sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Sobre o doar dentro do perdoar

 Perdoar tem, não por coincidência, o verbo "doar" embutido. Isso nos remete à uma realidade: é impossível perdoar equívocos alheios sem que, nisso, estejamos doando algo de nós.

Existem os que perdoam doando de si sua compaixão. Exercem algo de empatia e entendem que não podem atirar pedras uma vez que são passíveis de equívocos também. Essas pessoas perdoam e seguem. 

Perdoar não é esquecer. Já disseram bem e reforço aqui. Porém, não esquecer não quer dizer ter mágoas. Longe disso. É, num exemplo tosco, você queimar a mão no fogo. Ninguém tem raiva do fogo por ter tido sua mão queimada num passado remoto. Mas, uma vez queimada, passamos a ver o fogo de outra maneira. Não esquecemos que aquele fogo pode queimar, mas ficamos perto o quanto nos seja possível e tanto quanto não nos fira a carne. Entendem?

Há os que perdoam em total fraternidade. Sabe a parábola do filho pródigo. Então... É comum as pessoas que se dizem cristãs, ou até de outras filosofias religiosas, se emocionarem com ela. É bela e profunda. Mas: e se fossemos nós aquele pai? Qual seria nossa atitude de perdão? O que iríamos doar de nós mesmos para aquele nosso filho no seu retorno? Aquele pai da parábola doou todo seu amor, em fraternidade. Não apenas em vias de sua paternidade imediata, mas viu naquele filho um espírito sedento por aprendizados. O recebeu, acolheu e fez seu coração de abrigo para seu retorno.

Há diversos exemplos de doação em termos de perdão. Até existem os que perdoam num sentido de "obrigação" quase dogmática. Não creio serem um bom exemplo aqui, mas há desses, claro. Perdoam utilizando-se das aparências. Mas deixam a mágoa guardada e que (re)surgirá um dia sobre alguém ou sobre o próprio algoz inicial.


Bom, perdoar é doar de si seu melhor. Quando não temos muito de bom para oferecer, mesmo assim, se tentamos perdoar alguém, que saibamos aplaudir nossa iniciativa. Aplaudir as tentativas das pessoas ao nosso redor. Claro, sempre vigiando a nós mesmos - e os demais, na medida do possível - para que nosso perdão seja cada vez mais um exemplo de doação próspera.

Que não nos esqueçamos do perdão dado pelo pai do filho pródigo. Pensemos sempre conosco próprios: "e se eu fosse aquele pai? Que perdão eu proporcionaria?". Haverá muito aprendizado para ser conquistado a partir do dia em que estudarmos mais a fundo aquela parábola.

Cada um ao seu tempo, saibamos nós, todos, ter disciplina para refletir sobre os paradigmas implícitos na tarefa de perdoar. Saberemos doar o melhor de nós a cada novo perdão.

Estejamos vigilantes. Sempre!

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O que calo

A quem eu defendo quando me calo?

Perguntei-me sobre isso, sem saber...

O silêncio preenche o momento quando não falo,

Mas tudo quanto é silenciado dá seu jeito de nos revolver...


Calar opiniões ou um sentimento

É colocar sob o solo fértil do que somos

Sementes que vão ressurgir n'algum momento.

E nascerá, talvez, a visão tardia, quiçá derradeira, daquilo o que não fomos.


_ Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Pessoas se cansam

 Relatos de um processo individual, observando o coletivo


ALERTA DE TEXTO ÁCIDO E DESAGRADÁVEL PARA A IMENSA MAIORIA!

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Pessoas se cansam. Isso, todos nós sabemos! Mas cansamos, em geral, daquilo que fazemos repetidas vezes. Cansamos daquilo que nos desgasta. Cansamos daquilo pelo qual teremos que nos esforçar muito. Cada um encontrará em si respostas para a pergunta: "Você se cansou de fazer aquilo por quê?". Para muitos, dizer-se "cansado" disso ou daquilo é apenas a mais corriqueira desculpa para não fazer algo que sabe que deveria fazer. Simples assim. Mas, continuemos...

Na saúde mental, fator crucial à felicidade e prosperidade de um humano, é fundamental sentir a presença do afeto. Tanto quanto a ausência do afeto na formação do ser, lá na infância, adolescência e até juventude, será (ou foi) crucial na formação de um indivíduo com o qual venhamos a conviver amanhã ou já convivemos hoje. Ausência de afeto e a percepção dessa ausência causa danos que podem ser irreparáveis.

Dito isso, sem afeto: pessoas sofrem! Uma pessoa que está em processo de anedonia completa (e complexa), termo que se refere ao sintoma de ausência de prazer em suas atividades, precisa de incentivo, de apoio, de alguém que lhe encoraje. Tantas vezes, as origens disso vêm da infância - criações restritivas, punitivas, mas que não vou me ater à elas aqui.

Seguindo, eis um fado dos pacientes depressivos: os que são privilegiados de início e que têm várias pessoas ao redor (família, amigos, colegas, etc) estarão com praticamente ninguém do seu lado ao final do seu processo de doença - se aquele processo depressivo perdurar. E os que nem tinham lá muita gente por perto? Esses, arrisco-me a dizer: estarão em completa solidão - acompanhados apenas da triste e deletéria presença de si mesmos.

Percebo isso nitidamente. Quando somos requisitados, bem quistos de alguma forma, agregamos pessoas ao nosso redor. Em geral: agregamos enquanto somos úteis de alguma maneira - mas isso é assunto para outro texto também. Nessa sociedade de consumo, líquida, agregamos pessoas em nosso dia a dia mediante a utilidade delas em nossas vidas. Hipócritas que somos, diremos que isso é mentira. Mas, entenderão - alguns de nós - um dia. Alguns, inclusive, sentindo isso na própria pele, infelizmente.

Passado o tempo, caso alguém desenvolva um processo depressivo: tudo bem! Eles ocorrem. Estamos mais evoluídos que há anos e décadas atrás. O assunto é debatido. É politicamente incorreto não demonstrar empatia, correto? Mas, essa empatia descida "goela abaixo" em muitos por aí não perdura o tempo que um processo depressivo dure - casos graves ou refratários, em especial. Dessa forma, um depressivo que passa por transtornos por anos e anos tem algumas alternativas ao ver que nunca se curou nesse tempo e que não sabe se estará curado um dia:

1) ignorar sua doença e suas sensações e fingir, aderindo, no mundo meramente estético que temos, aos sorrisos triviais de redes sociais e afins e nunca tocar naquele assunto "constrangedor" e íntimo seu com ninguém. Fingir alguma felicidade nas redes sociais e se habituar aos comentários clichê como: "que bom ver você feliz!" e coisas assim;

2) seguir calado, executando o silêncio cada vez mais profundo até que não haja mais assuntos possíveis em que se interesse, em que sinta que pode acrescentar algo e que se sinta apto (interessado) a dialogar. Reforçando mais ainda seu processo de isolamento e solidão, num ciclo vicioso que, para tantos casos, culminará em autoextermínio;

3) iniciará um isolamento progressivo, numa espiral de catástrofe que inevitavelmente culminará em mais sofrimentos. Seguirá calado, fingindo, etc, mas, surpreendentemente, terá a sorte de ter sempre uma pessoa (se com muita sorte: até mais que uma) que tenha real empatia, percepção humana/espiritual/emocional e, mais que isso: insistência e persistência. Essa pessoa dirá, de alguma forma, coisas lindas como: "Ei, eu estou aqui e sei do seu sofrimento!". Isso é tudo e, acredito hoje ser a única e real possibilidade de um depressivo grave e refratário se curar ou, pelo menos, sorrir tendo esperanças.

Dessa forma, faço aqui um relato. Devem existir vários outros caminhos, claro. Não quero ser fatalista. Mas sei que, caso mais pessoas leiam, boa parte irá odiar o que está escrito, porém algumas pessoas vão se identificar e se colocar a pensar. É a essas para quem dedico o texto. Esses caminhos acima são alguns que fui construindo e entendendo, observando. Mas, o que quero dizer é: tente exercer a empatia. Sabe aquela pessoa que você um dia chamou de amigo ou colega ou demonstrou algum afeto? Uma pessoa que lhe foi "útil" um dia? Ela de fato lhe é importante? Se sim: supere seu conforto e vá atrás dela. Insista! Mande um "Olá! Saudades de você!". É lindo receber isso quando menos se espera - após tanto e tanto esperar e, geralmente, resultar em nada.

Pode ser que aquela pessoa isolada esteja com vários muros mentais e não vá falar muito de si mesma nem assumir nada do seu sofrimento em primeiro instante. Persista! Tenha paciência! Diga frases como: "Independente de qualquer coisa: estou aqui, beleza?". Ah, uma dica: quando for procurar informações, puxar conversa com pessoas que possam estar, de fato, sofrendo, não comece com: "Está tudo bem?". Pois, ao perguntar isso, tantas delas (ou quase todas) responderão de forma evasiva, pois sabem que a imensa maioria dos que perguntam isso querem como resposta apenas o trivial: "Sim. Está tudo bem!". Então, busque alternativas para iniciar um diálogo.

Entendo hoje que enviar mensagens com conteúdos de, p.ex., músicas que alegrem e que te façam lembrar da pessoa é uma iniciativa excelente. Alguma palestra então? Sugestões de algo que acredite mesmo que vá tocar aquela pessoa, lhe fazer um bem real. Algum texto, poesia... Algo do gosto dela, qualquer que seja ele. Tente! Envie algo com os dizeres: "Vi isso e lembrei de você... Saudades!". Seria um belo início para uma eventual conversa que consolide uma porta aberta para aquela pessoa sentir: "Sim, existe amor/amizade/alguma alma ali. Alguém para quem eu não sou apenas um contato na agenda".

Sentir isso é uma porta imensa que se abre no sofrimento. Saber que alguém, aquela pessoa (mesmo que seja somente aquela única pessoa), poderia "carregar aquela cruz" contigo nem que fosse por alguns instantes, se fosse algo material o processo da crucificação que a depressão e outras doenças correlatas o são, e não apenas uma metáfora. 

Façamos a metáfora da crucificação ser apenas uma metáfora mesmo trazida da história e da Bíblia, se possível. Se ela persistir/existir de fato para alguém que, mesmo que pouco, lhe seja importante: exerça a empatia, o amor, o afeto e, junto disso tudo (e talvez mais importante): a persistência. Nunca abandone alguém. Nunca! Ainda mais se já soube algum dia daquele sofrimento real em que a pessoa está - mesmo que finja que não.

Abandonar sempre será, todavia, uma opção. Como deixei claro: a imensa maioria opta por abandonar e pronto. Ignorar e pronto. Não há pelo que se espantar. Somos humanos, seres hipócritas e primitivos. O que não nos agrega utilidade imediata, dispensamos. Se você é um desses que age e pensa assim, tudo bem. Você não está sozinho/a. Mas, entenda: caso aquele longo e árduo processo de doença, a crucificação, termine em se concretizar, ou seja, caso surja a morte como desfecho - tantas vezes em autoextermínio: não chore! Não! 

Não finja jamais que está arrependido ou que se importava com aquela pessoa. Não diga coisas clichê como: "Eu deveria...", "Eu não sabia...". Isso são discursos retóricos de um sentimento (real ou simulado) de culpa que em nada importa mais. Não sei como funciona após a morte, mas hipocrisia deve ressoar desse lado da vida e do outro que haja da mesma forma: como hipocrisia - algo muito ruim!

Enfim, caso a crucificação de alguém se concretize ao seu lado ou bem perto e se você for desses que sempre optou por abandonar: ignore o ocorrido, passe por ele sem lágrimas, sem nada de falsa piedade, pois seria uma hipocrisia enorme! E hipocrisias doem! 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Sobre: "Ante a lição"


Na imagem: recomendação de leitura. Origem: obra "FONTE VIVA", por Emmanuel através de Chico Xavier.

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Abaixo, seguem humildes considerações após refletir:

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Acerca da reflexão inicial: "(...) o Senhor te dará entendimento de tudo", escrita por Paulo, Emmanuel completa afirmando que distração e leviandade acabam nos afastando do entendimento real do Evangelho - e, entendo também, da ação cristã ideal.

"Dediquemos algum esforço à graça da lição e a lição nos responderá com as suas graças". Mais perfeito a colocação, impossível. E contemporânea a sugestão, eu diria.

Sobre a frase inicial de Paulo, ele inicia aquela reflexão sugerindo: "Considera o que te digo (...)". E "considerar significa examinar, atender, refletir e apreciar", complementa Emmanuel. Acredito que cada ser, cada sociedade, cada geração exige seu tempo particular para aprender tal dádiva do espírito: saber considerar.

Encerra-se a reflexão do texto com a afirmação de que "prestando atenção aos apontamentos (...), o Senhor, em retribuição à nossa boa vontade, dar-nos-á entendimento em tudo".

Complexo? Contemporâneo? Saibamos considerar. Além disso, acrescento: saibamos esperar o tempo e o entendimento necessários para cada época ou situação ruim.


_ texto de Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

LITERATURA

 Uma palavra para hoje

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LITERATURA

Tantas mentes já se dedicaram a traduzir ideias e as transcrever em papéis, pergaminhos, em livros, em cartas... Hoje, dedos que digitam em teclados e publicam belíssimas reflexões. Tudo ao nosso alcance.

Obras de domínio público, facilmente disponíveis para nós, prontas para serem trazidas de sites e nos proporcionar ler, ler, ler. Lindas e enormes, por vezes nem tanto assim, mas todas as bibliotecas do mundo estão aí de braços abertos para quem quiser acolher a ideia do ler e reler.

Suporta (ou atura) melhor a si mesmo e as tristezas do mundo aquele que recorre à literatura. Que nunca deixemos de ler, de aprender, de estar dispostos a sair das cavernas eventuais nas quais tão apegados estamos às paredes que nos cercam.


_ texto de Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

IGNORÃNÇAS


O benefício da dúvida é ótimo. É muito bom estar cheio das "ignorãças". Como Manoel de Barros, tenho também o ótimo "privilégio de não saber quase tudo"...

Mas, nesses tempos de estética, ostentação, é importante parecer que se sabe. Daí o silêncio é algo, em principio, improvável para muita gente. E, com isso: todos querem falar! Há uma espécie de obrigação... E isso é nítido ainda hoje, mesmo não convivendo tanto com as pessoas. As redes sociais estão aí para mostrar.

A necessidade de opinar em tudo. Tudo! Não apenas opinar, querem convencer. Num monólogo chato pelo qual há quem não aguente mais participar disso. Eu sou um.

Converso com quem permite diálogo. Do contrário, apenas ignoro ou desvio o assunto - sem ofender, claro. Há pessoas que precisam soltar seus ódios. Há vezes em que as deixo falar, mas cuidado: não se habitue a pegar para si.

Mesmo sem ninguém pedir a opinião, é extremamente comum alguém criar um dicionário inteiro de termos que ele próprio se encarrega de traduzir e criar como o roteiro da linguagem para aquele pressuposto diálogo. Não há espaço para pensar além, muito menos pensar diferente e contestar. Não se zangue por isso.

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Dica: dê respostas bovinas quando pessoas começarem a opinar impondo suas ideias. O que são essas "respostas bovinas"? Sabe boi, né? Vaca? Eles dizem o quê? "Hummmm". Imite! Faça isso. Ou então: "Ah, tá!". É libertador. Não dando jeito, use também o "te entendo!". Ajuda muito!

Orientais disseram há séculos algo como: não fale nada se não tiver plena convicção de que suas palavras serão melhores que o silêncio. Ou seja: na dúvida, fique calado.

Se ficar em silêncio for algo constrangedor, repita comigo: "humm!". E pronto. Faça cara de paisagem e/ou finja demência. Repito: pronto! Saúde mental é tudo! Não insista em permanecer naquele "diálogo" em que você não cabe ou, de fato, nem está inserido, de fato - monólogo que é.

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Para além das sugestões inúteis de minha parte expostas acima, recomendo algo pautado no grandioso B. Espinoza: não rir; não chorar; não lamentar; ao invés disso: compreender. Seria isso uma missão atribuída aos filósofos, mas todos nós podemos angariar essas metas...


_ texto de Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Quem és tu diante dos sonhos que carregas?

Não confunda desnecessariamente a sua caminhada! Não que confusão seja parte necessária nela, mas não é incomum. Cuidado, portanto. Diante do caminhar: sonhe, mas projete. São coisas diferentes. Sonhar é idealizar/esperar algo no/do futuro. Projetar é fazer a maquete do que se sonhou, numa tentativa de antever o que virá.

Ah, basta de metafísica ou coisa assim... "Às vezes a vida não permite nem sequer que respiremos em paz", diriam uns. Caso não seja possível projetar (ou até planejar) com antecedência, então, afinal a vida corre a despeito do que desejamos, vá desenhando aquilo o que seja possível com o passar dos dias, com o adiantar dos passos. Assim, quando a escolha aparecer, você não terá tantas dúvidas...

Não desperdice, todavia, noites de sono projetando e planejando. Dormir é fundamental para sedimentar os aprendizados do dia, para sonhar e até para planejar. A neurociência está aí para provar. E também para normalizar o ânimo, claro. Coisa essencial na busca dos sonhos: ânimo, resiliência, motivação...

Não pense demais para agir. Se não deu para projetar: vá pela espontaneidade mesmo. Ou pela intuição, como alguns dirão. Retomando o início do texto: não confunda sua caminhada desnecessariamente! Há imensa diferença semântica (apesar de certa semelhança fonética) entre frases como "Penso, logo existo" e "Penso, logo hesito". Mas, entre uma e outra, prefira aquela que lhe encaminhe ao êxito: "Penso, logo exito!". Que tal? Desconfio que hesitar não seja muito propício aos com êxito nas boas escolhas da vida. Pensar demais também não.

A ação é a melhor forma de eloquência? Ou melhor: a ação é a melhor forma de eloquência! Não hesito ao dizer! Não hesite no agir diante dos sonhos e do que deu para projetar... De que adianta sonhar, planejar, mas não concretizar nada por permanecer hesitando diante das escolhas por serem feitas?

Se concordamos, por fim, que eloquência é mesmo algo assim, quem sabe isso nos induza a pensar juntos que agir mais e discutir menos consigo (e até pensar menos?) seja algo benéfico?


_ reflexões sobre Shakespeare, Machado e outros através de brilhantes colocações do professor Leandro Karnal.

_ texto de Pedro Igor Guimarães Santos Xavier.

Amor

 FILOSOFANDO...

AMOR

O bem maior não sei se é o amor, mas  talvez a caridade. Ou, contrariando já de início a mim mesmo: talvez a caridade seja, em verdade, a sublime essência do real amor. Como? Perdão. Estou só nesse devaneio (?)...

Amor real é aquele onde presença física, atração sexual, estética, riqueza, p.ex., não são fundamentos ou imperativos à condição daquele/a que ama. Ou não deveriam ser. Amor real é incondicional! Não cria condições, resumindo. Pode existir junto disso tudo, claro, mas o "somente se" não se aplica jamais. Entende?

Se só há amor havendo a presença, cuidado: é apego. Presença é uma condição! Logo: não é amor incondicional. Se só há amor havendo atração sexual e estética, cuidado: é interesse. Atração e estética são condições. Logo: não é amor incondicional. E sobre haver riqueza? A mesma coisa. Também não é amor. É ganância? Riqueza é condição, logo: não é amor incondicional. Deu pra entender, acredito...

Amor real é incondicional. É entrega, doação de si. É proteger a amada até de si próprio - quando você percebe que sua presença é mais tóxica/deletérias que sua ausência, p.ex. Exige muito desprendimento. Abnegação. Nessas horas, o amor incondicional regozija-se até mesmo assistindo a felicidade da pessoa amada em outros caminhos, junto de outro alguém - distante de si mesmo.

A "cura" da nossa condição humana mesquinha que temos/somos virá do amor real. É demorada, mas permanece para sempre. Procuremos entender mais do amor, da caridade e desses demais aspectos como desprendimento, benevolência. Talvez assim (e somente assim!) um dia estaremos à altura do real significado da palavra AMOR.


_ reflexões vagas. Texto de Pedro Igor Guimarães Santos Xavier.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

FRAGMENTO - proposta de ensaio filosófico

 SILÊNCIOS

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O silêncio faz parte do discurso, da música, da rotina... É uma espécie de direito: se calar! E, também, de se afastar daquilo (daqueles) que não cessa seus ruídos, afetando o enterno e, obviamente, nosso mundo externo e interno. Na pressa do passar dos dias e das atividades, no perseguir das metas (que tantas vezes nem são as nossas), não prestamos atenção ao significado indissolúvel do silêncio.
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Os momentos de silenciar fazem parte da vida! Sem isso, não conseguimos perceber o sentido, a melodia, a harmonia nas coisas... Tudo seria ruído constante; ruídos sem sentido que não provocariam nada além de danos. E, tantas vezes, os danos pelos silêncios que não soubemos fazer ou pedir (até exigir) demoram para aparecer - nesse momento, há uma imensa janela para a frustração e remorso. Saibamos exercer o silêncio antes que danos difíceis de serem resolvidos apareçam!
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É preciso saber que, por vezes, é hora de parar! Chega a hora de se fazer silêncio. Quando as atividades estão ensurdecedoras, não calamos nossa mente; não temos silêncio em nossas horas. Quando a vida estiver assim: é mais que hora de parar! Se você tem essa opção: faça isso! Se só seria possível mediante ajuda de alguém, de alguma pessoa: peça ajuda! Exercite a humildade, mas seja transparente quanto aos seus sofrimentos. Diga, por exemplo: "eu preciso desse momento. Eu preciso de sua ajuda!". Quem te ama, ajudará sem pedir nada em troca. Apenas vai torcer para que encontre sua felicidade e plenitude. É um exemplo claro, quando isso ocorre, de que há naquela pessoa o amor por nós.
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Os ruídos do mundo e de dentro de nós mesmos nos apequenam com o tempo. Quando há um som muito alto e desagradável, qual a nossa reação? Apertar as mãos sobre os ouvidos, encurvar o corpo e sair dali o mais rápido quanto possível. Não é assim? Pense na cena... Quando há pessoas e situações ao nosso redor que não se calam, não nos dão o direito ao silêncio, fazemos isso emocionalmente. Vamos deixando de ouvir e nos encurvando, nos distanciando... Daí, nem mesmo as coisas boas que surjam ou sejam ditas nós estaremos prontos para ouvir. Talvez seja, inclusive, tarde demais para parar e ressignificar aquilo tudo.
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Perdemos a noção de que a paz (externa e interna) seja possível quando não nos respeitam o direito ao silêncio. Exercer a solitude de forma plena, estamos conseguindo? Ou somos daquelas pessoas que perseguem o ruído da multidão por não saberem tolerar a própria presença no silêncio do isolamento? Tristes são esses que não conseguem ter uma boa companhia quando estão acompanhados apenas de si mesmos...
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Já viu como as síndromes associadas à saúde mental das pessoas (depressão, pânico, etc.) se tornam mais relevantes, estatisticamente, nas grandes cidades?  Lá, essas pessoas têm sua saúde indo em frangalhos (mental e até física) e, não raro, não arranjam tempo para perceber isso. Tantas vezes, numa estratégia de defesa, pois parar, pedir ajuda pode causar medo.
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Não tenha medo! ninguém está só! Se está se sentindo sozinho/a onde estiver, saiba procurar. Voltar para onde veio, abandonar a cidade onde está, mudar de profissão, de amizades, de par... Enfim. Haverá sempre alguém disposto a ouvir, com toda empatia, sobre seu momento e auxiliar na busca por aprendizados.
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Repito: o privilégio de pertencer a si mesmo é, sim, um enorme privilégio. Já foi dito. Saibamos exercer a solitude. Saibamos buscar quem nos soma, quem nos engrandece. Aprendamos a amar quem está ao nosso lado, ajudar e consolar sempre. Mas não nos limitemos ao cárcere ao redor de situações e pessoas que não nos deixam parar, refletir, silenciar e dizer: basta! Quem ama dá motivos para seguir. Quem impede nossos progressos não nos ama. E, tantas vezes, a falta de amor está em nós mesmos para conosco.

Nas grandes cidades, não é o excesso de carros, multidões, de prédios, escassez de tempo que nos apequenam. O excesso de informações nos impede de executar o silêncio. Por vezes, sentimos uma imensa vontade de largar tudo o que estamos fazendo e correr dali. Ora, "jogar tudo pro alto"? Ora, "chutar o balde"? Quem nunca ouviu essas frases?

Quem ouve de si mesmo essas frases, perceba suas intenções, sentimentos, vontades. Você muito provavelmente precisa de silêncio! Silenciar. Isso pode precisar não somente de momentos de isolamento, mas de saber estar isolado. Saber que, dentro de cada um de nós, há o privilégio de pertencermos a nós mesmos - como já foi dito. 

Saibamos buscar esse privilégio. Pertencer a nós mesmos. O silêncio nos pertence. É um direito que devemos receber do mundo, das outras pessoas e, claro, de nós mesmos. Calar as dores do passado, silenciar a pressa do presente... Criar uma melodia linda para um futuro próspero passa por isso. 

Por vezes, de fato, é necessário parecer "bobo". Largar tudo, se isolar, se calar, executar o silêncio. Somente assim, poderemos ter a oportunidade de entender, daquilo o que fazemos, o que é da nossa vontade e o que é feito por nós para agradar as opiniões e expectativas alheias.

O que você deixou de ser quando cresceu? Já leu essa frase por aí?

(...) Continua

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Sobre quando Simão afundou

Certa vez, ouvi uma reflexão linda. A temática rodeava uma parábola descrita na Bíblia. Nela, Simão (que viria a ser Pedro) abandona a barca e vai até Jesus que chegava andando por sobre as águas até seus apóstolos.

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Simão, olhou. Enxergou ali seu mestre que não afundava. Nunca saberemos o que Simão queria com aquilo, mas quis ir até Jesus. Abandonou a barca.

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O que ocorreu? Simão foi afundando. Afundando. Ele não andava por sobre águas como seu mestre Jesus. Percebeu aquilo e sentiu, de alguma forma, medo. Gritou: "Jesus, salva-me". Repetia seu clamor…

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Jesus, obviamente, o socorreu. Mas Jesus enxergava sempre além. Queria ensinar sempre, e evitou que ele afundasse não apenas como corpo. Ele teria dito: "homem fraco na fé. Por que duvidaste?".

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Talvez, o mestre queria ensinar a partir daquela hora: "qual a sua real pretensão de querer andar por sobre as águas, Simão?". Sinto que Jesus, naquela parábola, tentou ensinar Simão, seus apóstolos e todas pessoas que leriam sobre aquele fato corrido que é (sempre!) necessário aprofundar nosso entendimento quanto ao real significado do cristianismo em nós, nas pessoas, na sociedade.

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Simão, que ainda não era o Pedro que surgiria da experiência de Pentecostes, quis ser como Jesus? Quis arriscar alguma especie de poder nele mesmo? Quis sentir-se mais próximo ao seu mestre, encantá-lo? Mostrar-se devotado? Quis destacar-se e se colocar em evidência? Nunca saberemos. Mas isso não nos impede de refletir tentando aprender.

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Jesus incentivou e alimentou ali o Simão que queria ser além do que era, mas ainda não era Pedro... O Simão que não queria assumir sua fragilidade. O humano Simão queria ser destaque, crescer em si mesmo superando, quem saberá?, uma personalidade ainda ferida por algo?

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Simão foi. Jesus aceitou sua tentativa. Enxergou ali um ensinamento a ser dado. Simão afundou. E nascia a semente de Pedro.

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Nascia ali a semente de um aprendizado ou uma reflexão. Qual cristão somos? O que quer andar por sobre as águas e sentir-se melhor, diferente, "superior"? Temos em nós mais coisas em nós que nos "afundam" ou que nos fazem andar verdadeiramente por sobre as águas da vida?

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A ponte que ligaria por sobre as águas Simão a Jesus não estava ali, nele. Não naquela hora, ainda. Quiçá fosse a humildade? Talvez o peso que fez Simão afundar fosse o sonho e a expectativa da evidência. Uma sombra pretensiosa? Um fragmento de arrogância?

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Cuidado! Cuidado quando tentar andar por sobre as águas. Jesus nos incentiva tentar, mesmo sabendo que quase todos nós afundaremos, ainda cheios de pesos que estamos - ou somos? Jesus, mestre, profundo leitor da alma humana e exímio educador, estará sempre ali nos incentivando como se fôssemos um Simão seu…

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Pare, ouça. Jesus está dizendo: "vai, Simão, converte-se logo em Pedro". O que nos impedirá? O que nos impedirá? Antes de buscar a salvação por algo ou alguém, antes que iniciemos gritos como: "Jesus, salva-me", precisamos entender melhor sobre o que nos está fazendo afundar.

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Já disseram certa vez: "a cura está ligada ao tempo e às vezes também às circunstâncias". Não esperemos apenas pelo tempo. Saibamos enxergar e desnudar as circunstâncias que nos fazem perecer, afundar… Afinal, encerro com essa antiga afirmação: "antes de curar alguém, pergunta-lhe se está disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer" - e afundar.

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_ em homenagem à uma reflexão trazida por Ricardo Melo num domingo aparentemente comum como outro qualquer, mas não foi.

_ texto de Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 9 de agosto de 2020

A CONVICÇÃO DO BALÃO

Demorei muito tempo para atingir a estrada que leva à convicção do balão da tirinha (vide imagem). Para os poucos que estiveram e, principalmente, restaram por perto nesse percurso, é cristalina a verdade de tantos que foram os anos e os danos para que ao menos eu chegasse à essa estrada.

O vazio inexplicável. A indignação que arrebatava qualquer vislumbre de resignação necessária diante do imutável. A ausência de algo ou alguma resposta para uma complexa interpretação do mundo e do sofrimento e razão de existir humanos...

A presença física, mas sem qualquer significado diante de tudo. A completa anedonia diante da presença das horas e do adiantar da vida. Que vida? Onde esteve? Onde estaria? O que era?

A certeza de ser, em si mesmo, a personificação do niilismo que tanto esforço exigia para não me manter fixo, atento a ele. Enxergar a erradicação da esperança entranhada na própria origem da minha visão do mundo, dos outros, de mim, do todo. Até de Deus.

Entender a si mesmo como sendo o personagem mais deletério da sua própria história poderia servir para tragédias épicas - tal qual tantas que já foram escritas - para alguém que soubesse traduzir vivências em histórias. Mesmo que fosse, ali escrita, a própria história.

Sim, não raras vezes, somos a pior coisa que nos aconteceu na vida. Entendi isso em diversos momentos e quis distância de mim, mas minha presença não era um balão para que eu simplesmente o soltasse e voasse para longe de mim. Afinal, esse eventual balão seria eu mesmo.

Mas, das pedras que nos jogam e jogaram, dos muros que construímos e vimos serem construídos diante de nossos passos, haveremos de pegar cada umas dessas pedras e, metro a metro (ou milímetro a milímetro - a depender da velocidade conseguida) pavimentaremos a estrada definitiva e segura que nos levará adiante. Quem sabe alguém ainda poderá se utilizar,enquanto caminho,das pedras que sedimentamos sob nossos passos?

E iremos rumo à convicção de que o vazio nada mais era que a ausência do entendimento de si mesmo. Estranho? Digo diferente: a antítese do vazio é encontrar a plenitude no eu que há. E aprender a ser feliz dentro daquilo o que se é. Eudaimonia!

_ um ensaio filosófico na esperança de resumir aprendizados e vivências diante de um processo depressivo. Valorizar o "Setembro Amarelo" é entender que existem motivos para lembrar dele durante todo o ano!

_ dedico gratidão especial a/à todos/as que estiveram e, principalmente, restaram por perto nesse percurso.

_ escrito por Pedro Igor Guimarães Santos Xavier.

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Créditos da tirinha: arte genial e tocante publicada no perfil e obra de @teoeominimundo .

sábado, 8 de agosto de 2020

Amarga Vida II - releitura

 AMARGA VIDA (II) - releitura de um texto antigo que escrevi

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O dia de hoje é irrelevante. Ou talvez: o dia de hoje é irrelevante? Ele será sempre, tão logo, chamado de "ontem", mutável que é... O mundo é líquido. Flui. Muda. Nunca é o mesmo no instante seguinte. Assim o é o hoje. E, prosseguindo: o que é "ontem" sempre morre(rá). Passado é terra morta que é esquecido um dia (?). Somos feitos então para o amanhã! Ou melhor: somos feitos então para o amanhã?

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Nesse "amanhã" depositamos esperanças, projetamos ideias, sonhos e, mesmo não havendo benefícios nisso, as expectativas. No amanhã sempre guardam-se as consequências das ações dos outros e das nossas; surpresas há por isso?

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O amanhã é inabitado. Está por ser feito. Inacabado. O hoje, entretanto, é habitado por nós e habituado conosco. Transfigura-se em passado logo. Morre, por isso, em tempo ligeiro. Veja, sigo de cá dizendo tolices...

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Não quero que me guardem no passado, é fato. Não posso exigir, todavia, ser o presente de ninguém. Quero, se me for permitido, ser futuro de quem assim quiser. Quiçá ser um eterno retrato de saudade um dia... Mas isso sem ter sido de ninguém? Como?

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Causar saudade por não ter sido de ninguém? Isso. E, por isso, ser memória de alguém. Assim, ser sentida minha falta por eu ter sido ausência. Estranho? Talvez.

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É o momento presente que fica na saudade (que chega a virar chaga) na despedida eventual daquele instante que não saberíamos ter sido, ali, o último. E, de certo modo, essa nossa ausência nos torna eternos!

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Criamos a todo instante mares de saudades. Feridas da "vida, amarga vida" como cantaria Vital Farias. Perdas do ontem, do hoje. Deixadas no que há de ser eterno: o sonho do reencontro num amanhã que há de haver, espíritos errantes que somos.

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É o que aprendi que fica do derradeiro "adeus" que demos/fomos obrigados a dar. A pessoa pode estar no passado, mas sua ausência está no presente. E a ausência tornar-se a pessoa. Fim?

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_ texto em homenagem à ausência.

De Pedro Igor Guimarães Santos Xavier.