quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Traumatismo Ucraniano

Estamos convivendo no mundo com outra, dentre tantas, crise! Podemos para um minuto e falar do país chamado Ucrânia. Lá, resquícios da Guerra Fria, extinta conforme consta nos livros, mas guerra essa que congela ainda muitas coisas em tempo presente e acalora debates com intenções duvidosas pela paz e liberdade no mundo. Longe daqui, não é? Nada tem a ver conosco, correto? Mas não é tão simples assim... Somos um planeta. Somos uma humanidade só. Devemos pensar! É o que nos diferencia dos animais tidos como inferiores. Podemos refletir e aprender algo.

Direita, ultra-direita, esquerda, ultra-esquerda... Não são nossos poderosos, quais sejam eles, adeptos de norteamentos político-filosóficos que visam direções progressistas e adequadas aos seus países. Tais definições de polaridades no pensamento político visam, ao meu ver, limitar nosso raciocínio a um nível torpe numa espécie de sistema cartesiano da política nada progressista. Correto? Mal sabemos o que queremos, é fato. Falta-nos educação em suas diversas vertentes. Falta-nos amor, acima de tudo. Seja qual lado alguém tenha optado por defender, rapidamente discursos caem em contradição. Será que visam mesmo o progresso, a paz e o amor à humanidade, respeitando as diferenças? Não vejo! Estou tentando ser um realista esperançoso, aos moldes de Suassuna, mas quando penso, vou perdendo esperanças. Sobre a questão ucraniana, o contexto bélico retrata aos meus olhos a dicotomia socialismo x capitalismo que ainda permeia nosso mundo com o viés do interesse pelo poder, não pela razão à causa ou pelo bem estar. Sim, podem dizer que a Guerra Fria acabou. Ensinaram-nos isso. Mas não! Ela ainda congela laços e avanços em toda parte.

Não se consegue, na cabeça de alguns, tolerar o fato de o socialismo ainda existir. No sistema cartesiano traçado nessas cabeças, nada deve desviar à esquerda! Se assim ocorrer, deve ser exterminado. Essa é a mentalidade de muitos. Radical? Sim, ao meu modo de ver. Afinal, o capitalismo é que traz liberdade... Correto? Os povos de países capitalistas são felizes. Correto? Pelo menos vendem essa imagem na mídia. Não há como medir felicidade, mas infelicidade salta aos olhos! Ucranianos não devem então estar felizes. Brasileiros também não. Franceses? Também não! Temos um mundo doente. Que povo quer viver aterrorizado por uma guerra velada em que vê-se mero peão de xadrez, ou seja, sendo sempre os primeiros a morrer? Assim como nesse jogo, os ''reis'' e ''rainhas'' são poupados a todo custo. A hierarquia do tabuleiro se traduz na realidade do mundo. Ah, o jogo de poder que entorpece, convence e, pior de tudo, cega!

Será que o mundo capitalista, lutando tanto para dizimar ideais socialistas ''demoníacos'' que ainda possam existir, não estaria dando nisso apoio à ascensão traiçoeira de mentalidades de ultra-direita? Esquecemos dessa parte daquele sistema cartesiano torpe? Sim, grupos, por exemplo, neo-nazistas que fingimos desconhecer, correto? Sobre, como outro exemplo a questão de hegemonia étnica dos hutus e tutsis poucos ou quase ninguém deve saber... Mas, enfim, fico pensando: uma vez só de nazismo no mundo não bastou? Haverá outra ''filosofia'' de Estado igual ou ainda mais deletéria a ser criada para os próximos anos? Será na Ucrânia? Será na Europa como um todo? Oriente Médio? América Latina? Em outra parte do globo qualquer? Não sei! Vejo que, embora brasileiros sejamos, nascidos e criados em um país de história tão triste, não aprendemos a ver centelhas, fagulhas de ultra- direita que por aqui também cintilam. Será que nosso passado nos é esquecido? Ainda lembramos ou estamos atentos à história de nosso país? Sequelados pela exploração centenária por parte das grandes ''potências'', vitimados pelo genocídio (poderíamos dizer isso!) cometido junto aos negros trazidos para cá, deliberado, etc... Tantos exemplos pelos quais deveríamos cobrar de nós mesmos atenção aos fatos de nossa própria pátria. Ainda há os que defendem os países europeus em relação a nós, para que consigamos nos basear em seu poderio como referência. Claro! Tragam o passado de volta e com ele tudo o que foi roubado de nós em ouro, prata, minério, madeira, sem falar na nossa dignidade... Sim, hoje somos livres, mas até qual ponto? Quem paga nossa conta de mandos e desmandos passados cometidos em nossa história? Nós mesmos.

Há pouco tempo, dada por encerrada nossa eleição presidencial, viram-se aos berros atrocidades deliberadas por todas as redes sociais! Raciocínios odiosos baseados até em ofensivas verbalizando ideias de extermínio a essa ou aquela parcela do povo como sendo ela causadora da desgraça nacional que somos, alguém viu? Esquecemos? Sim! Como se corrupção fosse nosso único mal. Não! Vivemos em guerra. A culpa nunca será apenas do governo. Simplista demais e confortável demais, entretanto, pensar assim. Em sendo confortável, acaba virando a versão comum na boca de todos. A culpa será muito mais do nosso silêncio e de nossa ignorância cega. Não entendemos o que seja ser povo! Nação! Não digo apenas como brasileiro, mas como habitante do mundo. Somos um povo só marcado por inúmeras diferenças. Queremos apenas um governo que nos mantenha na confortável situação de classe abastada gloriosa ou ainda numa classe média intocável! Sim! Queremos o capital! Nada além disso, é o que vejo.  

Voltando à causa ucraniana, a região da Criméia, rica em gás e petróleo, definiu chamar-se de ''russa'' em referendo. Essa decisão não importa ao mundo capitalista! Não foi democrática, correto? Se fossemos nós, o que diríamos? Sim, que a ''esquerda'' está corrompendo o mundo novamente. Malditos socialistas, não? Sim, boas são as intenções de paz, amor e prosperidade que intentam em impetrar na Criméia (e Ucrânia como um todo!) a União Européia e os EUA, não é? Sim, eles clamam pela liberdade daquele povo. Sim, eles querem retirar a pobre população engolida pelos tentáculos russos, ou tentáculos socialistas, ou sabe-se lá, até do demônio devem verbalizar por aí. Decerto, o ''mundo ocidental'' está repleto de boas intenções. O petróleo, o gás etc são meros detalhes naquela região. Triste, por exemplo, é que nada desperta interesse em auxiliar na defesa dos direitos do povo nigeriano em tempos atuais ou da população de Ruanda há algo mais de 20 anos. Onde estão ou estavam as ''potências'' ocidentais? Por que será que agimos de forma tremendamente seletiva?

E no Brasil, novamente falando dele, o que dizer? Toda a chamada ''direita'' está preocupada com o bem estar na nação? Sim! Estão lutando pelo bem da pátria? Claro, lutam por ordem e progresso, dirão alguns! Eis então que, clamando por mudanças, criamos um segundo turno com aparente bipolaridade que, todavia, notório fosse, mas cegos somos, eram apenas escolhidas ali duas cores distintas: vermelho e azul. Não era uma disputa de ideais! Haveria boas intenções, claro, defenderão de ambos os lados os que disso gostam. Ledo engano! Triste ver que conseguiram criar a ideia de que ''azul'' é cor do ''bem'' e ''vermelho'' a cor do ''mal''. Já vimos isso tantas vezes... Vemos isso o tempo todo. Sentindo-se derrotados, alguns (graças a Deus, creio que menor parte!) membros da direita saíram em ofensiva contra povos menos favorecidos do país. Chamaram de vários nomes em determinações chulas, agressivas e potencialmente genocidas uma representativa parcela da população. Mas esquecemos disso. Ninguém estava atento, creio eu. Afinal, quem iria se preocupar? O governo que se preocupe com os pobres então, correto? Os pobres que mantiveram o governo da situação, correto? Creio que não! Simplesmente, vendo o resultado das eleições, quase que numa escolha desesperançada retratada em ''cara ou coroa'', nem a direita nacional nem a esquerda nacional tinham forte clamor. Ambas eram tidas como: ''será que vale a pena?''. Sim! Os eleitores jogaram moedas para cima e decidiram um lado. Poucos argumentos válidos, é fato, motivaram votos a qualquer parte. Foi o lado ''vermelho'' o vencedor. É um processo democrático, não? Acho que não é bem assim...

No final das contas, ainda morrerão pessoas nessa briga de socialismo versus capitalismo pelo mundo. No Brasil, pelo que temos, há apenas a briga entre as cores vermelha e azul. Partidos da novela política nacional. Vilão e mocinho! Gostamos disso! Faltou apenas o Pedro Bial anunciando o final do segundo turno dizendo: ''o eliminado da semana de hoje é...''. Não há muitos ideais filosóficos ou político-partidários nem nada que nos permeie a escolha eleitoral, entendem isso? Eu vejo assim. Há o interesse pelo poder entre os poderosos - tantos os chamados de esquerda quanto os da direita. Apenas isso! Na Ucrânia seria diferente? Não sei! Interesses apenas em todos os lados é o que há. O povo? Segue como peão de xadrez, massa de manobra. Mas nós, desde que europeus pisaram aqui, sabemos o que é ser explorado. A diferença agora é que somos uma colônia de muitos interesses, muitos interessados - não mais apenas de Portugal. E na Ucrânia? Não mais apenas há uma divergência calorosa entre ideais políticos, mas sim a frieza dos resquícios da Guerra Fria que nos ensinaram ter acabado. Uma eterna dicotomia belicosa que insistimos em desconsiderar. Enquanto isso, morrem mais e mais pessoas, não morrem apenas sonhos de direita ou esquerda... 

O mundo está fervendo! Que não seja o retrato de uma nova guerra. Acho que não temos muitas escolhas, afinal, deixamos tanta gente morrer no mundo sem fazer nada por isso. Total indiferença egoísta. Outra guerra não seria de se espantar. Mas, seja feita a vontade do capital, digo: seja feita a vontade do Senhor. Não é isso que dirão? Enquanto esperarmos por Deus ou por algum líder que seja de fato digno de mudar algo da nossa realidade, esquecendo-nos do nosso poder e de nossa necessidade de educação e mair amor, seremos sempre fadados à guerra, às mortes, às polaridades e extremismos no mundo. Seremos ''manobrados'' pelos interesses de grandes poderes e seus grandes poderosos. Seja aqui, seja na Ucrânia, seja em qualquer parte. 

Enquanto não acordarmos para a causa humana, digamos assim, entendendo que somos parte de um mundo que precisa saber conviver com as diferenças e lutar pelo bem comum, veremos esse mesmo cruel cenário que chora pelos 70 anos da atrocidade do holocausto, mas que nada comenta das atrocidades em Ruanda ocorridas pouco mais de 20 anos atrás. Mais amor e mais educação, é o que precisamos para superar tantos traumatismos que temos no mundo de hoje e de ontem - e até o dia onde prosseguirmos com a nossa ignorância.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ser tão... Sertão!


Larguei metade de mim pela estrada, moço. Não estava tendo como saber carregar a outra metade de mim. Fiz o que sou hoje só da metade que restou. Adoentado, sabe-se lá... Rezo que deus cure as feridas abertas do mundo. De caminhar, há calo que não acaba mais na minha alma, sabe? Assim tem que ser mesmo, Jesus ensinou. Sinto fraqueza mais fraca que daquela asa branca que desistiu de habitar a terra seca e passou perdida no céu que se via, seguindo um rumo pra além do sertão agreste de caminho aparentemente sem fim, tal qual eu, que havia e há. Em mim, nisso tudo, segue o passado na estrada detrás de minhas costas, perdido comigo tentando esquecer. O futuro a perder-se dos olhos sujos e machucados com a poeira da estrada que ataca a visão vindo do horizonte. Tão distantes ficaram os sonhos e esperanças de mim, sabe, moço? Ah, como é ruim caminhar sozinho de si, sim, te digo: desacompanhado até de si mesmo.

A asa branca bateu asas do sertão e eu fiz o caminho reverso, pelo que vejo. Encontrei-me com a seca. A escassez. Um sertão agreste em mim! Eu aqui, cabisbaixo, seguia a ver o entorno apodrecendo mediante a aspereza de tudo quanto havia. O sol cegava, a noite não abrandava o abafamento. Nada via-se de esperança. Eram por todos os lados carcaças perdidas envolvidas numa carapaça de luto. Memórias de tempos passados, cada uma delas. De tempos em tempos, eu as via de novo. Um cemitério que caminhava comigo, entendi. Bagagens. Um tanto é de verdade, digo.

Sinto coisas, homem, que não te posso confirmar certeza pura. Mas sinto que alguém perto de mim se faz, por vezes. Deixa inquieto todo o eu que há. Tudo desinquieta em cenário torpe sem fim que me consome como doença. Um passado que, calado, ora acorda e grita de ensurdecer. Queria quieto caminhar. Sozinho que fosse, acompanhado de mim mesmo, pelo menos. Dono de mim, não sabe? Então saiba. Diferente é. Isso é. Estar sem gente perto nem sempre é solidão pura... Ruim mesmo é estar sem a gente, sabe? Caminhar triste é aquele sem vida, sem a gente mesmo. Sozinho até de deus, quem sabe... 

Caí uns dias na estrada e acordei meio atordoado. Não sabia o que sucedera. Sabia apenas que o chão era terreno ruim de se apagar nele, dormir sono curto que fosse. O chão é duro como meu coração, sabe, moço? Pedra de calçamento acompanha a trajetória do meu sangue. Sabe? Digo! É fato isso que é. Sei mais não de nada. Sei nada demais, também não. Perdi minha carcaça na terra que passou. O vento varreu as pegadas de meus pés deixadas no chão seco. Secou tudo também de esperança que há. Meu peito virou terra de ninguém, sabe? Digo que é. Entendi isso. Terra seca que corre resto de sangue vermelho de raiva e vergonha que há. Ah, seu moço, triste fim é o daquele que se perde de si.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Às crianças de hoje e do futuro

 Querida criança,

obrigado, antes de mais nada! Por experiência própria, sabemos: crianças são sublimes, pois encaram a vida com surpresa, com a leve astúcia daqueles que não têm ideias preconcebidas sobre nada. Crianças entregam-se a explorar a realidade das coisas e aprofundar suas experiências pessoais quanto a cada detalhe que lhe toque a curiosidade - por mais ''sem importância'' que parece a outros olhos. Obrigado por nos ensinarem isso!

Criança, quando olho você tendo nas mãos um humilde passarinho, por mais pequenino que ele seja, vislumbro uma leveza que poderia ser algo de definição de tantas coisas... Entrego a devaneios e à metafísica em vendo isso. Você olha aquilo e sabe que obviamente há vida ali naquele ser, mesmo aparentemente sendo algo tão pequeno, tão frágil, tão indefeso e até mesmo sem importância. Você pega nas suas mãos aquele pequeno animal e toma todos os cuidados para não feri-lo. Claro, afinal você sabe amar as coisas de fato, sem interesses, por menor que ela seja ou ''menos importante'' ao mundo ou a você mesma ela seja. Você quer explorar aquilo, aquela coisa, aquele animalzinho tão diminuto, mas sua curiosidade não lhe permite ser cruel. Você sabe disso! Isso é lindo! Você tem medo de ferir, antes de tudo! Mostra isso tendo tanto receio de fazê-lo ao explorar. Permite-se à dúvida de ''como posso entender isso?''. Ampara carinhosamente nas mãos, pensa, reflete bastante, se comove com a singeleza daquele ser e, quando o solta e ele voa, fica extasiada diante da beleza daquela pequena coisa que passou por suas mãos, você nem mesmo sabia o que era, mas viu despedir-se de você de forma tão linda e poética por menor e ''sem importância'' que ela fosse. Ou seja: crianças sabem amar, sem julgar; sabem explorar, sem ferir; sabem amar, mesmo sem saber o que seja o alvo do amor ou julgar merecimentos para isso; sabem entregar-se aos benefícios das dúvidas e da exploração dos medos que advém delas. Sim, entendi: uma criança e um passarinho em suas mãos nos ensinam muitas coisas!

Criança, explore seu mundo! Muitos irão tentar te convencer de que o mundo é cruel, é mau, de que você precisa ser rico e bem sucedido antes de tudo e a qualquer preço. Balela, criança! O ser humano veio à Terra para ser feliz, habitando um mundo imensamente grande e repleto de gente para ser conhecido. Explore o mundo! Explore as pessoas! Explore as coisas! Não se permita abdicar do poder da dúvida e abandonar assim a sua capacidade inerente de explorar o que lhe é novo, desconhecido. Criança, ganhe anos na sua vida na contagem pessoal do tempo que passa, sim, mas não fique ''adulta'', peço! Entende? Mantenha o poder de espantar-se, de amar sem preconceitos, de defender os pequenos e mais frágeis se suas mãos e seu poder lhe permitirem ver a si mesmo como maior e mais forte. Não destrua quem lhe aparente ser fraco, débil, ''inferior''. Aprenda com todos, com tudo! Seja criança, pois esse é um termo tão amplo, tão repleto de significados e todos eles tão sublimes que você não saberá nunca caso siga o que te peço, pois apenas valoriza e entende a beleza de uma criança alguém que infelizmente tornou-se adulto. 

Fato é que estará fadada a conviver com inúmeros adultos! Permita-se perdoá-los, entendê-los e amá-los como consegue fazer com os passarinhos! Adultos são frágeis, carcomidos, instáveis, débeis. Eles não sabem o que fazem, já disseram um dia e ainda é verdade! Seja como você nasceu para ser! Explore! Viva sem preconceitos! Seja amorosa despretensiosamente! Seja como você sabe ser: fraterna e acolhedora... Não fique adulta! Seja criança. É o que peço!

Abraços no seu grande coração.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Depressão


Depressão é um marco negativo na vida de qualquer ser humano! Nada mais é que a doença mais incapacitante que há. Por qual motivo digo isso? Simples! Um indivíduo saudável, com bem estar aparente e um entorno benéfico, progressista, não consegue desenvolver nada em sua vida, mesmo que saudável em corpo esteja... Devido a essa doença, essa mácula da alma ou meramente do organismo (aos que creem em algo além da matéria): aquele indivíduo nunca mais será o mesmo! Haverá um antes, um durante e um depois - ou, na pior das hipóteses, apenas um antes e um durante.

Doença metafísica? Algo que não cabe explicar, é fato! Somos egoístas demais para entender a realidade mental, social, orgânica e os tantos aspectos da vida comum de um ser depressivo. Com grande chance de acertar: é ele um ser solitário, mente por vezes mais, por vezes menos brilhante, mas sempre com muito potencial de fazer coisas - afinal, enquanto depressivo, faz pouco, tão pouco... Perde-se tanto. É uma situação para ele irreversível! Somam-se decepções consigo mesmo, com as coisas da realidade... Mas, de tudo, o que mais consome a somar-se em dores é a decepção com as pessoas ao redor. O ser humano é vil, egoísta, cruel em tantos aspectos e cego para a dor do outro. Mais sabe de julgamentos que de auxílio, é fato! Por isso disse que não cabe explicar: ninguém entenderia, ninguém entende - até um dia passar por tal situação ou testemunhar alguém que ame muito passar por tudo isso.

O depressivo não consegue ver as promissoras propostas do entorno, as possíveis conquistas a serem alcançadas. Não consegue traçar caminhos. Falha! Consome-se em culpas. Despe-se, ou melhor, abdica do orgulho próprio, da auto-estima, da fé e, pior de tudo, da esperança. Morre em espírito, por vezes! Passa a viver como um corpo sem vida! Perde a vontade de fazer qualquer coisa que seja! Perda não apenas a razão: perde a si mesmo! E o que é pior: sabe, ou aprende a saber, que não adianta buscar alguém para ajudá-lo, ou entendê-lo; afinal, ele está sozinho! Todos estamos, na verdade, mas na depressão essa solidão é mais corrosiva e clara. As pessoas têm muito mais a julgar que a contribuir, é fato. Já disse! Daí, um depressivo que desabafa com alguém acaba tendo sua reputação denegrida por vozes maledicentes ou tolas, simplesmente. Decerto, aos olhos egoístas alheios, o depressivo é nada mais que um fraco, um mesquinho, um ingrato à vida ou um tolo simplesmente. Um depressivo, se não era antes de sua doença, passa desde então a ser completamente só  - ou por escolha ou por dificuldade de buscar pessoas encontrando nelas um sonhado alento! Afasta-se de tudo, de todos, perde a fé nas coisas e a esperança no futuro. Perde...perde...perde!

Em meio a isso, pode ser que desista! Pode ser que falhe e cometa a atrocidade maior do ser: desistir da vida! Sim, isso ocorre! Se houvesse sido ele em vida uma pessoa de bem, muitas lágrimas hipócritas surgiriam ao redor do corpo morto, afinal, tantos que poderiam ter saído de seu conforto pessoal, usual e tentado ajudar aquele ser que ali sofria não assim fizeram. A maior parte terá, mesmo que velada, uma culpa somada ao luto ou uma constatação da ineficiência pessoal no processo de ajudar aquele ser que sofria demasiadamente. Claro, a culpa passará escondida dentro de todos, afinal não haverá pessoa a assumir que poderia ter ajudado e não o fez. Isso seria, no mínimo, desconfortável! Todos dirão que fizeram de tudo quanto podiam, mas ''ele não aceitava ajuda'' ou coisas assim, redundantes, como resposta. O famoso jargão: ''eu fiz a minha parte" acompanhado ou não de uma infinidade de interjeições aplicáveis. Sim! É parte dos discursos hipócritas humanos. 

Somos uma raça vil. Somos cruéis com os aspectos psicológicos das pessoas ou, no mínimo, desleixados, desdenhosos. Nem mesmo os profissionais responsáveis por abordar o lado metafísico, os aspectos psicológicos do ser humano, se comportam de forma diferente ou positiva, progressista. Pouco contribuem! São meramente profissionais do ramo, nada mais! Não humanos condoídos pela dor do outro. Poucos são altruístas querendo de fato tornar aquele ser ali à sua frente vitorioso ou, digamos assim, curado. Querem apenas sentir que fizeram sua parte, alguma coisa mais ou menos competente ou eficaz que tenha sido. De fato, no final das contas, aquele que não melhora será tido como um paciente difícil, não meramente como um ser que não foi devidamente ajudado. 

A culpa há de cair sempre na cabeça do depressivo. Caso o enredo não seja assim, ele o transformará como um todo em uma auto-condenação, pois não há depressivo otimista. Depressivos se auto-mutilam com conceitos auto-depreciativos! Veem-se inferiores e inferiorizam-se diante da vida, dos fatos. Apequenam-se! Pequenos assim, o máximo que conseguem é esperar o dia da ascensão pessoal, com um pouco de sorte que tenham, ou a derrocada final - por exemplo, pulando da maior altura que puderem em busca da morte. O mais, para um depressivo, é nada!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 11 de janeiro de 2015

Das lágrimas que não são minhas


Tomei para mim todas as dores?
Que nada. Não as quero!
Tristeza, decepção? São rumores...
Ateio fogo no sofrimento, como Nero.

De nada servem lágrimas, comoção.
Por qual motivo choraria pelo outro?
Por quem haveria de doer meu coração?
Quero apenas viver, por mim mesmo, absorto!

Mortes? Que haja, de quem quer que seja.
Atrocidades? Que haja aos tantos pelo mundo.
Por mim, tanto faz... Que tudo acabando esteja.
Não me interessa pensar nisso, a fundo.

Acordarei pela manhã; tomarei meu café.
Lerei jornais, como eu, alienados, no trabalho.
Aos domingos, no templo, hei de expor alguma fé.
Afinal, disso: o que finjo que faço é o que valho!

Olhos, que não os meus, servem apenas para me medir.
Meço meus poderes pelos olhares atentos alheios.
Isso é o que importa: dominar a atenção, possuir...
Decerto, à ânsia por poder e conforto não há freios.

Riquezas e sucesso! Domínios para mim!
Quem não quer para si, eu pergunto?
Atrocidades do mundo? Que existam, sem fim,
Desde que mantenham, de mim, o conforto junto.
                                                                     Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Entre Jesus e Barrabás

O que há de errado conosco? Mataram pessoas em um atentado em um país tido como livre, onde a liberdade de expressão é premissa básica, correto? Lá, onde as pessoas exigem o que lhes é lícito: direito de ir e vir, de expressarem suas ideias e ideais etc, correto? Sim! Existe o respectivo luto pela perda de pessoas devido a ainda existirem no mundo atual aqueles que não aceitam divergirem deles, de seus pensamentos, de seus poderes, de sua religião, de sua forma de praticar mercado e gerar lucros. Mas, vá lá... Já basta ou não? Ou melhor: se é para comoção, sejamos justos e amplos, correto? Como assim?

Em nosso país, como brasileiros cegos que somos, não vemos a enormidade de pessoas que morrem e sofrem por tanta intolerância que temos por aqui? Nós, aparentemente deitados eternamente em berço esplêndido, nos habituamos a não ver nada além de estrelas distantes como imagem intocável e trazer isso como realidade... Nosso entorno parece invisível, não palpável, algo assim. Surgimos, nascemos e fomos criados de costas para nossa realidade. Ou será que nossa cegueira é seletiva por algum motivo específico que esse idiota que aqui tenta escrever algo desconhece?

Nosso país se comove com o holocausto. Sim! Claro! O mundo todo deve saber disso e abolir quaisquer coisas semelhantes. Atrocidade humana quase incomparável a nada foi aquela. Porém, será que a escravidão em nosso país foi menos vil? Foram nossos antepassados menos cruéis ou, por algum motivo, absolvidos de seus atos diante da história? Não temos nenhuma responsabilidade quanto aquele passado e os descendentes daquilo? Quantos negros escravizados, explorados até o último suspiro, sequelados em torturas, com suas mulheres estupradas, filhos e filhas também abusados... Tanta atrocidade! Não vemos isso? E nossos índios? Também abusados, torturados, mortos... Por intolerâncias quais? Por religião? Por nossos ancestrais acharem-se superiores de alguma forma? Estamos cegos? E os demais indígenas, não apenas os brasileiros. Falemos então dos índios norte-americanos. Escalpelamento, sabemos o que é e foi, na verdade? As tantas mortes que ocorreram naquelas terras a preço de "expansão" daquele país... Ah, mundo idiota.

Há mais exemplos? Claro! Morrem diariamente uma enormidade de africanos: por doenças que nossas medicina e indústrias farmacêuticas ignoram ou fingem não se interessar, por intolerâncias religiosas e disputas de etnias, ou ainda disputas de poder puramente (como nos casos de domínios por zonas ricas em diamantes e etc). Tantos exemplos de gente que morre e fingimos não ver! Todos humanos como nós! Crianças que ainda morrem de fome nos dias de hoje, Afinal, uma em cada oito pessoas não têm condições nem de comer nesse nosso planeta diariamente... 

Há mais exemplos ainda? Há! No Oriente Médio, aparentemente odiado pelo mundo capitalista-cristão-ocidental, pessoas morrem por guerras há anos. Palestinos, por exemplo, oram ao seu Deus diariamente para serem tidos como povo, simplesmente como povo, como país, recebendo seu devido respeito quanto a isso. No Oriente Médio também ocorrem atentados, sejam a bomba, a tiros, a facadas, a pauladas... Morrem pessoas em todo o mundo por intolerância. Porém, morrem muitas, muitas mais por nossa ignorância, nossa cegueira decerto seletiva, nossa hipocrisia. Há pessoas demais no mundo que querem ser importantes, mas raras, quase nulas, são as que querem de fato fazer a diferença e, acima de tudo, serem boas fazendo o bem! 

Apenas a morte de cristãos é que nos comove? Seria isso? Por cristãos eu choro, mas por outros não - deixem que morram? Por isso então que o fato de africanos morrerem, ou indígenas, ou muçulmanos etc não nos desperta ódio, comoção, revolta? Por qual motivo agimos cegos assim? Cristo pregou isso? Apenas os muçulmanos poderosos tornam-se tiranos? E nós? Ah, sim... Dê-nos um pouco de poder e deixe-nos estar convencidos de que estamos corretos sobre algo e esperem pelo que virá! Somos cruéis igual ou talvez até mesmo mais que muitos que hoje apontamos os dedos com face enlutada. Atentemos para isso, afinal, foi um povo dito cristão que lançou duas bombas atômicas a um país já combalido em "pós-guerra imediato" (digamos assim) matando mais de 160.000 japoneses... Tudo aquilo no intuito de "parar a guerra", dizem uns, ou forçar o cessar fogo ao Japão na época, dizem outros... Mais ainda seria (ou não?) para mostrar aos comunistas, que para boa parte do mundo são coisas do demônio, que um "novo poder" estava nas mãos dos norte americanos?

Ah, o que somos? O que seremos? Tenho pena das crianças que nascem hoje. Tenho pena dos pais esperançosos que esforçam-se tanto por deixar uma boa educação e conforto aos seus rebentos. Mas, todavia, o que podemos esperar de um mundo onde a cegueira aparenta ser dada aos moldes de uma pandemia? Por falar nisso, eu não esqueci que ebola ainda continua matando africanos! É bem verdade que nosso mundo cristão-capitalista-ocidental esqueceu como um todo, aparentemente. Porém, como não estão morrendo mais cristãos, ou brancos, ou europeus, ou sabe-se lá o que nos comove no fim das contas, não mais nos causa preocupação, correto? Tenho pena de nós! Entre Jesus e Barrabás, nos dias de hoje, novamente escolheríamos pela salvação do segundo - e imploraríamos por nossa salvação clamando posteriormente pelo o nome do primeiro!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Nada a perder

De que vale o amor se não for eterno e profundo? Se não nos falta o fôlego por medo quando quem dizemos amar se demora para chegar; ou se não suspiramos em estado de leveza sublime quando testemunhamos o sutil momento do olhar cruzado com o alvo do amor; ou se a mera sombra, lampejo de um futuro sem aqueles braços para abraçar não nos cause dor, seja sentimento grande ou pequeno: nada disso é amor!

Amor é profundo, terno, cristalino... Não há nele passado que haja marcado em dor, ou presente camuflado em falsa paz, ou ainda futuro com sonhos de afastamentos, momentâneos ou não. Amar é eternizar-se um no outro! É transpassar a efemeridade dos laços carnais, percebendo ser o amor muito mais que isso. Amor é metafísico, poderia dizer. Amor é laço da alma, daquilo que nos é etéreo, incompreendido, para alguns inexistente, decerto... Amar é força que move-nos no tempo, comove-nos e dá o alento. Amar consome o que é para ser consumido ao mesmo tempo em que faz brotar esperanças, coragem, energia vital além de sempre mais e mais amor... 

Sem amor, viver é pintar quadro sem pincel, ou ter pincel e não tinta, ou ter tinta, mas apenas negra... Amar é dotado de imensa profundidade, incalculável, eu diria, no âmbito do sentir, tal qual poucos sabem, tal qual poucos atestam, tal qual poucos têm a coragem de embrenhar-se - afinal, amar requer permitir-se ser alçado ao voo do desapego do medo, consolidando uma viagem para dentro da eternidade que há ao colocar-se dentro do peito da outra pessoa! Amar é nunca estar só; é saber-se relevante, inesquecível; é sentir que sentem por nós.

Amor é reciprocidade, entretanto! Não cabe amor em uma mão apenas. Duas mãos distintas deve segurar, manter suspenso pelo ar enquanto o chão olha, com desdém, torcendo para que caia e se quebre - mas as duas mãos sabem que nunca soltarão quando há amor!

Amar é seguir em frente sempre, pois quem ama caminha, acompanha, incentiva a nunca parar! Amar é um desassossego revolucionário que nos move através de todos os instantes, quer sejam dos sonhos almejados, das dificuldades vivenciadas, dos períodos de sorte ou falta dela... Quem ama, atravessa todo e qualquer instante de forma leve, suave, sem pesar! Afinal, o amor preenche todo o vazio de nosso ser e, completos, não há espaços para medos, dores, chagas... Além disso, dividi-se todo e qualquer peso trazido por sobre os ombros de dois, não mais apenas por sobre nossos ombros apenas... Amar é nunca estar só mesmo que ausente a pessoa amada esteja!

Não carregue sentimentos vãos. Não doe sentimentos vãos. Doe-se! Ame! Acredite que amor existe,! Afinal, a não existência dele é o que já temos, correto? O mundo está sedento por amor! Logo, na busca de amar: nada há a perder, apenas a encontrar!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O real poder da escrita

Escrevo muitas vezes em homenagem às coisas que calo. Sim! Escrever é homenagear algo, uma ideia, um sonho, uma esperança, um entalhe no peito ou nó na garganta. Quem escreve desvincula-se (ou tenta) de algo que lhe transpassa, algo assim. Trivialidades ou não. Coisas da vida. Coisas essas que por vezes ferem, corroem, não têm definição explícita, porém, por algum motivo, naquele que escreve tornam-se algo por vezes demasiado consumptivo. Cabe então, nessas horas, escrever!

Decerto, perde-se tempo, horas ou dias, quiçá, até conseguir veicular no papel todo um emaranhado de ideias. Tempo esse que, na verdade, é uma trajetória na qual o escritor embrenha-se percorrendo caminhos que lhe tragam respostas. É fato: enquanto buscamos respostas, surgem ainda mais perguntas e, também é fato, não raro resposta alguma aparece. Então, percorrer essa trajetória rumo ao objetivo de esclarecer é na verdade uma auto-elucidação, um desvendar-se que emoldura-se numa realidade de remendar-se, uma prática de unir pontos para, de ponto em ponto, atingir (em auto-descobrimento) a imagem formada de si mesmo e das coisas por serem pensadas e vividas!

Escrever é investigar pensamentos, sonhos, ideias, fatos. É seguir ligeiro um rastro! Uma poesia é uma investigação também! Como? Escrever sobre um olhar não é apenas relatar no papel ideias preconcebidas sobre dois olhos. Não! Requer investigar os detalhes e as interpretações que por tantos outros nunca foram tidas no simples fato de dois olhos estarem adiante de nós, estejam eles nos encarando ou não. Escrever é sim investigar. É aprofundar-se para além do que a maioria acha plausível concluir e aceitar. Por vezes saem sim textos previsíveis, que pouco nos acrescentam diante de nossas ânsias de buscar algo novo. Mas, saliento: é parte da trajetória acima citada, afinal, como disse, é um auto-conhecimento! Veja: quem nunca falou pelos cotovelos, por tantas vezes sem sentido algum? Com o tempo, passamos a falar menos - ou não. Correto? É a expectativa tornarmo-nos mais objetivos no falar. Basta que consigamos amadurecer nós mesmos, nossos ideias e ideias. Não é verdade? Escrever é também algo que amadurece, pois nós somos o que passa ao papel! O escrito nada mais é que nós mesmos! Nem tudo quanto se escreve é de valor, portanto - mas há valor sempre em escrever qualquer coisa.

Escreva! Leia! Releia! Reescreva se for necessário. Nunca deixe passar em vão uma ideia. Investigue-a! Instigue seus sentidos, suas noções de mundo, de vida, de sentimentos, de razão, de si mesmo... Confronte-se e confronte o mundo! Nunca há de ferir ninguém quem anda desarmado. Quando produz-se um texto sem intuito ou viés de querer atingir algo ou alguém, apenas no intento de passar ao papel e, por conseguinte, ao mundo uma ideia, nunca há de deixar alguém ferido desse processo! Um texto não é uma arma desde que o autor não o faça assim, claro. Quem por algum motivo se feriu com algum texto pode simplesmente ter feito da verdade ali exposta um ardil e, com isso, de si próprio (ou em si próprio) caiu. É como escrever hoje sobre a hipocrisia em relação a tantos aspectos na sociedade atual. Somos hipócritas, não é fato? Mas dói saber que não somos perfeitos quanto queremos nos mostrar. Daí, escrevem-se algumas linhas sobre as hipocrisias veladas do dia a dia e cria-se enormidade de "feridos" e inimigos. Liberdade de expressão é uma faca sem cabo, ou seja: é lâmina para lá e para cá. Metáfora tosca, eu sei. Mas digo salientando que, através dela, cortam-se todos caso não se lhe manuseie corretamente.

Saibamos escrever sem o viés da crueldade de querer ferir algo ou alguém. Saibamos buscar caminhos para encontrar respostas ou perguntas mais fáceis de responder - sabe-se lá o real papel da busca. Sejamos livres para "parir" ideias, e que mantenhamos sempre alguma pitada de espanto quanto às coisas do mundo, afinal, não somos sabedores de nada, nem de nós mesmos. Investigue o mundo! Investigue-se! Instigue-se! É o real poder da escrita.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Enquanto não morro

Enquanto não morro, quero desvencilhar-me dessa chaga que é a certeza da morte. Enquanto não morro, quero viver. Quero seguir ignorando a questão proposta por Fernando Pessoa quando disse que "o homem é um cadáver adiado".

Quero, de despedidas curtas e abraços longos, partir para correr o mundo a passos largos. Quero cantar músicas aprendidas de última hora, ao som de violões amigos e batuques fraternos em bares ou outros cantos da vida. Quero desfrutar goles de bebidas em rodas amistosas pela noite e noutras pelo dia...Quero conhecer pessoas, várias, todas pelo nome. Quero interagir com gente de todos os locais, credos, cores; gente de toda sorte - quantas mais me for possível conhecer pelo mundo, tanto melhor será.

Quero desvincular-me do despertador e fazer do sol meu guia para o acordar; da lua,  meu norte para percorrer a escuridão em busca de uma prosa gostosa, quem sabe, debaixo de uma árvore qualquer ao abrigo de pessoas amistosas, em noites inesquecíveis, afastando medos e dissabores que a noite possa trazer motivados pela aparente escuridão que há... Quero despir minha alma de dores maquinais às quais o homem de hoje habituou-se a viver como máquina que tornou-se.

Quero seguir uma rotina despretensiosa rumo a um amanhã que desconheço, mas que me sirva de alforria em relação aos meus algozes pensamentos e atos do hoje. Quero saber-me livre amanhã e sempre! Afinal, Mark Twain disse algo assim: "os dois dias mais importantes da nossa vida são o dia em que nascemos e o dia em que descobrimos o porquê". Disso, apenas sei que nasci...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Malfadado


Solidão dói! É um fato consumado que vejo!
Olho e tenho comigo um vazio. Nada almejo!
Só, não sou nem um; sem nada, sem rumo, enfim...

Pessoas olham, perguntam, mas quem quer o fim?
Ninguém sente nem quer sentir comigo. Sentir é ruim!
Antes fosse eu uma pedra, um poste. É um erro eu aqui estar!

Pessoas não querem ver... Não querem saber de ajudar... 
Quem perderia seu precioso tempo ajudando-me a levantar?
Ah, que dó do mundo vendo que somos a espécie dominante.

Humanos são egoístas, falsos, hipócritas. Espécie irrelevante!
Não velam nem pelos seus iguais, velarão pelo quê, doravante?
As dores do mundo doem solitárias, sem ninguém as olhar.

Queria eu poder ser forte, poderoso, construir pontes, ajudar...
Se forte, carregaria dores dos outros; se poderoso, as faria acabar.
Mas sou eu um alguém que falta a mim mesmo - caído, sem nada.

Em sendo eu o vazio que sou e sinto, toda esperança é malfadada.
De nada adianta seguir em frente sonhando ao percorrer a estrada.
Antes fosse eu atropelado pelo bonde da vida e minha alma fosse levada...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Extinta chama


A janela está mais perto de mim que meu coração.
Não quero dizer que a desejo, ou algo assim. Não!
Simplesmente constatei tal a realidade que me condena.

Olho para baixo, tamanha altura, e meu ser se apequena.
O medo incontrolável resfria minha alma; dá-me pena!
Nunca imaginei atingir nessa altura da vida tal ponto.

Calado, quieto, passo por pessoas, tantas, mas nada conto.
Também ninguém quer saber das dores do outro. Pronto!
Devo seguir e tomar decisões as quais, sozinho, julgue acertar.

Se do chão nada mais ocorresse, talvez valesse pular.
Talvez valeria a pena ficar do lado da cá da janela, sonhar...
De sonhos em sonhos, sabe-se lá chegue o dia da calmaria.

O que enfim, então, eu faria quando chegasse esse dia?
Como eu me portaria? Das coisas que sonhei, quais as faria?
Irrelevante pensar agora... Por tantas vezes já pensei assim.

De tanto pensar, esperanças malfadas, sempre, cansei de mim.
Vivo esperando algo que me acuda  e que coloque nisso um fim.
Mas sigo sem respostas, pelos cantos escuros, de pranto em pranto...

Mesmo que triste, da janela eu teria um fim justo, entretanto.
Nada sei do que se daria dessa minha morte além do espanto.
Todavia, lágrimas doídas cairiam dos rostos de quem me ama.

Fecho a janela. Fecho os olhos. Deito novamente em minha cama.
Prefiro dormir que pensar na morte ou na vida. Pensar me inflama!
Deitado, dormindo, sou um ser melhor, inexisto; sou extinta chama!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O que fiz de mim?


Do correr da vida? Ai...! 
Dói pensar o tempo que vai.
De dentro de mim um suspiro sai...
E a paz que era minha passa, esvai.

Sou eu as dores que carrego?
Das dores que há, alguma eu nego?
Quantas são as que me entrego?
Olho para dentro de mim, cego...

Sei de mim menos que dos demais.
Habituei a me sentir menos e doar-me mais.
Vivi dores de outros que não eu, demais.
E agora? Resta o que, ademais?

Pensei que seria eu, hoje, algo diferente.
Seria um outro, altivo, forte, sorridente...
Mas vejo-me fraco, débil, demente.
Que fiz eu daquilo que sonhei, crente?
(...)

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

A Medicina não mais me encanta

A Medicina não mais me encanta. Antes a tinha por pura, altruísta, algo de santa, hoje apenas tenho, extraída dela, decepção. Disso tudo, decepcionado vivo e nada mais me espanta. Sonhei um dia em ver a luta contra a morte, contra as doenças, contra, também, as tantas crueldades e desigualdades. O que vi? Nada além de opulência, estandartes insólitos de um status quo que beira a inocência de tão pueril é o humanismo médico atual que está à mostra.

O homem, sim, como um todo é vil. Cruel! Vive de aparências. Ostenta gritos hipócritas e verborrágicos contra desigualdades e em favor do bem - mas não age contra o mal. Estamos confortavelmente entorpecidos - já disseram! Somos humanos antes de médicos... Talvez seja por isso que a chaga a qual vejo na Medicina atual, real, diverge daquela arte médica dos meus sonhos. Percebi então que, na verdade, tudo era uma trave no meu olho com o qual eu enxergava errado, enviesado, crendo que algo de bom estaria à frente do sonho da formação em que me embrenhei, mas caí do cavalo - não é assim que dizem?

"Cavalo de Tróia", digo sorrindo para mim mesmo - afinal, sorrir em meio à desgraça é o que resta de graça a extrair dali, talvez em esperança. Sonhei encontrar uma luta do bem, pensando que haveria no dia em diante à formatura um emaranhado de profissionais lutadores, engajados, vencedores dependendo se dessem sorte ou não nos sonhos almejados. Mas não! Permaneço caído deitado sobre sonhos mortos. A Medicina que vi, praticada aos berros roucos, atropelou-me... 

Corrijo meu engano: não foi a Medicina que me decepcionou, mas sim minha visão errada na qual baseei todo um sonho. Esqueci-me de que a arte médica é dada pelas mãos dos homens e são eles que decidem por quem serão guiados. Eu pensei que o norte seria a prática do bem, Deus, o amor, o altruísmo... Porém, esqueci-me que o homem guia-se pelo poder, pelo status, pelo egoísmo. O conforto de fato entorpece e a Medicina que sonhei um dia, em meio a isso, desvanece! 

Levanto do leito, da cama na qual, de longe, o mundo espreito. Cansei de ver a realidade tal qual tem sido! Cansei de sonhar para além do que posso, para além do que consigo. Achei que mudaria algo, mas de fato vejo-me caído. Achei que seria algo... Porém, sou apenas mais um. Diferente? Talvez! Mas apenas um em meio ao mundo insosso que temos. Sopa amarga de gente podre da qual a realidade bebe. Somos uma humanidade hostil ao bem e, com isso, a nós mesmos! Há sonhos por serem sonhados, sim, em conjunto, mas como esquecer ou superar essa amostra de humanidade que temos, tão torpe e tão vil, que vem junto?

Que Deus vele pelos que ainda sonham! E que haja sonhadores a trilhar caminhos de luz pelo labirinto o qual estamos fadados a percorrer...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Devaneio sobre o amor, o amar e o demais que há

Quero jurar amor eterno, mas onde está o amor? Inexiste? Quiçá haja amor para além das portas e muros, mas tenho sido levado a pensar que o amor é mero chiste. Queria saber onde estão as pétalas da rosa do amor que, perdidas, não deixaram rastros. Sobraram apenas os espinhos espalhados pelo mundo; hoje, já estão gastos.

Onde haverá espaço ao amor nessa terra de dissabores infindos espalhados pelos caminhos? Haja o que houver, haverá o dia de retornarem os amantes ao mundo; hoje estamos todos sozinhos... Haverá tal dia que, de um amor transcendente, tão profundo, canções apaixonadas serão entoadas a cada segundo... E, sabendo disso, seguiremos tranqüilos aguardando dias melhores que serão dados ao mundo.

Afinal, dias piores que os atuais, sem amor ou algo mais além da solidão, há como existir? Teremos no futuro pessoas de corações abertos, amores reais... Sem espaço para pranto! Tal dia há de vir. Ah, do amor, espera-se tanto, tanto...

Haja o que houver, haja o que há de ser dado: teremos em um dia adiante o amor por todo lado. Desse dia em diante, estaremos aptos a exercer o lado humano que nos falta e, da felicidade mais alta, pularemos aos braços do mundo sem medo da queda. Não cairemos! Amor real dá asas e, alados, voaremos rumo a um futuro benfazejo o qual, com os olhos de hoje, não vejo, mas hei de testemunhar sua existência.

Haverá dias melhores ao mundo humano - hoje tão doente, demente, insano.. Afinal, haverá dias piores? Só de pensar neles, seria completo engano. Estamos no fundo do poço? A saber, creio que sim. Estamos assim desde o dia em que esquecemo-nos do amor e nos perdemos de Deus, de Seus planos. Afinal, abandonamos o amor ou sobre ele e seus poderes nos enganamos? 

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

As atrocidades da carência bruta

Parei e pensei: nossa sociedade está sofrendo. Estamos doentes? As redes sociais vulgarizaram com tamanha exposição as nossas morbidades afetivas - mentais, psicológicas, ou sabe-se lá qual definição dar. A exposição desenfreada de si mesmo numa espécie de grito rouco de: "eu esto aqui!". A porta aberta do mundo virtual... Beleza? Ostentação? Amor - ou falta dele? Alguém percebe o que tem ocorrido? Pode ser, entretanto, apenas uma doença dos meus olhos que teimam em enxergar errado...

A realidade das redes sociais através da ultra-exposição aos olhos alheios pode ser a etiologia desse distúrbio, creio eu. Ainda não sabemos lidar no dia a dia, na vida real com a opinião alheia, como saberíamos lidar com os olhos (atentos ou não) e opiniões nas redes sociais das pessoas com quem temos esse contato? Expressões de felicidade acabam por serem resumidas num sorriso calculado na foto (tantas fotos...) ou na imagem de casais felizes "trajados" em abraços (por vezes) aparentemente forçados em fotos premeditadas que trafegam pela rede. Seriam ou não exemplares de: "olhem para mim" ou "olhem para nós!" - cá estou eu, veja. Será? Acho que precisamos ser notados, comentados, curtidos, falados para nos sentirmos vivos... Não é que isso seja uma doença, claro, mas uma exposição da nossa carência de nós mesmos, talvez. 

Não sabemos estar sozinhos no mundo hoje, concluo. Parece causar alguma dor ou algo de desconforto a solidão testemunhada. A opinião alheia deve, de fato, causar alguma chaga no peito - pode ser isso. Porém, qual a dor que causa estar sozinho? Será tão real assim tamanho apreço dado ao fato de ter alguém do lado na foto? Esse alguém estará nas próximas fotos daí há alguns meses? Vejo uma ânsia imatura de mostrar-se "em relacionamento'', ou acompanhado de alguma forma. Há tantos casais felizes ''eternamente" que não duram nem mesmo um ano. Há também os tantos solteiros convictos que apaixonam-se perdidamente e se calam deixando a dúvida: eram tão convictos assim ou a sua solidão também doía? Há tantos rostos deformados por sorrisos falsos em fotos de perfis de redes sociais... A felicidade que não vem de dentro, mas sim da opinião alheia (de fora) para dentro de si. Entendem? Onde estará de fato a felicidade? Fora? Dentro de si mesmo? E do amor? Haverá um dia a força interna que vence os olhos alheios com auto confiança e auto estima suficientes? O que ocorre conosco? Seremos enfim donos de nossos próprios narizes ou precisaremos sempre de testemunhas para estarmos convictos ou não do que somos e temos?

Onde há felicidade em alarde, descreio do motivo do sorriso exposto na foto. Claro, sou sabidamente pessimista, mas é o que penso por vezes - teimando comigo mesmo se estou errado ou não! Será que o apreço pela beleza, ou pelo relacionar-se, ou a ostentação propriamente dita de vidas felizes está diretamente relacionado à felicidade bruta, pura, real? Será que todo esse alarde de felicidade estampado em perfis de redes sociais não seria mais uma das atrocidades do mundo que tanto nos tortura? Sim, nosso mundo não vai bem. Melhor seria ostentar algo de felicidades, mesmo que irreal? Será que criamos mais uma forma de sofrer, torturando-nos através da vida virtual? Somos carentes, percebo! Mas é parte da condição humana querer bem a alguém, querer sentir-se querido também. Todavia, há tanto amor e felicidade assim como aparentemente nos é dado pelas redes sociais? 

Penso com meus botões que tudo isso que testemunhamos pode ser parte das atrocidades do mundo sofrido que temos vivido. Porém, pelas redes sociais, hoje temos mais voz que há tempos atrás e, com isso, estamos mais disponíveis (e vulneráveis) aos olhos alheios. Atrocidades da carência bruta no mundo. Espero que eu esteja errado. Pensando assim, sorrio para a foto e me deito sozinho.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Imagine se... Imagine-se...


Imagine se hoje fosse um dia diferente dos outros. Imagine se, por exemplo, todos no mundo estivessem felizes; ou ainda que todos os lares estivessem completos, todos os hospitais vazios, todos os asilos falidos, sem ninguém... Imagine se todos os estômagos ainda estivesse cheios da janta de ontem, do café da manhã de hoje e mesmo assim estivessem roncando de fome para o almoço na certeza do prato que virá cheio... Imagine se hoje fosse um dia assim. Imagine.

Imagine ainda que hoje fosse o dia em que todas as pessoas aprendessem (e o aprendizado durasse para sempre) que devemos ser gentis, tolerantes, amáveis, independente de qualquer coisa, cor, nacionalidade, ''tribo'' ou credo, uns com os outros, com todos. Imagine ainda que todos no dia de hoje estivessem aptos a abraçar abraços de carinho em real fraternidade, independente de quem estivesse ali para ser abraçado - sem preconceitos, sem rancores, sem mágoas... Imagine.

Imagine se hoje soubéssemos o que fazer de nossas vidas ou, caso não soubéssemos, que não ficássemos ansiosos pelo amanhã, nunca mais. Imagine que não houvesse mais de hoje em diante pessoas doentes do corpo, tendo-se cura para câncer, por exemplo, e as tantas doenças que nos afligem ainda; imagine ainda se houvesse solução para as dores da alma baseada em amor, não em remédios, a curar os tantos depressivos do mundo... Ah, imagine.

Imagine ainda que fôssemos cidadãos melhores, seres mais evoluídos, menos mesquinhos, mais caridosos, menos egoístas, menos preocupados com nossos bens e contas no banco; assim, que estivéssemos mais atentos à fome e tristezas pelo mundo que com o quanto temos a gastar e quanto temos em poder. Imagine se soubéssemos ser aquilo que Jesus trouxe à Terra através de tantos ensinamentos, independente da procedência de tudo aquilo ser divina ou humana, todos tão puros, bons... Imagine se eles fossem seguidos e, enfim, fossem parte de nós e norte aos nossos atos. Imagine.

Imagine que para cada criança que chorava até ontem, hoje houvesse um sorriso, uma esperança, um calor humano na forma de mãe, pai, irmão, amigo... Imagine. Imagine ainda que as pessoas pudessem amar uns aos outros sem expectativas e sem segundas intenções, ou interesses camuflados; imagine se houvesse amor puro e verdadeiro. Imagine.

Imagine que a virada do ano fosse meramente uma data qualquer, ou seja: que não nos fixássemos tanto nela com tamanha esperança pontual... Imagine se nossas promessas de sermos melhores e bons fossem realizadas a cada novo dia e, diariamente, vencendo medos e superando expectativas frustradas até ontem, conseguíssemos construir um ''eu'' melhor e, disso, um novo e melhor mundo a cada novo ''hoje''. Imagine se esperássemos cada dia novo com tamanho depósito de esperanças e tal enormidade de fé conforme esperamos cada ano novo. Imagine.

Imagine se tudo quanto há fosse de fato eterno, que nos encontrássemos do outro lado da vida, em outras vidas, em outros braços e abraços para toda a eternidade. Consegue imaginar? Imagine! Se pudéssemos fazer isso, talvez faríamos um bom ano novo com 365 dias melhores além dos demais que hão de vir.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier