quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O que aprendi no ano de 2014?


Atualizando meus blogs, revendo textos, reencontrei esse que houvera sido publicado por mim há 1 ano. Achei interessante recolocá-lo hoje, dia 31/12/2015.


Aprendi que pessoas podem ter tudo (casa, comida, esposa, filhos etc) numa vida aparentemente feliz aos olhos desatentos (como nos é habitual nessa sociedade egoísta), porém podem essas mesmas pessoas abrigarem um espírito doente, uma mente doente, uma patologia chamada depressão, doença essa extremamente incapacitante (talvez a mais incapacitante de todas!). Concluí de fato que não estamos atentos ao sofrimento alheio, apenas queremos atenção ao nosso quando precisamos. Além de tudo, concluí que essas pessoas tristes serão julgadas como fracas, como "doentes" no sentido pejorativo e nada construtivo. Afinal: quem quer ajudar alguém? Quem quer tirar um sorriso de um rosto habitualmente choroso? Isso é coisa de palhaço? Para mim, palhaços são sim mais importantes que médicos, que juízes, que políticos, afinal, onde há um sorriso espontâneo, há esperança, há luz interior, há saúde que transpassa os lábios abertos em gargalhadas. Que sejamos mais palhaços então - e mais atentos às pessoas ao nosso redor...

Aprendi que pessoas aparentemente felizes podem também sonhar com a própria morte, mesmo que isso contrarie as expectativas das pessoas ou uma aparente lógica que trazemos do viver. Podem de fato se matar até! Vimos isso com Robin Willians... Saudades eternas daquele grande ator. Aprendi mais ainda que o ser humano pode ser infinitamente cruel, afinal, após a morte desse grande ator, vi tantos comentários desdenhosos quanto à sua ''fraqueza'', sua ''doença'' etc - até pude adquirir mais substrato para descrer no homem após isso.

Vi que mestres também morrem, mas seus ensinamentos nunca. Despedi-me de Rubem Alves. Despedi-me de Suassuna. Foram extirpados do mundo ou levados até perto de Deus, melhor seria pensar assim. Acho que Deus está carente de pessoas boas no céu, afinal, ele têm levado tantas para junto dEle...

Aprendi que gera mais comoção social uma seleção perder de 7 a 1 que saber que, em nosso mundo atual, 1 em cada 8 pessoas passa fome. Um placar muito mais nefasto, mas estamos desdenhosos quanto a isso desde sempre... Afinal, o capitalismo nos educa a apenas querer ter poder, conquistar poder e posse. Os pobres? Eles que se virem, pois, para muitos, ser pobre é sinal de fraqueza, algo assim. Somos adeptos da meritocracia. Isso me faz rir, ou chorar, não sei... Mas, é uma triste realidade saber que somos regidos pela égide do egoísmo acima de tudo. Ainda sobre o assunto anterior, vi inúmeros comentários, debates etc com pessoas digladiando entre si sobre o tal 7 a 1, mas não vi nada sobre esse mapa grotesco da miséria humana. Estamos mal, muito mal.

Revi que ainda morrem pessoas de Ebola e conclui que ainda continuarão a morrer como há dezenas de anos já ocorria, mas ninguém nada fez, nem fará. Aprendi que bastou morrer alguém que não fosse africano para um pandemônio ser criado. Porém, a pandemia foi controlada, seguindo ''apenas'' africanos a morrer. Claro, ninguém mais preocupou-se, aparentemente. Entendi de fato que a indústria de medicamentos, de vacinas etc, não preocupa-se com a saúde das pessoas, ou do mundo, preocupa-se com o dinheiro que a doença pode dar. É mais um ponto falho do capitalismo e do ser humano quando juntam-se: a dor não "dói" se não repercutir em lucros.

Confirmei que o ser humano é a espécie que mais traz risco à própria humanidade. Espécie que mata seus iguais, que deixa-os passar fome e não se comove. Deixa-os morrer de doenças e não se comove. Deixa-os fadados à pobreza eterna que é trazida desde seus ancestrais que nossos antepassados torturaram e exploraram, mas não se comove... Ainda, revivi conclusões simples como: o homem não sabe jogar lixo no lixo; não sabe reciclar; não sabe economizar e proteger os mananciais de água pura; não sabe controlar seu consumismo. Acha que dinheiro pode comprar tudo e resolve tudo, porém, chegará o dia, dia esse profetizado numa frase tão bela, em que o homem entenderá que: ''dinheiro não se come''.

Descobri que heróis da infância morrem. Descobri que mesmo nunca tendo encontrado Roberto Bolaños, ele era para mim (e para tantos outros) como um ente querido. Causou sofrimento sua morte, confesso! Mas, ficou um legado: a arte pura não morre. Ficou também a mensagem: aquilo que é produzido com amor, tamanha pureza e boa vontade torna-se eterno, amado e nunca sai de moda. Valendo-me da frase célebre da obra dele, é fato: quem poderá nos defender? Não sei! Mas espero que em 2015 aprendamos a nos proteger uns dos outros, a amar uns aos outros, a tolerar uns e outros, bem como seus argumentos, respeitando sempre - vi muita atrocidade na nossa democracia nesse malfadado ano. Espero que aprendamos mais sobre aquilo que nos disse aquele que é homenageado em seu nascimento no Natal: Jesus. Porém, de Natal, preocupamo-nos apenas com os presentes. Será? Que em 2015 não seja assim.

Nasce Jesus todo ano e morre Jesus todo ano... Até hoje, entretanto, não entendemos nem um nem outro acontecimento e sua lição. Simbólico? Mitológico? Não interessa. Religião é uma espécie de filosofia que pretende nos tornar melhores, muito embora não a tenhamos usado para isso. Não temos sido melhores! A mesma sociedade que condenou e matou Jesus ainda existe, ainda é a nossa. Matamos heróis ou os deixamos morrer, sem nada fazermos quanto a isso. Cultuamos dinheiro, prazeres, nosso ego. No mais, resta esperar que o ano novo seja bom, desde que assim sejamos também. Afinal, o ano é apenas um emaranhado de dias. O real problema é o amontoado de pessoas que convivem travestidas em seu egoísmo como vestimenta nesse tempo que passa através dos calendários e relógios. Esse ainda será um problema? Talvez... Mas eu sou apenas pessimista.

Aprendi que não adianta criar expectativas. As coisas correm de acordo com uma lógica que não entendemos nem depende de nós planejar. Porém, mesmo assim, tenhamos mais amor, mais paciência, mais sapiência e boas intenções, claro. Sejamos melhores! Fique o desafio! Desconfio que não mudará muito, mas é pessimismo meu. Mas, confesso: nunca é ruim surpreender-se - por outro lado, é sempre péssimo criar expectativas...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de dezembro de 2014; texto inicialmente disponibilizado em outro blog

Desdita

''Cumprida a comprida vida'' - esse foi o lema da morte daquele homem! Transeunte qualquer que, dele, mal sabiam os rastros - ou seja: de onde veio, para onde iria. Era ele um homem só e, por esse disparate, era tido como excêntrico. O caminho mais fácil para definir algo que não entendemos é culpar ou então definir como excentricidade do ser e da coisa em si. Que mal havia naquele que não conseguia na socialmente aceita ânsia pelo par encontrar o todo, não tendo encontrado na mulher que sonhou a metade que lhe faltava? Faltou sempre a metade de si mesmo, aquela que lhe pertencia para ser completo - ele viu um tanto quanto desditoso tal fato, já tão em atraso.

Completou seus muitos anos de vida. Para ele mal importavam se eram vinte, ou trinta, ou oitenta anos. Sem sentido, qualquer par de anos torna-se eternidade, torna-se uma vida comprida de se viver. Sim! Assim era pra ele. Viveu dia após dia na procura daquilo que sentia falta. Tentou em meio à multidão palpar no chão de estrelas caídas ver saltar aos olhos o bem que lhe pertencia, lhe faltava. Não encontrou! A falta que havia era de dentro para fora, não de algo de fora para dentro. Explico logo, amigo, relembrando Fernando Pessoa: ''para viver a dois, antes é necessário ser um''. Entende? Faltou-lhe a metade de si a completar-se com a mulher que amou, amaria, sabe-se lá! Sabe? Digo: é difícil sabê-lo, entendê-lo. Até mesmo vê-lo era difícil, tanto que, isso era sabido, pouco ele frequentava de regiões em frente a espelhos. Mal sabia ele sobre sua face já algo consumida pelos anos, independente de quantos. Muito se envelhece, mesmo que em poucos anos, quando o tempo mede-se em desgosto que, gota a gota, seca o passar dos dias da vida que há de se viver. Sabe? Espero que sim.

Tinham dó dele, claro. É notório nosso saber sobre o amor que há nas calçadas, nas ruas, nas noites e dias afora da realidade -  a bem dizer, a felicidade que literalmente salta aos olhos. Os olhos alheios olham-nos mais, e bem mais nos incomodam, que nosso próprio olhar. Obscurecendo a realidade de dentro das paredes dos lares, a cada dia mais consumidas em caos velado por falta de amor, esfacelados, vê-se que há sorrisos demais nas fotos, nas praças públicas, no convívio social. Mas o que pensamos ou sabemos disso? Desconsideramos sim as lágrimas que adentram as casas, e poucos sabem, ninguém além da própria pessoa solitária que chora, quem as seca. Muitos casais solitários, isso é bem verdade, há por aí em clamores de amor eterno! Para tantos, decerto, falta a metade pessoal que junta-se à outra pessoa esperada. Mais esperamos encontrar em alguém a completude do ser que completar em nós mesmos as sequelas de ausências que carregamos. A saber, há tantos casais de amor eterno que não duram semanas, meses, par de anos... Amores eternos duram até as primeiras tempestades, entendo. Há entretanto os que entendem essa verdade e consomem-se desde já ou os que enganam-se apesar disso. Pessimismo meu? Sim! Há os tantos casais felizes e seus dias de injúrias, claro - mas estão a cada vez mais escassos, raros, desconhecidos, quiçá.

Em meio ao mundo atual, das redes sociais e dos infindos belos sorrisos despretensiosos quanto a expor a realidade da(s) alma(s) fotografada(as), há uma cruel realidade que consome tal qual uma atrocidade humana qualquer as esperanças de tantos: se há mesmo esse excesso de sucesso na arte do amor pelo mundo, qual o motivo de tudo quanto vemos em uma crua realidade em tantos exemplos da falta de amor? E essa carência afetiva exposta nas manias infindas de postar fotos infinitas dizendo: ''vejam, eu existo e estou feliz!''? Tantas pessoas solitárias que, mesmo casadas, noivas, em relacionamentos quaisquer, transfiguram-se em "felicidades" direcionadas aos olhos alheios, mas não conseguem, de cabeça no travesseiro, agradecer a deus ou a quem queiram pelo par encontrado que dorme logo ao lado. Querem apenas dividir com todos nas redes sociais que não estão sozinhos(as). Vejo isso. Devo estar errado. Mas, sim, há muito amor aos olhos alheios, mais até que amor ao próximo, ao par, à pessoa do lado. Será isso? Estou errado! Deus, não me ouça. Ouça os que dizem sobre otimismo e crenças de amor eterno. Acredite nas redes sociais, Senhor, caso tenha criado Seu perfil. Desconsidere o mundo real... É mais fácil agir assim. A solidão para dentro dos lares e círculos sociais verdadeiros já basta.

Enquanto vivermos, cumpramos também as nossas compridas vidas, cumpridas a sós ou acompanhados, mas felizes - quer seja felicidade real ou aparente apenas aos olhos alheios, atentos! Solidão não gera ''likes'' nem compartilhamentos nas redes sociais. Melhor mesmo é sorrir apesar de tudo! Tenho, a pensar nisso, pena daquele homem que morreu sem encontrar nem em si mesmo a parte que faltava. Teria talvez, com sorte, caso atentasse para tamanhas as frivolidades do mundo em tempo, achado a mulher sonhada, sua metade que faltava - durasse ou não aquele amor! Não a encontrando de fato, poderia pelo menos encontrar nas redes sociais seu oásis de felicidade e expôr uma imagem sua diferente da que habitualmente expunha sem pensar nas consequências aos olhos dos demais- olhos esses que o tingiam com tons desdenhosos de solidão perceptível. Talvez ele nem se importasse, é fato... Pobre homem, deve estar agora a arrepender-se deveras! Tomara que não, pobre coitado... Mas, paro e penso: ah, Deus, cá estou eu como ele, enfarado e solitário, já velho e desditoso...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de janeiro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog

Lápide

Quando eu morrer, quero que eu vá rememorando Suassuna, deixando em minha lápide a seguinte frase: "Encontrou-se com o mal irremediável (...) porque tudo que é vivo, morre". Quem sou eu para pensar-me distinto de outrem e decidir por não aceitar morrer?

Todos nós, assim que nascemos, criamos uma dívida com a existência. Tal dívida, pagamos com a morte. Ambos, nascer e morrer, nos são dados gratuitamente. Do primeiro, nunca teremos oportunidade de pretender e nem mesmo nos perguntam nada sobre. Do segundo, entretanto, podemos criar aspectos pessoais nele, trazendo tal pagamento para antes da devida hora determinada... Sabe-se lá. 

Cada um paga sua dívida conforme acredite ser correto, ou aceite ser dentro de suas possibilidades, não? Entendo então quem queira pagar sua dívida antes e também quem nunca queira pagar, esperando permanecer vivo eternamente. Eu, de minha parte, quero morrer ao devido tempo da estipulada dívida, tempo esse que me foi confiado por minha existência desde o nascer. 

Vivo, aguardarei minha sentença, mas nada de trazê-la para antes de seu devido tempo. Não sou de antecipar pagamentos. Sabe-se lá qual dívida nova estaria eu criando...? Eis então que serei apenas testemunha do dia do pagamento, não, entretanto, farei de mim criador de nova dívida. Sabe-se lá como ela seria cobrada...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de maio de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog

Pedido a Deus


Não quero apenas a sorte, quero, junto ao destino, um norte. Nem tampouco, meramente, quero esperar a morte. Quero viver a vida com o espírito de um forte.

Quem dera fosse fácil a existência. Superar as expectativas alcançando a independência. Quem dera eu fosse um hábil humano e, com decência, atingisse meu máximo com incomparável competência.

Queria poder ser mais que sou, desde a partida - afinal, a gente se camufla desde o começo da vida. Ora somos o melhor filho, ora o melhor amante da amada querida... Quando sobra tempo ao que sonhamos na infância perdida?

Quem dera viver fosse fácil ou fosse doce... Na vida, nada se pega (e nem se prega) sem martírio que fosse trazer a redenção (ou não) ao fiel e ao pagão. O que Deus quer de todos nós? Mesmo que a sós, um exemplo de amor - ou não?

O amor Deus pretendia quando escreveram seus livros! São tantas as religiões, mas a qual delas eu sirvo? Eu mesmo não sei, quem dera soubesse... Nem Jesus pediu que seguissem somente o que ele dissesse.

Por ora vejo que há tantos pregadores da fé. É pastor de carro importado e o fiel a pé? Que fé é essa que enriquece o dominante com a palavra? O fiel pra pagar dízimo acorda cedo e até tarde se acaba.

Que Deus é esse que quer construir na sua sacada um cinema intocável que passa história marcada pra terminar quando Ele quer, afinal Ele manda? Quem disse que seria assim? Nem cheguei ao mundo e já querem que eu pague a "comanda"?

Que pecado eu fiz então quando Adão sucumbiu? Que cobra era aquela que ele escolheu e seguiu? Quem era eu que nem mesmo havia nascido, mas Deus, desde então, aplicou em mim um castigo?

E a Eva, eu pergunto: que moça era aquela? É verdade que Deus me castiga pela maça que foi dela? Que mal eu fiz a Deus pra já nascer castigado? Adão, Eva e cobra, em conluio, me fizeram condenado?

Deus espera muito de nós, é fato. Quem dera fosse fácil aceitar "pagar o pato". Mas nem mesmo há consenso quanto à Sua palavra, Deus. Quem dera houvesse trégua para nós, filhos Seus.

Cansado, então, sigo de cá esperando... Que venha a solução para nós. Estamos aqui caminhando? Chegado o dia em que Deus enfim nos perdoe: teremos pagado a conta - mesmo que doe?

Faz tempo que sonho com um mundo de esperança. Sonho hoje, adulto, e sonhei quando criança. Peço ainda a Deus que nos retire o luto pela morte do Éden. Desde o início eu luto, mas quantos de nós cedem?

De fato é difícil aceitar tudo calado. Ajude meu Deus, estou aqui - obrigado! Também é filho Teu o pobre na esquina que pede um trocado. Tão filho quanto Adão, mas o que ele fez pra ser culpado, coitado?

Deus, Jeová, Alá, quem quer que seja: ouçam o pedido que faço, a humanidade almeja. Deixem o povo seguir, conforme queira, no bem. Claro, com amor, fraternidade, educação.. Enfim, amém!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


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de julho de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog

Lá se foi...

Lá se vai... Lá...! Esteve mal por longo tempo. Aguardou a chegada da esperança, mas ela surpreendeu negativamente, não mostrou-se presente. A fé não chegou a faltar, entretanto. Pensando bem, não que a fé não seja, em si, algo de esperança, sei lá, mas isso é uma abordagem ampla para essas palavras e não quero refletir nelas nesse momento... 

Enquanto os dias passavam, a vida ia passando junto das horas que iam também, uma a uma, somando-se para ela, na curta vida dela. Batida a batida do coração, respiração a respiração, até que, chegou o dia dia derradeiro em que não respirou mais e o coração cansou de bater sozinho. Ele já estava cansado... 

A vontade de existir, uma hora, cessa. Não sei bem se é do corpo ou da alma que parte a vontade de desistir e buscar aquilo que venha após a morte, o fim inevitável que aparentemente somos fadados a desconsiderar na vida comum para aceitarmos a condição de existir. Mas essa vontade de abandonar tudo e se entregar ao que há além existe dentro de nós, obscura. Eis que então um dia ela manifesta-se e toma conta de tudo para certas pessoas. 

A morte é o que há além do último suspiro. O último suspiro pode ser nossa última lembrança, decerto... É ele o rompimento das amarras que nos prendem à vida humana, tão curta, passageira - para uns, mais que para outros, infelizmente.

Alguns são escolhidos para o sofrimento, penso. Não sei se Deus tinha em mente isso quando criou o mundo. Será que Ele pensou bem quando criou o sofrimento? O fato de ser alegre ou de sofrer não é democrático. Alegria e sofrimento escolhem quem querem seguir e não largam, por vezes. São realidades teimosas em muitas situações. Se alegres, ótimo, mas e quando sofrendo? Sofrer é um processo de morte lenta, não apenas a morte lenta é um processo de sofrer.

Vez ou outra, surgem aqueles que têm a sorte de romper momentos de sofrimento e manter momentos de alegria por longos períodos. Algo como se algumas pessoas tivessem a sorte de, sendo escolhidas, poderem ter uma vida com mais alegrias que sofrimento. Esses são os verdadeiros esperançosos! Conseguiram ser brindados pela benção do olhar de Deus e têm esperanças nEle. Deus enxerga todos, mas não estende as mãos a todos - será? Não sei, mas há mesmo aqueles que sofrem mais que outros e isso me dói, me revolta, me inquieta. Que Deus me perdoe.

No mais, sei apenas que lá se vai... Lá... Outra alma que foi-se. Foi-se embora mais uma criança do mundo aguardando a benção da alegria, da esperança de alcançar os sonhos que tinha, mas morreu sem brindar testemunhando esse dia.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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de julho de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog

Na terra dos sonhos

Hoje, decidi comprar um pedaço de terra nas terras dos meus sonhos. Garantir um espaço, mesmo que pequeno, por lá. Não tenho sido muito desses que costumam sonhar. Tenho abandonado em muito meus sonhos, os deixando de lado como pedaços de mim que deixo cair no chão e tenho esquecido de pegar. Mas são parte de mim. Sonhos são nossos. Sonhos somos nós, talvez. Por isso, decidi marcar território na terra dos meus sonhos.

Pretendo cultivar lindos jardins, plantações que se percam de vista... Ah, seria ótimo poder desfrutar da presença de muitos outros por lá. Quem sabe todos os sonhos se somem num imenso território sem muros, sem grades, sem cercas? Como se fôssemos todos um sonho só, entende? Seria lindo. Seria ótimo... Quisera eu que fosse verdade, mas, por ora, apenas decidi adquirir em definitivo um pedaço de terra nas terras de meus sonhos. Já é um começo. 

Estive perdendo tempo demais achando que sonhos são terras que nos dão. Não! Assim como todos têm o sonho da casa própria, não podemos esquecer do sonho do sonho próprio. Sim! Cada um tem o seu, ou os seus... Tendo sonhado no singular ou plural, todos devemos sonhar. Sonhos distintos, peculiares, que se identifiquem conosco e com o mundo que esperamos, sempre. Por vezes, nosso sonho é simplesmente poder sonhar. Que assim seja. Vivemos dias de medos, desesperos consonantes com o terror que tem sido nosso mundo, mas há espaço para todos nas terras dos sonhos. 

Sonhem. Adquiram seu pedaço de terra nas terras dos sonhos. Quem sabe nos encontremos por lá e façamos livres, sem cercas ou muros, as divisas de nossas terras?
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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de julho de 2015; texto disponibilizado inicialmente em outro blog

Ainda escravos

O povo brasileiro, sonhando com a redenção, 
Sonha trazer para si um futuro nas mãos...
Chegou a pensar ter superado os tempos de tensão,
Mas refrescou sua alma em açudes vãos.

Ainda preso no tronco, vê o senhor extrair seu pranto.
Nas chibatadas do tempo, perdeu o couro no chicote.
Antes já chorou mais; hoje cai apenas pelo canto
Uma última lágrima que chegará ao chão, com sorte.

Cansado como o preto velho sábio, de bengala,
Fumando cachimbo e aproveitando seus dias, liberto,
Vê dentro de si a esperança, morrendo, que cala,
Olha o futuro sem ver seus rebentos livres, incerto.

A luz do amanhã que acreditou, por ora lhe cega.
Deixaram a névoa do engano ressurgir, sorrateira.
Ao netinho, apavorado, ainda escravo, ele nega
Que segue de novo o povo sem eira nem beira.

O caboclo, matuto cansado, vê seu senhor passar,
Ileso, com chicote nas mãos, babando de alegria.
Entendeu agora ter optado cedo demais por se calar
E que ficará aos seus rebentos sonhar à luz do dia.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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de setembro de 2015; texto disponibilizado inicialmente em outro blog

Adendo: o povo é retratado a partir de suas origens negras, povo que tanto sofreu, sonhando coma liberdade, a luz de um novo amanhã. A sensação de esperança de um dia ver as desigualdades seculares no país são novamente escassas no tempo atual. Pensou-se por um momento que poderíamos estar ficando livre dos "senhores", mas não. Eles ressurgem sempre enquanto nós, seguimos escravos com outrora éramos - ou nunca de fato deixamos de ser.

Expiração final

Nascemos! Logo que nos damos conta do mundo, surge uma inspiração profunda. É o ato de respirar! Em seguida, nos vem o choro. Aprendemos desde cedo, desde o ápice do instante derradeiro do momento mais relevante da vida que é o parto, que há o pranto! Respirar toma formas de um impulso ao choro, um fôlego tomado para chorar. Nascemos agindo assim. 

Parto... Partir... Sim! Ser extraído de dentro do corpo quente e amoroso da mãe. Ser trazido ao mundo sem qualquer direito de opinião! Sim, há mães que nada têm de amorosas, mas aberrações há em todas as espécies de seres, não? O conforto da vida intra-uterina nos é retirado. O útero materno cansa-se de nós? Julga ele que estamos aptos ao mundo? Aparentemente sim, afinal irrita-se e contrai todas as suas fibras para, então: nos expulsar. Isso é nascer!

Nascidos, choramos após termos aprendido a inspirar. Expirar é fácil. Chorar também logo que aprendemos a acumular o fôlego necessário! Desgostosos, precisamos de algo quente que tente reproduzir o calor humano materno. Os gritos de dor da mãe nos comovem, acredito. Talvez seja nosso choro inicial uma forma de gritar, pedindo: "Pare! Larguem minha mãe!". Sabe-se lá o que pensamos enquanto recém nascidos que fomos...

Eis então que vamos crescendo. Desde cedo aprendemos as dores da vida. À fome? Choramos! Às dores? Choramos! Adoecidos? Choramos! É um reflexo humano chorar, quiçá... Porém, vamos aos poucos sendo traídos. As pessoas que amamos passam a nos reprimir o choro. "Choram demais os bebês", dizem alguns... E os pais, cansados, querendo dormir, calam a boca do diminuto humano no berço com um bico. Nesse momento, aprendemos que somos enganados até pelas pessoas que mais amamos! Daquele bico insosso, apenas servem-se para nos calar. Sim, nos calamos! 

Aprendemos então, desde tenra idade, que chorar é errado e incomoda os demais! Aprendemos que os fortes não choram! Ótima estratégia de convencer as pessoas ao redor de que não chorem nunca, não? Criamos no imaginário delas que: quando não se chora, se é um forte. Decerto, quem quer ser tido por fraco? Não é mesmo? Então: paramos de chorar! Calamos o pranto.

A vida vai passando. As decepções se acumulam. As dúvidas e medos agigantam-se e todos nós nos deparamos com uma vontade de chorar enorme um dia. Surge o dilema: chorar? Quem serei eu após permitir o pranto? Alguém estará vendo? O que pensarão de mim... Muitos tentam, mas alguns não conseguem conter as lágrimas e calar o pranto nessa hora. Corremos para o quarto escuro. Lá estaremos livres...

Deitados, buscamos o travesseiro. Viramo-nos de lado e fletimos ao máximo nosso corpo - quase a ponto de abraçar as próprias pernas. A escuridão, o corpo encolhido, o calor da cama, o silêncio... Já vivemos isso! Tentamos ali retratar o útero materno novamente. Por vezes, o relógio à cabeceira faz sons periódicos como que retratando as batidas do coração mãe. Eis o cenário perfeito sonhado desde a primeira inspiração no mundo! E tomamos a certeza então de que viver é sofrível. Porém, enfrentamos o dilema: chorar é proibido? Assim disseram e desde então nos percebemos perdidos. Fomos sempre obrigados a calar a nós mesmos diante de nossos sentimentos à frente desse mundo torpe... 

Assim, passando dia após dia calando pranto após pranto, vamos nos vendo mais e mais velhos. Os cabelos não mais se encontram na cabeça. Voltamos a ser frágeis. Mal sabemos andar... Temos de aprender tantas coisas - e reaprender outras. Precisamos da ajuda das pessoas! Não somos mais fortes - mesmo nunca tendo chorado! Entendemos que aquela história de chorar e ser fraco era mentira e calamos o choro em vão. 

E, numa sonata que vai acabando ao reduzir dos sons, a vida vai encerrando-se. Os dias vão passando um a um numa despedida insólita na qual, ao mesmo tempo, queremos que se nos chegue de pronto a morte, todavia ainda querendo viver mais... Somos indecisos! Quem dera fôssemos fortes de novo... Quem pediu que nos retirassem do útero materno? Nada disso teria iniciado. 

Então, no entardecer da vida, o sol se pondo para nós no horizonte enevoado da vida, deixa-nos a sós diante do momento derradeiro e obscuro da morte. Ao passo que, quando nos apresentaram a vida, demos uma inspiração profunda para então chorar, surge ao término da vida o desfalecimento das forças e, logo em seguida: damos nossa expiração final. Feito isso, encerra-se o ciclo do viver - contudo, não nos é dada a chance de chorar após expirar como nos foi dada quando inspiramos pela primeira vez...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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de setembro de 2015; texto disponibilizado inicialmente em outro blog

Carta à criança que ainda não nasceu

Criança querida, filho meu (ou filha minha?),

Sei que ainda nem nasceste, mas deve estar, como dizem, "por aí". Sinto que estou tentando ser melhor a cada dia! Tenho tentado plantar um mundo onde possas sentir-se melhor, mais segura, mais livre, juro! Quero dar a ti todo o mundo, entende? Mas, entendo eu que tal mundo é plantado a partir do somatório de cada pequena ação. Desde a menor das pessoas à maior delas, desde a pequena cidadela à maior das megalópoles: cada um planta o que pode e tem pra dar. Todos fazem sua parte - decerto: para o bem e/ou para o mal. Sei que entenderás nos seus dias isso! Independente de qualquer coisa, temos de seguir tentando fazer o que seja possível, não é? Tenho tentado. Juro! Sonho com o dia em que haveremos de mudar o mundo conforme diria Eduardo Galeano: a cada pequena coisa que fazemos.

Queria ter certeza, entretanto, de estar agindo de forma correta, mas perdão, criança, se quando nasceres o mundo ainda te seja cruel. Há um destempero sem tamanho, desmedido mesmo, nas atitudes e palavras de muita gente ainda na geração de teu pai. Eu mesmo erro tanto... Percebo de consolo que pelo menos tenho tentado enxergar melhor e proceder certo a partir do que consigo ver, sabe? Todos os dias dou minha dose de erro ao mundo, todavia. É uma pena... Mas juro, criança: tenho tentado melhorar e ajudar. Parto inicialmente tentando melhorar a mim mesmo. Muita gente de bem deixou essa dica de tempos em tempos pelo mundo. Na medida do possível: tento me esforçar por colaborar, dar minha ajuda no todo. Saberás no tempo que será teu agir da melhor forma, melhor que seu pai e os que vivem com ele - estou certo desde hoje quanto a isso. 

Querida criança, quando decidires vir até nós nesse planeta ainda tão violento, com tantas pessoas morrendo sob o silêncio dos que têm "voz", sob as punhaladas e tiros dos que têm poder: venha forte de espírito! Ninguém enfraquece um corpo e uma mente quando se carrega um espírito forte! Saiba disso e tenha por conselho mais importante de teu pai! Não espere, ademais, muito das pessoas, ou do mundo, ou dos representantes da fé e do poder! Venha sem muitas expectativas, pois pode ser que não te seja fácil teu tempo tal como ainda não é o de seu pai. Mas nunca, nunca deixe que te desanimem da força e honra de tentar!

Espero muito que em teus dias as pessoas se amem mais. Sim, independente da cor da pele, da riqueza adquirida em matéria, do gênero pelo qual se denominam e amam, da origem de onde vieram ou de onde nasceram seus ancestrais... Sim, criança: matam ainda hoje pessoas por questões étnicas, de dinheiro, de gênero e de opinião avessa, sabe...? Mais que isso: poucos ficam comovidos para além do que seletivamente colocam na televisão. Torço para que tua geração seja mais humana e muito mais esperta, criança.

Ademais, de fato: o mundo de teu pai é mesmo cruel e inabitável para você! Você não mereceria isso. Criança nenhuma merece o que temos hoje, mas algumas dão-se ao azar de nascer já hoje... Não sei se os tempos de teu pai são piores que antes, mas espero mesmo que teu momento, tua jornada, seja muito, muito melhor.

Caberá a mim e aos contemporâneos de teu pai fazer algo. Reze por mim, pois juro estar tentando! Precisamos todos nós aqui de muita ação e muito aprendizado, urgentemente. E, por favor: não chore, criança! Rezo para que o Deus que há faça mais por ti do que tem feito em nós (ou por nós)!

Abraços e beijos do teu futuro pai.

Que teu futuro seja imensamente lindo assim como, desde o hoje, é meu amor por ti!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Ao compadre amigo meu

Que tempos são esses em que as pessoas mais buscam conforto do que respostas? Paro. Indago outra vez! Que tempos são esses em que as pessoas buscam mais respostas confortáveis do que a verdade pura? Sim, confesso, tenho observado pasmo o tempo em que vivo. Todo vivente hoje sabe de si e do mundo um barranco alto de coisas empilhadas como verdades incontestáveis, sabe? Mas ninguém quer saber de subir em cima de si e de seu monte de tralhas para olhar as tais verdades, entende? Se sobe pra testar firmeza, cai de lá e machuca por inteiro. Vira farrapo no chão. Cai das verdades esfarrapadas que achou firmes, sólidas.... 

Verdade pura é caminho, é plana, vai indo pela terra; ou plana leve e livre se vai pelo ar. Não sobe. Não é de hierarquias de alturas. Sabe? Não há barranco ou monte que se faça de verdades. Há apenas um atoleiro de mentiras ou azedumes de barrancos dispersos em verdades compradas a preço barato ou dadas.

Sabe? Reforço: sei de mim quase que nada. Observo tudo quanto há e vejo que, naquilo tudo, transparece um tanto de mim que diverge do eu que me faço, fingindo ser pra todos (e pra eu mesmo, sabe?)... Entende? Digo bonito agora: sei que é mais fácil reforçar que o mundo é ruim, mas difícil mesmo, de dar dor nos calos dos pés e dos olhos: é ver que o mundo é todos nós! E isso agora? Ora, digo reforçando: nós estamos nele. Nós somos o mundo. Sabe?

Entendo que a vida vai sendo pontuada aos poucos por verdades. Verdades semeiam-se, sabe? Dadas aos poucos, de espaço em espaço... A terra, é certo, precisa estar fofa pra saber dar cabo de crescer a verdade. Quem as joga pelas terras? Não sei. Quem crê em Deus há de lhe dar medidas do cultivo, do plantio... Mas sei que as verdades vão se dando como pegadas na terra, pausadas, repetidas, aos poucos, uma a uma. Mostrando um caminho plano e amplo, sabe? Entende? Caminho que não cabe no horizonte. Desconfio que estou certo, mas não deixo pegada no chão quando digo algo... 

Das verdades da vida, há alguém que norteia, é certo. Sei lá que dá cabo disso no mundo, mas sei que: de tão ruim o homem é, tão dura é a vida, era pra nós, um a um, termos morrido já faz tempo, vê? Cá estamos todos vendo tudo. Mas ainda criando montes e barrancos de verdades que escondem o mundo vil e cão que somos, digo: que temos. 

De tempos em tempos, surge um ou outro que grita alto na rua e mostra a voz do sábio. Mas a gente desconfia, sabe? O povo carece de ter verdades confortáveis como pensar que não adianta tentar mudar as coisas, ou ainda dizer que o mundo é ruim assim desde sempre e nada há de fazer pra isso, sabe? Quem não é dos que ouve gente assim falar, falar e falar?

Quem nada tem a acrescentar é o que muito fala e toma poder nas palavras, sabe? Digo e repito: tem poder demais aquele que fala também demais e tenta acrescentar verdade demais ao mundo. Eita, quase que desfiz a frase de antes, mas o amigo entende, decerto. O amigo haverá de entender: o que tem poder e o que é podre andam, às tantas, de-lado-a-lado. Sabe? 

É verdade aquilo que disse o meu amigo tolo: "vi na televisão um bocado de verdades que nem sabia...". Mas, pobre coitado, nem sabe de televisão, nem sabe de verdade. Nem sabe, é verdade, de nada... Afinal, quem muito sabe de nós, pouco quer trazer de verdade pra nós, não cabe isso na tua cabeça? Se homem poderoso quisesse passar verdade pra nós que age de povo, nada de tantas desavença e disparate havia já hoje nos rincões desse mundo sem fim, tão sofrido. 

Ah, amigo meu, esperto seja, hoje e sempre, senão te tiram do ciso e vão você e sua história dormir no sereno, sabe? Digo mais: se acredita demais em quem te paga os contos de salário, há de chegar o dia em que nem salário e nem quem te paga você terá mais por perto. Viste? Veja.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Carta ao filho(a) que não tenho

Olá, criança amada. 

Estás bem por aí? Perdoe meu jeito de falar, mas teu pai não é dos mais sabidos. Tentei comunicar contigo por esses dias, mas não consigo ouvir sinais teus ainda. Queria alertá-lo sobre como estão as coisas por aqui, ir te atualizando, sabe? É bem verdade, e deves ter recebido informação de teus superiores, que ainda estão morrendo muitos de forma imensamente trágica aqui. Pois é! Nos últimos dias, muitas pessoas têm morrido sabe como? Atravessando mares e terras tentando fugir de guerras e alcançar um futuro digno de um filho de Deus. Sabia disso? Guerras criadas por gente que hoje diz querer a paz, sabe disso? Ironia, cinismo? Não sei bem. Acho que não sabes também, mas vais entender isso um dia. Daí onde se encontra, sei que não há espíritos ruins como os que temos aqui, mas não se assuste: papai está bem! Papai teve a sorte de nascer dentro do grupo de pessoas privilegiadas daqui. Deu sorte no nascer, saiba.

Criança amada, teu pai nunca passou fome, sabe? Nem frio. Nem sede. Isso é ótimo, não? Era para ser assim a todos, mas estamos longe disso. Deve ser horrenda a sensação de não ter um banho quente para tomar, ou um copo de água para saciar a vontade beber, ou um lanche para despistar a fome. Sede, fome, frio... São dores descabidas, sabe? Mas nem comovem tanto quanto deveriam - digo isso da maior parte, pois nem todos são tão cruéis nos tempos de teu pai. Não me entenda mal! 

Sonho e peço que nunca venhas a sofrer disso! Peço a Deus todos os dias para que teu tempo seja de dias melhores para todos: pobre, rico, negro, índio, branco! Tenho tentado fazer minha parte ajudando no que vejo-me capaz, afinal: eu tenho obrigação de tentar ajudar! Não pense que teu pai faz muito. Não, não faço. O que faço é obrigação, pois, como eu disse: tive sorte de nascer com privilégios que me amparam o caminhar. Entendes bem? Repito, criança: seu papai foi privilegiado em poder ter condições de existir nesse planeta com conforto no cotidiano. Preciso ser, então, o melhor que eu possa no todo que eu venha a me prestar a fazer. Tornar os meus privilégios uma força motriz que alavanque uma luta por melhorias para todos, sabe? Sei que me entende e saberá exercer um bom exemplo quando vieres ter comigo alguns anos em sua vida na matéria.

Criança amada, avise às demais crianças que se encontrem perto de nascer e que estejam aí, perto de ti: o mundo não está nada bom! Avise à todas elas aquilo que já reforcei contigo anteriormente: tenham espírito forte. Sim! É muito necessário tê-lo nesse mundo! A imensidão de informações que nos incentivam no erro são muito mais trabalhadas e divulgadas que aquelas que nos fomentam acertar e agir pelo bem, sabe? Essa realidade vem de todos os lados, de onde menos se espera... Sim, as tragédias e comoções seletivas geram alarde. Chamamos aqui de ibope. Conheces daí? Quando uma tragédia existe, não se preocupam em criar soluções, mas ampliá-la e levar todos à situação de medo sem medidas. Aviso logo: aterrorizado e sem esperança, o povo é igual gado diante do capataz de chicote em punho: vai para onde mandam; nem pensam; nem agem além do que se lhes é imposto! Entende? Nunca tema a ponto de parar de seguir no pensar e no agir, filho! 

Teu pai tem visto, criança, que têm todos os meios de comunicação atuais trabalhado (como sempre fizeram, é bem verdade) muito bem em nos retirar as esperanças, em nos incentivar a não querer fazer melhor as coisas, em não lutar pelos direitos dos desprivilegiados. Ou seja: nos mandam manter tudo como está, em resumo. Sabe? Ademais, embora finjam que não: as redes de mídia do tempo de teu pai até chegam a incentivar pessoas a ter raiva e intolerância à existência de outras gentes que pensem diferente, ou ajam diferente, ou sejam diferentes, simplesmente. Incentivam nisso um ódio às pessoas desprovidas de privilégios, ou melhor "privilégios" (entra aspas, pois saiba: na verdade isso era para ser direito de todos) como comer, trabalhar, ter direito de ir e vir sem serem olhados de soslaio e com desdém, ou de amar quem bem queiram sem sofrer qualquer discriminação. Sabe? Saiba! Não ter privilégios e querer ter é quase um ultraje para muitos, sabe? Há gente aqui que não é de "se misturar", perceberás desde daí de cima isso... Nem devem ser tantas as pessoas do tempo de teu pai que chegam aí, creio eu!

Enfim: tenho tentado falar com você, criança, mas acho que não sei rezar bem, atingindo os ouvidos de espíritos de luz como você ou os demais que se preparam para encarnar nesse planeta para nos salvar rumo à evolução esperada, sonhada... Mas, deixo aqui mais uma tentativa de contato.

No mais, reze pelo tempo de teu pai e te prepares para a luta: será árdua à sua geração de espíritos corrigir tantos erros que a geração de teu pai tem deixado. Perdão! Peço a ti e passe isso a todos os demais, por favor.

Abraços bem apertados daquele que te ama amor tão grande que é mais de mil vezes qualquer número ao tamanho que eu possa dar.


Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de setembro de 2015; texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

Voa! Planta! Colhe!

Vai a criança que morre a criança na comunidade, por ora: no Caju; 
Vão, e morrem, a adolescente e mais dezenas em chacinas (Osasco é só uma que ficou conhecida e ganhou destaque. Mas: e as outras?!); 
Vai o policial honesto trabalhar com medo e, quando prende algum infrator, depois de se expor tentando tirá-lo das ruas: vem advogado soltar o bandido, respondendo em liberdade, pois a lei permite (compra e cala!); 
Vai o playboy comprar droga no morro e financiar o tráfico e "pagar" nas mobilizações "pinta" de honesto e nacionalista; 
Vai o helicóptero com mais de 400 Kg de cocaína que voa sob desdém da mídia (e conivência do povo e políticos); 
Vai o "aviãozinho", morrer como bandido, correndo na rua, em meio ao tiroteio, pois não teve como enxergar alternativas educacionais para seu "vôo"...

Criam-se crimes para vender segurança. Vendem segurança a preço de convencimento do caos. Convencem do caos comprando espaço na mídia. Comprada a mídia, vende-se a alienação para o sensacionalismo tendencioso. Alienados: morremos (ou permitimos que morram!) cidadãos comuns, inocentes! Terra sem lei? Terreno farto em covas! 

Nesse processo: Plantam a semente do ódio... Plantam a semente da impunidade... Plantam a semente da alienação... Plantam a semente da condenação prévia daqueles que tem o azar de ter um vizinho bandido. É isso? Mas isso é só coisa de periferia? Será? Não são os fatos que comovem, mas o alvo do fato? Quem colherá os frutos? Quem (im)planta discursos à bala, cava a cova de gente inocente - mais que qualquer outra coisa.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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de setembro de 2015; texto disponibilizado inicialmente em outro blog

Foco, força e fé

O tempo surge estranho, ás vezes... Claro, por tempo, entendemos muitas coisas. Estações do ano, o clima do dia, as passadas do relógio, os dias do calendário, as fases da vida... Há tempos demais para discutirmos. Mas, aquele que traz mais identificação conosco em termos de nossas preocupações é o que diz respeito à passagem das fases da vida.

Hoje, menos jovens que ontem. Amanhã, idem. Não nos formamos para envelhecer.  A maior parte da vida trazemos dentro de nós a certeza de que somos fortes, fortes, jovens, quiçá... Por vezes, claro, é humano isso: nos enganamos. Mas é fato que boa parte da vida passamos fingindo que desconhecemos o fato do tempo nunca parar.

O relógio é um incansável. A velhice nos chama, sorrateira. O idade pesa, pouco a pouco, dia a dia... Eis que a imagem da força e personalidade decidida, auto-confiante vai sendo retirada de nós. Vamos sendo segundo plano de nós mesmos. Antes de tudo, dos sonhos que temos, das vontades que trazemos, chega o dia em que passamos a nos preocupar mais com a subsistência, a saúde para o dia de amanhã, pois já hoje está em falta... É, sinais de que o tempo nos laçou.

Mas, será mesmo que deveria ser diferente? Todos os elementos da natureza (exceto as pedras, talvez) mudam ao longo da vida, em sua essência, em sua imagem, em sua aparência e força. Não? Acho que sim. Até as rochas, a bem dizer, vão mudando, mas são mais teimosas. Mudam aos poucos, esfarelando de forma bem serena... Quem sabe elas estejam certas nisso?

Fato é que o tempo passa para todos - seres vivos e inominados. Somos parte de uma essência que desconhecemos a origem, desconhecemos a existência e, logo: não sabemos em que vai dar. Sabemos apenas que ontem as dores nas costas não existiam, ou as dos joelhos, ou as da memória... Ah, as dores da memória. Doem muito enquanto o processo de envelhecer nos acontece. 

Mantenhamos, entretanto, a mente livre, os sonhos sempre vigentes, as vontades da alma mais fortes que as dores do corpo, as tristezas da alma... Sejamos fortes, não necessariamente jovens. O tempo, afinal, não controlamos, mas podemos controlar a nós mesmos e os nossos passos diante das adversidades. Se o tempo é algoz, que saibamos vencê-lo. Basta foco, força, fé... 
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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de setembro de 2015; texto disponibilizado inicialmente em outro blog

Quem dera eu fosse daqueles que riem...

Queria ser daqueles de sorriso amplo, de assunto fácil... Queria não ser desses que se comprazem na solidão...
Queria mesmo poder dar gargalhadas fartas em diálogos infindáveis, mas sou calado, quieto! Ah, reflexiva sofreguidão..
Quem no mundo hoje consegue viver alheio aos paradigmas da felicidade aparente  - mas pouco comprovada!
Mais fácil seria ser daqueles que vivem compartilhando alegria falsa ou elevando ao título de "Felicidade" sorrisos esporádicos, ralos.
Não quero desmerecer a felicidade de ninguém. Óbvio que não! Apenas queria ver motivos para sorrir facilmente tal qual os outros.
E não sou nem de longe um abandonado no mundo... Sou em muito um privilegiado até! Mas mesmo assim não vejo mais que desilusão.
É razoável ser assim? É lícito a mim existir com tais pensamentos? Não sei... Não concordo comigo, mas me absolvo – diria Pessoa.
Quem sou eu para querer mudar o mundo! Queria apenas poder mudar minha visão, ser adepto do sorriso fácil...
Pena que não consegui ainda, vivo, chegar à paz de espírito que, ao meu ver, os demais desfrutam, mas foi-me retirada.
Quem sabe após a morte Deus haja e liberte meu corpo para gargalhar diante de uma nova realidade que me pacifique!
Ora, quem sou eu para exigir algo. Nada quero senão seguir adiante aguardando um dia, sorridente, ser acometido  pela invisibilidade.
Sim, invisível! Assim, poderia eu estar calado, quieto, sem sorrir, sem que isso causasse alarde ou incômodo a quem quer que seja.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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de outubro de 2015. Texto inicialmente disponibilizado em outro blog.

Sonhada sina


Não sou mais adepto de fazer poesia...
Quem consegue, hoje, assim, ser?
Antes, achando motivos: eu fazia!
Mas hoje confesso: porque fazer?

Poesia é coisa da alma, do coração...
Há sentimentos bons nesse mundo?
De tudo o que vejo, o que dizer então?
O desânimo torna-se, em mim, profundo.

Espero o dia em que os sorrisos sejam
Fartos e francos como não têm sido!
Espero, quiçá, que os pessimistas vejam:
Apesar de tudo, foi belo ter vivido!

Desespero e despreparo, nós, humanos,
Vemos exemplos em cada esquina!
Que consigamos superar tais enganos
E façamos do amor nossa sonhada sina.



Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Horas felizes


Ah, a quitanda de minha vida de onde eu havia comprado meus frutos de sonhos...
Como eram doces os tempos de colher e comprar sonhos, esperanças.
Hoje, tão cético: quanto de sonhar e de esperar posso ter?
Quem fui eu que de nada me sirvo?
Fechei as portas que havia e tranquei-me em meu pessimismo...
Ora, pois então que eu as abra de pronto, correto?
Diriam tantos sem saber das coisas da vida...
Sim, é duro adoecer da alma, do pensamento...
Quão doente posso estar que de mim mesmo não me curo?
Qual doença enfim jaz em mim a colocar fim ao eu que fui, esperançoso?
Ah, vida que há: traga para mim a sombra de um sonho 
E deixe-me, deitado na relva da esperança, passar horas felizes.
É o que peço - pelo menos por ora. 

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Reticências

imagem conseguida na internet
Quem sabe, de mim, eu sinta saudade, 
Como em qualquer despedida? 
Ah, partir da vida, escapar, debalde,
Daquilo que por ora abre a ferida...

Viver, dói. Mais até que morrer, quiçá...
Nunca morri. Mal sei eu como é...
Mas, na morte, guardo uma esperança já:
Poder deixar saudade. Pois é...

Se eu, partindo, saia da vida
Sem deixar nada em ninguém,
Talvez seja melhor assim a partida,
Pois dói deixar sofrendo alguém.

Mas, decerto, de minha parte,
Prefiro não viver essa vil realidade.
Deixo aqui minha despedida. Destarte,
Quem sabe haja trégua na tal eternidade?

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O velho



Vai na estrada o corpo que definha.
O corpo, não é meu, nem a estrada é minha.
Sou eu observador não percebido.
Da estrada, nada sei. Dele? Pouco me é sabido.
Porém, a imagem que vejo passando, me parece
Algo efêmero, pois é carne, e toda carne fenece.
Eu, de cá, em nada diferente sou.
Morrerei, mais dia, menos dia. Sei que vou!
Mas finjo não saber o destino cruel que me será dado.
A morte... A passagem... O fim da estrada. Coitado!
Morrerá o homem que logo adiante, de mim, passa.
E eu? Que farei então? Levantarei do banco da praça,
Retornarei ao meu lar poeirento, sozinho, ao relento...
Serei novamente eu e as paredes. Som? Apenas do vento.
Não há conversas, ou pés socando o chão.
Seremos, somente, minha casa e eu. Não?
Sim. Meus corpos de carne e de tijolos mais cimento.
Sem meus ossos, sem meu chão: qual seria o sustento?
Ah, dois trocados em notas, moedas... Dê-me, quiçá?
Dê-me tudo quanto tiveres, pois nada tenho de cá.
Vá, amigo. Passa! Leva consigo sua vida que é tão boa.
Deixe-me aqui morrer, sem sonhos, sozinho, à toa.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Sim! Mais um dia acaba... Mas outro começa!

''É de manhã. É de madrugada!''. Não é música de Caetano Veloso, mas sim uma realidade agora enquanto escrevo. É dia 24 de dezembro. É dezembro! É o ano de 2015 ainda. E 2016 quase que já nasce. É hoje, sim, mais um dia em que um ano está novamente quase acabando!

Outro ano de vida... Outro ano a menos da vida! Coisas de ''copo meio cheio ou meio vazio'', entende? Ano de aprendizados. Ano de derrotas. Ano de ganhos materiais e imateriais, etéreos. Ano de coisas que passaram e deixaram marcas. Ano de coisas que apenas passaram e nem lembradas mais são. Ano de coisas que passaram e são parte de nós hoje. 

Ano após ano, eis que o milagre de estar vivo vai se perpetuando; até quando? Resta a dúvida, sempre. Dúvida essa que, de alguma forma, Jesus, em sua passagem na Terra, quis deixar como motivação. Sim, motivação! Não saber se hoje é meu último dia deveria ser motivação suficiente para que eu vivesse esse meu dia como podendo ser o último. Ah, se fosse assim...

Se fosse assim, agindo no hoje como se me fosse a última chance, a última esperança: eu não deixaria para amanhã desavenças que tenho hoje. As resolveria de pronto! Eu não deixaria para depois os abraços que eu queria ter dado ontem e ainda não dei. Eu abraçaria hoje, sem medos ou pudores! Eu não deixaria para depois as ações de bem que sonhei fazer e não fiz ainda. Eu faria todo o bem que eu pudesse fazer já agora, sem pensar em medos ou consequências. Apenas faria o bem e pronto! 

Se fosse assim, agindo daquela maneira, eu não deixaria para depois sobre comunicar ao mundo que sou grato por tudo de bom e ruim que me deu. Eu acordaria e estaria grato, pronto! Dormiria agradecendo também. Afinal, quem sabe fosse meu último adormecer? 

Se fosse assim, agindo daquela maneira, eu não ficaria indo à missas, cultos, templos ou encontros religiosos quaisquer apenas para anotar presença enquanto práticas periódicas de fé socialmente aceita. Não! Eu iria somente exercer atividades assim caso achasse nisso algo de promissor, algo que estivesse a me tornar alguma pessoa e espírito melhores. Afinal, Deus existe para servir e estar presente na fé que é ação efetiva, não em fé que se dá aos broches que ostentamos no peito ou em fé que se exerce apenas nas presenças que marcamos como evento social que Deus tem se tornado no nosso mundo. Eu agiria diferente nisso também!

Se fosse assim, agindo daquele jeito, eu trabalharia com todo o amor que eu tivesse. Não aguardaria do outro as ações que eu mesmo posso realizar pelo bem comum! Faria muito mais o que é preciso fazer do que faço. Pararia de ficar fazendo só ''o que dá''. Agindo assim, eu estaria sendo um melhor profissional hoje. Afinal, amanhã minhas funções podem não mais estar sendo realizadas... Sabe-se lá se eu estarei vivo?

Agindo no hoje como se me fosse a última chance, eu não deixaria para amanhã olhar nos olhos de quem amo e dizer: ''eu te amo!''. Amor é coisa grande e rara. Poucos merecem receber o título de amor. Ah, sim, já houve muitos seres que amamos e hoje temos raiva de ter dado amor. Sim? Não! Ora, mil vezes não! Não se zangue! Amor é coisa que se dá e pronto. Não se espera o retorno! Se amamos e esperamos amor, isso não é amar. Amor é doado e pronto. Receber em troca fica a cargo do amor do outro e nada tem a ver com nossa capacidade de amar. Então, agindo assim, eu amaria mais e de forma mais clara, ampla, irrestrita. Afinal, talvez eu não mais tenha amanhã os amores que tenho hoje - pai, mãe, mulher amada, amigos e familiares queridos, animais amados de estimação, as flores do jardim... Eu os amaria a todos hoje!

Então, tentarei agir assim. Hoje será meu último dia? Esse será meu último ano? Não sei! Nem sei se essas podem ser minhas últimas palavras, mas, se forem, que elas tenham sido sinceras, dotadas do melhor que eu tenha a dar... De forma sincera, plena e pura, dar tudo quanto eu tenha para compartilhar. E que eu exija a cada dia mais coisas melhores de mim para serem doadas, compartilhadas. No mais, não tendo nada a compartilhar e nada de bom em mim ser doado: para que um ano novo, ou um dia novo, ou uma vida que siga adiante?

No mais, mesmo não sendo música de Caetano, usemos delas e das tantas outras coisas lindas que temos da nossa cultura nacional, por exemplo, para compartilhar coisas belas. Assim, estaremos ajudando mais (e de forma mais produtiva) nosso hoje e nosso amanhã - caso ele haja! Vou terminando de Caetano então! ''É de manhã (...) vou pela estrada, e cada estrela é uma flor. Mas a flor amada é mais que a madrugada... E foi por ela que o galo cocorocô!".

Resta então dar bom dia aos novos dias que nos nascem e bom dia ao novo ano que quase chega! Bom dia flor, amada, estrela madrugada... É de manhã! É de madrugada! Viva!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Quando formos curadores do hoje, seremos nossa cura para o amanhã!

Hoje é o dia em que o amanhã é um todo enorme, pois ele carrega consigo um ano inteiro, em resumo... A vaga impressão do que esperamos para o futuro confunde-se agora com as raízes deixadas pelos dias que passaram, das coisas que vivemos, dos fatos que ocorreram conosco, em nós e apesar de nós. Sim, aprendizados, tantos, foi o que nos trouxeram cada um dos dias deixados para trás! 

Passado tem um nome errado, afinal: não passa, decerto! O passado permanece em doses variadas no hoje, pois está em nós. Faz-se nós! De certas coisas vividas, deixam-se perpetuar em doses ''homeopáticas''. De outras, doses enormes ficam que se confundem com os sentimentos do dia atual, não raro. Lembranças, aprendizados, memórias de um tempo que foi e deixou conosco parte de si! É isso parte do real, parte do que é e há no dia de hoje! Todo o passado deixou parte de si em nós. E, nós, como rios que não se cansam de fluir, seguimos adiante carregando seus restos que tornaram-se fluido nosso de cada dia, tomando conteúdo em nossas águas.

Ah, poderíamos chamar aquilo que trazemos do passado de restos mortais dele... Mas seria fúnebre demais para o dia de hoje! Não cabem termos assim ao dia de hoje... Hoje é dia 31 de dezembro, véspera de mais novos 365 dias do nosso calendário cristão! Há outros amanhãs a partir de hoje? Sim - a depender do calendário! Mas, enfim: para mim será, amanhã, um novo ano e pronto! E o passado? Para mim, não morreu! Não trago suas passagens, nas minhas memórias e nos meus sentimentos, como meras pinceladas e nem, muito menos, em conceitos fúnebres. Não! Guardo com carinho e com alto valor sentimental atribuído. Pronto! E junto de uma boa dose de gratidão, acrescento!

O passado não morre, nem passa, reforço! O passado é estrutura do presente, alicerce para o hoje que é. Ademais, assim que o hoje vira passado com a chegada do futuro no amanhã, seguirá ele também sendo estrutura dos dias seguintes. Estrutura do futuro que vai chegando e tomando lugar de presente. Confuso? Sim! Mas ''viver é muito perigoso'', disseram, e muito confuso também! Apesar disso: amanhã será ano novo!

Será um feliz ano novo! E que isso não seja somente um desejo, mas um fato, uma realidade. De tal forma que, no último ''hoje'' do ano novo que se nos chega amanhã, tenhamos a certeza de que valeu a pena percorrer 365 dias de travessia. Que, chegado esse dia, nasça novamente em nós a esperança de que mais anos novos se juntem à nossa caminhada com mais pessoas, mais memórias, mais aprendizados... Mais ''passados'' e mais ''hojes''! 

Nesses dias novos, em seus momentos novos, com suas experiências novas: sejamos felizes, sejamos gentis, sejamos atenciosos para com o nosso entorno! Que possamos amar mais, sendo mais fraternos, e que nos tornemos mais ''curadores'' do nosso mundo. Sim, ''curadores'' (entre aspas) uma vez que trago aqui esse conceito rememorando aprendizado advindo do prof. Mario Sérgio Cortella. Vale a pena toda menção aos aprendizados dele e de tantas mentes boas que temos em nossos dias.

Aonde estivermos, cuidemos do hoje! Plantemos um novo e melhor amanhã. E que, dia após dia, utilizemos devidamente para nosso crescimento todos os alicerces e raízes deixadas pelo passado que, como sempre, a cada dia, segue a ficar mais distante de nosso hoje -  mas nem por isso longe de nós!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Epitáfio

Talvez, entendo hoje, eu tenha sido a pior coisa que me aconteceu!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Ausente


Quem dera eu pudesse me ausentar da vida, digo!
Estou certo que feliz, com isso, eu seria!
Sei, decerto: não carrego felicidade comigo,
Apenas essa necessidade de viver cada dia.

Isso é triste, beirando o monótono e a crueldade!
Se ausente eu pudesse estar, no alto de um monte, quicá,
Veria que o mundo segue apesar de mim, é verdade!
Mas, sozinho, de longe da vida, estaria eu feliz, de lá!

Do lado de mim, longe dos outros!
Ah, como seria bom não estar com ninguém...
O medo, o ódio, o remorso surgem aos poucos
Basta, para isso, ver-se no convívio com alguém!

Daí, o mundo corre, as rodas giram...
Eu, de cá, ainda no mundo, perco-me, decerto.
Não vejo soluções e crio mais dúvidas que me piram...
Alheio, longe de mim, mas vivo, no mundo, de perto.

Sem entender nada da vida, dos porquês que há,
Fico dia após dia em desagrado comigo mesmo!
Parto do princípio de que alguma conclusão haverá.
Nesse dia, deixarei de ver-me apequenado e à esmo.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier