domingo, 16 de novembro de 2014

Olhos secos II


Toda lágrima, por mais que nos pareça irrelevante, ou única, pode para a pessoa dona dos olhos que choram ser uma enchente, ou um mar, ou uma imensa catarata de sentimentos ali sendo expressos, impressos na imagem da gota que cai (mais ainda, talvez, nas que foram retidas para não cair...).

Nunca menospreze uma lágrima! Nunca deixe de dar um abraço apertado quando a situação para tal surgir, quer seja confortando ou dando um simples apoio às lágrimas que jorram de alguém simplesmente estando ali, presente. Pode ser que aqueles olhos que ali choravam nunca mais terão liberdade de chorar perto de você caso teus olhos os desdenhem num primeiro e derradeiro momento.

Cada dono de lágrima sabe o tamanho da dor respectiva que acumula no pranto que, de si, externa! Nunca, repito, subestime uma lágrima, um choro, um suspiro ou meramente um olhar triste, quiçá... Há dores demais para além do que nossos olhos, por ora secos, possam ver!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 15 de novembro de 2014

Sobre a vida, as horas, a barba... Sobre o outrora, o agora e o sempre.


Não envelhecemos! É o tempo que simplesmente passa! Tem sim a ver com a rotação da Terra, com o passar das horas, com o caminhar corrente dos dias, mas em nada é nossa culpa. Saiamos ilesos desse fato, então! É puro e simplesmente um passar de horas que dão-se conosco de permeio...

Há dias em que acordo e, com o roçar da barba nas mãos ao esfregar meu rosto, penso que não mais sou a criança que fui, de face pelada... Sim, é fato! Algo ocorreu. Simplesmente meu rosto mudou? Sim! Mas não mudou apenas ele. Não foi meramente uma barba que tornou-me outro. O passar de experiências, boas ou ruins, todas elas, bebidas em goles quentes e calorosos, ou frios de congelar a alma e o peito, tornaram-me outro agora. Das horas? Delas (as tantas que já se passaram!), as culpo já, desde agora, devido algumas rugas que se mostram ao espelho...

As memórias dos cabelos outrora grandes, em épocas de bandas de rock da adolescência e a leve intransigência que aquilo nos induzia (e induz!), deixam ainda hoje a essência de uma juventude muito bem vivida, bem acompanhada de amigos queridos que hoje passam pelos mesmos dias que eu - graças a Deus. Uns de barba, também, inclusive... Mas agora, os cabelos tomam cortes mais conservadores, mais preocupados, alinhados - talvez mais com a opinião alheia, pois não sou mais aquele jovem que dava-se ao luxo de ser intransigente ou desdenhava as consequências daquilo... Essa perda da capacidade de transgredir que é peculiar ao jovem, isso não é bom. Isso é uma parte péssima do correr das horas, dos anos, do aumento do peso dos olhares alheios ao nosso modo de caminhar: aceitar transgredir-se ou, simplesmente, adaptar-se a um outro patamar de "eu" para agradar ditames sociais e olhares outros, atentos. Mas isso é outra conversa, demandaria outro texto...

Com o correr das horas, o que eu percebi? Que os relógios são incansáveis! Nunca desanimam. Querem como que o tempo todo nos incentivar a nunca parar, sempre seguir em frente, sempre aguardar o amanhã - sem surpresas, sem expectativas. Nos ensinam a simplesmente correr o correr das horas na velocidade que nos seja plausível, possível, necessária... Com barba, sem barba, com cabelos despenteados ou alinhados, não podemos é deixar de ser aquilo que pretendíamos, abandonar sonhos, desdenhar nossa essência, a nós mesmos! A cada segundo, cada hora, cada novo ano, cabem neles suas respectivas maneiras de passar, seus devidos tempos para correr... Que isso em nada nos inquiete! 

E nós em meio a isso? Passamos, é fato, mas que nunca acreditemos na falácia do envelhecer! Envelhecer é uma realidade socialmente imposta - penso eu! Sejamos sempre a centelha de esperança e desregramento atento da juventude! Mais impulsos e menos ditames sociais por sobre nós! Rumo ao que merecemos, e por nós mesmos cheguemos a brindar, chamando de: felicidade!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Vida selvagem


O menino inquieto, arredio aos olhos do pai, saiu fugindo de casa. Era noite, mas ele nada temia. Medo ele tinha de casa, dos berros, dos estilhaços, copos voando, pratos... Ele não queria mais aquilo.

Saiu de casa. Nunca em seus sete anos havia sido tomado por tamanha coragem. Quisera ele vencer as mazelas de sua casa, transformar em lar. Era o que ele queria, mas era missão além de sua condição de menino...

Viu a noite que caiu sobre a cidade escura. Viu carros passando e sendo cada vez mais poucos, poucos... E ele seguia só! Trazia como num alforje um par de sapatos, uma garrafa d'água, um brinquedo velho e adorado dado por seu avô... Nada mais além disso e dois pacotes de biscoitos.

Viu na praça casais em encontros ruidosos; cães vadios em meio a homens vadiando; viu a escuridão caída sobre a cidade a cada instante mais calada, fria... Eram ele e os arranha-céus a paisagem que traria na memória.

Trazia na cabeça os gritos do pai, as agressões, a mãe indefesa que também o agredia... Afinal, percebeu ele, cada forte bate no fraco a que tem acesso. Verdade triste, não é? Vivemos numa selva! Vivemos numa selva - ele sabia sem nem mesmo poder pensar muito profundamente no assunto! Era apenas uma criança perdida nessa selva. Era apenas mais uma criança...

O dia nasceu. A noite passou. Outros dias nasceram. Outras noites passaram. Não mais voltou, nem o procuraram. Talvez fosse um pouco de amor dos pais esse ato, afinal, quem não saberia que aquela casa era inabitável para uma mente pueril, inocente? Sabe-se lá o que passava na cabeça daquelas pessoas ou de quaisquer outras... Sabia ele apenas que tudo era simplesmente retratos de uma selva.

Com fome, aprendeu a pedir esmolas. Era, a partir de então, apenas mais um garoto bandido e vadio perdido, sem pai nem mãe, sob os olhos de desdém da imensa maioria dos selvagens que perambulavam pela selva morta na forma de transeuntes atarefados. Ele franzia a testa, olhava nos olhos de quem o encarava com nojo. Sabia de seu valor, mas algo de raiva despertava dentro dele. Sabia que lhe faltava tudo, entretanto... A primeira coisa que faltou-lhe foi o lar!

Ele sabia, mas era tarde demais pra ele - muito embora fosse cedo demais para uma vida que estava apenas começando. Havia nele toda uma vida pela frente a seguir... Mais nada lhe pertencia nesse mundo, apenas a vida que tinha - que, entretanto, não pediu para ter!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier 

Garganta seca

Um dia li o céu que havia por detrás das montanhas. Era um céu escuro, enevoado... Sem água que se chegasse para breve em nuvens, quais fossem, passageiras. O céu que havia era sombrio, seco - mais seco que o chão que se lhe mostrava em antítese na naquela natureza morta. 

Olhei bem profundamente procurando algo de esperança na luz do sol que secava meus olhos. Nada 
vi! A luz cegou-me a secar minha visão... Parti então rumo ao alto da montanha. Talvez de lá, bem do alto, eu pudesse ver algum lampejo de esperança em chuva a cair por sobre mim e meu pasto. Não! Nada vi.... Deu para ver apenas lá embaixo meu gado a morrer da seca, minha casa a esquentar-se num calor sem fim, minha água aos poucos baldes que restavam na varanda trazidos todos eles no galope lento da minha égua manca e magra... O córrego, não era mais que lodo agora.

Havia ali um pouco de água aos baldes para trazer consolo... E eu? Debalde, lutava contra Deus que não mais trazia chuva alguma. Orei, chorei, rezei o quanto pude, mas cá na terra seca nada caia fazia tempo... Cactos se riam de mim quando eu passava - senti bem num dia desses; tinha certeza! Chuva era por ora mera memória intrépida na cabeça inquieta que eu trazia, sedenta por goles d'água cristalina do rio sem fim que antes passava perto de casa...

As flores do jardim morreram. Morreu todo meu quintal, Senhor! O açude construído por meu avô represava apenas memórias dos tempos idos de chuva antiga... Era tamanha a seca que calava as gargantas secas! Memórias...Memórias...

Mais uma vez, tornei a olhar pro céu teimando, num último suspiro, em ver algum vislumbre de chuva que umedecesse minhas esperanças. Mas não... Nada! Era tamanha a seca que secava os olhos só de olhar... 

Mariazinha na cozinha não fazia mais chá. Nem mingau ela fazia; nem muito menos sopa... Mariazinha sabia apenas chorar - mal sabia ela que lágrimas eram resquício da única água que nos restava...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Nada


Mais um que nasceu e foi-se embora para Deus (ou sabe-se lá o que há) cedo, bem cedo... Morre outra criança! Morre outra história que poderia ter sido feliz - ou não, sabe-se menos ainda. 

O que há de certo e incerto para além da morte e da vida, em respectivo? Nada e tudo, digo, respectivamente. A vida é nada mais que um passar de horas contadas, para uns mais, para outros menos; para uns de alegrias, para outros de consolo e lágrimas - ou apenas lágrimas. De certo na vida? A morte! De certo na morte? Nada além que ser o fim da vida.

Morre outro ser bento, outra alma pura... Morre outra criança, outra alma pura... E, nesse dia, morre outro dia ao passar das horas que nos tiram mais essas horas da vida que ainda estamos nela apesar dos que se foram. Confuso? Sim! Vivos? Talvez estejamos, mas de nada vale estar, afinal, por mais quantas horas? Por qual motivo esperar? Por qual motivo viver?

Mundo cruel! Se Deus existe e está no céu, Deus deve ser menino, moleque, que gosta de rir-se da desgraça que criou nessa gaiola azulada que damos nome de Terra. Deus deve estar rindo do caos que impera no seu brinquedo animado... Mundo insano e desconhecido para nós que nada mais sabemos fazer a não ser suplicar por horas de felicidade a Ele. E Ele? Sim, suplicas por horas de felicidade. E Deus gosta de quem pede? Acho que pode ser isso: talvez ele goste de quem pega, encarcera, rouba a felicidade pelas próprias mãos, tanto por bem quanto por mal - mais pelo último recurso, de acordo com o que vejo nesse mundo hoje... Nisso pode ser que haja o motivo de tanta gente ruim permanecer ilesa no mundo, a sorrir sorrisos amplos.

Por hora, apenas sei que mais outra mãe chora, e nada Deus há de fazer quanto a isso.... Nada...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Horas


Acordou. Era tarde. Não sabia ao cerco quão tarde, mas havia o plano de seguir na proposta de levantar-se sem nem mesmo saber quantas horas eram. Da janela, não via carros, nem mesmo sequer um ou outro transeunte. Concluiu que de fato era muito cedo - ou muito tarde. É a velha questão do copo meio cheio, ou meio vazio, pensou ele...

Tomado seu banho, feito seu café, sentou-se de frente à janela aguardando o sol nascer. Nada dele. Não queria saber das horas ainda. Queria apenas aguardar o sol. O café ia sendo bebido, xícara a xícara... Ovos quentes, isso! Seria um bom café da manhã... Procedeu a fazê-los. Quando retornou à sala, via um vislumbre de sol saindo por detrás do prédio ao lado. Ufa, enfim o dia começaria....

Ansioso, recostou a cabeça por sobre o enconsto da poltrona próxima à janela. Debateu-se um pouco até encontrar uma posição confortável. Sabia ele que havia passado apenas uma fração de horas desde a última vez que ela a vira. Mas ele já estava inquieto de novo, aguardando um novo contato, um novo "olá!", ou, quem saberia, um definitivo "adeus". Era tarde. Era cedo. Ele mal sabia de nada...

O sol estava brilhando já encostado na linha tênue do horizonte - ele imaginava, afinal, os prédios ao lado o impediam de apreciar isso. O horizonte para ele era as imensas gaiolas de concreto chamadas "prédios". Resolveu então sair às ruas. De lá, já cruzou com duas ou três almas vivas que partiam para suas obrigações diárias. Nenhum sorriso ele viu ou recebeu em troca de seus "bom dia"espalhados aos que cruzou por ali... Nada de olhos amistosos. Afinal, quem é amistoso nessa hora do dia? Temperou ele sua decepção com a gentileza alheia pensando assim...

Caminhando rumo a metros à frente - pois ele não tinha um rumo certo naquela manhã, atingiu um velho ponto de ônibus ao qual ele fixava-se por instantes aguardando sua condução nos tempos idos da escola... Momentos de saudade se lhe mostraram na mente. Sentou-se e aguardou seu velho ônibus que, logo, passou! Despediu-se mentalmente dele e das pessoas, novas jovens cabeças pensantes, que entravam rumo aos estudos naquela condução. 

Levantou-se, retornou à sua casa. Era um dia de folga para ele. Era um dia qualquer a todos. Era apenas mais um dia - quer fosse de trabalho ou não. E ele ali, aguardando algum contato, algum "olá" pelo telefone.... Mas nada lhe ocorreu. Horas passaram, o sol despiu o céu da claridade e a noite mostrou-se no céu já então desnudo de luz.

Era mais um dia que passava sem nenhum contato, sem nenhum sorriso, sem nenhum "olá!", ou "bom dia!", ou qualquer outra coisa. Foram mais horas perdidas em sua cabeça solitária que mais uma vez ia deitar-se na busca da paz do sono - paz essa que ele nunca encontrava, mas mesmo assim permitia-se insistir em dormir. E dormiu! Era outra noite após um rotineiro dia. Quem sabe dessa vez ele nem acorde? Era o que ele esperava enquanto aguardava o sono, enquanto despedia-se das horas daquele inútil dia, outro dia...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 8 de novembro de 2014

O sono leve das mães


Ela acordou sentindo-se forte, mais jovem, renovada naquele dia. Era um novo dia. Sentia uma nova vida ali. Não havia mais amanhã a sós, ela tinha certeza. Era ela, agora, mais outro! Até o fim! Antes, não havia se dado conta da importância do viver... Agora sabia bem!

Olhou para os lados, viu logo ao pé da cama seu pai, deitado, torto em um sofá pequeno a dar pequenos roncos de cansaço num corpo que recarregava energias. Da janela? Entreaberta, permitia que o sol entrasse para acariciar o ambiente em carícias de luz... 

Respirou fundo, sentia por sobre seu tronco o peso delicado que se lhe apresentava como algo tão imensamente doce. Peso tão singelo, tão belo, tão reticente e profundo em metafísicas. O calor transmitia-se dela para ele, dele para ela; uma troca que, sabia desde já, seria eterna - mesmo que seus corpos desvencilhados estivessem um dia, pela vida, por algum motivo que fosse, um do outro. 

Ela era mãe! Ela viu-se mãe. Sentiu-se mãe! Ao seu colo estava seu filho. Era em tudo aquilo o primeiro amanhecer como mãe no mundo. Constatou-se mãe e sentiu: tudo ali era lindo aos seus olhos, tal qual nos sonhos que havia tido com a graça da maternidade que sonhou desde há tanto tempo... 

Ela sorriu, abraçou o filho que dormia aos seus braços e voltou a dormir o sono leve das mães. Deus estava ali, - e ela sabia, Através de seu filho, enfim, Deus fora-lhe apresentado.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Desatino


Entre dores, parto. Parto rumo a caminhos diferentes. Quais caminhos restam? Quantas estradas há? Nada sei, porém destino é estrada à frente, sempre... Fica ao passo seguinte defini-lo, parte por parte.

Destino... Desatino... Algo há de semelhante entre ambas as palavras para além de letras comuns. Quem crê em destino? Quem crê nesse desatino? Destino é estrada além, sim, dos passos de agora. Nada mais. É o desconhecido, porém, não previamente escrito. A culpa é de quem, caso eu esteja certo? Não sei. Mas destino e desatino são, nesse aspecto, algo como sinônimos - infelizmente...

O dia de amanhã é por si só desconhecido. É o passo à frente que ainda nem demos, ou estamos prestes a dar, ou estamos no meio dele, quiçá... Mal sabemos onde nossos pés irão cair. Cabe então ter fé nas coisas boas? Sim... Pode ser essa a origem da expressão destino? Fé? Talvez seja algo de fé no futuro... Sem fé, a insignificância do próximo passo seria ainda mais insignificante. Sim? Porém, com a fé de que os próximos passos serão melhor conduzidos, os daremos sorrindo. Pode ser isso? Somos esperançosos demais, creio eu... 

Afinal, o que é o amanhã? Apenas um dia a menos na vida, ou um dia a mais para as proximidades da morte inevitável à qual de fato estamos predestinados? Ouço como num sussurro Fernando Pessoa a dizer: ''o homem é um cadáver adiado!". Que assim não seja... Que assim não seja...

Que haja destino, mesmo sendo um desatino. Que haja fé, pois, caso não haja, nada há e, desde hoje, seremos cadáver - porém, cadáver que anda, metáforas à parte. Que haja esperanças! Juro que quero tê-las, mas faltam-me em muito... Valei-me, fé. Velei-me, Deus. Valei-me, algo nesse destino que está na pequenezes dos meus próximos passos...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 2 de novembro de 2014

Prece


Queres o que de nós, Senhor? 
Dá-nos o pão, e calamos...
Dá-nos a água, e calamos...
Dá-nos a palavra, e também calamos.
Que há de ser de nós, Senhor?
Nós, Teus filhos, como somos?
Que temos feito aqui, Senhor?
Nada de Ti é reproduzido...
Nada de Ti é repetido, dito, visto....
Adoramos Te adorar em público...
Adoramos o público - talvez mais que a Ti.
Falhamos diariamente, Senhor.

Tantas vozes relutantes em aceitar
Que falhamos enormemente em ser
Aquilo o que nos ensinaste e crer
Que há além do dinheiro outro deus.
Que será de nossos filhos, Senhor?
Sim, já vimos tamanhas atrocidades antes,
Mas nunca cessarão de nos ocorrer?
Somos erva-daninha na Terra prometida.
Somos solo infértil, bocas secas a bradar,
Repetindo aos berros palavras de ordem chulas.
Somos corrompíveis. Não somos filhos, Teus.
Somos nada, Senhor, nem de Ti, nem de Deus.

Valha-nos, Senhor, e torne a todos algo.
Desse algo, que surja alguma coisa boa.
Não cabem mais esperanças. Morreram todas.
Para quê esperar, sonhar, sabendo que nunca
Haverá solução à essa nova Sodoma, nova Gomorra...
Nunca saímos da Terra calamitosa que habitamos.
Nunca aprendemos convosco, Senhor.
Somos nada. Nem filhos Teus, nem de ninguém...
Termine com tudo quanto há aqui, Senhor,
Senão destruiremos Tua imagem mais além.
Amém, Senhor! Amém....!
Valho-me desse desabafo como prece.
Se puder, Senhor, ouça, do que digo, se Te apetece:
O homem a cada dia mais, de Ti esquece.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Quem quer ser um milionário?

Quem quer ser um milionário? Acho que todos. Mas quem quer ser altruísta... Aí depende. Quanto vou ganhar por isso? Esse é o perfil de nossa sociedade. Na busca desenfreada pelo prazer, pelo conforto material, pelo poder, tudo é lícito na busca por riqueza. Defender ideais que nos afastem temores de pobreza, sim, isso é válido. Defender ideais que defendemos na Igreja, não... Que fiquem apenas na Igreja.

Jesus veio à Terra e disse infinitas coisas boas. Se ele queria que agíssemos assim, como temos agido desde sua morte (na verdade, desde antes dela)? Creio que não! Ele veio trazer, dentre tantas coisas, os ensinamentos de amar uns aos outros, compartilhar, lutar pelo bem alheio e lutar pelo bem, acima de tudo? Quem quer isso? Ninguém - apenas na hora dos cultos e missas! Pois é socialmente bonito ser religioso, mas ninguém nos exige agir como tal na vida prática. Somos do mundo do socialmente aceito, do discurso vago. A prática não é necessária. 

Quem defenderá os interesses do pobre? Jesus... Deve ser! Talvez seja por isso que uns e outros acham que Ele vai voltar. Claro... Até lá, eu que não serei aquele que vai se preocupar com o outro ou no bem estar coletivo. Se há gente triste, mal cuidada, jogada às traças logo na sacada de nossas casas, ou nas esquinas de nossa rua. Há, mas não é problema nosso, claro que não. Pobre e jogado ao mundo? É o estereótipo lindo da meritocracia para a pessoa mal sucedida. Não é? Um brinde À meritocracia, afinal, que nos defendamos nós de nós mesmos, pois caso não tenhamos dinheiro, nem mesmo nós, como somos, no corpo de outro, nos ajudaríamos.

Compartilhar? Não! Isso é para momentos de festas, de esbanjar, de mostrar-se um bom cristão à sociedade. Chegando o Natal? Sim. Doemos coisas velhas aos pobres. Eles saberão o que fazer e serão agradecidos. Enquanto isso, no dia 26 de dezembro, poderemos acordar e dizer num almoço em família que somos pessoas de bem - aos olhos atentos do outro que nos vê discursar. Para quê ser bom ao longo de toda uma vida? Ou defender a distribuição de renda, ou a distribuição de ''bençãos'' (conforme intitulam os religiosos)? Será que Deus está vendo? Acho que não! Então: um brinde à meritocracia. E que o diabo valha-nos como tem valido!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Aos poucos


Não sou intelecto. Não sou nada. Sou apenas mais uma voz rouca que brada. Não quero domar nem dominar ideia ou coisa. Quero apenas deixar passar o que habitualmente calo - mas, por ora, o silêncio torna-me demente e, por que não, ausente de mim, aos poucos.

De mim? Preferiria estar ausente. Deixar ao mundo nada mais que meu corpo morto. Vivo, que diferença faço? Sou apenas mais uma coisa inútil, espírito absorto. Queria ser mais que simples moléculas agrupadas em matéria, matéria essa que chamam-na por nome específico. Quer seja eu Pedro, Paulo, Pacífico... Não seria eu nem mais, nem menos torpe, muito menos por algum motivo magnífico.

Nada sou. Nada fui. Nem serei, é justo dizer. Pois cá dentro de mim, sobram motivos para cansaço do mundo, ausências à fundo, e torno-me a cada dia mais descrente. Assim, passam-se horas e lá vou eu, de mim, ausente. Seguindo ao fim que me seja concernente. 

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier