sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Terra firme

Estou confuso, sim! Estou confuso.
São muitas escolhas para duas pernas só.
Meus trajes vão, sujos, puindo
Enquanto minha mente fenece, fervilhante.
Ah, os caminhos da vida...
Quantos mais haverei de enxergar
Para, assim, permanecer no meio deles,
Confuso?
Quantas vidas em mim passarão,
Sem que eu siga nenhuma delas
Ou as queira todas,
Confuso que sou?
Os dias passam... Sou mesmice tremenda.
Tremendo, de vivo e amedrontado,
Num excesso de zelo. Ah..
As molduras dos quadros com minha imagem
Não encerram ali um eu que haja, perene.
Mudo a todo tempo. Mudo a todo tempo!
Quero mais ou menos, quiçá, a cada hora.
Mas calo meus sonhos dentro de mim.
Confuso, calado, sigo cambaleante
Sem um norte determinado e claro.
Quero tudo? Não quereria nada?
Se pudesse, deixaria de existir,
Mas existo e isso tem sido um fardo.
E, de fardo em fardo, sou outro deles para mim.
Talvez eu seja a pior coisa que me ocorreu!
A vida segue aguentando meu peso morto.
Olho os arranha-céus sem ver sentido.
Olho as paisagens e não me encontro nelas.
Sigo como pena ao vento.
Por vezes, penso ser bom.
Quem não tem um norte, está livre para ir
A qualquer sul, leste.... oeste. Não?
Mas bem disse o Gato à Alice quando reforçou que
Para quem não sabe para onde vai,
Qualquer caminho serve!
Isso não é bom, afinal.
Pois, se não há um horizonte traçado,
Não há um local específico para cair, ou apoiar.
Como pena, pensamos ter a liberdade de voar como bela.
Porém, quem muito voa, não vê de perto a terra!
Quem muito voa acaba desacreditado
Pelos demais transeuntes de solo firme.
Basta de ser simplesmente pena livre, ao vento.
Voar é benfazejo, mas deveria ser
A ligação entre dois pontos:
O de partida e o de chegada.
Pronto! E, após, outro voo, quicá...
Mas não! Permaneço voando e,
Aéreo, perco minha sensação de ter pernas.
Flutuo sobre o mesmo chão achando-me pássaro.
Alado? Não... Leve? Não...
Apenas suspenso por algum outro motivo.
Enquanto isso, as pernas fraquejam
Sem saber se um dia pisarão terra firme.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Do que havia

De tanto perder a confiança
Em mim e nos outros...
De tanto perder a esperança
Às tantas; aos poucos...
De tanto perder a paz, a temperança,
Pelo fogo que consome os loucos:
Vejo-me hoje aquém do que devia!
Tenho-me longe do que eu queria!
Sinto-me, de mim mesmo, sem companhia!
Sigo, sem o calor do mundo, à beira fria!
Pego-me em vida que se apequena, em desvalia!
Trago, de tudo o que me tornei, alma vazia!
Eis-me, do todo que se deu e fui, à revelia!
Decerto, no hoje que me sobrou,
Do eu que me fiz e sou,
Fica a chaga do futuro que poderia
- Mas não foi,  não pôde, não houve! Ou nem havia?

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier



Não mais que de repente

De repente, ardo!
De doido, ao avesso.
De repente, caio!
De pronto, amanheço.
De repente, tardo!
De lampejo; apareço.
De repente, esvaio!
De cansado, feneço.
De repente, saio!
De despedida, me esqueço.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Sobre os tormentos

Que tormento é esse que não passa?
Que mal fiz eu a Deus, outrora?
Sigo cambaleante e a dor devassa
Todo meu ser que ainda vive, por ora.

Mesmo que não queiras, a vida é muito curta!
Decerto, mais dia menos dia, eu sei: me acabo!
Todavia minh'alma tenta prender-me à vida, astuta.
Quem dera a mim mesmo eu desse cabo?

Todo esse tormento, por vezes, me cega.
Sinto uma vontade enorme de partir!
Sim! É uma fraqueza essa que me pega...
Mal sabia eu que assim seria, quando nasci.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Ao amigo Carlos: no meio do caminho!


No meio do caminho tinha uma arma
Tinha uma arma no meio do caminho
Tinha uma arma
No meio do caminho tinha uma arma.

Nunca me esquecerei daqueles acontecimentos
Na vida de nossas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma arma
Tinha uma arma no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma arma.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

A partir de poema "No meio do caminho", de Carlos Drummond de Andrade: eis uma homenagem aos discursos das minorias e aos seguidores das utopias progressistas, sempre atacados (e ofendidos) por armas alheias - essas, sempre impunes!

E fez-se a luz!

Era noite de um dia qualquer. Eu, um estranho usual na noite comum, resolvia sair de casa. Era tarde! Alguns goles de bebida com dois amigos e pronto! Eu estava animado a seguir, naquela noite, adiante.

Fui em frente. Segui! Entrei na casa. Tocava uma música que não recordo. Sei que não me era tão adorada a lista de músicas da banda daquela noite... Mas cheguei! Fui ao bar. Peguei minha bebida de preferência. Aos goles, um a um, o copo foi encerrando em si a dúvida entre "meio cheio" ou "meio vazio". Ficou vazio! Pronto.

E a noite foi indo, como de costume. Eu, alheio, olhando. Os outros, olhando, alheios, não se viam. Tudo era cenário! Algo que percebo nas noites que saio! O mais do mesmo, sempre. Do nada, alguém se interessa por alguém e a noite muda. Correto? Foi assim. Mas não só a noite mudou. A vida também - desde então.

Eu, escuro, sombrio, quieto num canto... Ouvia a música, sem identificar notas, versos ou algo mais, qual fosse. Apenas ouvia as batidas que ressoavam no vazio que havia em mim! Olhava os olhares das pessoas, como de costume. Sou daqueles que gosta de ver gente! E, vendo gente: vi você! Ah, doce, sutil, ao lado... Logo ali! A alguns passos adiante Trouxe a imagem para dentro de mim. Importei seu rosto, seu jeito... Sim, passei a portar você em mim desde aqueles instantes iniciais! Assim começou uma nova noite... Assim começou uma nova vida!

Você, com sua luz própria, brilhava! Eu, escurecido, sombrio, pude aparecer sob sua luz. Reluzia! E, assim: você me viu! Meu olhar tocou o seu e seu olhar tocou a mim todo! Eis então que, do vazio que eu era até então, preenchi-me importando para mim sua imagem com sua doçura, seu olhar meigo, sua voz... Algo assim, entende? O vazio foi sendo preenchido em mim! E, da troca de olhares, da troca de movimentos - num passo a passo de galanteio usual, cheguei ao ponto de trocar um beijo! Minha alma encheu-se de sua luz. 

Tal qual o sol para a lua, você é luz para mim! Passei a ser visto? Passei, decerto, a ver a mim mesmo! Sim! E você me viu! Foi o mais importante! Satélite de mim mesmo que minha alma escura era até ali, sem luz própria, brilhava então pela luz do sol que você era - e é! - para mim! Sob sua luz, brilhei um pouco. Obrigado por ser meu sol! Obrigado por trazer luz e espalhá-la por onde passa com essa sua luz doce que carrega!

Um novo dia raiou numa noite qualquer de minha vida, sei bem. Claramente sei, hoje! Uma nova vida apontou no horizonte desde ali. A utopia que guiava os passos - até então fadados ao nada!, enfim, dava-se ao direito de ser real! Fez-se a luz! Um novo tempo. Obrigado!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O seguimento

O dia é um instante. Sim, um instante ímpar! Nasce com o sol! O sol? Ilumina! Traz consigo as novas luzes diárias. Raios incansáveis de sol, do dia... Novo dia! Cada raio esgrime com os corpos materiais uma luta, quiçá. Desviam-se? Jamais! Raios seguem reto - e morrem! Para além de onde o raio de luz acabe, restará escuridão.

Sombra! Ausência de luz. Escuridão, sim! Deveras. A luz perde diante do anteparo material! Morre! A sombra para além, que fica, não é retrato de derrota. Não! A sombra é a complementação da luz. O seguimento. Cada raio é o anteposto da sombra relacionada a ele! Não? Estranho, talvez - mas sombra e luz são essência mútua. Onde a luz acaba, começa a sombra! Onde a sombra termina, eis que vê-se a luz! Assim é a vida? Talvez!

Acabada a vida, fica a sombra da memória, da saudade aos que ainda ficam sob a luz da existência que permaneceu neles apesar da perda. A sombra existe? O outro lado da luz, da vida, aos que se vão? Não sabemos! Sabemos que há luz e sombra. Vida e morte. A sombra pode ser apenas um momento e não haver mais nada. Mas a sombra pode ser uma existência em outra forma? Decerto que toda suposição é válida. Triste é que conclusão alguma há!

Anteposta à morte, a vida segue até acabar. Posta como continuidade da vida, a morte encerra em si questões. O que há de ser? O que há de haver? Nada? Sombra apenas? Sombra aos que ficam? Sombra aos que vão? Ah, a escuridão da ausência... 

Nunca saberemos, talvez o que é a morte. O que é essa sombra para além da luz de nossas existências. Certo estou que, por ora, ainda estou sob a luz. Por ora, estou fora daquela nebulosa ideia de sombra. Por ora: vivo! Fomento reflexões na escuridão, mas sem abandonar a luz que há para mim, todavia. 

Eis que raia outro dia. Eis que novos devaneios da madrugada ficam em um texto esguio, sem sentido, quiçá. Mas, sob a luz, permito-me ainda escrever coisas. Colocar no papel reflexões. Colocando ideias, reflexões, medos no papel, texto a texto, sinto-me mais luz e menos escuridão! Como se eu, agindo assim, iluminasse a parte sombria de um desassossego que vive em mim perpetuamente. 

O texto não encerra a reflexão, decerto! Nem traz conclusões. Sei bem! Apenas serve para aliviar. Placebo! Traz à luz parte de minhas ideias que, não raro, escurecem meus pensamentos e meus dias. Pronto! Feito o texto, há um pouco menos de escuridão agora... E me sinto menos sozinho!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sobre filhos, sobre a vida e sobre uma necessária força de vontade

Quantos pais mentiram para seus filhos
Dizendo que os levariam para viagens?
Ou dizendo que só fariam mais uma ou duas coisas
Do trabalho antes de, enfim, darem seu tempo a eles?
Quantos pais esqueceram dos seus filhos,
Tão preocupados com acumular riquezas que estavam?
Quantos pais deixaram em casa seus filhos
Esperando brincar à noite, mas isso nunca ocorreu?
Quantos pais mentiram sobre fazer algo diferente
No final de semana, mas estavam cansados e nada fizeram?

Ah, a vida! Somar riquezas no somatório dos dias!
Ah, a vida! Somar riquezas no somatório dos dias?
"Quais conquistas, enfim, valeram à pena?"
Eis que essa deve ser a pergunta derradeira
De todo humano antes da morte!
Mas penso já hoje e mesmo assim não sei a resposta!
Troféus de empregado do mês?
Uma poupança polpuda a servir de herança?
Um carro que ficará na garagem?
Ou quem sabe os filhos deixados na vida?
Não sei a resposta, mais uma vez, saliento!
Viver deveria ser algo sobre usufruir do tempo?
Algo de servir a si próprio e aos que amamos?
Ou de gerar dias inesquecíveis com nossa presença?

Ah, a vida... Mais tempo gastamos dormindo
E trabalhando que amando as coisas que dizemos amar!
No fim, pouco sabemos do amor, pois pouco dele utilizamos.
No fim, pouco entendemos da vida, pois pouco nela "vivemos"!
No fim, pouco aprendemos da liberdade, pois não somos livres!
Os grilhões das obrigações diárias prendem-nos
Numa arrogância eterna por somar coisas, mais e mais...
A guilhotina do cotidiano nos vence e tira nossa cabeça!
Sem cabeça, sem razão, sem exercer coisas do coração:
Somos seres ocos, sem sentido, que vagam!
Entre nascer e morrer, há um lapso de tempo
Em que não basta apenas respirar e ter frequência cardíaca!
Haveríamos de ter amor, prazer, felicidade nesse lapso!
Mas gastamos todas as nossas energias e nossos dias
Tentando juntar coisas que nos convençam
Que todo esse desperdício de tempo vale a pena!
No final, alguém chorará por nossa morte?
Não sei! Apenas sei que todos morreremos!
E quem ao nosso lado pôde ser cativado?
Demos tempo para alguém nos conhecer e nos amar, de fato?
No final, viver é uma questão de força de vontade!
Vontade de seguir vivendo cada dia.
Mas qual vida? Para quê? Para quem?

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Qualquer coisa

A vida é um eterno entrar e sair dos mesmos lugares.
É a gente tentando fazer de cada entrada e cada saída
Algo diferente, incomum, peculiar, ímpar...!
A vida é um eterno entrar e sair dos mesmos lugares?
É a gente tentando fazer de cada entrada e cada saída
Algo diferente, incomum, peculiar, ímpar...?
Ah, a vida. Um excesso de coisas que nos acontece!
Todas elas somando-se em experiências duvidosas pareadas.
Todos os dias somos lançados numa rotina despretensiosa,
Mas sempre compelidos a tentar dar ares de relevância a tudo!
Uns acordam sonhando trabalhar mais e ficar ricos.
Outros já levantam torcendo para encontrar um pouco de paz.
Há os que saem do sono convictos de que tudo será diferente.
No final, somos cadáveres adiados, como diria Pessoa.
A vida, de nós, independe!

Entre o primeiro despertar do sono gestacional até o suspiro derradeiro,
Somos uma sucessão de despertares e sonos sem sentido.
Eis que um dia, pronto, estarei morto!
Eis que um dia, pronto, serei esquecido!
Eis que um dia, pronto, serei lembrado apenas, com sorte,
Quando um parente saudosista ou pesquisador sem o que fazer
For procurar algo sobre mim, sobre quem fui, sobre o que fiz!
Eis que um dia, pronto, nasci!
Eis que um dia, pronto, escrevi isso!
Eis que um dia, pronto, alguém leu!
Independente do que fiz, vi, vivi, escrevi ou proporcionei,
De nada adiantou tê-lo feito. No fim, tudo é nada!
E nada depende de mim ou de alguém para ser qualquer coisa!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier