sábado, 29 de junho de 2013

Atroz fera

Em passos curtos e lentos, a vida me corre por entre os dedos.
Os dias não mais são claros e a noite escura desperta medos.
É hora de rever e reavivar! Hora de parar, acima de tudo!

Alargo os nós dos calçados, da gravata, abandono o terno...
Quisera eu ter asas e voar, ou algo assim. Fuga do inferno!
Ir além das esperanças alheias, alcançar as nuvens que me cabem!

O céu está ao alcance não só dos mortos, mas também dos vivos.
Basta-nos abandonar o orgulho, comportamentos altivos,
Sacudir a alma e voar rumo à liberdade que todos trazem em si.

A paz não é uma conquista, mas uma árdua construção.
Vem aos poucos, lentamente, é essa a condição:
Aguardar o dia em que ela, enfim, estará pronta!

Mentir e desfrutar de paz ilusória, de que vale a pena?
Melhor esperar o devido momento, de alma serena.
O dia de amanhã reserva a si seus cuidados.

Serenidade tornou-se quimera?
Ao hoje, reservam-se a missão e a espera:
Acalmar o coração, essa atroz fera.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


Par de sapatos

Naquele meio de mato, plantei minhas esperanças
Guardadas todas elas dentro de uma algibeira.
Enterrei-as de pronto quando decidi!
Não queria saber de despedidas, nem de reencontros!
Apenas as guardei e as enterrei, deixando-as ao mundo.
Quem sabe disso, plantadas, elas floresçam?
Desde aquele instante, vivo apenas seguindo o fluxo,
Pois tudo na vida é um eterno fluir, com idas e vindas
De coisas, de gente, de sentimentos e de esperanças, claro!
Algo sem sentido se pensarmos bem, mas é o que há pra mim!
Para quem beira à morte, a vida é interessante demais!
Mas a vida para quem está vivendo é um tanto quanto ambígua...
Uns a defendem! Outros a temem! Outros a gastam...!
Penso que a vida é para ser gasta. Isso eu digo e repito!
É disso que precisamos: gastar a vida até surgir algo dela!
Não se aproveita um par de sapatos dentro da caixa, correto?
É preciso calçá-los, sujá-los, gastando as solas no fluxo dos passos!
Isso é a vida - um sapato a ser gasto?
Filosofias banhadas em álcool, poderia pensar e definir assim!
Mas a vida deve ser isso e pronto:
Uma gastança sem precedentes pessoais!
Não de dinheiro, mas de suor, de lágrimas, de solas de sapato...
Gaste-a o quanto puder. Use e abuse da vida!
E do dia de amanhã? Que gaste-se ao seu devido tempo!
Cada um estipula o tanto que quer arriscar!
Cada um arrisca o tanto que pensa poder!
Cada um atinge mais ou menos pelo tanto a que se apega...
Tudo ao qual se está em apego torna-se prisão sem grades!
Daí, apenas arrisca-se de fato quem a nada se apega!
Arriscar-se com apegos é sofrer na certa!
Nem arrisca-se, nem desfruta-se do objeto de apego...
Seria como gastar um par de sapatos andando em círculos.
Arriscar ou temer... Outra das ambiguidades da vida!
Mais do eterno ir e vir, agora de conceitos!
Mais vive quem a menos (ou a nada) se apega.
Quanto mais coisas carregam-se nas costas,
Menos passos são dados, mais danosos são os que se der!
Mas a vida é para ser gasta. De mim, entretanto, por ora,
Gasto apenas saliva e letras medindo-me em conjecturas.
O mais? Tem sido nada!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Apenas...!


Tú és para mim um medo triste de perder-te.
Algo que coroa minhas vivências
E destrói minhas esperanças.
Por ter a ti, sou grato.
Se penso em perder-te, morro antecipado,
Pois sem ti, sou raso, vazio, não profundo...
Em perdendo-te, puxo a corda do mundo 
E quero descer!
Não me cabe definir o quanto a amo!
Sei o quão intenso é a ponto de me fazer temer
Deixar existir tal sentimento que, para além de mim,
Transborda e nem em mim mesmo cabe!
Apenas deixo o amor transitar por entre meu sangue
Como um parasita outrora benfazejo!
Apenas deixo meu sangue fluir seguindo seu rumo,
Enquanto permitam-me a vida. É o que desejo!
Apenas...!
Apesar de tudo, sigo existindo com todo esse amor ao peito!
Sigo fingindo-me sabedor das coisas que trago cá dentro.
Sigo, apenas!
O que resta-me além dos tantos passos já dados 
E dos próximos, talvez poucos, ainda por dar?
Uma vez no caminho, resta-nos caminhar!
Caminhe comigo, pois, sem ti, sou pés descalços
Que sangram, doem e impedem-me de seguir!
Preciso de ti não como sola de sapatos, 
Não entenda-me mal,
Mas sim como berço da alma condenada ao meu corpo!
Era apenas isso o que eu tinha a  dizer!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 25 de junho de 2013

Reflexões avulsas



Reboliço

Preciso ser um novo eu, nem que eu tenha de obrigar-me a isso. 
Preciso tornar-me outro alguém, sereno, extinguindo de mim esse eterno reboliço.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


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O segredo dos obstáculos

Deixe o tempo rasgar o que há de perder-se. Não cabem-nos prerrogativas para ver o final das coisas, apenas as entender enquanto duram! Tal é o segredo dos obstáculos!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Poema mudo


A força que move é a mesma que cala!
Tudo faz parte de um contínuo movimento.
Nas horas aflitas, tudo cerca-se de sofrimento
E o peito guarda a palavra ausente na fala.

Vez ou outra, um sentimento desperta
A carne viva da memória tida por morta
E a alma apequena-se com a ferida aberta
Que consome a paz forjada que se exorta.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O velho despenteado, de barba mal feita e solitário...


Olho para as ruas, vejo os faróis acesos. Brilham dentro dos carros mentes cintilantes que mal sabem de sua força ainda por brilhar. Um homem passa à frente de todos, mal sabendo eles quem o mesmo era. Nem o próprio homem mais o sabia... Eram tempos difíceis.

Um dia, acordou mudado aquele homem. Olhou-se nos espelhos de casa tentando ver mais de uma visão além de seu rosto lamentavelmente destruído pelos anos, pelas lágrimas... Será que sua face foi levada junto dos momentos de pranto passados? Ele não era mais tão jovem como esperava ser até há poucos dias atrás - parecia isso, pelo menos. Ele era apenas um velho despenteado, de barba mal feita.

Pegou seu último charuto e o fumou antes de sair às ruas. Queria despedir-se naquele instante, aos tragos...Suspiros esfumaçados. O homem largou o toco daquele derradeiro charuto. Olhou a foto de sua família, beijou-os naquela que era algo de uma tela, uma pintura para ele. Não era uma mera foto como tantas outras. O dia da despedida...

Sozinho, ele saiu de casa como lhe era de costume há alguns meses. Sem rumo, sem algo além da companhia de sua velha barba, seus cabelos despenteados e suas roupas mal trocadas e mal limpas.. Ele, de fato, era apenas um velho despenteado, de barba mal feita e tristemente solitário!

Os vizinhos deploravam vê-lo naquele estado, mas nada faziam. As cartas de cobrança acumulavam-se no alpendre, caídas no chão; a caixa de correio há muito estava repleta de papéis...tantos papéis. Nenhum deles traria novas esperanças, por isso não eram mais vistos pelo dono daquela casa, aquele que era um mero velho despenteado, de barba mal feita, solitário e tão sabidamente carrancudo...

Tudo naquele dia parecia ainda mais vago. Parou no bar do seu velho amigo que nem mais puxava assunto com ele, pois sabia das dificuldades e da clausura em que seu amigo, aquele velho despenteado, barbudo, solitário, carrancudo havia criado em si mesmo! Serviu-lhe duas, três, quatro doses do velho e tradicional whisky como há tantos anos. Como desde há alguns meses o fazia, nem cobrou de seu amigo pelas doses devidas. Entendia seu momento e, sem esperar nada em troca, olhou e o viu saindo de novo por onde entrou: a antiga passagem, a porta do bar. Dessa vez, naquele dia em especial, saiu ainda mais sem rumo...

Era um momento difícil. Para todos, aquele era apenas mais um dia comum na vida triste daquele velho despenteado, de barba mal feita, solitário, carrancudo e aparentemente sem vida. Era ele apenas mais um nas ruas, sem ninguém para ter com ele dois ou três dedos de prosa agradável. Ele precisava conversar, chorar, desabafar. Saudades ele tinha de sua esposa, de seus filhos... Cada um desses representava apenas meras lembranças naquela cabeça atordoada. Assim como o dono do bar, todos que conviviam com ele evitavam qualquer interação. Tinham medo das respostas mal criadas daquele velho despenteado, de barba mal feita, solitário, carrancudo, sem vida e dito ''deseducado''. Daí, não puxavam mais assunto a pretexto de estarem respeitando seu silêncio duramente imposto como conduta habitual.

Era mais um dia, mas não um dia qualquer. Era ele, para todos, apenas mais um homem no mundo. Era apenas mais um solitário senhor cheio de lembranças ruins, ou boas, tão pouco interessava... Tudo havia perdido sentido: a vida, as conversas, a casa, a barba, os cabelos... Nada mais importava. Nada mais ali era dele, ou para ele, pois o que ele amava perdeu-se em uma tragédia que fixava-se em suas memórias como chaga aberta, sem cura aparente. Ele era um homem solitário assombrado pelo seu passado recente. Ele era apenas mais um homem, mas ele estava ali e ninguém o notava.

Porém chegou o derradeiro instante em que ele enfim fora notado, seu último momento de vida. Todos viram aquele homem caído no chão, sem vida, ao pular da mais alta ponte daquela cidade tradicional repleta de carros e de gente, mas sem corações amigos, sem conversas agradáveis, sem causas ou motivos aparentes para existir - pelo menos assim era vista por aquele homem. Vários que ali estavam choraram de pavor, de pena, sabe-se lá de quê. Afinal, era triste ver o fim de um ser naquela cena, daquele jeito. Era o fim de uma vida. Era o fim daquela história. Era o fim daquele velho despenteado, de barba mal feita, solitário, carrancudo, sem vida, ''deseducado'' que, simplesmente, estava doente de tão triste, mas para sua velada perplexidade: isso não interessava a ninguém!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Em tempo...


Sou eu, no tempo que passa,
Passando o tempo enquanto pereço.
Ouço retumbando ao fundo, da praça,
O sino da igreja que desconheço.

Penso que as horas em religião
São idênticas às que existem ademais.
Reflita: não é a fé que te torna são,
Mas a força que trazes a mais!

A mente não pára, mas passa
Como o tempo que vai-se, previdente.
Enquanto passa, aos poucos rechaça
As memórias tristes do tempo antecedente.

Apesar do tempo, com a fé devida,
A força presente, alhures, se manifesta.
Falta-me o quê, então, na vida?
Achar-me em mim no que me resta.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Amor e sexo


Somos seres ainda demasiado sexuais.
Até que ponto isso nos vale a pena?
Tantos prazeres que o sexo nos traz
Revelam ou não nossa alma pequena?

Há pouco de amor hoje no sexo.
Conquistas sem calor humano, deveras!
Não que o amor tenha evidente nexo,
Mas é puro sentimento, alvo de quimeras.

Donde hoje conclui-se: ''é amor!'',
Nada mais têm-se que interesses.
Corpos esculpidos na carne, ao sabor
Dos gostos que querem provar todos esses.

Homens, mulheres, perdidos em carências
De pai, de mãe, de alguém que os ame.
Porém perdem-se em meio às vivências
De prazeres fúteis, por vezes em vexame.

Falta-nos coragem na busca do amor.
Falta-nos amor na busca da coragem.
É o ciclo que torna eterno dissabor
Os dias passados em vida, essa viagem...

Amor e sexo contemplam-se num todo
Que faz uma vida a dois valer a pena.
Aos moldes de hoje, tudo parece engôdo...
Em vida que perde-se em morte lenta e amena.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Papéis


''Valei-me, Senhor!'', é o que peço.
Sobram motivos para a intemperança.
Surgem aos flashes medos que impeço,
Mas acompanham-me desde criança.

Solidão, sofrimento, tantas tristezas.
Parece-nos vão o esforço por paz.
Quem a alcança conquista proezas,
Mas como alcançar e quem hoje a traz?

Tantas intempéries, redemoinhos de sentimento.
Lágrimas que caem qual chuva da face...
Por ora a alegria perde ao sofrimento
Que infiltra-se no dia trajado em disfarce.

Quer seja em dores, traumas, medos,
Vê-se o sofrimento travestido em todos.
Restam-nos lembranças felizes, como segredos,
Carregadas na mente para tempos de engôdos.

Desenganados, perdidos, à própria sorte.
Somos verdadeiros ingratos, filhos infiéis.
Traímos a religião, a Deus e, na morte,
Encerram-se o teatro da vida e nossos papéis.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier



terça-feira, 18 de junho de 2013

Brasil novo


A rua, vazia há tantos anos, nua, agora veste-se, enfim, de novo!
Aonde via-se apenas o asfalto, agora têm-se cabeças aos berros...
Gritos por um país decente ecoando entre os prédios e casas
Fazem tremer os mais poderosos antes tão confortáveis!
A hora do povo chegou? Estamos de novo com o poder?
Os movimentos movimentam-se por sobre o asfalto mudo...
Quantos gritos sufocados debaixo desse solo brasileiro...?
As gargantas soltam seus suspiros e dores...
Frases entaladas, enfim, desatam-se dos nós dados.
Somos um povo sem fardas, mas vestidos de verde-amarelo!
As ruas voltaram a ser vias de manifestação, 
Não mais apenas vias de passagem de gente, carros, ônibus em vão...
A rua não está mais nua, vestiu-se com a bandeira do Brasil!
Somos novamente um povo. E, disso, que surja um país novo!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


domingo, 9 de junho de 2013

Perecíveis

Não quero viver apenas sendo um ser que morre, dia após dia, célula a célula, tal qual pura e simplesmente um ser perecível. Quero desfrutar em cada dia de novos motivos para viver um novo amanhã. Quero fazer do agora um momento inesquecível. Dia após dia, a vida segue. Não permitamos que apenas sejamos empurrados. Rédeas nas mãos e guiemos a vida. É o que nos falta até o devido momento de perecer...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 8 de junho de 2013

Partir, ou partir-se?


A vida é feita de idas e vindas. Porém, por vezes, deparamo-nos com a cômoda inércia, tão habituados que estamos com as rotinas que, a nós mesmos, determinamos no mundo de hoje. Entretanto, em algum momento, surge o derradeiro instante para algum recomeço; algo como a oportunidade de uma despedida da vida que levamos para seguirmos à partida para novos caminhos, novos rumos, novas conquistas. Algo conquista apenas quem, na vida, se arrisca! Um apelo ao atrever-se, a desbravar.

Partir a novos rumos, parece, por vezes, algo como atentar contra a sensatez induzida pelo comodismo. Deixar para trás momentos já costumeiros e correr ao encalço de novos sentimentos e vivências, como assim? Partir, palavra simbólica... Traduz-se por dividir, de fato, a vida em dois momentos: um, do antes, e outro, do depois, do primeiro passo!

Sigamos adiante, desde então. A cada dia, novos passos, novas partidas, e, assim por diante, novos cenários que se nos apresentarão. Cabe a nós o devido atrevimento do recomeço.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O nada


A vida é curta demais para viver-se em pensamentos, mas os pensamentos são tantos, vários, que não consigo viver sem pensar. Em meio a isso: vivo, ou penso? Se vivo, tento não pensar. Se penso, acabo por não viver. Como é duro o caminho que se abre entre viver e simplesmente existir; estrada de ninguém, sem rumo aparente.

Quê sou eu senão um homem que pensa? Quê são meus pensamentos senão coisas que se vão? Quê são as coisas que se vão senão partes de mim que perdem-se? Sou eu nada mais que um ser tentando ser algo. Sou apenas eu, nada mais! O que sou, não importa-me dizê-lo, nem mesmo nisso pensar. Acordo para um novo dia, com novos pensamentos, porém, as ações e gestos meus são sempre os mesmos. Quisera eu ser outro ser, sendo algo além de mim, mas não o sou!

Penso, logo cesso! Cesso, logo definho. Definho, logo sou humano. Sou humano, logo serei parte da terra que piso. Há pouco tempo demais para gastar-se em devaneios, mas tenho toda a eternidade para viver sem pensar, sendo nada - se desde aqui já assim eu sou! Prefiro apenas existir, pensando, que viver, sem os devaneios contínuos que me definem - para mim mesmo!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier