim.

Por vezes, vencer o que nos angustia
Demanda mesmo encenar serenidade!
Esperam de nós externar alegria...
Então viver demanda atuar, não é verdade?

Por vezes lágrimas escorrem,
Mas ensinam-nos, atores, como frear!
Controlando o pranto, tristezas morrem?
Não! Mas o "bom ator" desaprende a chorar...

Chega um dia em que a vida cobra
Exigindo dele tanto, mas tanto,
Que enfim, permitindo-se sentir, recobra:
"Superam-se tristezas com doses de pranto"!


terça-feira, 7 de junho de 2016

Olhemos, pois, às nossas criancinhas


A vida é um cenário complexo onde investimos, ganhamos e perdemos dia após dia. Investimos em carinho. Ganhamos ingratidão. Investimos em gentileza. Ganhamos desdém. Investimos em paz. Ganhamos conflitos. Investimos em nós e perdemo-nos de nós mesmos, não raro. Mas esses são só alguns exemplos. O que recebemos de volta, como reação da vida e das pessoas, depende em muito (para não falar totalmente) de nós - seja para bem, seja para mal.

A vida nos exige, sim, coragem! Muito sapiente foi Guimarães Rosa em sua investida literária, na qual a coragem virou parte essencial da leitura e da memória dessas leituras. A vida quer mesmo, de nós: coragem. A vida quer que sejamos investidores da esfera dos sentimentos. E sentimentos, antes de qualquer coisa, são nossa primeira motivação de qualquer, qualquer ato.

Assim, quando penso em trabalhar, o faço pelo sentimento de gostar do que faço, amor pelo trabalho edificante. Mas também, não raro, o faço somente pelo sentimento de prover aos meus descendentes e a mim mesmo, ao meu projeto de vida, a riqueza necessária para subsistência e, quiçá, quando dá, algum excesso no aspecto material dos sonhos e ambições. Sim, ambição é um motivador ao trabalho também.

Quando acordo, isso é automático. Mas, para levantar da cama, para encarar o dia, é necessário um sentimento de "valer a pena", digamos assim. Ou de uma gratidão pelo novo dia que se inicia. Ou, novamente, apenas por achar necessário à nossa condição de vida ter de levantar para prover riquezas e ganhos às nossas vidas. 

Entendem onde quero chegar? Cada ato traz em si um sentimento imediatamente correlacionado. Mesmo que queiramos fingir ser algo que não somos, muitas atitudes se nos aparecem como oportunidade de desnudar nossa personalidade, deixando claros traços bons ou ruins que tenhamos por temperamento. Exemplo: quando alguém me ofende, eu reajo de alguma forma. Posso reagir com golpes violentos, fisicamente. Posso reagir calando, acreditando que não vale a pena discutir, e ignoro aquela pessoa. Posso aprender a perdoar aquela pessoa, pois sei que na ânsia dela de se motivar a fazer isso ou aquilo, algo a atrapalhou e levou adiante uma resposta de raiva, motivada pelo sentimento de insatisfação. Sim? Deu para entender?

Dessa forma, tudo na vida demanda respostas. É ação e reação a todo tempo. Os depressivos sofrem muito com a doença, uma vez que as capacidades de sentir, esboçar sentimentos, afetos, transparecer suas reais necessidades de ajuda ficam nubladas, enevoadas, pouco visíveis aos olhos das pessoas ao redor. Ainda mais nesse mundo em que olhamos pouco nos olhos do outro e, de fato, raras vezes perguntamos - querendo mesmo saber: "você está bem, amigo?".

Perder esse gatilho entre sentir e partir imediatamente para uma ação, ou reação, é algo dolorido. Por isso a depressão torna-se, ao meu ver, a doença mais incapacitante que há. Pois a pessoa está dotada de um corpo ágil, são, de incontestável capacidade de agir e reagir diante da vida, mas não consegue aquele gatilho de sentir-agir/reagir. As consequências disso? Infindas. Desmotivação prolongada. Autodecepção. Autocondenação. O refazimento fica de lado. O autoaprimoramento perde espaço para o destempero para consigo mesmo. Muitos, não raro, sem aqueles sentimentos bons do autoamor, do perdão a si mesmo, usam um último gatilho: criam coragem e se matam. Não raro através de um outro gatilho, mas dessa vez não em metáfora.

Dessa forma, autoamor é uma necessidade. Agir e reagir também. Precisamos entender que sentimos. Entender que somos seres dotados de sentimentos, por mais frios que possamos ser, por mais calados e quietos que a vida nos tenha permitido nos transfigurar. Muitos "calados", "silenciosos", muitos seres "antissociais" são, na verdade, pessoas que estão em intenso diálogo consigo mesmas e, não raro, estão "perdendo". Sim, pois não raro perdemos para nós mesmos nas tantas vezes que digladiamos conosco próprios. Aos depressivos, isso é ainda mais destrutivo.

Dessa forma, entendamos todos: sentir é algo imperioso, e todos sentem ao seu modo e expressam-se, também, ao seu modo. Ressentir? Muitos o fazem - seja em gestos visíveis ou gestos de silêncio ofendido, de mágoa. Perdoar? São poucos os que, de fato, entendem o potencial deletério do não perdoar - que gera ressentir doentio, ressentimentos deletérios em mágoas atribuídas ao ato do outro. Porém, a mágoa, o ressentimento, nada mais são que nossas interpretações deletérias e autodestrutivas da ação do outro. A ação em si, sobre nós, na maioria das vezes em nada nos prejudica, mas ofende sentimentos nossos. Daí, nossos sentimentos serem ou não ofendidos é nosso problema. 

Eu nunca poderei me sentir ofendido com algo ou alguém se não me permiti, como reação de minha parte, ser ofendido pela ação do outro. Quando não me ofendo, estou entregando à pequenez das coisas uma ação negativa que alguém, seja ela quem for, achou que eu merecia receber. Quem não se ofende não precisa exercer o perdão uma vez que nem chegou se ofender. Não deuvalor ao ato potencialmente ofensivo porventura existente. Sim? Entendem?

O depressivo, todavia, não se perdoa. Se destrói consigo mesmo, diante de si. Ele se arrebenta de dentro para fora, muito embora quase todos o vejam como silencioso, quieto, pacato, embotado. O depressivo é, tentando resumir, uma máquina que não funciona direito - mesmo que todas as peças e funções estejam aparentemente normais, sem erros nem nada.

Vendo o mundo como um somatório de pessoas e suas atitudes (embasadas em seus sentimentos e pensamentos), entendendo que cada ser constrói seu entorno e sua (auto)imagem no mundo a depender das ações e reações que externa: quando sentir algo que o faça desmotivar, ressentir: repense! Aja diferente. Inspire em si uma resposta diferente, de bem, à vida.

Espalhe amor, compreensão, docilidade onde haja sentimentos de dor, rancor, remorso, injustiça, crueldade, desfaçatez. Se amor, compreensão, docilidade não forem possíveis ainda, espalha pelo menos sua parcela de silêncio e quietude. Cala. Pensa. Aja depois, se for o caso! Não contribua com novos sentimentos e ações que personifiquem malefícios - a outros, ao mundo, a si... Essa é a cura para depressão: pensar, repensar e, enfim: agir sobre o mundo e sobre si mesmo junto às demais pessoas. Mais ainda: está nessas atitudes de repensar e abrandar as reações a cura para o mundo! Precisamos fazer um mundo que não tenha nas ofensa e nas desavenças coisas tidas por "comuns", "cotidianas" ou "normais", menos ainda.

Amar, saber perdoar, olhar o que há de bom no outro para além da mágoa que ele tenha tentado infringir a outrem - ou a nós mesmos. São, tudo isso, coisas essenciais nos dias de hoje. E, diga-se de passagem: de fato muito difíceis de se exercer. Mas, que exerçamos, mesmo que entre falar (que é fácil) e vencer a si mesmo (exercendo esse difícil aprendizado) haja toda uma real dificuldade!

Amemos aos outros e nos amemos a nós mesmos! Perdoar sempre. Exigir? Jamais. Colaborar? A todo momento; sempre! Construir pilares de paz, harmonia e fraternidade? Desde já! É no agora que as coisas boas começam - embora as ruins também. Agindo com força e convicção nas ações pelo bem comum, pela fraternidade universal sonhada: seremos melhores conosco próprios, com o mundo, assumindo a nós mesmos como exemplos que deixamos aos demais companheiros de jornada - e, mais ainda, às crianças que tanto nos observam e se espelham. 

Ademais, olhemos para as criancinhas! Sejamos como elas. Decerto as criancinhas amam com a pureza daqueles que entregam-se sem nada pedir. Esse é o foco! Elas sabem perdoar muito mais do que nós. Agem dotadas da humildes de coração, sendo benevolentes e indulgentes, sempre, para com os demais. Em essência: elas que são exemplo para o mundo através de seus sentimentos e de suas ações. Crianças não tem orgulho, nem ódio, enraizados. Não estão fixadas em solos agourentos dos sentimentos ruins que trazemos na vida adulta. Se há crianças que agem mal, isso constrói-se quando erramos para com os ensinamentos a elas. O erro é nosso!

Bem nos alertou Jesus. De fato, delas, as criancinhas, é o Reino dos Céus onde promete-se tudo ser puro, bom, humilde e belo. Quem consegue se permitir ser como as crianças, traz para dentro de si aquilo que nos é prometido no Reino dos Céus: a paz, o perdão, o amor e, na mente dos que observam sua existência: tornam-se eternos, pois deixam saudade.

Em sendo mais humildes, mais amistosos, mais fraternos, indulgentes, humildes, benevolentes, que assim, no último dia de nossas vidas, possamos trazer à mente uma gostosa sensação que se configura numa frase belíssima de Fernando Pessoa que diz: "nunca fui senão uma criança que brincava".

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Protagonismo

Da coragem para fazer a vida:

Sou estrangeiro a mim mesmo.
Não entendo tudo quanto faço...
Temo perder o senso, o ciso, e passo
Dia após dia revendo meu traço.

Ora ansioso e triste, ora alegre,
Sou um rosto mudando o cenho...
Uma peça do jogo do mundo, entregue.
Desconheço quase tudo, mas me empenho.

Trago bagagens somadas na memória.
Algo grita dentro de mim: "Segue! Segue!",
Mas, medroso, traço lentamente a história.
Tento ser, enfim, escritor de um conto alegre.

Se não houver coragem, qual vida vale a pena?
Se não houver heroísmo, qual história atrai atenção?
Um conto fica, sem protagonismos em cena,
Fadado a morrer em esquecimento, escuridão...

Sob isso tudo, vou escrevendo-me no mundo
Como história ainda lesa, sem muito enredo.
Vez ou outra, emerge um vilão inquisidor, ao fundo...
E a mim, protagonista? "Hora de romper o degredo!"

Diante do Deus da vida

Segue. Pregue. Entregue.

Ora.
Pensa.
Segue.

Agora.
Confia.
Pegue.

Dor.
Rancor.
Negue.

Paz.
Amor.
Pregue.

Sonho.
Esperança.
Regue.

Clamor.
Futuro.
Persegue.

Vida.
Morte.
Entregue.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

A ciência da consciência

Do amor

I

Ame!
Depois de amar:
ame novamente!
Quem ama, ajuda.
Quem ajuda, sente
valer a pena amar!
Quem é ajudado,
aprende que ajudar
é demanda evidente.

II

Doar de si é amar
- ao ajudar, ao perdoar...
Ame, acima de tudo!
Ou ame, tão somente!
Não dê amor exigindo reação!
Amor não é sentimento vão...
Não se mede em competição!
Vê mais do amor quem o oferece
que aquele que o sente!
No sentir, não cabe ostentação.
Sentimento ostentado adoece
e morre precocemente!

III

Insisto para que fique ciente:
Amor é visto quando se sente,
Mas é mais nítido quando doado.
Algo dado com amor, não se ostenta!
Quem ama, insiste, tenta e tenta...
Até o dia em que a dor, lazarenta,
Ganha mais espaço que o amor...
Quem ama persiste e aguenta, aguenta...
Mas, quando há mais de rancor e de dor,
observa bem, reflete e sente!
Pois, sorrateiro, o amor se ausenta!

IV

Não mate o amor insistindo nas dores!
A vida, em si, já nos inunda com horrores...
Se tens sorte no amor, tenha-o por meta!
Insistindo nas dores, remoendo dissabores,
o sentimento que era certo, vira coisa incerta.
E onde havia uma "tela" com cintilantes cores,
acabam restando esguios traços em cinza e preto,
numa ''obra'' discreta, escura, frágil como um graveto.

V

Ame! Ame sempre. Insiste! Insiste sempre.
Aguenta até o máximo que sente ser seu limite.
Após a "curva da estrada", pode haver longa reta.
Se por ora não enxerga o futuro, o "adiante da curva",
aguarda quieto, silente e, confiante, segue este palpite:
"o amor, quando há, clareia a paisagem turva que existe!".