domingo, 25 de outubro de 2020

Alguma coisa minha de algures

Perdi alguma coisa que não sei contar, em algum momento da vida que não sei dizer. E tudo dali em diante foi uma busca sem precisão por reconstruir ou reconstituir aquela alguma coisa que nunca houvera entendido, que nunca consegui tomar ciência do que de fato era.

Mas ainda sou isso aqui, hoje. Um desassossego meu diante dos comigos de mim que há tentando sobreviver entre si diante de mim em meio à solidão que o meu eu, o que se mostra visível a todos, perpetuou para todos nós, meus "eus" de algures...

Crianças, lembranças, esperanças...

FRAGMENTO

Se eu pudesse pegar os anos de vida ainda destinados a mim e dividir doando todos eles à todas as crianças que eu presenciei partindo, como parte do meu ofício, minha profissão, não haveria muito, no final da divisão, para ser dado a cada uma delas, mas com certeza cada segundo existente daquelas amadas vidas, em cada uma daquelas frações a mais de vida, possuiria em si bem como geraria muito mais felicidade (e para muitas pessoas a mais) do que esses anos todos existindo apenas para mim nessa minha vida...

Cada uma delas com quem estive ali, do lado, segurando as mãos na hora da dor e da despedida, levou consigo um pedaço de mim que não tenho mais. Morri um pouco com cada uma delas... Mas elas, para aumentar a dor que ficou em mim, nem com isso ganharam momentos a mais com cada pedaço que perdi em cada morte que houve em mim.

E eu pergunto: por quê? O que posso fazer das horas, meses, anos, décadas que me restam? Gostaria muito de dedicar esse tempo com todas as minhas forças para a construção de algo melhor para as crianças que ainda estão aqui. Ajudando na vitória do mundo ideal que sonhamos contra esse mundo pavoroso, escuro e repleto de indiferença e dor que nós, adultos, perpetuamos. Como proceder a isso? Como, se sou tremendamente incapaz?

Porém, de cada morte que retirou um tanto de mim, entendi por um filme: "nada está morto se você souber olhar direito". Talvez a memória de cada uma delas faça com que cada uma das pessoas que presenciou aqueles momentos derradeiros resolva agir, de fato, por um mundo repleto de pessoas melhores e histórias verdadeiramente felizes.

Crianças nos ensinam muito mais do que conseguimos aprender. Muito mais... E cada uma daquelas que tive a honra em conviver me ensina até hoje...

Do nada à terra

É por sabermos da inexistência de qualquer propósito que buscamos todos os meios, de todas as formas, para que sintamos alguma conexão com algo para que, com isso, acreditemos haver algum objetivo em tudo na vida.

Somos uma poeira cósmica que nasceu do nada e findará em lugar nenhum. Porém, somos providos de alguma capacidade imaginativa. Usando-nos dessa capacidade, construímos várias teorias que anulem a nossa insignificante presença nesse corpo celeste que vagueia numa galáxia dentro das bilhões de outras - ou mais ainda. Tentamos ser inigualáveis, apesar de que a nada e nem a ninguém isso minimamente importe. Podemos gritar até, mas, se alguém ouve, faz como se não ouvisse...

Enfim, precisamos de palavras belas. Precisamos estar convencidos de que há algum objetivo nas coisas, inclusive em escrever. Afinal, saber que da terra sobre a qual pisamos seremos parte, não é muito animador de se pensar e, menos ainda, de se escrever e dizer.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Te ignorarei de setembro a setembro...

Processos depressivos são problemáticos? Sim. Exigem resiliência de todos ao redor daquela doença? Sim. Nossa sociedade tem tamanha dificuldade de atrair para si uma responsabilidade (civil, inclusive!) de acolher os portadores de doenças assim, em seus amplos espectros? Sim. Tanto que, para depressão e ideação suicida, foi preciso criar um mês chamado "Setembro Amarelo" para despertar os afetos das pessoas para essa causa bem como elevar algum interesse...

Sim, não é novidade: pessoas de diversas partes do planeta, de diversas idades, em diversas condições sociais, têm sucumbido ao desespero das ideações de autoexterminio e, até mesmo, atingindo o fim pretendido que é a morte. Porém, fazemos algo diante disso?

Vejo que em setembro, pessoas que passam os demais onze meses do ano ironizando e chamando de "mimimi", "frescura", "falta de fé" e de "força de vontade" são dominadas por um espírito de lindos dizeres... Fazem textos lindos, oratória impecável, diante do flagelo da depressão e do autoexterminio alheios... E, tão de imediato ao fim de setembro, tudo volta ao que era antes... Desdém, ironia e apontar de dedos - e outras tantas atrocidades como piadas e sarcasmo.

Hoje sei, muito mais do que acho, pois tenho convicção: tantas pessoas cometem autoexterminio dentro da doença, por causa dos seus sintomas, fato... Mas boa parcela comete essa agressão derradeira diante de seu sofrimento por causa das pessoas. O desdém, os ataques, a indiferença - que é pior que tudo, levam o depressivo a um estado de isolamento que potencializa imensamente seu sofrimento... As pessoas não apenas condenam, mas se cansam e se afastam, desistem, indiferentes...

Mesmo que haja controle dos seus sintomas, o sentido da vida está completamente desfeito nessa hora. O depressivo vê que não há nada além de sofrer para adiante. "Continuar sendo esse estorvo?". "Continuar sendo humilhado?". "Aguentar mais a nítida percepção de que todos e todas não gostam da minha presença e, quiçá, da minha existência?"...

Sim, tantos e tantas cometem autoexterminio pela ação das pessoas e não pela ação das misturas de medicações diante das misturas de percepções em seus sintomas. Mas quem se importa com isso? Não é setembro...

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Tudo é consciência. Entendi bem isso. Já disseram e estavam cobertos de razão. Sobre ter consciência, creio que podemos entender e aprender várias coisas...

Tomar consciência, por exemplo, de um lugar pode ter relação com saber do espaço físico, saber dos móveis e obstáculos ali presentes, saber da altura do teto e das coisas ali dispostas. Uma questão para o tato, a visão, a audição e até outros sentidos, todos. Importar sentidos a partir da experiência presente que há.

Tomar consciência, todavia, pode se relacionar também com algo mais metafísico, energético e espiritual - a quem creia. Tomar consciência de um lugar poderia ser entender os sentidos emocionais que geram-se nele e dele, simbolismos do local, representações na linguagem que cada ser vivente ali pode ou poderia expressar acerca daquele local em particular...

Entendem? Consciência é muita coisa. É saber, mesmo sem ter conhecimento claro. Pode ser sobre uma percepção que vai muito além dos sentidos humanos conhecidos, em si... Consciência é colocar-se no lugar onde se está e, não raras vezes, até no lugar do outro. Pessoas dotadas de empatia tem consciência plena do outro ser vivente. E essa consciência é uma percepção incrível.

Enfim, continuará esse texto em outro momento...

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O culto a si

Somos uma sociedade perturbada por uma infinidade de fatores. Não é novidade. Isso é visível desde que homens das cavernas entenderam que, se vivessem por conta própria, isolados, morreriam. Dito isso, nada do que há hoje é inédito em si em termos de temperamento e comportamento humanos.

Porém "coisas" são inéditas. Internet, por exemplo. E, do uso dessas "coisas", surgem tendências novas que se propagam e viram comportamentos que tomam parte no inconsciente coletivo junguiano. Tendências que são, na verdade, releituras de misérias humanas e virtudes quaisquer. Tenho refletido sobre a miséria que é a necessidade do culto a si mesmo.

A ideia de que precisamos de aplausos e destaque ganhou muito espaço nas atuais redes sociais. A necessidade de pertencer ao (ou sentir) sentimento oceânico que remonta à psicanálise também é bem nítida para mim. Turbas de pessoas demandando elogios - sejam na forma de comentários, na forma de "curtidas", na forma dos "likes" - vulgo joinhas... Quem não?

Óbvio que elogiar é benéfico, uma virtude daquele que elogiou, inclusive. Receber elogios por algo é excelente e pode ser sinal de que há alguma outra virtude exposta naquele conteúdo causador do elogio. Mas isso não pode ser regra, lei ou virar dependência. Acho necessário problematizar todo reforço positivo quanto ao que, de fato, ele reforça.

E o que isso tem de estranho? Tudo. Primeiro, não é novidade a reflexão de que nossa necessidade de chamar a atenção (atualmente, em publicações pela internet) seja patológica em vários pontos ao longo dos séculos. Não é novidade também que pessoas têm chamado de "amigos" outros seres que apenas acompanham suas páginas e perfis. Nada contra. É mera questão de linguagem isso. Como assim?

Ora, Bauman disse bem que um aluno dele, certa vez, lhe perguntou quantos amigos ele tinha e ele respondeu sem usar mais que uma mão. O aluno, querendo se gabar (conforme ele mesmo disse), redarguiu dizendo que em apenas um dia havia feito quinhentas amizades em uma rede social. Bauman, genial que era, percebeu e se perguntou: será que quando usamos a palavra "amigo" estamos querendo dizer coisas distintas? Ele era um homem de mais de 80 anos... Ele sabia da importância de problematizar assuntos e questões.

Fotos chamadas "selfie" são rotina. Pessoas com seu próprio braço sentem necessidade de tirar fotos de si, quando, não raras vezes, olham para outro lado tentando simular um clique despretensioso. Ora, o que isso quer nos dizer? Uma espécie de necessidade do culto a si, acredito. Não faço juízo de valor aqui, apenas uma reflexão. Será que haverá futuro a um mundo onde as pessoas aprendem desde cedo que estar em redes sociais, todas expostas publicamente, será benéfico para autoestima e saúde mental coletivas?

Será que há nessa necessidade do culto a si mesmo algo que não estamos querendo entender, pois seria uma condenação sobre o nosso próprio modo de existir e de entendermos a vida? Não sei. Desconfio de muita coisa, mas imagino ser apenas um diabo no meio do redemoinho de meus pensamentos criando essa reflexão sem propósito.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A frase clichê de Sartre

Somos uma sociedade incrível. E eu? Dou um alerta de início: costumo ser irônico e sarcástico. Entendam o que bem entenderem... Vivemos de maneira interessante (segue a premissa acima sobre mim mesmo)... Amamos e temos sentimentos lindos de empatia e opiniões maravilhosas de amor sobre todas as pessoas que cometem autoexterminio. Porém, não amamos nada essas mesmas pessoas enquanto ainda estavam vivas. Explico abaixo:

Quem não viu, ouviu, conviveu ou até cometeu atrocidade assim: surge a notícia que uma pessoa suicidou; comoção geral! Choram e dizem: "era uma excelente pessoa!", "Eu a amava!", "Cidadão exemplar!", "O melhor amigo que tive!", "Como esse, não fazem mais...!". Hipocrisia pura! Novamente, explico abaixo:

Pessoas sofrem nitidamente! Basta querer saber, querer entender e se dedicar a ler entrelinhas. De maneira sôfrega, agônica em depressões de estágios variados - não raras vezes graves e até refratárias, essas pessoas vão vivendo sem receber menor atenção. Quem nunca viu, ouviu, conviveu ou até cometeu atrocidades como: "nossa, lá vem ele com sua tristeza... (seguido de risos!)", "Nossa, ele/a está vindo. Vou embora (seguido de impaciência!)", "hoje é aniversário dele/a. Ah, nem vou ligar, senão ele/a vai reclamar da vida e eu não aguento!"...

Ah, hipocrisia... Diluída na água que bebemos ou dispersa no ar que respiramos nessa sociedade, não sei bem... Fato é que todos consomem ou se nutrem com ela. Pessoas sofrendo são ignoradas até mesmo pelos profissionais de saúde que recebem dinheiro e a confiança desses pacientes. Sofrem, pedem ajuda reiteradas vezes, cada um/a ao seu modo. Tão logo, estão todos e todas sozinhos e sozinhas, acompanhados/as apenas de suas chagas. Por completo! E tantas e tantos desistem da vida chegando ao final de suas esperanças.

Arrisco-me a dizer que se a totalidade da população tivesse estágios avançados de quadros depressivos com ideação suicida, quase ninguém restaria. É difícil suportar. Exige uma coragem, um amor a algo (alguém ou a si mesmo, até!) E até teimosia chamada de resiliência por ensinamentos de qualquer coaching por aí. Seríamos uma sociedade formada por poucas casas e muitas lápides. Mas, espero que esse experimento nunca chegue a ser feito nem concretizado... Apesar de tantos esforços do nosso "sistema" para trazer isso.

Após um suicida surgir nas estatísticas, tantas pessoas dizem se arrepender de não terem "percebido nada" ou então de não terem "ido atrás". Alguns, não sei se mais ou menos hipócritas, até arriscam palavras como "eu poderia/deveria ter feito algo, mas não fiz". Porém, todas (?) essas pessoas sairão daquele velório e esquecerão aquela mensagem dada por aquela pessoa que se matou pela solidão e ausência de esperanças que sua doença construiu dentro dessa sociedade que criamos e somos. Na próxima oportunidade de uma outra pessoa chegar, até aquelas outras, sofrendo, vão orientar que busquem ajuda. É a maneira socialmente aceita de terceirizar a própria responsabilidade diante das condições e confidências daquela pessoa adoecida e sem esperanças, sem ninguém. Será mais um exemplo daquele cidadão arrogante e atordoado que apenas diz: "mas isso não pode acontecer; alguém precisa fazer alguma coisa!". Mas nunca é ele o "alguém".

Encerrando: Sartre disse que "o inferno são os outros". Mas, esqueceu de explicar mais sobre isso - pois somos bastante ignorantes e não entendemos quase nada de nada. Ele deveria ter deixado uma nota de rodapé ensinando que todos nós somos o "outro" dos "outros". Algo de bom pode surgir quando descobrirem essa outra parte da frase clichê que colamos nas fotos de Sartre.

Epitáfio

Sim, sorrir é muito melhor que chorar. Gargalhadas são muito melhores que murmúrios. Dessa forma, não serão as tragédias da vida que irão nos sufocar o sorriso. A prática é complexa, mas a teoria é essa e tento ao máximo desempenhar esse aprendizado.


Em meio às dores que vivi, tenho plena convicção que ninguém nunca soube nem metade. Parto do princípio que as dores que preciso passar são para a minha evolução, logo: por qual motivo jogar para cima de alguém um sofrimento que veio para mim? Não. Não gosto disso e tento não fazer. Aprendizados são (ou deveriam) ser compartilhados. Dores são vividas sozinho.

Sim, parece estranho e doloroso. Mas Suassuna disse algo relevante sobre o sonho e o riso. Seriam as armas para enfrentar as tragédias da vida. Aprendi sobre ambas as coisas na vida. Tudo bem que todos os meus sofrimentos surgiram de sonhos que não deveria ter sonhado ou, simplesmente, que não eram pra mim ou que não alcancei. Mas, melhor rir do que outra coisa.

Jogo para quem precisar uma piada, uma pilhéria qualquer. Lembro das pessoas e, se fossem outros tempos, enviaria flores. Hoje, envio lembranças. Músicas que gostei, histórias que li, recomendações de obras que despertaram minha alegria e minha atenção. Gosto de compartilhar reflexões e doar risos, mesmo que não sejam meus.

Afinal, escrevi meu epitáfio após alguns anos de reflexões. Será esse: "Nasci chorando, mas pretendo morrer sorrindo". Não sei se estará em minha lápide a colorir como uma reflexão derradeira que gostaria de deixar para o sempre. Mas que fique aqui então. Quem ler, pelo menos: esteja avisado.

Vida (ainda).

O real problema desses dois transtornos, quadros graves de esquizofrenia e depressão grave, poderia, acredito, ser resumido nesse paralelo:

- o paciente com esquizofrenia grave vê sua vida ruir, dia após dia, perdendo o controle total dela, ficando completamente sozinho (cada vez mais ao longo do percurso). Ponto em questão: quase sempre ele não tem consciência plena de nada disso (acredita-se!);

- o paciente com depressão grave vê sua vida ruir, dia após dia, perdendo o controle total dela, ficando completamente sozinho (cada vez mais ao longo do percurso). Ponto em questão: quase sempre ele tem completa e perfeita consciência de tudo isso (acredita-se!).

Há sofrimento humano demais nesse mundo. Aos inconscientes dele? É aguardar ingenuamente a hora da morte. Aos conscientes disso? Resta entender consigo mesmos o que fazer diante da implacável existência de vida (ainda).

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Ah, coitados dos filósofos...

Mesmo quando te conhecem e sabem de seu caráter de julgador implacável de si mesmo, de sua dificuldade por não suportar (e criar) tantas culpas sobre si, você conversa com pessoas (até profissionais da saúde) e eles taxam seus esforços para viver (ou sobreviver) como uma realidade de "vitimização".

Virou moda! Parte do que se ouve na câmara de eco que se tornou o mundo... Todos repetem e propagam as mesmas coisas. Sofrer é sinal de "mimimi" e não estar feliz, apesar de toda sua dedicação para a superação de si mesmo, é taxado imediatamente - e publicamente! - de "vitimização". Nem dá para argumentar. É uma sentença para além de um diagnóstico equivocado.

Maldito infeliz que construiu a mentalidade "coaching" de tudo quanto há nesse nosso mundo pós-moderno onde tudo é líquido, como postulou Bauman - e até mesmo as soluções o são... Cada livro promete ensinar regras inigualáveis e infalíveis! Todos no planeta são, por essa mentalidade, prósperos, todos são absurdamente capazes, incríveis, sensacionais... Ninguém pode sofrer sem alguém apontar dedos na cara dizendo tantas coisas que poderiam ser resumidas assim: "você sofre porque quer!". Afinal, leram em um livro ou viram um vídeo de alguém falando sobre isso.

Esse mundo que vende a ideia de que o sucesso e a prosperidade são alcançáveis para todo mundo e que não estar feliz agora é sinal (ou comprovação!) de que você não se empenha (ou seja: você fracassa sobre si mesmo!) é uma canalhice tremenda vendida de porta em porta, em mesas de bar, em consultórios de terapeutas, em bancadas de drogaria e livrarias de aeroporto.

Se soubéssemos (e houvesse!) regras para a conquista da felicidade, seria perfeito. Se felicidade fosse algo objetivo e não subjetivo, muita coisa seria mais fácil na busca da eudaimonia dita lá atrás. Porém, filósofos estão há milênios debatendo e dialogando humildemente entre seus saberes sobre todas as coisas do processo do viver... Sem conseguirem concluir nada. Nada!

Gente genial, de todas as épocas, que teve essa humildade de saber que podemos formular perguntas diante da vida e somente isso, pois não haverá respostas e nem, muito menos, protocolos certeiros para questões como felicidade que se apliquem a todos.

Mas, então, surgem uns e outros que prometem passar adiante protocolos e juram vender soluções para todos os males da vida - seja em passos, hábitos, segredos, etc, todos enumerados como um guia para ser seguido e infalível.

Ah, coitados dos filósofos... Leram tanto, dialogaram tanto, morreram por seus postulados tantos deles, mas justamente num país onde a leitura é algo tão pouco corriqueiro surgem turbas de intelectuais dotados de capacidades deíficas que prometem solucionar tudo. Como os filósofos puderam estar tão enganados por milênios sem fim?

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Castelo de cartas e carta de despedida

Entendo perfeitamente os que desistem de viver. Sim! Há tempos não vejo mais nada do romantismo que anteriormente me encantava a visão de mundo. Hoje, só vejo um vasto terreno - que chamamos Terra - queimando com todos e todas de braços cruzados, aplaudindo - tantos desses focos de incêndio metafóricos. Ódio, avareza, opressão, ignorância, canalhice, falta de empatia, hipocrisia... Fogo por todos os lados queimando o que resta de esperanças.


Quando se conhecem as profundezas de uma depressão, tudo muda na sua visão. Seus olhos não enxergam mais amor, enxergam interesse. Não enxergam mais fraternidade, apenas egoísmo. Não enxergam mais benevolência, apenas vaidades buscando aplausos...

Mais além, quando se conhecem as profundezas de uma depressão grave, além disso tudo acima, você não se encanta nem mesmo com o fato de acordar para mais um dia ou de poder desfrutar de coisas que anteriormente alegravam sua existência. Você detesta viver, detesta acordar e ter que levantar, detesta que as pessoas te procurem ou até mesmo que se lembrem de você. Você não se vê merecedor de nada que lhe traga vida. Você odeia a vida! Você se isola e afasta tudo o que havia de bom em coisas e pessoas ao longo da construção de vida que fez. Você entende que está sozinho e morrerá assim - rezando para que não demore esse momento do fim...

Indo ainda mais além, quando se conhecem as profundezas de uma depressão grave e refratária (ou seja: aquela em que os tratamentos tentados não surtiram efeito de melhora), aí você conhece a essência do ser humano. Você vê nitidamente o quanto você é um estorvo para todos ao redor que fingem demonstrar algum afeto enquanto há algum interesse envolvido. Você vê pessoas que diziam te amar e que te chamavam de amor, amigo, querido ou querida irem embora, uma a uma tão logo se cansem de sua presença enfadonha. Até que você olha para seus dias e não tem mais contato algum com todas elas. Você está só como sempre foi, mas a dor é bem maior nessa hora, momento que alguns de nós vive nesse mundo hoje conectado com futilidades, mas desconectado da dor humana real e letal.

Entendi que depressão grave e refratária não é meramente um diagnóstico, é uma sentença de morte. Não se vive mais desde que uma depressão grave se desenvolve, mas quando ela é refratária, a morte está decretada. Pronto! Resta esperar pelo fim, sobrevivendo de uma forma minimamente incômoda o restante dos dias que há caso não haja coragem ou interesse para desistir de vez.

"Isso é vitimização!"... Essa expressão ficou "lindamente" exposta nas faces das pessoas de tempos para cá. Não sei bem desde quando o primeiro imbecil a propagar essa ideia começou a reproduzí-la. Mas, desde aquele momento, propagou-se mais ainda a tal expressão a ponto de as taxas de autoexterminio terem somente crescido. Mas ninguém se importa.

Pessoas que passam o ano inteiro denegrindo portadores de depressão, dedicando as raras conversas que tiveram com pessoas doentes assim para as culpar, cobrar e reclamar delas, chegam ao "Setembro Amarelo" cheias de afeto e discursos lindos - mas completamente mentirosos e hipócritas.

Ora, depressão não é opção. É doença! Ninguém destrói a própria vida e tudo o que sonhava alcançar (além de destruir o que alcançou) só para ser chamada de "pobre coitada!". Se sentir vontade de insinuar que uma pessoa depressiva grave, mais ainda refratária, se faz de "vítima", por favor: cale sua boca e saia de perto! Refratariedade é, como disse, uma sentença de morte para um depressivo grave. E entendo perfeitamente bem quem opta por deixar de viver desse momento em diante. Requer muita teimosia e amor intenso a algo qualquer da vida para resistir e persistir adiante até ter a sorte de uma morte por causa natural ou acaso natural que surgirá inevitavelmente. Cometer o autoexterminio é um ato de imenso desespero. É um sinal do quanto falhamos como sociedade diante daquele que morreu. Momento em que a dor venceu muito além da conta a capacidade de criar esperanças. E não faltam exemplos de pessoas vis que são espécimes nítidas do quanto podemos ser cruéis diante das dores do outro.

Pessoas não têm tido interesse em ouvirem-se. Isso sempre existiu, mas com o excesso de possibilidades para se comunicar de hoje, aí é que ficou descarada essa realidade incontestável - mas que tantos teimam em ignorar e até negar. Pessoas querem vencer nas conversar, vencer na vida, vencer de qualquer maneira - tantas vezes destruindo a outra pessoa. Quem não ve isso ou está ignorante ou mal informado (o que é uma redundância dizer!). Ninguém se importa com nada além de sua própria trajetória e com enaltecer sua própria figura. Mundo de marketing pessoal. É só! Todos fingem serem bons, perfeitos, prósperos. Sem nem olhar para o corpo caído no chão ao lado. Mãos que optam por não fazerem nada também se sujam de sangue. Às vezes até mais que outras...

Somos formados para sermos hipócritas. Nos dizemos cristãos. Lindo isso... "Ah, o Cristo, filho de Deus!". No máximo sabemos escrever a palavra Cristo ou o nome Jesus, mas nada, quase nada do que foi ensinado a partir dessa figura faz parte do cotidiano. Pessoas aprenderam muito mais a serem fariseus com a Bíblia que a serem seguidoras de Cristo. Por qual motivo? Amar requer esforço, dedicação e não dá lucros. Simples assim. Hipocrisia gera domínios e lucros. Enormes lucros. E em tempos de marketing pessoal, lucro pode ser tão somente uma curtida numa foto "ajudando" alguém menos favorecido. Há inúmeras selfies cheias de poses e mínima empatia em essência. Tantos que ostentam a si mesmos e não o ato de serem úteis. Mas não perderei mais tempo nisso aqui.

Costumo dizer e repito: pessoas não querem necessariamente a verdade, querem apenas serem convencidas. Se você convence uma pessoa que ela é "boa", pronto! Eis a semente de um idiota plantada. Quantos exemplos eu poderia dar? E você? Pessoas arrogantes, mas que comungam semanalmente... Pessoas mesquinhas, mas que doam o dízimo... Pessoas canalhas, mas que oram diariamente (até mesmo antes de cometerem seus crimes, pedindo a proteção do deus delas). Jesus deve chorar quando ouve seu nome saindo da boca de gente assim. 

Entendo perfeitamente os depressivos graves e refratários que desistem de viver. As pessoas não querem se dedicar a ouvir, a acolher. Não querem "perder tempo" com nada disso - menos ainda se não estiverem sendo filmadas! Na primeira oportunidade, abandonam e o doente fica isolado, cada vez mais, vendo o castelo de cartas que construiu achando que era ele uma proteção, um aconchego de amizades e amor era nada mais que cartas empilhadas que, uma a uma, vão saindo, saindo, saindo...

Acabadas as cartas desse castelo, tantos desistem de viver e escrevem sua carta de despedida. Repito: eu os entendo. Eu os entendo! 

(continua?)

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Auto-ajuda

Não creio numa vida plena, mas acredito ser possível sonhar com uma vida amena - no sentido de serem amenizadas as dores inevitáveis. Se a vida é muito curta para ser pequena, não podemos enclausurar sonhos, apequenar nossas intenções ou mitigar nossas esperanças com imposições que não nos façam sorrir sorrisos espontâneos e autênticos. 


Todos sempre haverão de receber ditames externos de bocas avulsas que muito falam. Não raras vezes, quem vomita regras demais aos ouvidos alheios pouco sabe da própria vida. Mas ostentar sanidade mental e prosperidade material é uma moda pautada no modelo "coaching" diverso do mundo contemporâneo - onde todos nós somos potenciais lideranças, todos nós somos sonhos por serem realizados, todos nós podemos mudar o mundo...

Eu temo por esses que ensinam que todos podem tudo. Não, não podem! O que chamam de "tudo"? A quem denominam por "todos"? Alerta de exemplo idiota: quando estamos caindo de um abismo (independente das escolhas que fizemos e nos levaram até ali), não será pensar positivo que fará a gravidade deixar de existir. Ou aceitamos que vamos cair ou o quê?

Creio, todavia, que naquele momento desesperado, podemos e devemos ter gratidão pela vida que nos levou até ali. Possível? Sim. Clichê? Também... Mas creio que podemos ser gratos às pessoas que conhecemos até nossa queda. Creio até que podemos encarar a queda com um sorriso no rosto numa esperança, inclusive, de que venhamos a sobreviver ao precipício. Mas não deixará, jamais, de haver o precipício. Pensemos o que quisermos. O precipício é real.

Prosseguindo, afirmo: não sou fatalista, todavia. Acredito que planejar o futuro com passos firmes arraigados em terrenos sólidos de esperança seja algo benéfico. Só fico angustiado com tantas pessoas que gastam dinheiro com outras pessoas que prometem ter a solução de todos os problemas do mundo. Quem nunca ouviu, viu ou até adquiriu algo que prometesse alguma coisa de "sucesso"?

São as "10 dicas" das pessoas extraordinárias; os "5 segredos" dos hábitos infalíveis; os "7 passos" para o sucesso... A matemática da prosperidade. Ora, é tanta enganação que nem sei quantos segredos, dicas e hábitos há por aí em livrarias de aeroporto e bancadas de farmácias. Mas há quem compre. Há, inclusive, pessoas felizes lendo ou que passaram a ser após terem lido. Ótimo. Mas seria tão simples assim? Se há um roteiro incontestável para a felicidade em alguma obra dessas, por qual motivo há tantas tristezas no mundo? Somos burros, teimosos ou não há livrarias suficientes por aí?

Fico tentado a desejar conviver com as pessoas que escrevem esses livros. Elas devem ser muito evoluídas, como aquelas que veem o dedão machucado ao bater na quina da cama e cantam cânticos de gratidão às quinas das camas. Ou devem ser das pessoas que acordam pulando da cama e cantando às 4h da manhã... Devem, também, ser pessoas sinceras, afetuosas, prazerosas no convívio e ótimas pessoas - não somente boas enquanto profissionais e vendedoras de livros.

Ricas elas devem ser - no que diz respeito a ter dinheiro, claro!, pois tais livros costumam vender bastante. A sociedade está carente e sedenta por aplausos. Daí, promessas de alcançar vitórias são vendidas até em igrejas e templos - ou não?

Dito isso, percebo: somos uma sociedade que compra qualquer mentira somente para não aceitar a realidade. E a realidade é que não há felicidade para todos e todas. Não! Explico melhor abaixo.

Felicidade é algo individual. Para a felicidade não existe caminho certo e preciso. Afinal, já escreveram e cantaram: não existe caminho, caminhante. O caminho se faz ao caminhar! Ou estaria errada essa ideia? Para a felicidade, se dá o mesmo. No dia a dia, a gente vai descobrindo novos motivos para sorrir. Novos motivos que dão novos significados para nossos passos. E o caminho vai sendo criado bem como a felicidade (ou a ausência dela) mediante nossas decisões - ou, reforço: nossos passos em nosso caminhar.

Nesses caminhos, o solteiro infeliz torna-se um humano crente na felicidade ao ter um filho ou filha com a mulher que ama, por exemplo. O humano desempregado e deprimido encontra um emprego onde sente-se valorizado e produtivo, sentindo a tal felicidade ali. A professora que nunca sentiu-se valorizada encontra a plenitude de si no abraço de gratidão de um estudante que se graduou em alguma faculdade e retornou à sua escola primária para agradecer por tudo o que lhe ensinaram... Entendem?

Pensando assim, suspeito que a felicidade está em cada pessoa, mas não em livros e templos religiosos, p.ex. Para tal, basta que cada uma das pessoas saiba "encaixar as peças" e entender os sinais da vida, aceitando melhor as consequências de suas escolhas (gratidão!) e entendendo-se melhor quanto às escolhas novas que fará (humildade! - para aprender). Feliz seria aquele que pudesse pensar como Mandela quando disse algo como: "eu nunca perco. Ou eu venço, ou eu aprendo". Percebem?

Há alguma tentativa de dica, segredo ou passo (ou algo assim) nessa conclusão acima? Não. Se pareceu isso, sinto muito. Há apenas opinião após muitos fracassos. Pois, vivendo, entendo perfeitamente hoje que "quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa". Tal qual Manoel de Barros, tenho também o privilégio de desconhecer quase tudo. Acho ótima a ideia de aprender e pensar mais.

Encerrando, Churchill recebe a autoria de uma frase linda: "sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo". Eu, humildemente, acrescentaria a ideia de felicidade à do sucesso na frase original. Mais ainda, talvez sucesso e felicidade sejam, ambos, ir de texto de auto-ajuda em texto de auto-ajuda sem perder o entusiasmo. Quem sabe? Mas isso adquire um tom irônico e sarcástico que foge ao interesse real da mensagem. Encerro aqui.