quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Novos meios

A Medicina não me faz ter a alegria que a poesia me traz. Mas a beleza de ambas principia e cada uma, ao seu modo, a um ou outro apraz. É o que traz ao mundo os médicos e traz também os poetas... Quisera eu ser mais o segundo, porém não há espaços para versos na literatura médica (nem ao mundo hoje, em geral). Há apenas espaços para protocolos, normas, prescrições! Poetas servem-se do ar da vida para criar! Simples assim! Não tem receituário, mas prescrevem em versos verdadeiros remédios para a alma inquieta, alma apaixonada, almas que pensam e sentem para, assim, atingir o corpo doente...

Quisera eu prescrever poemas, prescrever versos de tantas em tantas horas... Quisera eu dar às crianças infusões contínuas de cultura, saber, poesia... Quisera eu dar à Medicina uma nova toada que sirva de cântico de amor mais à vida que à doença (ou ao status do diploma). Quisera eu ser um profissional da alma, da saúde, e não meramente um profissional da doença como a Medicina de hoje nos forma e incentiva... Quisera eu medicar com amor as pessoas, traduzido em versos e abraços, não havendo mais ampolas ou frascos de remédios, mas sim livros e bibliotecas como acervo ou arsenal terapêutico.

Quisera eu não saber-me tolo sabendo que tudo que aqui escrevi é mera ignorância aos demais olhos. Quisera eu não ser visto como rude, ou ignorante, ou romântico por escrever assim. Quisera eu ser apenas (e simplesmente!) visto e ouvido, mas de nada adianta insistir! Ouvidos servem para otoscopia e diagnóstico de otites, não para atingir a alma com o toque de leveza de uma frase bem dita ou entoando-se poemas a um qualquer moribundo...  Cabe apenas escrever, quando do ócio, e prescrever, quando do labor! Nada além. Não há espaço à poesia nas prescrições do mundo. Há apenas remédios... e mais remédios...''remédicos''...médicos...médios...medos. Há de haver algo além um dia, novos meios!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Sobre o amor, o interesse e o mar de irrelevâncias

Não somos preparados para amar! Apenas nos interessamos por outras pessoas. Não nos apaixonamos nem mais sabemos o que seja isso! O que o outro tem a nos oferecer é o que faz nossa sociedade despertar ou não tal sentimento (se é que seja um sentimento): o interesse! Aos olhos puritanos e demasiado ingênuos ainda seria o dito ''amor'' em nossos tempos modernos... Repito: interesse, e não amor! É o que temos exercido!

Quantas vezes ouvimos frases como: ''você se interessou por alguém naquela festa''? Ora, onde o interesse põe um pé, a dúvida sobre o sentimento real coloca outro e, todavia, o amor recua vendo isso! Amor é sentimento puro e desinteressado! Algo como, embora demasiado piegas, mas que sirva de exemplo torpe: vê-se em contos de fada e outras história antigas, em que o amor ocorre da princesa ou do príncipe que apaixonam-se perdidamente por reles plebeu e plebeia, respectivamente! O amor, hoje, inexiste! Sobram os interesses!

Amor é barato, não requer ostentações nem contas bancárias recheadas. Hoje, entretanto, pessoas querem ou habituaram-se a ostentar! Ostentam: o corpo almejado (imposto pelos padrões de beleza da mídia!) em si e na pessoa dita ''amada''; as viagens que fazem a dois; as jóias e roupas ganhas em forma de regalos ''desinteressados''... Enfim: ostentam contas bancárias que traduzem-se em prazeres adquiridos (em débito, ou crédito, ou dinheiro vivo), como se a cada compra, cada gasto, cada ostentação, o ''amor'' estivesse sendo adquirido em parcelas que apenas serão dadas por encerradas caso o dinheiro, digo, o ''amor'' dure firme, forte e constante - ''até que a morte os separe''! Os gerentes de banco acabam por ser os ''cupidos modernos'' que temos. 

Tempos difíceis! Futuro incerto. Aos solteiros de hoje restam poucas escolhas: 1) aceitar a inexistência do amor verdadeiro e tratar de ficar rico logo para, assim, despertar interesses (desde que tenha vocação para bobo e que possuam um bom ''cupido moderno''); 2) sonhar com a chegada do amor verdadeiro e, com isso, talvez morrer sozinho de tanto esperar; 3) beber todos os dias para que, embriagado, não consiga estar atento e ciente da dura realidade do mundo hoje... Faltam-me opções para acrescentar além dessas! Pelo que penso, melhor seria tornar-me um velho solitário, sem ideais de riqueza que me retirassem a personalidade, bem como meus princípios, e sem embrenhar-me no alcoolismo! Porém a cada um sua devida liberdade de escolha! Começo a suspeitar que não é em vão que a juventude de hoje bebe tanto...e tanto...e tanto...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Sobre o comprar e o viver


Queremos demais todas as coisas. Esforçamo-nos demais por tudo quanto queremos. Queremos sempre mais e mais. Somos adequadamente adestrados ao querer mais, ao comprar mais, ao gastar mais num eterno desgaste festivo do esbanjar e esbanjar-se. Somos tolos, cegos e consumistas (algo redundante, pois em sendo consumista, somos obrigatoriamente cegos e tolos...).

Em meio aos nossos devaneios de ''gastança'', na busca incansável pela abundância desnecessária (mas adquirida como pura verdade), compramos de tudo, adquirimos tudo quanto podemos (e não podemos, às vezes), consumimos o que for possível, mas uma coisa nos é impossível comprar: o tempo! Tentando desesperadamente ter mais e mais coisas, comprar mais e mais coisas para que não nos faltem essas inúteis ''coisas'', perdemos todo o tempo que temos, tínhamos e que teremos. Perdemos nossa própria essência!

O tempo é gratuito, impossível ser comprado, por isso não dá dinheiro, não dá lucros a ninguém. Ninguém interessa-se por incentivar o gasto adequado do tempo. A ninguém interessa investir em um modelo de vida que vise felicidade real, natural, ou seja: aquela em que é mais feliz quem precisa de menos, pois, em precisando de menos, gasta-se menos tempo para adquirir as coisas e, assim, sobram momentos para desfrutar das coisas e pessoas que já têm-se logo ao lado, por vezes passando como invisíveis... Tempo não é vendido; tempo não se compra. Tempo apenas passa e/ou perde-se!

O que será de nós? Velhos cansados de trabalhar, almejando na aposentadoria (pobres de nós!), já velhos e carcomidos, exercer a liberdade da vida que tínhamos desde que éramos criança, mas a perdemos por cegueira própria. Ora, será ''preciso desperdiçar a vida que a gente ganha trabalhando para ganhar a vida''? Tal foi a pergunta de Miguelito, sem resposta definida, nas tirinhas de Mafalda do grandioso pensador, o cartunista argentino: Quino. Quando entenderemos que os desfrutes exagerados que tanto nos consomem a saúde e o tempo para tê-los são nada mais que interesse dos grandes poderosos do capital que esperam de nós: comprar, comprar, comprar?

Ninguém quer nossa saúde e nossa felicidade - muito menos as pessoas felizes e sorridentes dos anúncios! As pessoas reais (empresários medonhamente capitalistas e cruéis) por detrás daqueles anúncios publicitários não interessam-se por nossa saúde. Querem apenas nosso dinheiro! Não interessam por nosso tempo. Querem apenas nossos gastos! Até por que, caso venhamos a morrer e parar de, assim sendo, comprar coisas, haverá outros e outros a nos substituírem no consumismo e nas compras - diga-se de passagem o caixão que já é imediatamente comprado!

Cabe-nos a necessidade de acordar, abrir os olhos e enxergar o mundo com nossa própria capacidade de visão (Não! Não precisamos comprar livros de auto-ajuda ou óculos especiais para isso). Porém, nos habituamos a receber nossa compreensão do mundo pronta da mídia, e nessa compreensão imposta apenas concluímos: qual é o novo produto que ''precisamos'' comprar para ser feliz? Segue essa sendo a pergunta que ecoará em nosso mundo até que, velhos e esquecidos, chegue o momento em que nos olharemos no espelho e perguntaremos quase que num último suspiro: qual a vida que vivi? Desse momento em diante nos restará apenas comprar os tais livros de auto-ajuda e Bíblias... Apenas isso!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Direita, esquerda.. Direita, esquerda...


Errar é parte no caminhar. Faz parte e é essencial, embora doloroso seja! É a antítese do acertar, da retidão nos fatos... Porém (perdão pela associação demasiado torpe), caminhando, percebe-se: é preciso dar um passo com a perna direita, esquecendo-se da esquerda, deixando-a para trás (e vice-versa) para, assim, aprender a importância de cada momento, ou cada passo! Ora atrás, ora à frente, as duas pernas, todavia, caminham e atingem a meta final juntas, sem mérito maior de uma ou de outra, pois fizeram em conjunto o todo da obra: a caminhada! Não há certo ou errado nessa corrida das pernas...

Por vezes, estamos demasiado confusos com nossos passos na vida pessoal, emocional, profissional... A vida é um eterno e constante caminhar em todos esses aspectos! Demandam, em cada etapa, ao seu tempo, passos mais breves ou mais lentos, mas sempre alternando como em antíteses de sentimentos, de conquistas e perdas, de amores e ódios. 

Tropeçamos querendo seguir ora mais com a direita (em pura insistência), ora mais com a esquerda (noutra tentativa desesperada de permanência), afinal, no fundo, não sabemos qual a maneira adequada para seguir! Temos dúvidas. Usamos vários artifícios para saber qual ''perna'' usar no próximo passo. Problemas emocionais? Amar ou odiar? Problemas profissionais? Dedicar, ou seguir novos rumos, ou modificar as coisas? Problemas pessoais? Seguir da mesma forma, no mesmo ''eu'' habitual, ou renovar-se, sendo melhor a cada ''passo''? As dificuldades do caminhar são enormes em todos os passos dados...

Damos ''pulinhos'', sim, pulinhos desajeitados tentando caminhar mais rápido por vezes... Tentativas inovadoras de acelerar as coisas. Coitados de nós! Pular etapas, ou insistir em uma mesma tecla, ou, nesse caso, na mesma ''perna'', é irrelevante e errôneo! Não há espaço para pular etapas na vida nem vale a penas insistir em algo que não nos traga a estabilidade íntima necessária no caminhar! Devemos oscilar de acordo com o sentimento necessário, com a racionalidade devida ao instante, seguindo a questão pendente do momento: profissional, amorosa, pessoal, quer seja uma ou outra ou todas ao mesmo tempo. Ou seja: caminhar ora com a esquerda, ora com a direita! É necessário aceitar ambos os lados das coisas da vida! O eterno oscilar por entre antíteses! Nos momentos de tristeza: chorar, mas nos momentos de alegria: sorrir. Nos momentos de paz: exercê-la, mas nos momentos de guerra: lutar (contra si mesmo, pois nada adianta lutar contra os erros do outro! Guerrear é útil quando o objetivo é vencer-se)! Assim por diante... Dessa forma, seguiremos, caso saibamos obedecer ao devido sentimento ou à devida razão de ser para cada instante vivido. 

Tudo gira entorno de, aprendendo com a metáfora da caminhada: a cada momento reserva-se o seu devido passo, numa alternância que requer o benfazejo aprendizado (do auto-conhecimento!) de que devemos nos adequar ao balanço das coisas! O universo é uma onda de atividade que oscila, mas avança; onde há movimentos rítmicos: ora de avançar, ora de retroceder. Talvez por isso os pêndulos dos relógios antigos balançavam. Quiçá fosse um ensinamento que não percebemos? Em meio a isso, a oscilação das coisas, seguimos nesse nosso universo aguardando o momento exato de recobrar os passos. Mas é preciso entender: caso uma das pernas pare, não quer dizer que parou de caminhar. Não! Tudo avança. Como assim? A perna quieta (diga-se do o momento de alegria em que estávamos, ou do sucesso na profissão, ou da harmonia do lar...) parou de ser a referência no caminhar de agora, dando espaço para a outra parte, sua antítese necessária (a tristeza, a derrocada, as desavenças...) que toma a frente.  Assim devemos fazer seguindo na vida e em cada momento que ela nos exija passar: respeitar esse ''vai e vem''! Sonhos vem e vão, junto deles sofrimentos, sucessos, lágrimas, alegrias, desilusões... Cada uma ao seu tempo: ora avançam e tomam conta do dia, da caminhada, ora retrocedem e dão espaço ao outro sentimento, sua antítese irretocável.

Direita, esquerda! Alegria, tristeza! Sucesso, fracasso! Pernas que oscilam, ora uma, ora outra, mas fazem com que assim, e somente assim, passemos pelos dias e no último suspiro tenhamos a certeza: eu existi, vivi plenamente! Obedeci ao universo! Chorei, ri! Corri, parei! Cansei, descansei! Amei, odiei! Abracei, afastei! Despedi, chamei de volta! A cada momento, cada sentimento e cada ação em seu devido instante a ser obedecido e (por que não?) desfrutado!

Direita, esquerda.. Direita, esquerda... Sigamos em frente!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Volte logo, Deus!


Cansei de ser altruísta. Não vale a pena! Não vale de nada tentar ser bom, correto, amigo, boa pessoa! Mais são felizes quem maltrata, quem humilha, quem não valoriza nada além de si próprio. Essas pessoas sim, por algum motivo que cansei de tentar descobrir, são programadas para sorrir e serem felizes na Terra.

Algo deu errado nos planos de o ser humano ser a imagem e semelhança de Deus. Em nada se lhe assemelham. Caso isso ainda seja uma premissa real, prefiro não mais crer em Deus. Se todas essas almas podres - que em nada se preocupam com o bem, com o amor, com a fraternidade, e apenas vangloriam-se das futilidades em que se embrenham - são imagem e semelhança dEle: não quero mais crer em nada!

A cada dia, mais e mais pessoas sofrem tentando ser boas. A cada dia mais e mais almas perdem-se em meio a sonhos e devaneios altruístas que em nada dão, nada atingem. Mais vale um ser humano ruim em algum dia, por algum motivo, resolver fazer algo de bom que alguém de bem decidir-se por isso e passar a vida lutando. Aquele que é de bem passará a vida tentando! O mau que apenas usa o ''bem'' que causa para lhe trazerem louros, esse sim será de sucesso e alcançar-á seu objetivo.

Deus esqueceu-se da Terra. É um dos poucos motivos que me alegram hoje: se Ele esqueceu-se da Terra é por que existem outros planetas melhores e mais interessantes que o nosso. Pronto! Pode ser isso! Entretanto, claro que de agora em diante estaremos sozinhos então. 

Cabe-nos viver. Tentar! Ser altruísta e bom é cansativo. Para esse departamento do universo, a Terra, pessoas assim são demitidas de seus cargos, perdem tempo e tornam-se apenas operários para o bem estar das almas vis. O que fazer? Afinal, nos escreveu Dostoiévski: ''se Deus não existe, tudo é permitido''. Fica a dúvida.

Talvez quando Deus interessar-se novamente por esse planeta haja algum benefício lutar pelo bem. Volte logo, Deus!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 19 de janeiro de 2014

O gosto dos gastos


A quem enganamos? Somos capitalistas. Adoramos o capitalismo. Adoramos consumir, gastar. Adoramos o gosto do gasto! Adoramos esbanjar e cumprir as metas que se nos impõem! Sim, impostas: pela mídia, pelos outros, pelos olhares atentos e desdenhosos alheios para o que tenhamos aquém das posses deles. Adoramos estipular metas capitalistas de gastar. 

Quem estipula metas de ser alguém melhor para o ''novo ano'' logo esquece a promessa. Alguns até mesmo riem dizendo ser difícil. Mas quem esquece a meta de comprar uma TV nova? Ou um carro novo? Ou o apartamento novo? Ou o que mais houver a ser comprado a partir dos sonhos de cada um? Vivemos por desgastar o conceito de viver para conquistar riquezas a serem gastas em matéria, pura e simples matéria que torna-se automaticamente baluarte do status que todos almejam ter: admirados, invejados, requeridos e queridos... A TV ensina-nos e insistimos em aprender a ser meros consumidores!

A felicidade em meio a tudo torna-se meramente um momento final que dá-se do somatório de todos os bens que almejam-se. Porém, nunca há tantos bens quanto sonhamos, logo, não alcançamos a felicidade. Estamos sempre a gastar para, a cada nova compra, nova ''conquista'', tentarmos estar mais próximos do acúmulo de coisas devidas que temos por necessárias à felicidade que, concluímos cedo ou tarde, não chega a nós - meros consumidores que somos!

Consumimos nossa ética, nossa religião, nossas famílias, nossos conceitos de amor, auto-amor e fraternidade. Tudo na busca cega por poder, riqueza, autoridade, dinheiro! Queremos dinheiro! Mais e mais dinheiro! Somos movidos a dinheiro! O dinheiro nos move! Somos cegos, vis, vãos e fúteis! 

Quem tornou-nos assim? A TV? Alguém em particular? Não sabemos! Não há um ser específico e nominado. O único rosto o qual devemos culpar e que mantém-nos nessa realidade podre é aquele que vemos diante do espelho. Mas não olhamo-nos nos espelhos! Não somos a nós mesmos que vemos quando estamos ali diante do reflexo de nossa imagem. Vemos apenas o cabelo despenteado, a maquiagem mal retocada, os dentes a serem branqueados na próxima consulta ou a roupa que nos forma (ou deforma...). O que há de nós mesmos no reflexo que temos e vemos? Reflexo de nós, isso sim, é o que somos! Um devaneio, sim, eu sei! Mas nossa realidade intrínseca, pessoal, esconde-se por detrás da obscura profundidade do ser além do olhar costumeiramente triste que trazemos apesar de nossa sensação de felicidade adquirida aos gastos...! Tantos gastos...! Tanta infelicidade por toda parte!

Não somos felizes! Não somos quem deveríamos ser. Pelo que vejo, estamos confortáveis demais em nossos sofás diante das nossas TVs de sabe-se lá quantas polegadas. Tamanha é a tecnologia que compramos, mas nenhuma delas tira-nos a cegueira habitual que carregamos voluntariamente. Somos consumidores irreflexivos; cegos, isso sim! Adoramos o gosto dos gastos que temos, mas a vida perde a cada dia mais o seu devido gosto com tamanho mar de ignorância em que afundamos, de consumismo desequilibrado. 

É o que temos? Não? Sim? É o que vejo! É o que olho no espelho para além de meus olhos no reflexo que testemunho ao ver-me! Talvez tenha chegado a hora de comprar um novo espelho - ou, caso seja possível, um novo par de olhos!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 11 de janeiro de 2014

A relva dos sentimentos

As mágoas e dores são como pássaros feios, intrometidos, inquietos e barulhentos que nos pousam na relva dos sentimentos povoando a paisagem que até ali era apenas de paz, beleza, num campo aberto e imenso - proporcional à vastidão devida conforme sonhamos haver ali, tão mais ampla quanto mais quisermos que ela assim seja... 

Dores inquietantes, mágoas desalmadas, suspiros enlutados pela perda do auto-amor... Um emaranhado de pássaros que pousam-nos na relva dos sentimentos e consomem o belo cenário que ali havia. Quisera eu repelir a todos eles. Mas antes disso, o que os atrai? Ainda não sei, mas a vida abre espaço aos voos e, claro, aos pousos desses pássaros. Queria deixar a relva ser de puras flores e de uma agradável, rasteira e fofa grama para abrandar os passos dados em meio às pedras no caminho... 

Porém, pássaros pousam e podem voltar para onde vieram bastando-nos correr e espantá-los. Não espanta-se nada retidos na quietude da consciência intranquila, mas que, apesar disso, acomodou-se ao conforto da menos valia desleixada. Correr, gritar, espantar os pássaros feios que pousam-nos na relva dos sentimentos, é preciso! 

Cabe-nos saber que eles ali estão e, sabedores do melhor que podemos ser e que ainda está por vir caso permitamos, resta-nos: correr e espantar a todos! Que voem para outras relvas que lhes sejam permitidas... Um grito apenas, quiçá? Mas necessária é alguma ação! E que seja logo, pois pássaros trazem sementes e alguma delas pode brotar em nossa relva que antes era de flores e grama puramente belas, criando algo que não queríamos, pudemos impedir, mas faltou-nos a devida ação no devido momento. 

Espantemos esses pássaros feios com suas sementes também feias antes que nasça algo das sementes que trazem consigo. Mais fácil espantar um pássaro não desejado e estorvante que empurrar uma árvore com frutos de sofrimentos que porventura ali nasça por desleixo meu, foi o que entendi!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A flor de girassol

A flor de girassol... Sol que gira a despetalar-se? Pedaços, tal qual raios de luz, amarelos que caem ao chão, adubando o solo que seca-se para dar a seiva que nutre o projeto de sol que ali gira, a flor de girassol. Do céu, sóis e luas passam enquanto pétalas também passam com o tempo que também passa...  Tudo é passageiro como a flor na Terra e o Sol no céu que vemos! Seguem infindas e matemáticas as horas do relógio biológico da natureza. É o tempo que segue, a pétala que cai, a flor que desabrocha. É ali a natureza que em tudo jaz e a tudo principia! 

O sol que gira aos olhos estáticos e invisíveis do girassol, segue a iluminar o tempo e a hora. Linda flor que gira buscando o sol, transfigurando-se em sua semelhança no reino das plantas, plantas essas que meramente querem ser parte da terra. Segue tal flor a testemunhar seu brilho. O girassol é diferente! Não é planta como outra qualquer. É a exemplificação do amor platônico na natureza... 

Altiva, a flor de girassol observa o sol que vai e vem, de leste a oeste. Ela espreita-o em quietude! O sol ilumina a mente (sabe-se lá se há!) daquela flor de girassol que sonha iluminar algo e fita-o demasiado deslumbrada com o astro brilhante, amarelo e lindo que se lhe assemelha em essência, quiça. O sol e o girassol, qual um amor distante como os vividos e retratados na Terra, nunca a concretizar-se, seguem passando um diante do outro: o sol de lá, distante, e cá a flor que gira tentando ser notada, tácita e ao seu modo deslumbrante... 

Sim, segue o sol que transpassa o céu enquanto a flor de girassol segue fixa ao chão sonhando com o raiar do novo dia. Amor platônico esmiuçado na natureza aos olhos atentos... Um doa a beleza e a luz ao mundo, a outra a beleza e as pétalas ao jardim fitado pelos olhos humanos despretensiosamente desatentos ao cenário de amor ali presente! Realidades diferentes, sim! Astro e flor. Mas mal sabendo-se mera haste fixada ao solo da Terra, segue a flor de girassol sonhando ser vista e notada pelo sol que, de tão alto, parece do seu tamanho... 

Fadada a esse destino de distanciamento, a flor segue apenas a girar junto à Terra e vê o sol também girando, girando, sempre a seguir apesar da atenção despendida pela flor que sonha-se notada...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 5 de janeiro de 2014

Lado a lado


"Liberdade é para quem têm ou cria em si as próprias asas, não para quem apenas foca-se nos pés. Asas não necessariamente visíveis, mas uma vez sentidas (na mente, no coração e na alma), o ser torna-se livre por considerar-se apto para tal e segue, voa. Liberdade é ter as asas da fé e da vontade de voar em si, batendo juntas, lado a lado...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O dono da mágoa sou eu

Decidi acordar mais cedo hoje, para ter mais tempo de estar feliz. Acordei decidido! Hoje farei diferente. Sairei da casca de sofrimentos na qual prendi-me e, enfim, serei feliz no mundo aqui fora. 

Muitas mágoas guardadas ao longo da vida; muitos sofrimentos. Muitas angústias e revoltas surgidas de tantos e tantos momentos. Mais nada resta além da necessidade de mudança; essa será minha meta. Então, grito mais alto para mim mesmo ouvir de cá: vá! Avança...! Avança!

Mas a casca de sofrimentos em que me faço preso deixa-me aqui, estagnado, a chorar feito criança apesar do momentâneo e passageiro ânimo do início da manhã. Volto à escuridão da noite apesar do belo sol do dia a clarear o chão, mas não meus pensamentos e sentimentos...

Ao dia de amanhã, quem sabe? Talvez as mágoas que somam-se em meu peito esvairão. Dependerá mais de mim que de qualquer outra coisa. Haja um corajoso e bondoso eu cá dentro de mim para livrar-me da pessoa ruim que, maltratando a mim mesmo, faço-me hoje: tão medonhamente triste!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier