quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O amor não existe...



Aviso aos amantes:
O amor não existe!
Em tempo aos iniciantes:
O amor é só um chiste!

Sonhando um sonho,
Brincando de alegria,
Acordo em pesadelo medonho:
Tudo foi simples fantasia.

Oh, amor, qual dor podes causar?
Imensa é a tristeza, a ferida
Surgida do sonho de amar...

Oh, amor, que atitude cruel...
Em tua fonte saciei minha sede,
Mas tú não eras mais que fel...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Onde está você, Gandhi....?

(charge de Quino)

O amor é uma morte, pois é uma entrega de si. Doando-nos, perdemo-nos de nós mesmos, e, sem nós, morremos. Será esse mesmo o tema? Será essa mesma a conclusão? O amor de fato não existe ou isso é um erro, uma ilusão? Mas, concluí sofrendo que o amor causa chagas e feridas. Feridos e sangrando, não conseguimos pensar direito. Pode ser esse o enigma dos meus pensamentos atuais um tanto quanto desajustados para o senso comum...

Alguém ama sem doar-se? Alguém ama sem entrega? Amar alguém não seria vencer as próprias mazelas para ser alguém melhor para a pessoa amada? Amar não seria uma benção que fizesse valer a pena querer ser além do que o conforto nos impele ser? Superando a inércia do comportamento habitual? O que fazer quanto aos impasses do amor? O que?

A morte é uma solução à vida. A perda é uma solução à posse. As duas coisas são solução para a dor do amor. Os poetas mais desesperançados entreter-se-iam com devaneios de morte, mas quero falar de vida. Sem poesias, pois elas costumam ser melancólicas demais. Nada de sofrimentos por hoje - pelo menos.

Quem um dia amou? Sofreste, amigo? Se sim, pergunto novamente: alguém um dia amou sem sofrer? Não ouço vozes, talvez eles não existam. Talvez amar requeira dores, chagas, sofrimentos. Não amar implica estar só. Será? O que temos por amor? Casais? Não! Amor é mais que isso. Amar é extrair-se de si mesmo, doando-se a alguém, que poderia muito bem ser o mundo. Portanto, se sofremos de amor por alguém, pois não seria melhor amarmos o mundo? O mundo é inerte, sólido, não foge de nós nem nos desacata. Pode ser temperamental, causando catástrofes, mas quem nunca passou por momentos assim? Sim, vamos amar o mundo!

Não! Talvez não seja esse o caminho. O mundo não, mas amar as pessoas do mundo. Elas são muitas. Se são muitas, podemos então sofrer várias vezes...Não, seria pior. Mas, em sendo muitas, poderíamos ser amados várias vezes também. O que fazer? Amemos as pessoas do mundo. Valerá a pena? Não sei. Até hoje poucos o fizeram, mas todos eles morreram felizes e são por todos admirados. Será essa a solução? Quisera eu poder conversar algumas horas com Gandhi...

A dor é uma sensação, algo da sensibilidade orgânica, ou seria algo também de sentimento? Se o amor causa dor e ele é sentimento, talvez a dor também o seja. Mas não amo o martelo, porém sinto dor quando ele me acerta o dedo...Ora, são diferentes dores, mas haverá diferentes amores? Formas de amar, são várias ou ama-se apenas de um jeito? Puxa vida, onde está você, amigo Gandhi...

Estou confuso. Espero dormir. Quem sabe, em sonho, resolvo tal devaneio. Mas, acordado, várias vozes se somam em minha alma, causando pânico aos meus ouvidos. É hora de dormir...Mas como? Amo dormir, me faz bem...Ufa, talvez seja um caminho para entender algo de amor...Boa noite!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 28 de outubro de 2012

Um destemido suspiro...



Por ora afasto-me de mim. Deixo abertas feridas que secam-se. O sangue que corre nas veias é o mesmo que molha-me os pés, diluíndo-se nas lágrimas caídas ao caminho que sigo. Em dia com meus sentimentos, enfim alcanço o sossego na partida. Despeço-me de mim. Afasto-me do sopro forte que levou-me a paz. Mas, como todo vento da natureza cessa, meu vento inimigo cessou. Tal vento que empurrou-me em abismo é o mesmo que agora seca-me as feridas. Gotas cinza da tintura que pintava meu mundo ficaram para trás. Em tons luminosos, começo nova arte em meus dias. Um alívio! Um destemido suspiro...

Recordo-me da infância, tenra idade. Valorosos momentos de paz. Servindo ao exército de crianças do mundo, posto por Deus para combater a infelicidade do planeta; eu servi muito bem aos meus colegas em exercício quando pude ser um deles. Lutei bravamente pela felicidade em meus dias e trago comigo a centelha da criança que existiu e que, novamente, em mim, se engrandece e se aviva. Enfim, sigo sorrindo com o vento a bater-me nas têmporas refrescando minha cabeça até então vazia e quente de tantos pensamentos fúteis. Preencho-a de boas coisas, bons pensamentos após deixar esvairem-se de mim as lembranças e maus momentos fixos na memória. Passo adiante as tristezas para quem as queira... Eu sigo alegre e calmo na paz que preciso. 

Encontrei-me novamente em mim. Encontrei meu eu onde não mais achava nada, apenas sofrimentos vãos e desnecessários adquiridos na caminhada. Sigo adiante, pois assim fazem aqueles que querem de fato caminhar. A vida não existe para aqueles que prendem seus pés ao chão. ''Viver é muito perigoso'', mas o ''não viver'', para mim, não é mais opção cabível. Prefiro a vida! E viver é banhar-se nos mares calmos da alegria, bebendo o vinho da amizade, deixando lágrimas de dor secarem-se como as chagas que em mim ainda se fazem presentes, mas a secar...a secar.... Seguindo em frente com o sentimento meu de viver...Sempre viver! Brindando com a  felicidade que reencontro em mim, pois dela me afastei, mas retomo com força e à força as rédeas de minha vida. Tornei-me novamente dono de mim! O cego que volta a enxergar. O morto que volta do último suspiro puxando novos ares ao seus pulmões trôpegos. 

A jornada é longa, por isso devemos nos concentrar nela para nunca ficarmos perdidos nos passos indecisos que por ventura venhamos a dar. Para todo passo que nos distancie da caminhada desejada, deve existir força necessária e intensa para novos passos que nos retornem ao caminho traçado. Avante! É a vida que nos chega tocando-nos ao ombro e chamando-nos: ''vem?''. Faço em meus dias o caminho que desejo, amparado por Deus e em meus fracos pés, mas com a força de saber que o dia de amanhã será sempre o melhor de minha vida. Sempre!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Por(vir)


Pensa amigo, pensa sempre!
Segue vivo adiante a pensar.
Não fiques triste ou te decepciones 
Com conclusões que vieres a tirar...

Segue amigo, segue no presente!
Não negue que deves seguir.
Adiante, amigo, sempre,
Pois o amor há de existir.

Corre, amigo; permita-se chorar!
Não perca tempo prendendo-se.
Corra atrás do sentimento
Que lhe impulsiona: o de amar!

''Penso, logo existo''. 
Talvez seja por isto
Que vagamos sem existir...

Pensar exige treino,
E nossa mente é um reino
Vagando em sonhos do porvir!


Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Aprendiz



O olhar da criança perdeu-se no meio,
Criando asas rumo à terra da fantasia.
Entregue a devaneios de plena alegria,
Encontrou a felicidade ali, por inteiro.

Saiu voando da habitual tristeza do dia.
Num cenário até então parecendo perdido.
Via seres, adultos tristes, num mundo sofrido.
Viram-no sorrindo da realidade que ali havia.

Todos correndo, todos atarefados.
Todos sem rumo, vivendo apressados,
Sem possuir a necessária felicidade...

O menino com asas, o sorridente petiz,
Viu-se a voar pelo céu, tão feliz,
Sorrindo e vivendo em meio à sua realidade.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Doce veneno


O amor é um veneno de sabor doce.
Quão bom seria se veneno não fosse,
Sendo apenas puro mel na boca minha.

Quão triste é a morte do sentimento,
Perdido em tamanho sofrimento,
Tirando de mim a felicidade que eu tinha.

Hoje, sem rumo, calado e mudo,
Percebo ter sido tremendo absurdo
Perder a paz que há pouco era minha...

Sem restos ou sobras de esperança,
Com lágrimas tristes, feito criança,
Despeço-me do amor, erva-daninha.

Se de tudo sobrar um pouco
Quero cantar, num grito rouco,
O canto do amor que eu tinha.

Mas dele restou chaga, ferida aberta.
Calada a boca, a alma, enfim, se aquieta,
Enquanto o resto do sentimento definha.


Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 13 de outubro de 2012

A saudosa bela flor



A fina flor, em lhe tendo à mão, já se rasga e, ao simples toque do vento, tua base enverga. No jardim, perdida, ninguém lhe enxerga, pois é apenas uma em meio às outras. Mas, perplexo, o jardineiro se rende aos encantos da flor ali esquecida. Pegando-lhe com os dedos em pinça, cuidadoso, sente-lhe a tênue beleza e a lisa textura da magnífica flor, esculpida na natureza. 

Em ingênua bruteza, com os dedos firmes, lhe fere uma pétala, vendo a mesma caindo suavemente ao chão. O jardineiro, arrependido, abaixa-se ao solo, como se redimindo, tentando desfazer teu ultraje àquela beleza que tinha em mãos e a viu indo. Tendo a flor despetalada entre os dedos, com a pétala caída na outra mão, percebeu que a beleza não era mais a mesma, embora tivesse a flor em punho como de antemão. O pobre jardineiro entristecido, trazia na garganta o coração aflito e abatido! E triste com a perda, deitou levemente a bela flor por sobre o solo da natureza, deixando-a secar-se à sombra de outras flores, no chão. 

Concluiu amargurado o jardineiro: por mais bela a flor lhe fosse, era tênue demais, o tempo inteiro, embora não houvesse concluído tal verdade primeiro. A bela flor, de tamanha singeleza, perdeu-se ao simples toque do outro ser da natureza, ele, o jardineiro. Desde então, seguindo adiante, passou a ser mais cauteloso com todas as flores quando via alguma à sua frente. Admirava-lhes a beleza sem almejar possuí-las nas mãos com firmeza, pois a vontade de tê-la, a saudosa bela flor, foi o que o fez perdê-la. Viu que podia tê-la em mãos ali todos os dias, não houvesse agido com tamanha bruteza.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Nunca é tarde...

(tirinha de ''Mafalda'', do cartunista argentino Quino)


Por vezes, pensar demais nos faz sofrer. Como é o mundo hoje? Adultos encaram a realidade a partir de seus afazeres corriqueiros. Dessa forma, para eles, viver é trabalhar, cumprir metas, alcançar resultados. Crianças, ao contrário, não têm contas a pagar. Melhor dizendo, não devem nada a ninguém...Não digo no sentido de dinheiro, de dívidas propriamente ditas, digo que as crianças podem viver plenamente. Sujam-se, correm pela rua, gritam, dão risadas das coisas que, para um adulto, são óbvias demais para motivar algum sorriso. Precisamos aprender mais com as crianças. Em cada momento da vida., somos colocados diante de reflexões a respeito do que temos feito de nós mesmos. E, a partir de nós, o que temos feito ao mundo, para o mundo? 

A cada novo dia, mais pessoas acordam, tomam seu café corriqueiro, habitual, lavam seus rostos e saem de suas casas em busca do ouro, do pão de cada dia. Voltam após o trabalho para casa cansados, cheios de dúvidas na cabeça se fizeram todas as suas obrigações do dia ou não. Tomam banho e jantam - não necessariamente nessa ordem - e vão dormir. No dia seguinte, a mesma rotina. Aos finais de semana, optam por ir aos bares e noites de festa para comemorarem bebendo. A bebida é um lubrificante social, na medida em que facilita todos a se tornarem mais facilmente sociáveis. Daí, tantos adeptos ao álcool em nossos dias. Nos finais de semana e noites de festa, então, as pessoas esquecem um pouco de sua rotina e conseguem ter um lampejo de felicidade - apesar de ficarem, mesmo que inconscientemente, somando todos os gastos com as bebidas e aperitivos para confirmar se estão ou não dentro do orçamento proposto...Mas é o mais próximo que tem-se visto do conceito de pessoas felizes nos dias de hoje. O álcool! 

Ao mesmo tempo em que uns bebem, outros fumam ou fazem ambos. O cigarro é o mais comum anti-depressivo inserido na sociedade, pois traz a sensação de calma, tranquilidade aos tragos, não precisa de receita médica e, mesmo que sem perceber, a pessoa sabe que está contribuindo para sua morte precoce - o que lhe pode, mesmo que não assuma, ser um alívio ou mesmo uma intenção velada. Seguir a vida nos moldes da sociedade em que nos enquadramos tem sido algo trágico. Mas ninguém quer pensar sobre sociedade. Temos novelas demais, jogos de futebol demais e outras futilidades demais para serem discutidas  e pensadas em seu lugar. As frivolidades cotidianas são uma benção, uma vez que, em discutindo e nos atendo nas conversas à elas, não incentivamos em nós mesmos a ''auto-condenação'' induzida quando refletimos sobre: ''pra que a gente está no mundo?''.

Como crianças que um dia fomos - e ainda mantendo algo delas em nós, deveríamos exercer mais a liberdade e a alegria de seguirmos os dias sem nos preocuparmos com as obrigações apenas. O ser humano luta por conquistar sua liberdade trancafiando-se em seus escritórios, em seus hospitais, em suas oficinas...enfim, em seus locais de trabalho, escravizando suas mentes e sentimentos na apologia diária e constante ao dinheiro. Somos escravos do dinheiro, do status social. Precisamos dele para termos alguma espécie de poder e notoriedade. Isso nos induz a uma auto-confiança necessária, porém falsa, a cada real gasto com alguma coisa nova e, sempre, desnecessária que compramos em nossos dias. Ter! Poder! Comprar! Um ciclo vicioso...Crianças apenas querem viver - apesar de, nos dias de hoje, estejamos criando nossas crianças à base do consumismo, tornando-as infelizes e materialistas desde o berço...mas isso é base para outro texto. Sigamos adiante..!

Precisamos educar a nós mesmos. Seguindo em frente, sem amarras do dinheiro, dos preconceitos, das falsas amizades que criamos como ''necessárias'' em nossa rotina. Seguir adiante é o que precisamos, mas não mais nos forçamos a isso. Não temos dado bons exemplos aos jovens e crianças de hoje, pois, de fato, não sabemos ''pra que estamos no mundo''. Apenas estamos cumprindo obrigações, nada mais. Depende de nós mudarmos nossos destinos e, com isso, o do mundo. Mas, afinal, daqui há pouco começará mais outra novela e nos perderemos novamente discutindo os rumos dos personagens da TV, esquecendo-nos de nós. Talvez isso mude...um dia...um dia...! Precisamos aprender a refletir mais sobre nós mesmos e sobre o mundo em nosso entorno. Quem sabe após desligarmos a TV? Seria um bom começo o dia de hoje. Sim! Nuca é tarde...Nunca é tarde...!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Não pretendo ser pai...



Não pretendo ser pai. Basta-me apenas ser filho, pois disso faço muito caso, acho muito bom. E sou muito sendo assim... Basta-me o ser! Sou feliz. Sinto-me eterno em minha efemeridade. Sinto-me parte do todo e o todo passa por aqui, minha família! Um rabisco perfeito de Deus na tela de minha vida. Verdadeira aquarela. Sou dela parte e ela é meu todo. Minha família! Sem ela sou um nada. Não pretendo ser pai. Nem pretenderia ser mãe, se mulher eu fosse. Sou muito pouco perto de meus pais. Sou, digo mais, um nada. Alma vazia, imperfeita, incompleta. Tão pouco que nem procuro definição (ocupo-me em definir a mim mesmo, simplesmente).

Não pretendo ser pai. Os meus são meu tudo. De meus filhos, não conseguiria ser tanto. Sou parte de um todo e esse todo é mesmo tudo. Meu tudo! Não sou peça-chave, apenas um ser a mais, honrado por existir ali, naquela família, naquele meio, nesse lugar. Nesse mar de felicidade, mar de paz e amor, mar de completa plenitude. Meu mar familiar, fraterno. De amor sem fim. Não quero ser pai.

Não seria nunca tão bom quanto o que tenho. Nem menos quereria ser mãe, caso mulher eu fosse, pois sei que nem de longe seria igual à mãe que tenho. Pai e mãe assim, só eu os tenho. Sem eles sou roda solta, vagando em vão, esperando o fim. Sem eles sou nada, vácuo existencial, casca sem fruta - só casca a ser jogada fora! Sem eles sou qualquer outro, nunca seria eu, pois sou feliz! Por eles vivo, por eles bate meu coração. E como bate esse bendito, num ritmo louco, quase eterno dizendo: amor, amor, amor. Pois foi o que aprendi: Amar! Amor! Ser amado! 

Não quero ser pai e não quereria ser mãe. Quero ser apenas filho. Filho de meus pais, um eterno aprendiz dos melhores mestres escolhidos a dedo pelo Criador. Presentes pra mim; uma graça – que nem mesmo sei se fiz, algum dia, por merecer! Não pretendo ser pai. Apenas pretendo ser filho. Se de mim viesse um rebento, para ele tentaria ser o melhor, o mais forte, o herói, mas nunca o que é meu pai, nunca o que é minha mãe. Não sou assim, pretensioso. Sei meu lugar. Meu lugar é como filho. Eles, meus pais, são meus remos e eu um remador no meio do mar. Levo comigo meu barco, levo a vida, ou melhor, ele me leva, ela me leva; melhor ainda, meus remos levam nós dois, eu e meu barco, eu e minha vida. Meus remos, meus pais. E eu? Um simples remador, remando pelo infinito, remando para o infinito - repleto de felicidade, repleto da graça de ser filho e apenas filho! E isso é tudo.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

''O que acontece se sua vida terminar em empate''?



Vamos refletir: ''O que acontece se sua vida terminar em empate''?. Essa proposta de ideia é abordada em uma tirinha de Charles Schulz, o criador da turma do Charlie Brown, pela personagem Sally, irmã mais nova de Charlie. Em uma primeira análise, nos parece algo sem sentido, algo sem propósito, ainda mais em se tratando de uma tirinha, uma simples tirinha que tem como enredo a vida de um grupo de crianças. Podemos aprender algo com Sally...

Segundo o dicionário ''Aulete'', uma das definições para a palavra ''empate'' seria: ''Falta de determinação ou decisão; IRRESOLUÇÃO''. Bom, por essa abordagem então percebemos a aplicabilidade incontestável da tirinha em nossas vidas. Irresolução?! Quantas vezes nos deparamos com momentos de insegurança, de indecisão, de falta de coragem para agir dessa ou daquela forma como esperaríamos de nós mesmos - ou dos outros. Sempre estamos esperando algo, mas nem sempre as decisões se nos apresentam em bom tempo, resolvendo nossos problemas; portanto, torna-se difícil tomar para si a força necessária para romper amarras, vencer obstáculos alcançando a resolução dos impasses. Podemos entender agora por que Sally teve de ler seu texto a respeito da vida dos coelhos, não o segundo....

As tirinhas de Charlie Brown e sua turma nos mostram temas diversos, induzindo-nos ao riso, mas, muitas vezes, a reflexões importantes também. Vivemos em um mundo cercado por ''empates''. As pessoas tem medo de agir, de reagir, de tomar decisões...Vivemos à espera de mudanças, de apoio e incentivo, mas quando temos oportunidade e necessidade de agir, mudando nossos rumos, somos impelidos à inércia, mantendo-nos na arbitrária e costumeira ausência de movimento, numa ausência total de resposta aos desafios da vida. Somos como a professora de Sally na tirinha: preferimos ouvir sobre a vida dos coelhos...Eles são mais fáceis de serem abordados. 

Vamos falar de nosso país, por exemplo. Escândalos, roubos de dinheiro público, ausência de leis aplicáveis...nossas leis são apenas letras em um papel. Aos pobres, a condenação, aos poderosos, a liberdade e o perdão. Na saúde, filas e mais filas à espera de atenção e atendimento, mas as greves são feitas por motivo da remuneração dos profissionais, nunca pela melhora na qualidade de nosso sistema de saúde público. Vários são os empates em nosso país...Somos um povo ''empatado''. De fato, nos falta determinação. Somos irresolutos! Aproveito aqui um outro significado da palavra naquele dicionário: ''numa disputa qualquer, resultado ou situação em que não há vencedor''. Quem em nosso país está vencendo diante de tudo o que temos presenciado? A impunidade...a violência...os escândalos...o comodismo de uma juventude que mais se preocupa com os goles de cerveja nas suas festividades que em brindar pela liberdade de fato. Somos um povo empatado!

Vamos falar da vida pessoal. Quantos de nós têm medo de agir, resolvendo seus próprios sofrimentos, rompendo suas próprias amarras? Vivemos num eterno empate, construindo uma vida onde precisamos ser bem sucedidos em empregos, alcançando o status social adequado aos olhos dos outros, sempre aos olhos dos outros, ao passo que não saímos do eterno empate dentro de nós em relação aos nossos próprios sofrimentos, ao que de fato somos. Preocupamo-nos apenas em alcançar a admiração e ''respeito'' de todos sobre o que representamos socialmente. Precisamos da aprovação de todos sobre os empregos e cargos que desempenhamos. Enquanto isso, as pessoas nunca querem saber sobre nossos problemas, nossa personalidade e sofrimentos internos. Eles não contam, nem nos definem aos olhos de todos - o que é uma pena. 

As redes de TV nos vendem padrões de comportamento que aceitamos sem pensar, sem refletir. Somos coelhos de estimação enjaulados nas grades de uma sociedade falsa, hipócrita, imatura! Queremos nos vestir como as pessoas da televisão, queremos ter o que elas têm. Queremos ser essas pessoas.. Daí, nos fazemos, vestimos, agimos como elas, pois queremos ser elas: pessoas famosas, ''admiradas'', ''respeitadas''. Precisamos ser aceitos, mas não somos nós mesmos, pois temos medo de não nos aceitarem...Um paradoxo. Nesse processo, não sendo mais nós mesmos, perdemos nossas vidas querendo viver uma outra vida, sendo outra pessoa, nunca o que somos.Somos seres voltados para o social, nunca para a realidade verdadeira de sermos plenamente o que temos em nós ou vivendo plenamente nossos destinos, nossa caminhada. Somos de fato coelhos enjaulados! Vivemos presos em uma sociedade que se baseia em estereótipos de beleza, de status, de futilidades sem fim. O mais triste é que aceitamos sem pensar...sem pensar. 

Somos apenas o que pensamos ser necessário para atingirmos o prestígio em relação à sociedade. Precisamos das roupas mais caras, dos carros mais velozes, dos apartamentos mais belos para que nos sintamos importantes, admirados e, até mesmo, invejados. Isso nos motiva a seguir em frente. Enquanto nos preocupamos em agradar a opinião dos demais, perdemos a oportunidade de viver, sentir as pessoas ao nosso lado, os amores e pessoas queridas que a vida nos dá. Optamos por ser empresários admirados...advogados famosos....médicos de prestígio. Mas, e as pessoas por trás desses disfarces? De nada importam. Nunca nos preocupamos em saber mais sobre elas, nem mesmo se somos uma delas. Preferimos  seguir sem refletir, desconhecidos de nós mesmos. Somos como a professora de Sally na tirinha escolhendo aprender mais sobre a vida dos coelhos...Enquanto isso, seguimos, continuando sem saber o que acontece se nossa vida terminar em empate. Em sendo assim, permanecemos num eterno 0 x 0!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier