quinta-feira, 26 de outubro de 2017

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Que não nos falte a gentileza

Do mal aparente, retirar o bem presente. Isso é um aprendizado e tanto para nós, ansiosos e de pouca fé. Admiro muito os homens e mulheres de fé inabalável. Eu tenho minha fé, confesso, mas ela sempre oscilou. Por vezes, o lado racional me vem de encontro à cabeça e me retira todos os pensamentos tranquilizadores da religião. Nessas horas, me vejo sozinho e chorando.

De tudo quanto haja para passarmos na vida, que haja sempre a gentileza no trato humano, o abraço caloroso, o aperto de mão vigoroso, a palavra de consolo, o olhar que inspira confiança e o amor, ah, o amor sempre nos atos. Que nossas dores nunca nos impeçam de sorrir aos outros, todos eles, que já têm seus próprios problemas e lágrimas por serem resolvidos. 

Pedro I G S Xavier

Pedra em vidraça

Ame quem você puder. Ame da forma que você puder. Mas ame. Ame na intensidade que você puder. Ame na reciprocidade que você puder. Mas ame. Ame muito. Ame sempre.

No nosso mundo hoje, tem sido muito difícil enxergar o amor e a todo momento enxergamos o ódio. Isso tem que parar! Comecemos amando nossos pais. Comecemos amando nossos filhos. Depois, comecemos amando nossos amigos. Depois, amando nossos colegas. Após, amando os que dividem espaço conosco no nosso dia a dia e não nos são nem amigos nem colegas. Amemos!

Agindo assim, num futuro mais ou menos distante, estaremos aptos a amar até os nossos inimigos como Jesus, o maior filósofo do amor da nossa história humana, nos recomendou. Precismos amar! Precisamos de amor! Amor constrói pontes enquanto o ódio decepa cabeças e corações. Somente exercendo o amor nos abraçaremos um dia na fraternidade universal sonhada e necessária.

Deixemos nossos filhos amarem-se uns aos outros. Ensinemos a eles a amar suas/seus professoras/es, seus/suas colegas e amigos/as de escola. Ensinemos a eles a amar as/os funcionárias/os das escolas onde estudem. Ensinemos a eles a amar mesmo aqueles que, por opção pessoal, apenas exercitam o ódio. Assim, em breve, teremos jovens aptos a entregar rosas nas ruas e não a jogar pedras em vidraças.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Crítica ao capital puro

A vida é uma imensa busca por significados. Cada um encontra os seus e defende seus interesses e conclusões. De minha parte, vejo que a busca por significação da vida na imensa maioria das pessoas tem sido aliada à busca pelo capital. Sim. A busca por ter, poder, conquistar. Posses! Será que essa é a significação dada à vida que os filósofos, religiosos ou não, pensavam ontem ou nos aconselhariam hoje? 

Vejo que uma imensa ordem de pessoas privilegiadas insistem em não se ver como privilegiadas. Em não se vendo como privilegiadas, por vezes se veem como sofredoras das mesmas mazelas que os cidadãos desafortunados. Coisa que, aos olhos desatentos, pode passar desapercebida, mas para os olhos pelo menos um pouco treinados em observar causas e questões sociais não passa desapercebida.

A riqueza é um crime? Óbvio que não - se foi construída em cima de trabalho honesto. Mas o não envolvimento no combate às misérias alheias isso sim é (ou deveria ser) um crime. Saber-se privilegiado numa sociedade tão imensamente pobre e não fazer nada para tentar erguer os desafortunados de sua condição de penúria é sim um crime.

A riqueza pode ser sim uma vitória, mas a felicidade da minha vitória não me pode alienar de minha responsabilidade para com a derrota dos derrotados. Entendem? De que adianta eu passar uma vida usufruindo de privilégios meus, adquiridos ou conquistados, sabendo que a imensa maioria dos cidadãos como eu vivem em penúria? Será que não fazer nada diante do sofrimento alheio nos será uma opção de atitude? Não deveria ser. Deveríamos todos lutar pelo fim das desigualdades e, sendo fraternos, nossos privilégios nos deviam abrir os olhos para as misérias dos desafortunados. 

Será que isso um dia irá ocorrer? Será que seremos um dia fraternos? Não sei. De minha parte, até lá, tento agir e sonho esperando que esse pesadelo de misérias sem fim de meus irmãos de caminhada acabe um dia.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Paixão perdida

Sonhei com os passos dela.
Seu caminhar em minha direção.
Mal saberia eu que seria ela
motivo à minha profunda depressão.

A perda do amor que se deu, mas que passou...
O extravio dos sonhos na alfândega da vida...
Perder um amor só é fácil pra quem nunca amou!
Ah, Deus, é desumanidade uma paixão perdida.

domingo, 22 de outubro de 2017

O ser criança

A criança corria como se um pote de doces estivesse logo ali, à frente. Corria, sorria... Brincava como se não houvesse amanhã. Era pura, ingênua, interagia com todos e todas. Pessoas passavam e olhavam. Quase todos olhando com amor aquela cena linda. Alguns poucos, invejosos talvez, torciam narizes e passavam sem interagir com a criança.

Eram passadas poucas horas daquele início de tarde. Era mais uma tarde, era mais uma criança em mais um dia. Éramos mais homens e mulheres ao redor daquele ser tão peculiar e ingenuamente profundo e pleno: o ser criança. Olhei de longe, dei um adeus discreto e fui pra casa feliz. Há ainda crianças brincando nas ruas e, enquanto haja elas, o mundo estará a salvo.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Aquele homem

Aquele homem amou aquela mulher com o máximo de amor que detinha. Tentou ser melhor. Tentou superar medos, superar engôdos. Tentou fazer no amor a superação dos erros levianos que via. Cabia a ele ser mais? Cabia a ele fazer mais? Mal sabia aquele homem que o fim do amor seria seu fim, sua desvalia..

Ele esperava algo do futuro, de início. Sonhou se reencontrar. Sonhou amar de novo. Mas não conseguiu. Aquele homem amou sua única mulher amada! Não lhe interessavam nenhuma mais das outras dentre o povo. O homem queria seu velho amor de novo. E sonhou, sonhou, sonhou, mas, disso, nada viu.

Sentiu muito, sim. Sentiu. A lágrima caiu e ele se olhou no espelho. A máscara do homem feliz estava carcomida. Ele enxergava-se agora cabisbaixo, sem amor. Sentia um ar de despedida... Via a dor, a dor, a dor. O dissabor de não ter os braços e abraços da mulher que tanto amou em vida.

E aquele homem fez assim seu dia: pensou nela! Ela? Sabe-se lá o que pensava. Ele? Apenas sonhava, sonhava e sonhava, enquanto, distante, a amava.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Daquilo que esperei

Olhei da janela a altura em que eu me via.
Olhei para dentro de mim e vi minha pequenez...
Vi no chão distante o fim que eu queria.
Vi em minha alma o silêncio que me consumia de vez.

Como pegando fogo, ia me consumindo por medos...
Ia me matando por tantos enganos, engôdos e desenganos.
Afastando-me do  mundo em solidão voluntária, degredos,
via-me sozinho, isolado, pequeno, repleto de danos.

Eu tinha sonhos para mim que não mais os sentia.
Não era eu nada daquilo que esperei. O que havia?
Era eu apenas um retrato no passado que na estante eu via.
Não restara nada daquilo que eu sonhei ser um dia.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Cor e ação

(...)
Quando agirmos como o coração, seremos fraternos! Seremos, como se diz? Cristãos? Também. Coração, por acaso ou não, pode ser dividido em ''cor'' e ''ação''. Enquanto nossas ações forem diferenciadas em relação às nossas cores, enquanto não nos olharmos como, todos, seres da mesma espécie entendendo que ninguém é melhor que ninguém: ter um coração só nos servirá para bater e evitar nossa morte do corpo - pois, de espírito? Já estamos em óbito, creio eu. 
(...)

Inacabado

Quero um mundo onde eu possa desfrutar da paz de ser gente como outro humano qualquer. Quero que todos sejam o que têm de ser. Quero que as páginas em branco das nossas vidas sejam preenchidas por amor, fraternidade... Quero uma gota de lágrima para cada tragédia que se perpetue. Quero canções que levantem as massas para os rumos a um mundo melhor. Quero ouvir gritos de revolta diante das atrocidades e infâmias do dia a dia. Quero secar as tristezas úmidas nos rostos dos que choram. Quero abraçar as pessoas repletas de chagas - da alma, do corpo, quiçá. Quero ser gente como todas as gentes! Quero que todas as gentes sejam amadas e bem vindas. Quero ser forte como sonhei. Quero ser firme como esperava. Quero ser mais do que sou, eu que tão pouco tenho sido. (...)

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Tabacaria - 15-01-1928, de Fernando Pessoa

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 

Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 

Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? 

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento 
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim... 
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, 
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
O mundo é para quem nasce para o conquistar 
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordamos e ele é opaco, 
Levantamo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. 

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa. 

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) 

Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. 
Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
A roupa que vesti era errada. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime. 

Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei. 
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. 
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. 

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. 

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

sábado, 21 de outubro de 2017

Cárcere

Uma dor inconsequente consumiu o que me havia de bom por dentro. Deixei-me levar pela dor e sobraram só sombras daquilo que um dia senti e fui. Como numa Caverna de Platão, olho sombras. Vejo aquilo que poderia ter sido, aquilo que talvez fosse, mas aquilo que de fato eu era ou deveria ser, são apenas paisagens escuras que me distraem sem motivo aparente. Tento entender os porquês e não sinto nada a não ser um misto de medo, asco e ódio. Sou eu assim uma sombra própria de mim mesmo numa parede que se faz cárcere: eu.

PIGSX

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O filósofo

''Podes sentar do meu lado se quiseres suportar a vida comigo'', disse o homem à pessoa ao seu lado. Ela o olhou de cima a baixo e fez seus pré-julgamentos. Mas sentou-se. Fitou-lhe os olhos, profundos. Fixou o olhar nos cabelos despenteados, no corpo mal cuidado.

Era ali um homem em infindáveis pensamentos que se regozijava ao sentir que, de si, partiam uma meia dúzia de certezas em meio a algumas milhares de dúvidas. Ele adorava se perguntar sobre as coisas e adorava saber que quase nunca concluía nada.

A pessoa apertou-lhe a mão. Colocou-se mais perto e o abraçou. Ele pouco entendeu daquilo, mas deixou-se ser abraçado. Sentiu carinho e, disso, sentiu-se feliz. Apontou para o horizonte e começou a filosofar em devaneios pessoais seus. Os ouvidos todos ali se puseram a ouvir-lhe. E ele ficou falando por várias horas, sem fim...

Como faz falta um par de ouvidos. Como faz falta alguém para abraçar. Como faz falta a presença de alguém para simplesmente dizer sim ou não para você. O homem calou-se. Fitou o horizonte e agradeceu. Era um fim de dia diferente para ele aquele entardecer...

A criança na calçada

A criança saiu de casa. Andava tocando tudo quanto via pela rua. Parece que queria ter a certeza da existência de tudo o que via. Sorria sozinha e olhava para o pai que, de mãos dadas, participava do passei daquela criança.

O chão, as árvores, a calçada com sombras que se moviam, que pareciam andar... O sol deixava sombras por onde tocava. A criança adorou aquilo tudo e pulava de sombra em sombra. Quando não havia sol, ela pulava os desenhos na calçada. ''Uma pisada no vermelho, outra no amarelo'', ela dizia. Seu pai ria por dentro achando tudo aquilo lindo.

A criança olhou para os lados, atravessou a rua apenas quando o sinal estava verde para ela. Ela já sabia algo de segurança e tantas outras coisas. Seu pai, de mãos dadas ainda, a carregava ou era carregado por ela? Crianças são espertas.

Ah, crianças. Como é bom vê-las. Como deve ser bom tê-las. São como o sol: passam e deixam luz! Mas, ao contrário do sol, crianças não geram sombras. São luz! Apenas luz! Irradiam alegria na forma de atitudes lindas, espontâneas que são. Crianças são amor também. Isso! Crianças são luz e amor.

De resto, sobra o mundo regido pelos adultos... Precisamos de mais crianças pelas calçadas e pelas ruas. As crianças nos mostrarão o caminho quando formos adultos mais responsáveis e traçarmos nossas rotas (e as nossas escolhas) pensando nelas, pensando - como for possível - como elas.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Má ideia

Acordei trêmulo. Era o calor que me fazia inquietar. O sol batia, da janela, dentro de meu quarto e me aquecia a ponto de queimar a pele. O vi com bons olhos. O sol estava ali para isso mesmo: aquecer, queimar... Era descuido meu deixar-me queimando. Por isso, saí dali e fiquei sentado perante a janela vendo a luz do sol mover-se pelo chão com o passar das horas.

O dia foi esvaindo enquanto eu também ia me desfazendo. Eram horas sem fim que passavam, uma a uma, com o sol sumindo aos poucos como meus pensamentos sumiam de mim. O dia ficava a cada instante mais escuro e eu, também, assim estava ficando. Escuro. Sem pensamentos. Vão com tantos pensamentos vãos se esvaindo enquanto me deixavam confuso... 

Levantei-me pouco antes do sol desaparecer no horizonte. Não mais havia luz no chão de meu quarto. A casa, apagada quanto às suas luzes, adentrava a noite comigo dentro a perambular com tantos pensamentos na cabeça. Peguei um cigarro... Soltei toda a fumaça que podia. Eram suspiros que saiam de mim enquanto dentro, bem cá dentro, saiam também devaneios tristes sobre o que era eu na vida.

Pensei-me como um cigarro. Estava sendo fumado pela existência. Eu me transformava a cada dia mais em cinzas. O tempo passa para mim como o fogo passa pelo cigarro. E, disso: deixam-se restos. Restos de mim ficam pela minha vida, por onde passei. Ficaram memórias. E eu? Deixei lembranças?

O cigarro, por onde passou, deixou fumaça, deixou suas cinzas. Éramos parecidos, metaforicamente. Pois a vida me consumia como o fogo consumia o cigarro. Eu fazia alguma fumaça? Deixava algo de bom como sinal de que existi? Alguém se lembraria de mim após minha partida como as pessoas ao redor do cigarro se lembram dele pelo odor característico deixado no recinto enquanto o cigarro se consumiu? Não sei... Era eu apenas uma mente em devaneios sem sentido.

Talvez a rota própria do cigarro tenha mais sentido do que a minha vida. Talvez os desenhos que a fumaça do cigarro fazia no ar de minha sala tivessem mais sentido que meus pensamentos por ora. Apaguei o cigarro... Quem dera pudesse apagar meus pensamentos. Se eu assim o fizesse, talvez apagasse a mim mesmo. Não? Não sei. A questão que me fica é: seria uma má ideia?

Lágrimas sem fim

Tentei fazer correto tudo aquilo que eu devia,
mas sobra dentro de mim um terror, uma sensação fria
de ter falhado em tudo.

A soberba que um dia eu possa ter tido
deu lugar a um luto contra o qual luto, iludido,
sem vencer a derrota que fiz de mim mesmo.

Derrotado, cabisbaixo, calado - mais a cada dia:
resta saber quando será meu fim. Qual final eu daria
a mim mesmo se eu mesmo escrevesse minha história?

Ora, ora... Como posso pensar em fim,
se não consigo me desvencilhar de mim?
Resta aguardar o tempo...

De tudo, sobra ao pranto que, inquieto, jaz, comigo, aqui dentro.
E eu, ao relento, de mim aquém, fico mal, não me aguento...
Resta chorar lágrimas sem fim.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier