sábado, 30 de abril de 2016

Sobre nós e mais 7 bilhões de pessoas

Você não precisa ser triste para entender de sofrimento alheio.
Você não precisa sofrer um atentado para ter pena de vítimas.
Você não precisa perder sua casa e sua história numa catástrofe para ampliar seu olhar sobre a dor diante do outro que sofre.
Você não precisa ser rico para exercer a solidariedade de dar um prato de comida a um ser com fome.
Você não precisa ter posses para exercer a beleza do ato de compartilhar do que tem.
Você não precisar ter estado doente do corpo (e/ou da alma) para sentir a necessidade de exercer o afeto ao que sofre.

Você só precisa querer amar mais as pessoas, mesmo que elas lhes sejam diferentes em tudo o que consegue ver.
Você só precisa respeitar a condição humana - de ser frágil e vulnerável que é - e exercer a fraternidade que consiga.
Você só precisa saber menos de memória das palavras de Jesus (e outros exemplos de seres de alto afeto exercido) e saber mais de ações que Ele(s) tenha(m) feito.

O mundo precisa de amor, de exercícios diários de afeto, fraternidade, humanidade. No mais, você não querendo tomar-se conta disso: não reclame do mundo, ou do outro, ou de nada. Reclame de si! Será um começo. Um grande e benéfico começo. 

O mundo se exerce desde dentro de nós - a partir dos sentidos que temos (olhos, ouvidos, tato, "coração"...) - e se faz de acordo com o que temos a oferecer. Ofereça amor, afeto, fraternidade, indulgência, benevolência, perdão... Semeie isso! Exerça no máximo que possa. Se ainda sofrer com isso, mantenha-se firme. Viver é muito mais que um ato de perseverança, que um ato de somar dias e anos apenas existindo. É preciso somar. Somar amor, afetos, fraternidade...! 

A vida só acaba quando algo (ou alguém?) determine isso em nós, para nós. Então: viva! Mas cuidado com a forma que escolha para viver. Há mais de 7 bilhões de pessoas que esperam algo de você. Logo: viva exercendo bondades. Não somos mosqueteiros - conforme nos trouxe Alexandre Dumas, mas que sejamos: "Um por todos. Todos por um!", sempre.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Sobre a vida, o amor e o ar nos pulmões

No intervalo de tempo entre meu primeiro choro (numa maternidade) até meu último suspiro (Numa rua? Num quarto? Numa cama - de hospital, quiçá?) há um curto espaço de tempo. Chamam-no de vida. Eu tenho a minha assim como os demais têm as suas. Vivos, vivemos trombando, uns nos outros, ora aqui, ora ali, ora numa rua, ora num quarto, ora num parque, ora num hospital...

No geral, chegamos à vida dentro de um hospital. Não raro, é para lá que vamos quando nos chega a hora de morrer. Retornamos também para lá quando nossa saúde nos foge pelos dedos... A vida não é, em si, pesada a ponto de ser fardo, mas é, digamos, escorregadia e exige de nós atenção para tê-la conosco nas mãos incólume, intacta. Descuidados, nossa vida se parte caída no duro e frio chão do mundo.

Sorrir tem sido a você ato pouco costumeiro? Talvez seja reflexo dos tempos de ódio que se nos avizinham. Mas é imperioso que retornemos aos sorrisos! Que tenhamos menos medos, menos ódios, menos pressa... O correr da vida dá-se por si mesmo. Por qual motivo apressar as coisas? Temos sido tão precipitados e agressivos...

Novamente, repito: entre o primeiro choro e o tal "último suspiro", há o curto tempo chamado vida. Dediquemo-nos a coisas boas nesse tempo! Entrar na vida chorando é fato e, de certa forma, saudável que assim seja. Passar a vida chorando ou dar seu último suspiro aos embalos de um pranto - qualquer que seja? Não! De forma alguma.

Ame! Faça coisas por si mesmo! Pense nos outros! Lute por fazer algo por eles! Ame mais. Ame novamente. Ame sempre e, assim: viva! Que a duração de um eventual choro seu seja tão curta na memória da vida quanto o tempo que a lágrima tem para cair no frio e duro chão do mundo. Fora isso, espere feliz e cheio de amor pelo momento daquele último suspiro. Afinal, dessa terra não levamos nada para o túmulo - nem mesmo o ar dos pulmões.

Quando olho pela janela

Quando chegar o dia em que haja mais flores nas varandas 
Que enlatados na dispensa, esse será um belo dia.

Quando tivermos mais apreço por não pisar na grama 
Que pela marca do tênis que usamos, talvez sejamos humanos melhores.

Quando chegarmos ao ponto de um cego 
Não precisar pedir ajuda para atravessar a rua, 
Sendo a atitude de ajudar mais rápida que o pedido de auxílio, 
Teremos um futuro com mais chances de ser grandioso.

Quando a fome dos outros e o frio que sentem 
Causarem mais pesadelos que filmes de TV e 
Mais inquietude que as dívidas para pagar: 
Estaremos em dias bons!

Por mais flores dadas aos vivos...
Com mais varandas, em cores, floridas.
Por mais apoio aos pobres e demais cativos...
Com mais respeito e amor às vidas!

Daí, enfim, quem sabe todo dia será um dia bom?

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Travessia

O homem passou da travessia.
Entrou no trem, de partida.
Como dele ninguém se despedia,
Simulou um "Adeus!" na saída.

O balançar daquele vagão
(De indecisão, ir e não ir... Será?)
Dava-lhe, no fundo, a sensação
De que certezas não havia - nem há.

Foi-se embora sozinho no trem.
Era tudo aquilo um cenário comum?
Foi-se sem despedir-se de ninguém.
Partiu, acanhado, rumo a lugar nenhum.

sábado, 16 de abril de 2016

E Deus chorou


O céu adquiria tons de vermelho.
Algo como se Deus quisesse falar.
Estariam sangrando Deus?
Não enxerguei mais. 
Fechei os olhos.
Parte do céu caía...
Nuvens vermelhas tocavam o chão.
Explosões haviam me retirado qualquer sono.
O medo mantinha-me acordado.
Desesperados corriam pelas ruas.
Mal sabiam o porquê, mas corriam.
Afinal, correr é uma atitude instintiva.
O medo é uma reação que induz isso.
O país estava em guerra
E as pessoas morriam por isso.
Ruídos explosivos, angustiantes, 
Nada que os fizesse parar era acessível.
O homem construiu sua ruína
E deu nomes tecnológicos a tudo.
Metais por todos os lados.
Explosões, estilhaços, fagulhas, chamas
E corpos, muitos corpos.
Eu estava ali ainda após tudo. 
Minhas roupas haviam se rasgado...
Não sei bem como.
Eu estava quase nu, andando sem rumo.
Não havia ninguém que eu pudesse olhar.
Faltavam-me olhos...
Eu queria olhar olhos.
Onde estavam os olhares e as pessoas deles?
Tudo havia acabado.
Ao longe, mais explosões.
Deus havia de estar em algum lugar,
Mas com certeza também sangrava.
Os filhos dEle se matando...
Bombas, tiros, aviões, dispositivos...
Tantos dispositivos!
O pior desses não fora criado pelo homem,
Ou pela indústria da guerra que tanto mata,
Tanto matou e tanto gerou e gera lucros.
O pior dispositivo criado era o homem.
E quem o havia criado fora Deus.
Por isso, Deus sangrava... Deus sangrava...
E, sangrando, mais outra vez Deus chorou.

( homenagem a todos os mortos e familiares daqueles que nos foram retirados pela atrocidade das guerras )

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Pele fria

Dores ácidas, gota a gota, 
Caíam por sobre a pele rota.
Havia o peito aberto, vazio,
Trazendo a ausência e um certo frio...

O homem que lá estava,
Do todo que lhe restava,
Nada fazia ou produzia.
Era só corpo oco, em pele fria.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Devaneios sobre círculos, nós, os outros e retas tangentes

Tenho tido sonhos estranhos em meio aos intervalos de insônia costumeiros. Tempos difíceis? Sim. De fato! Mas quem não os têm? Não me orgulho de os ter, mas são guarnições que vamos carregando na alma, pois aparentemente Deus cobra de nós mais por tempos difíceis que por tempos de felicidade. E nesses devaneios, fico entrando nas casas mentais de grandes pensadores. Tento aprender algo. Tento sair da minha pequenez. Quem sabe neles eu encontre respostas que as leituras de religião não me dão? 

Afundo a cara, aproximo os olhos numa leitura de Fernando Pessoa. Ah, que pessoa deve ter sido... Quisera eu ter podido sentar numa cafeteria ou numa tabacaria com ele. Sentar, olhar, admirar e, quiçá, trocar algumas palavras. Pegar para mim algo pelos ouvidos e guardar para sempre. Uma frase, um poema declamado? Testemunhar a criação de algo dele? Ah, quem, me dera.

Não sou daqueles que são brilhantes. Por isso, procuro encontrar luz. E, em tantos aspectos, há escuridão demais em mim. Há escuridões, da verdade. Elas brigam entre si, ou coisa assim... Eu fico ali sendo moldura de uma paisagem em movimentos assustadores, não raro, que me corroem por dentro tantas vezes. Solidão... Solidão... Só lhe dão apoio de tabelas na vida. Todos somos tangentes nos sofrimentos dos outros. Nunca conseguimos atingir o cerne, o centro daquele círculo de mágoas, dores e ressentimentos que tanto vemos por aí e que, por azar, às vezes somos nós mesmos esse círculo sôfrego.

E pensando, pensando, tendo comigo algo do Pessoa, leio e reflito na passagem: "(...)tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta / e me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!". Tenho náuseas às vezes, sim, ao ver e pensar do mundo, das coisas. Ver que, apesar de tudo, somos todos solitários. Nosso interior é desconhecido até mesmo de nós. Daí, vejo-nos como aquele círculo. Círculo esse preenchido por inúmeras coisas. Algumas pessoas tentam nos ajudar, mas passam no máximo como tangentes. Mas mesmo assim, nos tocam de alguma forma.... Se fossem infinitas as tentativas de ajuda, por tantas e tantas tangentes, seríamos um círculo rodeado por uma estrutura sólida. Não? Acolhidos... No aconchego de um todo. 

Vê? Coloque no papel. Faça seu círculo. Vá colocando infinitas retas tangentes... Num dia distante, você verá que não restará espaço vazio para fora do círculo... O entorno estará preenchido pelas cores das retas que tocaram aquele círculo em um ponto apenas cada...Ele está tocado em todas as partes! Está abraçado! Acolhido num mar de tangentes... Mas não é isso que ocorre... São apenas algumas pessoas que passam e nos tocam. Mas deixam sempre um novo cheiro de primavera no ar. Algo muda para dentro daquele círculo vazio que somos? Talvez. Apesar de nunca atingido, intocável que é, nosso interior não é imutável... Pode ir preenchendo-se, mas de dentro para fora... De dentro para fora...

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Sem sentido. Sem sentido. Sem sentido...

Talvez nossa alma seja feita de borracha.
Sim! Talvez ela vá se gastando aos desgastes.
As correções, as sequências, as vidas que passam.
Os erros que somam-se e vão sendo apagados...
Cirurgicamente, apagamos erros, mas esfarelamos.
Somos feitos de almas de borracha!

A cada nota errada, a cada movimento dissonante,
Saímos dos eixos e tentamos apagar.
"Força! Força! Não está apagando nada...".
Então, o que fazer?
"Pegue! Tome! Fique com minha borracha para você!"
Não, Deus, eu não queria errar.
Eu nem queria ser borracha maleável que conserta..
Não conserto nada. Não apago. Nutro! Reescrevo.
Garranchos. Apenas garranchos.

E o que há? Uma folha com arranhões, desgastada.
Essa folha sou eu. A borracha sou eu.
O tempo está ali, passando, a cada risco ou farelo.
A borracha, o papel, o tempo, tudo vai se consumir.
E eu, aqui, não terei escrito nada.
Não terei corrigido nada ou apagado nada.
Apenas terei sido rabiscos e farelos de borracha.
Sem sentido. Sem sentido. Sem sentido...
E o tempo? Passará para mim. Mas ficará aos outros.

Na via

Vejo o que escrevo. É tudo meu?
Ah, como dói ler e saber que sim...
Como dói ler, pensar e saber-me eu!
Textos...textos... Quero pôr fim em mim.

Mente sã. Corpo são?
Mente doente. Corpo doente?
Que sou eu além de desprezo? Vão...
Sigo os dias sedento por paz e demente.

Ao meu corpo, podem dar um espírito novo?
Pronto, Deus, doo minha carne a outra alma.
Pegue! Leve adiante. Resolva ou eu resolvo.
Seria a morte ou uma outra vida o que me acalma?

Ah, Deus... Outrora eu tive tanta esperança.
Outrora eu era confiante e capaz, forte como queria.
Quero dormir e chorar. Tudo em mim me cansa.
Tome meu corpo, Deus! Dê a alguém - ou o largo na via.

Muito


Como eu queria poder matar o tempo. Mas diga-me como? Tenho perseguido um rumo aleatório que me coloca em círculos... Em queda. Pairando no ar, nunca caminhando. Minhas pernas definham assim como minha fé. É justo dizer que talvez eu mereça. Desconheço o que já fiz em outras vidas.

Tudo isso pode ser um martírio estabelecido bem antes de eu ter nascido, sim. Por anos pensei que eu caminharia encontrando luzes... Pensei até que eu iluminaria algo. Mas não. Sou uma tocha apagada ou uma imensa escuridão é o que me há ao redor. Cego? Visão escura... Vejo uma escuridão, e só.

Mas, insisto. Queria mesmo matar o tempo, essa coisa que nos obriga a acordar, dormir, seguir e ter compromissos. Não quero compromissos. Gostaria, a bem dizer, de não acordar mais. Mas o que haveria depois disso?  Queria deixar de pensar, de existir, de ser esse pedaço de carne perambulando entre sombras, escuro por dentro, sem luz por fora. Nada demais eu queria. Apenas isso. É muito... É muito?

Escuridão


Mais um dia em que acordo estranho. 
A noite parece não ter partido.
Sombras somam-se num rebanho
De pensamentos amargos, sem sentido.

Olhe-me, Deus? Onde fica seu altar?
Já procurei tanto. Não o encontro.
Dizem que está em nós e que vou achar.
Ah, suspiro... Talvez eu não esteja pronto.

Deus deve querer gente melhor para ter
Do lado, caminhando. Ele guiará os bons.
Aos renegados, qual rumo há de haver?
Um mundo escuro, de sombras, sem tons...





terça-feira, 5 de abril de 2016

Imenso nada

Queria saber escrever. Sim! Ser daqueles que transmitem uma série de eternidades dentro de curtos textos. Queria transbordar em letras e sentenças tudo aquilo que me invade, me consome, me afoga e destrói a mim e todos os meus eus dentro de mim.

Ando só, apesar de todos os comigos de mim - tentando puxar para o texto o enorme, grandioso Fernando Pessoa. Não me aguento comigo. Sou muitos! Ora quero sair de toda a realidade que tenho, romper muros e desaparecer rumo a novos mundos. Ora quero apenas deitar na minha cama cotidiana e chorar o máximo de pranto que caiba em mim. 

Sou daqueles que pensa de si algo que não enxergam os outros. Não consigo convencer as pessoas ao redor do quão mal eu me sinto, o quão mau eu me acho. Nem bem, nem mal. Nada há de consenso em mim. Vivo aqui e ali tentando me esgueirar por entre os corpos nas ruas em meio à sociedade e, quiçá, achar um rumo a seguir, alguém para me espelhar, algum suspiro que me alivie.

Não. Nem bem, nem mal, nem força, nem fraqueza, nem ócio, nem ação. Sou nada! Simples assim. Não cabem em mim coisas que não sejam as incertezas sôfregas que me são meus outros eus. Somando todos, não sendo nenhum deles, sou um imenso nada. Mas sinto. Sinto sim! Sinto uma imensa dor que dilacera. Sinto muito...