Tenho uma espécie de cansaço triste.
Ele anula minhas forças
e nubla os céus das paisagens de minha alma.
Tento controlar esse cansaço, essa tristeza,
mas são maiores que eu - e muito mais fortes.
Olho para trás e vejo o quanto cansado eu sempre fora.
Vejo o quanto deveria ter chorado ao tempo devido.
Vejo o quanto poderia ter mudado meus pensamentos
evitando minhas conclusões de hoje que,
enfim, viraram-me fado...
Não sou eu aquele que mais sofre no mundo, decerto.
Nem, tampouco, sou feliz.
Sei bem!
E pensando isso, retiro do mais profundo de meu ser
um filete de esperança de que tudo pode mudar.
Eis que meu cansaço logo em seguida
toma conta dos suspiros felizes que duraram em mim
nada mais que fugazes segundos.
Sou como um balde que poderia estar cheio de tantas coisas,
mas a única coisa que me tornei cheio na vida foi de mim mesmo.
Vendo tudo isso, me pesa uma sensação de degredo.
Sinto-me reles, vil, tolo.
Vejo tantos ao redor desfilando com suas felicidades
e eu, daqui, espreito tudo como se toda minha tristeza
fosse fadada a recomeços.
Olho minha tristeza e nunca a reconheço.
Parece-me que sempre ela muda seus traços
e não enxergo-a mais, não a compreendo,
não a encerro, portanto.
Atravesso ruas esperando que minha vida se encerre
antes de chegar a debaixo do alpendre de defronte.
Mas nada acontece!
Nem eu, nem meu cansaço, nem minha tristeza modificam-se
ou encerram-se
Atenho-me à minha insignificância e respiro profundamente.
Infelizmente, vejo que sou uma coleção monótona
de poeira do tempo, formado numa rigidez insossa
que acostumei a denominar por "eu".
Tolo.
Torpe.
Insano.
Insone...
Deveras, vejo passar as horas da madrugada.
Olho bem na profundeza do relógio à minha frente e tento
fazê-lo aquietar-se ou parar...
Mas tanto as horas quanto eu seguimos.
Quem sabe se o tempo parasse eu pudesse reaver
as decisões e escolhas erradas que fiz e colocar no lugar
novas escolhas, novas posturas, novas atitudes?
Esconderia debaixo da terra todas minhas escolhas erradas - ah, tantas...
Com isso, seria possível que eu fosse
enfim menos cansado e menos triste?
Decerto que o relógio não parará.
Decerto que eu também não pararei.
Resta-me aguardar, mesmo que cansado e triste,
o dia de amanhã que chega-se,
e depois o outro, o outro, o outro...
Tendo nisso, por destino, um fado de existir
até o dia em que poderei repousar em meu cansaço
por sob a terra úmida de um canto qualquer
que será um pouco meu.
Tento deixar para o mundo algo do que penso, escrevendo. Agonias? Dores? Alegrias? Poemas? Crônicas? O que mais? Não! Não sei qual modelo me afaga mais em minha ânsia humana por paz. Catarse? Sim, um pouco. E me basta! Trazendo algo de ''Tabacaria'', de F. Pessoa, digo: espero que fique, ''da amargura do que nunca serei, a caligrafia rápida desses versos'', num pouco de mim. Eu, que ''não sou nada, não posso querer ser nada''. Mas, ''à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo''.
sexta-feira, 29 de julho de 2016
quinta-feira, 28 de julho de 2016
Pelo mundo das idéias
Não sou nada.
Não posso querer ser nada.
Nem mesmo poderia pensar em ser qualquer coisa
para além de nada...
Fernando Pessoa que era grande,
dizia-se nada.
Como serei eu a ter o disparate de querer ser algo?
À parte isso, tenho com ele muitos sonhos comuns.
Devaneios? Sim.
Metafísica? Sempre.
Vejo-me, decerto, com ela abraçado, num momento eterno
a ver-me mal disposto diante do mundo ao derredor de mim,
que não passa!
Nem meu mundo nem eu mesmo passamos...
Degredado em uma solidão autoimposta, embotado,
vejo-me cansado e de olhos abatidos olhando
o passar das horas nos relógios de parede
enquanto ladro para as noites do mundo, insone.
Faço autópsias de mim mesmo e retiro algo como
um sebo de dentro de meus sonhos inconclusos.
Sim, sebo! Sim, inconclusos!
Pois, também estava certo Fernando Pessoa
quando disse que o mundo não é
"para quem sonha que pode conquistá-lo,
ainda que tenha razão".
"O mundo é para quem nasce para conquistar (...)"!
Não tenho razão acerca de nada..
De meus sonhos, sai sim aquele sebo sem vida...
Uma substância gordurosa misturada com um suor de esforço vão
que dá mal gosto à tudo!
Que suja tudo! Que deixa as coisas pegajosas e nojentas
enquanto tento colocar meu paladar e meu tato à prova
pelo mundo das idéias que tentam se tornar minhas.
Enquanto tento dar tempero aos meus sonhos,
acabo por salgar, não raro, o meu pranto.
Deixo-o rolar por sobre minha face, a cair em gotas sobre meu peito.
Sou diferente de Pessoa quanto a isso.
Afinal, como ele, consagro a mim mesmo um desprezo,
todavia, de minha parte, o faço com lágrimas.
Ah, que gosto ruim tem tido para mim minha vida.
Minhas papilas gustativas tentam saborear pedaços de sonhos,
mas cada sonho termina por ser insosso ou nojento para mim.
Paro. Penso. Suspiro. Sigo. Sujo...
Sou sujo...
Deitei-me na lama de meus pensamentos vis
e sucumbi a eles, deveras.
Não mais sinto-me com passos firmes.
Olho de soslaio para o mundo ao meu redor
sentindo um cheiro de medo a sair de mim mesmo.
O cheiro toma conta do quarto e não mais olho nada.
Finjo desconhecer tudo enquanto olho a altura da janela...
O chão, tão longe de mim, parece-me um cenário de encontro.
Penso que me jogando da janela talvez eu notasse meu desespero.
Talvez, agindo assim, alguém me notasse.
Mas não sou nada. Nem posso ser nada.
À parte isso, tenho tantos medos do mundo.
Decerto, jogar-me ao encontro do chão frio seria pouco.
As pessoas passariam por sobre mim
ou me chutariam para o canto da calçada.
Não quero atrapalhar as passadas largas de ninguém.
Olho para o céu escuro, identifico-me com ele.
Sou escuro tal qual se dá a noite!
Sou, entretanto, não dotado de estrelas ou de algum brilho, sei bem.
Mas, apesar disso, tenho cá em mim alguns sonhos cadentes
que me passam vez ou outra e deixam algo de luz - embora fugaz.
Sim, fugaz.
Passam logo os brilhos deixados pelos sonhos que tenho.
A euforia inicial dá lugar à uma espécie de tempestade
de negritude do céu obscuro sobre mim.
E eu?
Sim, eu...
Fico cá em devaneios enquanto espero mais sonhos em lampejos.
Sonhos...
Sonhos...
O que colho deles são luzes fugidias que ensaiam um rastro que se apaga logo.
Apago-me com eles, toda vez. Mais e mais...
Pego um cigarro.
Sim, um cigarro!
Olho estranhamente para minhas mãos sem eles.
Como eu poderia ter ignorado a existência dos cigarros um dia?
São companheiros meus que, apesar de tudo,
deixam algo de luz incandescente.
Acendo um após outro e solto fumaças.
Sim, fumaças.
Elas, brancacentas, tomam os ares de derredor de mim
e deixam-me com aquele cheiro que não é meu, mas acostumei-me.
Pego nas mãos uma dúzia deles.
Todos, cigarros como os outros.
Eu sou o diferente ali.
Os fósforos? Sim, todos iguais entre si também!
Continuo sendo o diferente dentro do cenário estranho que se me manifesta.
Meus devaneios insones tomam conta de mim e
um pouco de cinzas cai pela janela, ainda acesas, mas apagam-se antes do chão.
Se eu apagasse antes do chão também, pularia.
Mas não sei se seria bom...
Não sei se seria solução.
Há os que dizem haver vida para depois disso que vivo.
Como seria então que me receberiam lá?
Aqui já sou mais fugaz e vil que a incandescente cinza que morre
a partir do cigarro comum que fumo.
Imagina se no outro lado que haja eu seja menos que isso?
Ora, sinto um comichão que inquieta-me a alma.
Metafísica...Metafísica...
De fato a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto no mundo.
E eu? Mal disposto estou, estive, sou, me fiz e me faço - dia após dia.
Minha única recomendação aos que leem isso é: fujam!
Larguem-me no meu texto, sozinho!
Ele não valerá de nada a ninguém
assim como eu também não valho de nada a outrem.
Peguem minhas caixas de cigarro se um dia eu morrer!
Joguem-nas no rio para que nunca mais se acendam.
Os suspiros de fumaça que soltei acompanhado de meus cigarros
foram-me úteis em todos os momentos.
Mas e eu para eles?
Acho que nada de útil pude ser.
À parte isso, mantive em mim tantos devaneios no mundo.
_
poema em homenagem a "Tabacaria", de Fernando Pessoa.
Não posso querer ser nada.
Nem mesmo poderia pensar em ser qualquer coisa
para além de nada...
Fernando Pessoa que era grande,
dizia-se nada.
Como serei eu a ter o disparate de querer ser algo?
À parte isso, tenho com ele muitos sonhos comuns.
Devaneios? Sim.
Metafísica? Sempre.
Vejo-me, decerto, com ela abraçado, num momento eterno
a ver-me mal disposto diante do mundo ao derredor de mim,
que não passa!
Nem meu mundo nem eu mesmo passamos...
Degredado em uma solidão autoimposta, embotado,
vejo-me cansado e de olhos abatidos olhando
o passar das horas nos relógios de parede
enquanto ladro para as noites do mundo, insone.
Faço autópsias de mim mesmo e retiro algo como
um sebo de dentro de meus sonhos inconclusos.
Sim, sebo! Sim, inconclusos!
Pois, também estava certo Fernando Pessoa
quando disse que o mundo não é
"para quem sonha que pode conquistá-lo,
ainda que tenha razão".
"O mundo é para quem nasce para conquistar (...)"!
Não tenho razão acerca de nada..
De meus sonhos, sai sim aquele sebo sem vida...
Uma substância gordurosa misturada com um suor de esforço vão
que dá mal gosto à tudo!
Que suja tudo! Que deixa as coisas pegajosas e nojentas
enquanto tento colocar meu paladar e meu tato à prova
pelo mundo das idéias que tentam se tornar minhas.
Enquanto tento dar tempero aos meus sonhos,
acabo por salgar, não raro, o meu pranto.
Deixo-o rolar por sobre minha face, a cair em gotas sobre meu peito.
Sou diferente de Pessoa quanto a isso.
Afinal, como ele, consagro a mim mesmo um desprezo,
todavia, de minha parte, o faço com lágrimas.
Ah, que gosto ruim tem tido para mim minha vida.
Minhas papilas gustativas tentam saborear pedaços de sonhos,
mas cada sonho termina por ser insosso ou nojento para mim.
Paro. Penso. Suspiro. Sigo. Sujo...
Sou sujo...
Deitei-me na lama de meus pensamentos vis
e sucumbi a eles, deveras.
Não mais sinto-me com passos firmes.
Olho de soslaio para o mundo ao meu redor
sentindo um cheiro de medo a sair de mim mesmo.
O cheiro toma conta do quarto e não mais olho nada.
Finjo desconhecer tudo enquanto olho a altura da janela...
O chão, tão longe de mim, parece-me um cenário de encontro.
Penso que me jogando da janela talvez eu notasse meu desespero.
Talvez, agindo assim, alguém me notasse.
Mas não sou nada. Nem posso ser nada.
À parte isso, tenho tantos medos do mundo.
Decerto, jogar-me ao encontro do chão frio seria pouco.
As pessoas passariam por sobre mim
ou me chutariam para o canto da calçada.
Não quero atrapalhar as passadas largas de ninguém.
Olho para o céu escuro, identifico-me com ele.
Sou escuro tal qual se dá a noite!
Sou, entretanto, não dotado de estrelas ou de algum brilho, sei bem.
Mas, apesar disso, tenho cá em mim alguns sonhos cadentes
que me passam vez ou outra e deixam algo de luz - embora fugaz.
Sim, fugaz.
Passam logo os brilhos deixados pelos sonhos que tenho.
A euforia inicial dá lugar à uma espécie de tempestade
de negritude do céu obscuro sobre mim.
E eu?
Sim, eu...
Fico cá em devaneios enquanto espero mais sonhos em lampejos.
Sonhos...
Sonhos...
O que colho deles são luzes fugidias que ensaiam um rastro que se apaga logo.
Apago-me com eles, toda vez. Mais e mais...
Pego um cigarro.
Sim, um cigarro!
Olho estranhamente para minhas mãos sem eles.
Como eu poderia ter ignorado a existência dos cigarros um dia?
São companheiros meus que, apesar de tudo,
deixam algo de luz incandescente.
Acendo um após outro e solto fumaças.
Sim, fumaças.
Elas, brancacentas, tomam os ares de derredor de mim
e deixam-me com aquele cheiro que não é meu, mas acostumei-me.
Pego nas mãos uma dúzia deles.
Todos, cigarros como os outros.
Eu sou o diferente ali.
Os fósforos? Sim, todos iguais entre si também!
Continuo sendo o diferente dentro do cenário estranho que se me manifesta.
Meus devaneios insones tomam conta de mim e
um pouco de cinzas cai pela janela, ainda acesas, mas apagam-se antes do chão.
Se eu apagasse antes do chão também, pularia.
Mas não sei se seria bom...
Não sei se seria solução.
Há os que dizem haver vida para depois disso que vivo.
Como seria então que me receberiam lá?
Aqui já sou mais fugaz e vil que a incandescente cinza que morre
a partir do cigarro comum que fumo.
Imagina se no outro lado que haja eu seja menos que isso?
Ora, sinto um comichão que inquieta-me a alma.
Metafísica...Metafísica...
De fato a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto no mundo.
E eu? Mal disposto estou, estive, sou, me fiz e me faço - dia após dia.
Minha única recomendação aos que leem isso é: fujam!
Larguem-me no meu texto, sozinho!
Ele não valerá de nada a ninguém
assim como eu também não valho de nada a outrem.
Peguem minhas caixas de cigarro se um dia eu morrer!
Joguem-nas no rio para que nunca mais se acendam.
Os suspiros de fumaça que soltei acompanhado de meus cigarros
foram-me úteis em todos os momentos.
Mas e eu para eles?
Acho que nada de útil pude ser.
À parte isso, mantive em mim tantos devaneios no mundo.
_
poema em homenagem a "Tabacaria", de Fernando Pessoa.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Ao primeiro sinal de ventania
Estou farto de ser feito de areia.
Sim! Feito de areia...
Num mundo repleto de pessoas-fortaleza,
sou um a mais que vira areia, farinha solta,
ao primeiro sinal de ventania.
Cansei de ser fortaleza construída por crianças
à beira-mar, com areia frouxa e água sendo o cimento.
Não! Basta!
Quero ser feito de pedras bem justapostas!
Quero ter alicerces bem tramados!
Basta! Não!
Não quero viver como um amontoado de areia
que perde-se com a onda, perde-se com o vento...
Perde-se por qualquer coisa!
Vivo num mundo em que as pessoas são fortes!
Mostram-se a todo momento com punhos firmes,
mãos com movimentos acertivos
e corações, ah, corações, que vivem sem pestanejar.
Eu, por outro lado, ao meu modo, morro fácil!
Sou fraco, sou trépido, sou medroso.
Temo a mim mesmo, a bem dizer, por desconhecer-me.
Todos do meu tempo, em contrapartida, são ágeis nas decisões,
fortes nas escolhas, firmes nas palavras e sorridentes - sempre.
Eu, todavia, coleciono um amontoado de lágrimas que
me afogam por dentro, teimando sair, mas sem sucesso.
Na esfera dos humanos, sou incompetente até para sentir.
Não dou vazão aos sofrimentos meus.
Como conseguiria dar cabo de momentos para ser feliz?
Não dou conta nem de mim, quanto mais de meus sentimentos.
Embora eu seja um poço de sentimentos que são mais eu que eu mesmo.
Sabe-se lá o que tenho a dizer disso.
Mais sinto do que penso sobre as coisas.
Quando vejo, já disse um monte de coisas.
Digo, não digo! Corrijo! Na verdade penso.
Pois não sou muito dos que falam...
Até nisso sou malfeito.
Penso muito. Falo pouco. Sinto demais. Calo quase tudo.
Aonde isso irá me levar?
Perderei meu fígado, consumido em mágoas?
Arruinarei meu estômago, não digerindo bem o mundo?
Aniquilarei meu coração mal sentindo tudo ou sentindo errado?
Ah, demasia...demasia...
Tudo o que sinto é em demasia.
Tudo o que penso é em demasia.
Tudo o que sofro é em demasia.
Sou dramaturgo que encena a própria peça.
Qual fim darei ao meu personagem?
Não sei. Espero apenas que a cena não acabe
enquanto ainda respiro com alguma esperança.
Sim! Feito de areia...
Num mundo repleto de pessoas-fortaleza,
sou um a mais que vira areia, farinha solta,
ao primeiro sinal de ventania.
Cansei de ser fortaleza construída por crianças
à beira-mar, com areia frouxa e água sendo o cimento.
Não! Basta!
Quero ser feito de pedras bem justapostas!
Quero ter alicerces bem tramados!
Basta! Não!
Não quero viver como um amontoado de areia
que perde-se com a onda, perde-se com o vento...
Perde-se por qualquer coisa!
Vivo num mundo em que as pessoas são fortes!
Mostram-se a todo momento com punhos firmes,
mãos com movimentos acertivos
e corações, ah, corações, que vivem sem pestanejar.
Eu, por outro lado, ao meu modo, morro fácil!
Sou fraco, sou trépido, sou medroso.
Temo a mim mesmo, a bem dizer, por desconhecer-me.
Todos do meu tempo, em contrapartida, são ágeis nas decisões,
fortes nas escolhas, firmes nas palavras e sorridentes - sempre.
Eu, todavia, coleciono um amontoado de lágrimas que
me afogam por dentro, teimando sair, mas sem sucesso.
Na esfera dos humanos, sou incompetente até para sentir.
Não dou vazão aos sofrimentos meus.
Como conseguiria dar cabo de momentos para ser feliz?
Não dou conta nem de mim, quanto mais de meus sentimentos.
Embora eu seja um poço de sentimentos que são mais eu que eu mesmo.
Sabe-se lá o que tenho a dizer disso.
Mais sinto do que penso sobre as coisas.
Quando vejo, já disse um monte de coisas.
Digo, não digo! Corrijo! Na verdade penso.
Pois não sou muito dos que falam...
Até nisso sou malfeito.
Penso muito. Falo pouco. Sinto demais. Calo quase tudo.
Aonde isso irá me levar?
Perderei meu fígado, consumido em mágoas?
Arruinarei meu estômago, não digerindo bem o mundo?
Aniquilarei meu coração mal sentindo tudo ou sentindo errado?
Ah, demasia...demasia...
Tudo o que sinto é em demasia.
Tudo o que penso é em demasia.
Tudo o que sofro é em demasia.
Sou dramaturgo que encena a própria peça.
Qual fim darei ao meu personagem?
Não sei. Espero apenas que a cena não acabe
enquanto ainda respiro com alguma esperança.
terça-feira, 26 de julho de 2016
Suspiros esfumaçados
Que diabos estou eu fazendo pelo mundo?
Olho no espelho e não encontro respostas.
Não tenho a mente que deveria ter,
nem o espírito forte que me seria necessário,
nem mesmo um corpo forte eu tenho.
Sou como um verme que existe apesar do mundo.
E o mundo vive apesar de mim.
Temos uma relação não mutuamente excludente,
mas independemos um pouco, um do outro...
O mundo me faz crer que não sou o que deveria.
Eu faço o mundo entender que não me dou conta dele...
Logo, ele e eu vivemos em frangalhos numa corrida
onde eu estou sempre pra trás.
Não?
Como será isso?
Até quando vou procurar encontrar respostas?
Seria melhor eu entender que a resposta final é essa:
não há respostas!
Ou, se há, eu não as mereço.
De fato, tudo isso pode ser pelo fato de eu ser um verme...
Sou mesmo uma coisa inútil que segue os dias acabrunhado.
Quem quer isso para o mundo?
Nem o mundo quer isso para ele mesmo!
Calo-me.
Olho e espelho manchado...
Vejo-me como ele.
Reflito uma imagem manchada ao mundo
- e à mim mesmo, decerto!
Quem sou?
O que sou?
Nem o espelho mostra-me inteiro, sem máculas ou manchas...
Melhor seria se eu não fosse nada, talvez.
Ou nem existisse.,,
Quem dera...
Quem dera...
Olho para as pessoas que passam na calçada da frente,
todas parecem estar decididas a caminhar em seus passos.
Eu, a cada passo meu, olho para trás para ter certeza
se não destruí parte de mim pelo caminho.
Entende?
Não?
Se não entende, não se preocupe.
Nem eu mesmo entendo-me às vezes.
Acendo um cigarro e curto a fumaça saindo de mim...
Sim, são suspiros de fumaça, na verdade.
Tento calar a mente a cada trago...
Mas trago para dentro de mim em cada inspiração mais dúvidas,
mais pensamentos, mais angústias...
O cigarro queima minha mão enquanto eu fico pensando.
Acendo outro cigarro como se nada tivesse acontecido.
Melhor estar com dúvidas tragando um cigarro
do que ter as mesmas dúvidas sem um cigarro nas mãos.
Suspiros esfumaçados. Só isso.
Suspiros esfumaçados.
Olho no espelho e não encontro respostas.
Não tenho a mente que deveria ter,
nem o espírito forte que me seria necessário,
nem mesmo um corpo forte eu tenho.
Sou como um verme que existe apesar do mundo.
E o mundo vive apesar de mim.
Temos uma relação não mutuamente excludente,
mas independemos um pouco, um do outro...
O mundo me faz crer que não sou o que deveria.
Eu faço o mundo entender que não me dou conta dele...
Logo, ele e eu vivemos em frangalhos numa corrida
onde eu estou sempre pra trás.
Não?
Como será isso?
Até quando vou procurar encontrar respostas?
Seria melhor eu entender que a resposta final é essa:
não há respostas!
Ou, se há, eu não as mereço.
De fato, tudo isso pode ser pelo fato de eu ser um verme...
Sou mesmo uma coisa inútil que segue os dias acabrunhado.
Quem quer isso para o mundo?
Nem o mundo quer isso para ele mesmo!
Calo-me.
Olho e espelho manchado...
Vejo-me como ele.
Reflito uma imagem manchada ao mundo
- e à mim mesmo, decerto!
Quem sou?
O que sou?
Nem o espelho mostra-me inteiro, sem máculas ou manchas...
Melhor seria se eu não fosse nada, talvez.
Ou nem existisse.,,
Quem dera...
Quem dera...
Olho para as pessoas que passam na calçada da frente,
todas parecem estar decididas a caminhar em seus passos.
Eu, a cada passo meu, olho para trás para ter certeza
se não destruí parte de mim pelo caminho.
Entende?
Não?
Se não entende, não se preocupe.
Nem eu mesmo entendo-me às vezes.
Acendo um cigarro e curto a fumaça saindo de mim...
Sim, são suspiros de fumaça, na verdade.
Tento calar a mente a cada trago...
Mas trago para dentro de mim em cada inspiração mais dúvidas,
mais pensamentos, mais angústias...
O cigarro queima minha mão enquanto eu fico pensando.
Acendo outro cigarro como se nada tivesse acontecido.
Melhor estar com dúvidas tragando um cigarro
do que ter as mesmas dúvidas sem um cigarro nas mãos.
Suspiros esfumaçados. Só isso.
Suspiros esfumaçados.
Sozinho
Não sou daqueles que chora.
Sou incompetente até para ser triste.
Não consigo ser feliz como outrora,
nem consigo o ser com o eu que existe.
Olho para mim, sem entender.
Onde foi que comecei a errar tanto?
São tantas insatisfações e mágoas, a saber,
que a única coisa que surge de tudo é pranto.
Calo a boca, mas a mente insiste em não se aquietar.
E então? Como fico eu em meio a esse torvelinho?
Tantos pensamentos que condenam-me a me exasperar...
Vejo que o ajuste final para mim será morrer sozinho.
Sou incompetente até para ser triste.
Não consigo ser feliz como outrora,
nem consigo o ser com o eu que existe.
Olho para mim, sem entender.
Onde foi que comecei a errar tanto?
São tantas insatisfações e mágoas, a saber,
que a única coisa que surge de tudo é pranto.
Calo a boca, mas a mente insiste em não se aquietar.
E então? Como fico eu em meio a esse torvelinho?
Tantos pensamentos que condenam-me a me exasperar...
Vejo que o ajuste final para mim será morrer sozinho.
Café irlandês
Acordou bravo consigo. A noite, aos goles de vinho, fora demais...
Ele saiu de casa cedo, não querendo voltar.
Saiu num dia e voltou quando já era outro...
Tentou beber o máximo que pôde, achando que
sua consciência e seus medos iriam se apagar.
Não, ele não obteve sucesso!
Por mais uma vez ele acordava insatisfeito.
Dessa vez, como em outras, a insatisfação era
não pela ressaca, mas sim por ter acordado!
Preferia ter dormido para além da conta, para além da vida...
Queria não ter acordado! Pronto!
Mas acordou e a vida já exigia dele respostas.
Primeiramente, abriu os olhos. Cedo ou tarde, seria inevitável...
Olhou para o teto do quarto e para a outra metade da sua cama, vazia.
Ele, também vazio. O que teria a ofertar em mais um dia?
Por qual motivo insistir naquela vida sem gosto, desgastado?
Cansado, fechou os olhos novamente.
Sua cabeça doía aquela dor que vem de dentro e que
não sai por remédio algum que se tome.
A cabeça doía na mesma medida em que não se aceitava vivo.
Esquivou-se de pensamentos de autodepreciação.
Eles, sempre, eram-lhe diuturnos...
Tais pensamentos sempre vinham-lhe a cada amanhecer.
Ele os chamava de "raios que o parta" - numa brincadeira pessoal
em relação aos raios do sol que também chegavam-lhe diariamente.
Pulsavam dentro dele gritando: "morra!morra!morra!".
Mas ele vivia!
Como de dentro de si mesmo saía tanto ódio dele próprio?
De onde surgia aquela voz que não gostava nem um pouco dele,
apesar de seus esforços por ser um ser humano de bem?
Levantou-se. Abaixando a cabeça, viu seus pés descalços.
Quis mesmo pisar o chão com os pés desprotegidos.
Queria sentir o mundo de uma maneira diferente naquele instante.
Insano? Talvez...
De fato, pouca diferença fez.
Mas foi assim à cozinha fazer café.
Era domingo. Não tinha nada para fazer a não ser café.
Queria não ter acordado, mas acordou.
Queria não estar vivo, mas respirou....
Ah, que confusão.
Talvez agora, com o café na caneca, tudo melhorasse.
E tomou seu café!
Não. Preferiu tomar mais dois cafés...
Duas, três canecas... Nada?
Ele era o mesmo insatisfeito de antes.
Resolveu tomar o que chamava de "café irlandês",
misturando uma dose de café expresso com wisky.
Pronto! Duas, três canecas...Já lhe eram cinco, seis canecas de café..
Mas as primeiras duas, três com wisky.
Pouca importava. Duas, três extrassístoles... Pronto!
Sentiu-se melhor e foi de encontro ao sofá já incrivelmente com sono.
"O café não surtira efeito?" Não sei! Teve sono, aquele tonto...
Acho que apenas era sua consciência que, agora, lhe dava trégua.
E o sono veio mesmo, a despeito do excesso de cafeína que nele circulava.
Ele saiu de casa cedo, não querendo voltar.
Saiu num dia e voltou quando já era outro...
Tentou beber o máximo que pôde, achando que
sua consciência e seus medos iriam se apagar.
Não, ele não obteve sucesso!
Por mais uma vez ele acordava insatisfeito.
Dessa vez, como em outras, a insatisfação era
não pela ressaca, mas sim por ter acordado!
Preferia ter dormido para além da conta, para além da vida...
Queria não ter acordado! Pronto!
Mas acordou e a vida já exigia dele respostas.
Primeiramente, abriu os olhos. Cedo ou tarde, seria inevitável...
Olhou para o teto do quarto e para a outra metade da sua cama, vazia.
Ele, também vazio. O que teria a ofertar em mais um dia?
Por qual motivo insistir naquela vida sem gosto, desgastado?
Cansado, fechou os olhos novamente.
Sua cabeça doía aquela dor que vem de dentro e que
não sai por remédio algum que se tome.
A cabeça doía na mesma medida em que não se aceitava vivo.
Esquivou-se de pensamentos de autodepreciação.
Eles, sempre, eram-lhe diuturnos...
Tais pensamentos sempre vinham-lhe a cada amanhecer.
Ele os chamava de "raios que o parta" - numa brincadeira pessoal
em relação aos raios do sol que também chegavam-lhe diariamente.
Pulsavam dentro dele gritando: "morra!morra!morra!".
Mas ele vivia!
Como de dentro de si mesmo saía tanto ódio dele próprio?
De onde surgia aquela voz que não gostava nem um pouco dele,
apesar de seus esforços por ser um ser humano de bem?
Levantou-se. Abaixando a cabeça, viu seus pés descalços.
Quis mesmo pisar o chão com os pés desprotegidos.
Queria sentir o mundo de uma maneira diferente naquele instante.
Insano? Talvez...
De fato, pouca diferença fez.
Mas foi assim à cozinha fazer café.
Era domingo. Não tinha nada para fazer a não ser café.
Queria não ter acordado, mas acordou.
Queria não estar vivo, mas respirou....
Ah, que confusão.
Talvez agora, com o café na caneca, tudo melhorasse.
E tomou seu café!
Não. Preferiu tomar mais dois cafés...
Duas, três canecas... Nada?
Ele era o mesmo insatisfeito de antes.
Resolveu tomar o que chamava de "café irlandês",
misturando uma dose de café expresso com wisky.
Pronto! Duas, três canecas...Já lhe eram cinco, seis canecas de café..
Mas as primeiras duas, três com wisky.
Pouca importava. Duas, três extrassístoles... Pronto!
Sentiu-se melhor e foi de encontro ao sofá já incrivelmente com sono.
"O café não surtira efeito?" Não sei! Teve sono, aquele tonto...
Acho que apenas era sua consciência que, agora, lhe dava trégua.
E o sono veio mesmo, a despeito do excesso de cafeína que nele circulava.
Pranto
Quais serão os meus tropeços de amanhã?
Quem sabe já hoje eu esteja tropeçando?
Ah, vida que vivo, louca. sem graça, vã...
Como hei de consertar tudo? Estou cansando.
Cansando de mim, das coisas, do mundo e da vida...
Sigo quieto, à espreita, aguardando algo. Quiçá um santo?
Alguém há de me salvar disso. E eu? Com minha alma caída,
Tento temperar minha vida, mas apenas salgo meu pranto.
_ homenagem ao lindo poema de Leandro Gomes de Barros ("O mal e o sofrimento").
Quem sabe já hoje eu esteja tropeçando?
Ah, vida que vivo, louca. sem graça, vã...
Como hei de consertar tudo? Estou cansando.
Cansando de mim, das coisas, do mundo e da vida...
Sigo quieto, à espreita, aguardando algo. Quiçá um santo?
Alguém há de me salvar disso. E eu? Com minha alma caída,
Tento temperar minha vida, mas apenas salgo meu pranto.
_ homenagem ao lindo poema de Leandro Gomes de Barros ("O mal e o sofrimento").
sábado, 23 de julho de 2016
Arbitrário
Sou um redemoinho de pensamentos. Sou introspecção pura!
Não tenho vantagem nenhuma nisso. Muito pelo contrário...
Sou a doença de mim mesmo que me consome, sem cura.
De tanto pensar, sofro. Vivo calado! Ao mundo, sou arbitrário...
Sou como uma janela quebrada pela qual, de fora, não muito se vê.
De vidro fosco, tosco, sou uma janela sem muita coisa além...
Tanto faz o que para fora ou para dentro haja para se ver,
pois não se enxerga nem pra lá, nem pra cá também.
Se me procuram e batem-me achando que me abro como porta,
ressoa o som da batida, mas a pessoa não tem resposta!
Não é que não há nada cá dentro que me importa ou que me exorta...
É que há tantas imperfeições que ninguém quer ver ou gosta.
Não tenho vantagem nenhuma nisso. Muito pelo contrário...
Sou a doença de mim mesmo que me consome, sem cura.
De tanto pensar, sofro. Vivo calado! Ao mundo, sou arbitrário...
De vidro fosco, tosco, sou uma janela sem muita coisa além...
Tanto faz o que para fora ou para dentro haja para se ver,
pois não se enxerga nem pra lá, nem pra cá também.
Se me procuram e batem-me achando que me abro como porta,
ressoa o som da batida, mas a pessoa não tem resposta!
Não é que não há nada cá dentro que me importa ou que me exorta...
É que há tantas imperfeições que ninguém quer ver ou gosta.
... desde 1500 ...
Sobre os olhos de um, tapando a testa: o cocar.
Sobre os olhos do outro, tapando a cabeça: o chapéu.
Entre os olhos de um e do outro, a arma apontada, no ar!
Tratado por réu, o índio, calado, estremeceu, claro!
Com a voz embargada, largou a bandeira, abaixou o braço...
O fazendeiro, convicto de suas leis, cobrou caro!
O índio pagou com a vida por querer daquelas terras seu pedaço.
Sobre os olhos do outro, tapando a cabeça: o chapéu.
Entre os olhos de um e do outro, a arma apontada, no ar!
Tratado por réu, o índio, calado, estremeceu, claro!
Com a voz embargada, largou a bandeira, abaixou o braço...
O fazendeiro, convicto de suas leis, cobrou caro!
O índio pagou com a vida por querer daquelas terras seu pedaço.
Tolice em versos toscos
Tardes frias combinam com café e meias.
Tardes quentes combinam com praias cheias.
Tardes tristes combinam com o exercício do choro.
Tardes felizes combinam com música alta e em coro...
Tardes comuns combinam com muita gente junta.
Em tardes incomuns, a gente inventa coisas ou assunta.
A vida, em suas experiências do viver, representa
exercícios de alegria ou de tristeza devidas ao que se apresenta.
Cabe então ter fé no porvir, se por ora estejamos tristes,
pensando: "o melhor está vindo!".
Afinal, é preciso ter fé para se estar feliz acordado
- senão é melhor estar dormindo.
Alcebíades
Alcebíades era um homem solitário.
"Ah, Alcebíades, toma rumo na vida!".
Vez ou outra viravam para ele e diziam coisas assim.
Alcebíades era um homem solitário a ponto de
nem as palavras cruéis dos outros lhe fazerem companhia.
Reverberavam dentro dele e causavam sua dose de dor,
mas tão logo ele as abandonava e seguia sendo o homem
insosso que sempre fora, à parte as críticas que se lhe impunham.
Subia as ruas ou descia na mesma passada.
De mãos para trás e cabeça baixa, ia como seguindo um rumo
que ninguém sabia - nem mesmo ele.
Era vazio aos olhos de tantos, coitado!
Pouco conversava de si, mas era daqueles que ouvia muito!
As poucas pessoas que lhe tinham alguma afeição
eram daquelas que usufruíam vez ou outra da sua
capacidade de ouvir!
Ele ouvia. Aceitava. Pouco julgava - ou quase nada.
Aprendeu, pensando consigo - sobre o mundo e sobre si, que
em nada adianta julgar as coisas, pois elas são como são
independente de julgamentos quaisquer.
Alcebíades não pensava que as pessoas poderiam mudar.
Não acreditava nisso! Apenas as aceitava como eram.
Aceitando como eram as pessoas, aceitava o mundo.
E via um mundo cheio de pessoas interessantes, mas cruéis - não raro!
Por isso, andava de mãos voltadas para trás,
pois não queria abraçar o mundo de forma alguma.
Por isso andava de cabeça baixa,
pois não queria contato visual ou outro com nada - e nem ninguém.
Era solitário, como disse.
Era cabisbaixo, decerto!
Era triste? Não necessariamente.
Alcebíades tinha uma noção exata de sua insignificância
e vivia bem com isso, embora lhe custasse, sim, algum sofrimento.
Alcebíades era estável demais, a ponto de ser tido por frio, às vezes, com as pessoas.
Alcebíades era reflexivo demais, a ponto de ser tido por angustiado.
Alcebíades era inseguro demais, a ponto de ser tido por medroso.
Alcebíades pouco entendia do mundo, mas tinha sim suas ideias.
Alcebíades, se era religioso ou não, poucos sabiam.
Mas ele era daqueles que aprenderam a não querer contato com o mundo
por ver (e temer!) o homem como um ser cruel e vil, deveras.
Alcebíades temia que Deus fosse a imagem e semelhança dos homens,
pois ouviu um dia que os homens eram a imagem e semelhança de Deus.
Por isso, Alcebíades temia ao seu modo Deus, mas ninguém conhecia
sua relação para com divindades e religião.
Alcebíades chorava, mas ninguém via.
Alcebíades tentava ajudar quando se via disposto e pronto.
Não acreditava nos homens (e os temia!), mas ajudava quando podia.
Alcebíades nunca quis deixar marcas na Terra.
Se marcou a vida de alguém ou algo, foi apenas em raras memórias.
Contido, pouco abraçava.
Temeroso, pouco interagia.
Inseguro, pouco arriscava.
"Alcebíades, você existe mesmo?" - ele pensou um dia.
E não entendeu mais nada de seus devaneios,
embora quisesse muito mesmo que existisse um outro
Alcebíades como ele em um mundo paralelo qualquer.
Daria sua vida para esse outro Alcebíades viver, decerto.
Quiçá esse outro Alcebíades fosse melhor, mais corajoso, menos inseguro?
Quiçá não fosse como ele - pouco digno de ser feliz como era (e se sentia)...
"Vai, Alcebíades! Vai ser alguém na vida!" - pensou e suspirou.
O dia encerrou-se e Alcebíades ainda estava vivo sendo ele mesmo
- pelo menos era a notícia que se tinha...
"Ah, Alcebíades, toma rumo na vida!".
Vez ou outra viravam para ele e diziam coisas assim.
Alcebíades era um homem solitário a ponto de
nem as palavras cruéis dos outros lhe fazerem companhia.
Reverberavam dentro dele e causavam sua dose de dor,
mas tão logo ele as abandonava e seguia sendo o homem
insosso que sempre fora, à parte as críticas que se lhe impunham.
Subia as ruas ou descia na mesma passada.
De mãos para trás e cabeça baixa, ia como seguindo um rumo
que ninguém sabia - nem mesmo ele.
Era vazio aos olhos de tantos, coitado!
Pouco conversava de si, mas era daqueles que ouvia muito!
As poucas pessoas que lhe tinham alguma afeição
eram daquelas que usufruíam vez ou outra da sua
capacidade de ouvir!
Ele ouvia. Aceitava. Pouco julgava - ou quase nada.
Aprendeu, pensando consigo - sobre o mundo e sobre si, que
em nada adianta julgar as coisas, pois elas são como são
independente de julgamentos quaisquer.
Alcebíades não pensava que as pessoas poderiam mudar.
Não acreditava nisso! Apenas as aceitava como eram.
Aceitando como eram as pessoas, aceitava o mundo.
E via um mundo cheio de pessoas interessantes, mas cruéis - não raro!
Por isso, andava de mãos voltadas para trás,
pois não queria abraçar o mundo de forma alguma.
Por isso andava de cabeça baixa,
pois não queria contato visual ou outro com nada - e nem ninguém.
Era solitário, como disse.
Era cabisbaixo, decerto!
Era triste? Não necessariamente.
Alcebíades tinha uma noção exata de sua insignificância
e vivia bem com isso, embora lhe custasse, sim, algum sofrimento.
Alcebíades era estável demais, a ponto de ser tido por frio, às vezes, com as pessoas.
Alcebíades era reflexivo demais, a ponto de ser tido por angustiado.
Alcebíades era inseguro demais, a ponto de ser tido por medroso.
Alcebíades pouco entendia do mundo, mas tinha sim suas ideias.
Alcebíades, se era religioso ou não, poucos sabiam.
Mas ele era daqueles que aprenderam a não querer contato com o mundo
por ver (e temer!) o homem como um ser cruel e vil, deveras.
Alcebíades temia que Deus fosse a imagem e semelhança dos homens,
pois ouviu um dia que os homens eram a imagem e semelhança de Deus.
Por isso, Alcebíades temia ao seu modo Deus, mas ninguém conhecia
sua relação para com divindades e religião.
Alcebíades chorava, mas ninguém via.
Alcebíades tentava ajudar quando se via disposto e pronto.
Não acreditava nos homens (e os temia!), mas ajudava quando podia.
Alcebíades nunca quis deixar marcas na Terra.
Se marcou a vida de alguém ou algo, foi apenas em raras memórias.
Contido, pouco abraçava.
Temeroso, pouco interagia.
Inseguro, pouco arriscava.
"Alcebíades, você existe mesmo?" - ele pensou um dia.
E não entendeu mais nada de seus devaneios,
embora quisesse muito mesmo que existisse um outro
Alcebíades como ele em um mundo paralelo qualquer.
Daria sua vida para esse outro Alcebíades viver, decerto.
Quiçá esse outro Alcebíades fosse melhor, mais corajoso, menos inseguro?
Quiçá não fosse como ele - pouco digno de ser feliz como era (e se sentia)...
"Vai, Alcebíades! Vai ser alguém na vida!" - pensou e suspirou.
O dia encerrou-se e Alcebíades ainda estava vivo sendo ele mesmo
- pelo menos era a notícia que se tinha...
Sobre o alpendre alheio - e sob o meu
Sob o alpendre da casa vizinha, passam duas pessoas que desconheço.
Elas, muito mais do que eu, desconhecem-me.
Entretanto, nem elas, nem eu sabem de mim o suficiente.
Somos desconhecidos, de fato.
Elas de mim, eu delas. Ma eu de mim, também.
Não estou passando por debaixo do alpendre da casa de ninguém,
Mas olho para cima e não vejo o céu.
Não sinto o amanhecer, pois sinto como se uma eterna noite se passasse por mim.
Noite? Dia? Que mal pressentimento é esse?
Não sei quais horas do dia já passam-se, mas sinto que meu dia está por acabar.
Ah, quem dera... Sinto um alívio quando penso que algo meu acabe.
Minha vida, entretanto, segue.
Sinto que, por debaixo do alpendre que sou, faço sombra a meus devaneios.
Deixo-me preso em cercas e não permito que batam-me na porta.
Fechado para o mundo, numa casa vazia que sou,
olho para os lados e não vejo nem janelas.
Se as visse, o que faria? Procuraria a luz do dia?
Não! Sinto que iria avaliar se eram janelas altas o suficiente para um pulo.
Que pena não ter janelas em mim.
Que pena não poder recomeçar e ser outro.
Que pensa de mim a maçaneta da porta que me fecha?
Nunca a utilizei para dar entrada a ninguém.
Deixo minha maçaneta sozinha, como eu, e inútil - também como eu.
Quem porá fim a mim? Não sei.
Temo que eu precise abrir a porta para morrer.
Caso isso seja necessário, viverei muito,
pois só de pensar que poderia abrir as portas de meu ser
e deixar minha solidão ser ocupada pela devassidão do mundo,
estremeço e sinto que não vale à pena ter uma maçaneta na minha porta.
Elas, muito mais do que eu, desconhecem-me.
Entretanto, nem elas, nem eu sabem de mim o suficiente.
Somos desconhecidos, de fato.
Elas de mim, eu delas. Ma eu de mim, também.
Não estou passando por debaixo do alpendre da casa de ninguém,
Mas olho para cima e não vejo o céu.
Não sinto o amanhecer, pois sinto como se uma eterna noite se passasse por mim.
Noite? Dia? Que mal pressentimento é esse?
Não sei quais horas do dia já passam-se, mas sinto que meu dia está por acabar.
Ah, quem dera... Sinto um alívio quando penso que algo meu acabe.
Minha vida, entretanto, segue.
Sinto que, por debaixo do alpendre que sou, faço sombra a meus devaneios.
Deixo-me preso em cercas e não permito que batam-me na porta.
Fechado para o mundo, numa casa vazia que sou,
olho para os lados e não vejo nem janelas.
Se as visse, o que faria? Procuraria a luz do dia?
Não! Sinto que iria avaliar se eram janelas altas o suficiente para um pulo.
Que pena não ter janelas em mim.
Que pena não poder recomeçar e ser outro.
Que pensa de mim a maçaneta da porta que me fecha?
Nunca a utilizei para dar entrada a ninguém.
Deixo minha maçaneta sozinha, como eu, e inútil - também como eu.
Quem porá fim a mim? Não sei.
Temo que eu precise abrir a porta para morrer.
Caso isso seja necessário, viverei muito,
pois só de pensar que poderia abrir as portas de meu ser
e deixar minha solidão ser ocupada pela devassidão do mundo,
estremeço e sinto que não vale à pena ter uma maçaneta na minha porta.
Questões metafísicas
Quem de fato sou eu que não concordo comigo quase nunca?
Quais são as minhas pretensões diante da vida além de entender-me?
Qual consenso trago para comigo? Quase nunca... Quase nada...
Pretensões demais. Sonhos demais. Eu e conclusões de menos!
Tentei acreditar um dia que vivia bem comigo mesmo sendo o que eu tinha para ser...
Mas como vejo-me hoje? Se é que vejo-me (pois sinto-me tão distante de mim),
tenho aqui um diminuto representante dos sonhos que tive,
mas hoje sem os sonhos, sem realizações, sem nada.
Daquele ser com sonhos que fui, apenas carrego o distintivo de ser eu ainda,
por nome e identidade para comigo!
Se não me houvessem dado documentos que me definissem como o que sou,
seria um corpo que vaga sem nome, sem sentidos, sem sonhos.
Embora chamem meu documento de "identidade", pego-a,
mas não me identifico, todavia! Seria eu, ali?
Quando pego nas mãos documentos com minha foto e meu nome,
de fato, sinto-me menos vazio, pois vejo que eu tive alguma definição de mim um dia
- embora ela não me baste ou tenha me bastado.
Um dia alguém reduziu-me a algo palpável pelo qual eu pudesse me apresentar
como sendo. Mas sou o que, hoje?
Guardo minhas fotos, meus documentos na gaveta.
Penso até em guardar na geladeira. Quiçá, assim, eu conserve mais
aquilo que fui ou aquilo que esperaram de mim.
Os conceitos? O que sou? Para onde estou indo com tanta metafísica?
Não entendo. Não digo que não entendo insistindo em ser daqueles
que usam a metafísica a pretexto de qualquer coisa.
Digo que não entendo, pois já me passam dezenas de anos de vida
e ainda vejo-me completamente sem sentido, sem rumos.
O que consegui nesses tantos anos de existência?
Criar a sensação de que um dia fui algo e que me perdi.
Isso sim. Consegui afastar pessoas ao afastar-me delas.
Consegui construir azorragues próprios e muros ao meu redor.
A ilusão de segurança que esperava ao me afastar de todos
não se concretizou. Eu, sem méritos diante das conclusões que fiz,
reflito e concluo: sozinho, penso mais. Acompanhado, penso menos.
Sou outro quando finjo-me. E as pessoas sentem-se bem.
Eu? Nem tanto, mas talvez tivesse sido melhor ter-me formado
como um ser sociável e não esse ser distante e acabrunhado.
Repenso minha vida e minhas escolhas. Escolho entretanto continuar pensando.
Penso. Existo? Acho que sim. Mas a custo ou a preço de quê?
Resta, para além de qualquer coisa, essa questão.
Quais são as minhas pretensões diante da vida além de entender-me?
Qual consenso trago para comigo? Quase nunca... Quase nada...
Pretensões demais. Sonhos demais. Eu e conclusões de menos!
Tentei acreditar um dia que vivia bem comigo mesmo sendo o que eu tinha para ser...
Mas como vejo-me hoje? Se é que vejo-me (pois sinto-me tão distante de mim),
tenho aqui um diminuto representante dos sonhos que tive,
mas hoje sem os sonhos, sem realizações, sem nada.
Daquele ser com sonhos que fui, apenas carrego o distintivo de ser eu ainda,
por nome e identidade para comigo!
Se não me houvessem dado documentos que me definissem como o que sou,
seria um corpo que vaga sem nome, sem sentidos, sem sonhos.
Embora chamem meu documento de "identidade", pego-a,
mas não me identifico, todavia! Seria eu, ali?
Quando pego nas mãos documentos com minha foto e meu nome,
de fato, sinto-me menos vazio, pois vejo que eu tive alguma definição de mim um dia
- embora ela não me baste ou tenha me bastado.
Um dia alguém reduziu-me a algo palpável pelo qual eu pudesse me apresentar
como sendo. Mas sou o que, hoje?
Guardo minhas fotos, meus documentos na gaveta.
Penso até em guardar na geladeira. Quiçá, assim, eu conserve mais
aquilo que fui ou aquilo que esperaram de mim.
Os conceitos? O que sou? Para onde estou indo com tanta metafísica?
Não entendo. Não digo que não entendo insistindo em ser daqueles
que usam a metafísica a pretexto de qualquer coisa.
Digo que não entendo, pois já me passam dezenas de anos de vida
e ainda vejo-me completamente sem sentido, sem rumos.
O que consegui nesses tantos anos de existência?
Criar a sensação de que um dia fui algo e que me perdi.
Isso sim. Consegui afastar pessoas ao afastar-me delas.
Consegui construir azorragues próprios e muros ao meu redor.
A ilusão de segurança que esperava ao me afastar de todos
não se concretizou. Eu, sem méritos diante das conclusões que fiz,
reflito e concluo: sozinho, penso mais. Acompanhado, penso menos.
Sou outro quando finjo-me. E as pessoas sentem-se bem.
Eu? Nem tanto, mas talvez tivesse sido melhor ter-me formado
como um ser sociável e não esse ser distante e acabrunhado.
Repenso minha vida e minhas escolhas. Escolho entretanto continuar pensando.
Penso. Existo? Acho que sim. Mas a custo ou a preço de quê?
Resta, para além de qualquer coisa, essa questão.
Preceitos
Graças. Graças a Deus, um pouco de solidão.
Fecho a porta e não há ninguém cá dentro.
Abro os botões da camisa e percebo meu peito, ofegante.
Falta-me ar dentro do que sou apesar dos ventos que entram pela janela.
Vejo pela janela cães passeando pela rua e sou estrangeiro a eles.
Eles não sabem do corpo cheio de ossos que sou.
Desconhecem o contato físico de minha pele
assim como desconhecem todos os outros que perambulam.
Todos, inclusive eu, somos vãos e desconhecidos.
A porta fechada, a janela aberta...
Os ventos tentam assoviar ao entrar tentando me fazer companhia.
Mas eu, que não sou romântico nem nada, peço que calem e
sorrio em desdém, de lado, como quem não quer perceber a presença do outro.
O vento, assim como eu, tem tempo finito para existir.
Ele, por sorte, morre tão logo nasce.
Eu, entretanto, como as demais pessoas do mundo, vivo mais que anos.
Vivo insistindo que a vida vale a pena, pois entender que de nada ela vale
seria como um ultraje às pessoas de cada esquina.
Ah, assuntos vãos que não se conversa com ninguém...
Esse é um: a vida!
Todos tentam manter-se fortes e confiantes de que viver é belo e bom.
Eu sinto um pesar enorme ao perceber que não coaduno com isso.
Entendo, entretanto, que, de fato, a metafísica é uma consequência
de se estar maldisposto.
Daí, penso: sou eu que exerço pensamentos em metafísica?
É todo o resto das pessoas que finge desconhecer a imbecilidade da vida
que assim são?
Ao não encontrar solução para esse impasse, o universo dentro de mim
rosna de raiva para comigo.
Rosna de roçar audíveis sons dentes por dentes...
E eu, cá, sozinho no quarto com janela agora menos aberta que antes,
fecho mais meu coração e crio calos nos dentes.
Tento ler qualquer coisas ou não pensar.
Ou melhor: tento pensar como os que não se atém a nada pensam.
Tento pensar como os que veem a vida como coisa feliz,
mas perco-me dentro de devaneios sem sentido para mim.
Olho de novo pela janela e vejo que não mais há cães, nem pessoas
passeando pelas calçadas. Talvez tenham se ido para suas casas ou
estejam agora desfrutando de uma tarde de sol num parque cheio de
outros cães e outras gentes.
Eu, de cá, isolado como o interior de minha cabeça, sigo digladiando
com minha mente e minha cabeça cria sons que só eu ouço.
Tento manter a solidão insistindo em não abrir mais a janela,
nem abrir a porta.
Fechado, não tendo ninguém, sou mais eu que em outras ocasiões fui.
Sendo algo diante dos outros, sou aquilo que precisam ver em mim.
Engano a eles, engano-me, e todos saem felizes disso, menos eu.
Sou um emaranhado de pensamentos que desconheço a origem
e mais ainda desconheço as respostas.
De fato, concluo que sou daqueles que insiste na metafísica.
Não sou de viver ficções.
Se acho a vida um inferno que Deus criou: pronto, acho!
Não finjo nada diante de mim.
Mas o entorno que vejo é repleto de pessoas repletas de ficções.
Ora a ficção da família feliz, ou do casal satisfeito, ou do amor ao desfrute humano...
Ora, penso: sou eu mesmo um desajustado e maldisposto diante da vida.
Que tenho eu de humano para além de ossos, carne e angústias?
Queria ser ficção e encerrar-me num final feliz qualquer.
Pena que desconheço até os preceitos que me permeiam o presente e perfazem-me...
Fecho a porta e não há ninguém cá dentro.
Abro os botões da camisa e percebo meu peito, ofegante.
Falta-me ar dentro do que sou apesar dos ventos que entram pela janela.
Vejo pela janela cães passeando pela rua e sou estrangeiro a eles.
Eles não sabem do corpo cheio de ossos que sou.
Desconhecem o contato físico de minha pele
assim como desconhecem todos os outros que perambulam.
Todos, inclusive eu, somos vãos e desconhecidos.
A porta fechada, a janela aberta...
Os ventos tentam assoviar ao entrar tentando me fazer companhia.
Mas eu, que não sou romântico nem nada, peço que calem e
sorrio em desdém, de lado, como quem não quer perceber a presença do outro.
O vento, assim como eu, tem tempo finito para existir.
Ele, por sorte, morre tão logo nasce.
Eu, entretanto, como as demais pessoas do mundo, vivo mais que anos.
Vivo insistindo que a vida vale a pena, pois entender que de nada ela vale
seria como um ultraje às pessoas de cada esquina.
Ah, assuntos vãos que não se conversa com ninguém...
Esse é um: a vida!
Todos tentam manter-se fortes e confiantes de que viver é belo e bom.
Eu sinto um pesar enorme ao perceber que não coaduno com isso.
Entendo, entretanto, que, de fato, a metafísica é uma consequência
de se estar maldisposto.
Daí, penso: sou eu que exerço pensamentos em metafísica?
É todo o resto das pessoas que finge desconhecer a imbecilidade da vida
que assim são?
Ao não encontrar solução para esse impasse, o universo dentro de mim
rosna de raiva para comigo.
Rosna de roçar audíveis sons dentes por dentes...
E eu, cá, sozinho no quarto com janela agora menos aberta que antes,
fecho mais meu coração e crio calos nos dentes.
Tento ler qualquer coisas ou não pensar.
Ou melhor: tento pensar como os que não se atém a nada pensam.
Tento pensar como os que veem a vida como coisa feliz,
mas perco-me dentro de devaneios sem sentido para mim.
Olho de novo pela janela e vejo que não mais há cães, nem pessoas
passeando pelas calçadas. Talvez tenham se ido para suas casas ou
estejam agora desfrutando de uma tarde de sol num parque cheio de
outros cães e outras gentes.
Eu, de cá, isolado como o interior de minha cabeça, sigo digladiando
com minha mente e minha cabeça cria sons que só eu ouço.
Tento manter a solidão insistindo em não abrir mais a janela,
nem abrir a porta.
Fechado, não tendo ninguém, sou mais eu que em outras ocasiões fui.
Sendo algo diante dos outros, sou aquilo que precisam ver em mim.
Engano a eles, engano-me, e todos saem felizes disso, menos eu.
Sou um emaranhado de pensamentos que desconheço a origem
e mais ainda desconheço as respostas.
De fato, concluo que sou daqueles que insiste na metafísica.
Não sou de viver ficções.
Se acho a vida um inferno que Deus criou: pronto, acho!
Não finjo nada diante de mim.
Mas o entorno que vejo é repleto de pessoas repletas de ficções.
Ora a ficção da família feliz, ou do casal satisfeito, ou do amor ao desfrute humano...
Ora, penso: sou eu mesmo um desajustado e maldisposto diante da vida.
Que tenho eu de humano para além de ossos, carne e angústias?
Queria ser ficção e encerrar-me num final feliz qualquer.
Pena que desconheço até os preceitos que me permeiam o presente e perfazem-me...
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Sobre o mundo técnico que temos
Não sei como eram os seres humanos antes da era tecnológica em que estamos. Mas vejo-nos em nossos dias e tomo opinião a partir do que vejo. E concluí: temos sido afeitos demais à técnica!
Aprendemos com a exatidão das conquistas tecnológicas pautadas na matemática que temos de ser corretos, objetivos, práticos e rápidos. Precisos! Exigimos de tudo e de todos uma precisão maquinal que tanto admiramos. Mas nesse afã de sermos inseridos nas conquistas do mundo tecnológico, inseridos no mundo da pressa e da precisão, esquecemos de um fato crucial: somos humanos!
Humanos são dotados de braços limitados, pernas limitadas e, por que não, mentes limitadas. Há limites em todos nós! Pronto! Difícil aceitar isso? Talvez sim. Estamos mesmo afeitos à pressa e à precisão, mas entendemos de nossos limites cedo ou tarde. Exigindo de nós e do mundo essa precisão nas coisas, vemos que o mundo não funciona assim. O mundo erra. Os seres falham. Tudo e todos fogem-nos do controle.
O mundo é tocado por fenômenos que tentamos controlar, que tentamos prever, mas pouco conseguimos disso ou daquilo. O mundo é também tocado por animais e, aceitemos ou não, nós também somos animais. Logo: dividimos espaço com todos os fenômenos da natureza e com todos os demais bichos da natureza. Ah, as máquinas existem sim, daqui e dali, tentando ser parte do mundo. Mas máquinas não são naturais. São criadas. São artefatos que não existem sem o dedo humano que o criou.
Existem máquinas que independem do homem? Sim. Mas, pergunto-me: para que elas servem? Para que foram criadas? Fico pensando, sem concluir muita coisa. Digo isso para salientar a relevância do aspecto humano que somos e que não vejo como certo nossa evolução hoje ser com uma espécie de rebaixamento de nossa condição diante das máquinas. Mas, decerto, somos fascinados pela tecnologia.
Através da tecnologia e do nosso apreço e entrega à ela, aprendemos que há outras formas de ver o mundo e a nós mesmos além das antigas formas como nos espelhos construídos ou os espelhos de reflexo d'água. Hoje, ambos ultrapassados. Também perdemos nossas capacidades de confiar nos nossos próprios olhos. Confiamos mais em câmeras para retratar as coisas, retratar os acontecimentos. Confiamos mais nelas que nas nossas capacidades próprias de enxergar e guardar memórias como se fossem arquivos de tudo.
Através da tecnologia e do nosso apreço e entrega à ela, aprendemos que há outras formas de ver o mundo e a nós mesmos além das antigas formas como nos espelhos construídos ou os espelhos de reflexo d'água. Hoje, ambos ultrapassados. Também perdemos nossas capacidades de confiar nos nossos próprios olhos. Confiamos mais em câmeras para retratar as coisas, retratar os acontecimentos. Confiamos mais nelas que nas nossas capacidades próprias de enxergar e guardar memórias como se fossem arquivos de tudo.
Os espelhos foram quase que substituídos pelas câmeras de celulares apontadas para o alvo: nós! "Selfies"! Tecnologias auto-voltadas. Algo assim... Voltadas para nós mesmos e nossos devaneios narcísicos - ainda mais com o advento das redes sociais e, com elas, com a exposição incontrolável de nós mesmos. Os olhos humanos foram trocados por lentes precisas repletas de tecnologias controladas por um único botão. Pronto! Somos inseridos num mundo novo, repleto de possibilidades, mas repleto também de angústias.
Como mudaremos isso? Tais mudanças são inevitáveis? São incontroláveis? Não sei ainda. Apenas levantei questões aqui. Não sou preparado para conseguir respostas. Apenas, ainda, aprendi a levantar perguntas... E isso é péssimo!
Como mudaremos isso? Tais mudanças são inevitáveis? São incontroláveis? Não sei ainda. Apenas levantei questões aqui. Não sou preparado para conseguir respostas. Apenas, ainda, aprendi a levantar perguntas... E isso é péssimo!
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Alma penada
Resta saber de mim: o que espero mesmo?
Resta saber de mim: serei mais que esse ser, à esmo?
Resta entender, enfim: o que sobra para além disso tudo?
Resta vencer os dias como guerras travadas, insanas.
Resta entender que não sou são, por isso faltam-me ganas
De poder vencer o eu falho e vil que sou, de fato.
Dia após dia, ato após ato, sigo como um eu falho e tosco.
Vejo - séssil, embora inquieto - o mundo por um prisma fosco.
E, não me entendendo com a realidade de forma clara: choro!
Choro de tanto perceber que a vida passa por mim,
Mas o que tenho eu deixado nela ou à ela, enfim?
Nada construo. Em nada sou bom. Não me encontro.
Sou um destro escrevendo um epitáfio como um canhoto.
Sou um cego andando correndo pela rua, insano, absorto...
Sou o ligamento roto que sustentava a perna manca, antes firme...
Rompido, dilacerado, sou como chaga que inflama.
Sou como a alma perdida, entregue ao inferno, que clama...
Clama...Clama... Mas quem irá salvar-me da desdita?
Ah, maldita falta de coragem; maldita alma falha e doente.
Não mais consigo ter forças! Não mais consigo ser crente!
Sou uma alma cheia de si e repleta de perguntas vãs.
Ninguém irá responder minhas questões, nem perguntarei nada.
Apenas seguirei duvidando de tudo - apesar de ser alma calada!
Quem sou eu além de, para mim mesmo, essa vil alma penada?
Resta saber de mim: serei mais que esse ser, à esmo?
Resta entender, enfim: o que sobra para além disso tudo?
Resta vencer os dias como guerras travadas, insanas.
Resta entender que não sou são, por isso faltam-me ganas
De poder vencer o eu falho e vil que sou, de fato.
Dia após dia, ato após ato, sigo como um eu falho e tosco.
Vejo - séssil, embora inquieto - o mundo por um prisma fosco.
E, não me entendendo com a realidade de forma clara: choro!
Choro de tanto perceber que a vida passa por mim,
Mas o que tenho eu deixado nela ou à ela, enfim?
Nada construo. Em nada sou bom. Não me encontro.
Sou um destro escrevendo um epitáfio como um canhoto.
Sou um cego andando correndo pela rua, insano, absorto...
Sou o ligamento roto que sustentava a perna manca, antes firme...
Rompido, dilacerado, sou como chaga que inflama.
Sou como a alma perdida, entregue ao inferno, que clama...
Clama...Clama... Mas quem irá salvar-me da desdita?
Ah, maldita falta de coragem; maldita alma falha e doente.
Não mais consigo ter forças! Não mais consigo ser crente!
Sou uma alma cheia de si e repleta de perguntas vãs.
Ninguém irá responder minhas questões, nem perguntarei nada.
Apenas seguirei duvidando de tudo - apesar de ser alma calada!
Quem sou eu além de, para mim mesmo, essa vil alma penada?
Espera
Por debaixo de meus pés, sinto restos meus.
Pisoteados, caídos... Finjo os desconhecer.
Passo além deles, mas não digo adeus.
Sei que são partes de mim que não vão morrer.
Se partes de mim morrem, morro eu também!
Nas tentativas de mudanças do espírito que sou,
Sinto que deixo pedaços para trás, de mim além,
Mas todos ainda são parte do que, à vida, eu dou.
Doando à vida o máximo que tenho, o que há?
Há a certeza de que estou aquém do que devia...
Há o receio de me perder diante do medo que me dá
Quando vejo que sou fadado a ser sozinho na travessia.
Quem é obrigado a conviver comigo? Somente eu!
Os demais podem correr de mim - e eu, se pudesse, o faria.
Abandonaria meu eu deixando-o caído pra trás, qual se deu
Desde quando fui perdendo os primeiros pedaços do eu que havia.
Na via, ficam sobras, ficam restos... Mas o eu que sou segue ainda
Espalhado pelo chão ou caminhando sobre ele.
Sou os restos e sou o todo de um ser que, em si, se finda.
Resta saber da vida o que ela espera de mim ainda...
Pisoteados, caídos... Finjo os desconhecer.
Passo além deles, mas não digo adeus.
Sei que são partes de mim que não vão morrer.
Se partes de mim morrem, morro eu também!
Nas tentativas de mudanças do espírito que sou,
Sinto que deixo pedaços para trás, de mim além,
Mas todos ainda são parte do que, à vida, eu dou.
Doando à vida o máximo que tenho, o que há?
Há a certeza de que estou aquém do que devia...
Há o receio de me perder diante do medo que me dá
Quando vejo que sou fadado a ser sozinho na travessia.
Quem é obrigado a conviver comigo? Somente eu!
Os demais podem correr de mim - e eu, se pudesse, o faria.
Abandonaria meu eu deixando-o caído pra trás, qual se deu
Desde quando fui perdendo os primeiros pedaços do eu que havia.
Na via, ficam sobras, ficam restos... Mas o eu que sou segue ainda
Espalhado pelo chão ou caminhando sobre ele.
Sou os restos e sou o todo de um ser que, em si, se finda.
Resta saber da vida o que ela espera de mim ainda...
Ardo
Olhei uma pedra e senti-me rijo.
Sou tão duro quanto ela, mas finjo
Ser algo maleável, diante da vida.
Passam-se dias e não vejo nada
Que não seja a vida desgastada
Que construo em lamúrias sem fim.
Pra mim, sou apenas meu próprio algoz!
Mentalmente, crio discursos - mas calo minha voz.
Finjo mudanças que não vejo e forjo sorrisos.
Brinco com os olhares alheios, distraídos.
Faço transparecer que passo por dias bem vividos,
Mas dentro de mim o coração sangra e me bate.
Apanhando por dentro, sangrando calado...
Resta saber: até quando aguento ser esse fardo
Que construo para mim mesmo, em desalento?
Desesperado? Sim! Mas não deixo que vejam.
Forjo-me sob a dor doando aos outros o que almejam!
Sou pra eles algo bom, mas pra mim mesmo não.
Inimigo de si mesmo, vilão. Sou eu um arpão cravado
Na alma que se apequena, sem forças, sendo fardo
Com a qual, em plena vida, tal qual num inferno, ardo.
Sou tão duro quanto ela, mas finjo
Ser algo maleável, diante da vida.
Passam-se dias e não vejo nada
Que não seja a vida desgastada
Que construo em lamúrias sem fim.
Pra mim, sou apenas meu próprio algoz!
Mentalmente, crio discursos - mas calo minha voz.
Finjo mudanças que não vejo e forjo sorrisos.
Brinco com os olhares alheios, distraídos.
Faço transparecer que passo por dias bem vividos,
Mas dentro de mim o coração sangra e me bate.
Apanhando por dentro, sangrando calado...
Resta saber: até quando aguento ser esse fardo
Que construo para mim mesmo, em desalento?
Desesperado? Sim! Mas não deixo que vejam.
Forjo-me sob a dor doando aos outros o que almejam!
Sou pra eles algo bom, mas pra mim mesmo não.
Inimigo de si mesmo, vilão. Sou eu um arpão cravado
Na alma que se apequena, sem forças, sendo fardo
Com a qual, em plena vida, tal qual num inferno, ardo.
Sombra de mais um
Pego-me calado.
Dou de ombros!
Fingo-me melhorado...
Respiro sob escombros...
Sou restos do que sonhei;
Sou parte do que pareço!
Finjo viver horas de recreio, sei.
Mas, por dentro, feneço, pereço...
Perecível como coisas de jardim,
Sou como um alimento insosso que ingiro.
Construo assim azorragues para mim.
Com isso me firo, me firo, me firo...
Ferido, sangro como todos.
Mas nem todos veem meu sangue.
Maquiado meu rosto, construo engôdos.
Banhado em sangue, permaneço estanque.
Séssil como pedra grande e bruta,
Tento em vão mudanças ao me lapidar.
Dilapidado, de coração vazio e alma arguta,
Sou fel na minha saliva e sustento do meu penar.
Fingindo como se não houvesse dores,
Forjo-me na luta como alma branda, um ser comum.
Vivo os dias observando a lida, buscando cores,
Mas, diante de tudo, sou apenas sombra de mais um.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Em breve
Vendi-me por uma bagatela.
Mal sabia eu quanto eu custaria...
Vendi-me a preço de bananas...Sim, bananas!
Sou eu um banana, um conto de réis sem sentido.
Levaram-me de mim e pronto.
Ficou um resto vago, insosso.
Sou um cão que ladra sem rumos.
Sim, um cão.
Sou daqueles cães que se vê na rua
e, em vendo, se tem dó
Eu, do alto de minha sobrevivência ao longo dos dias,
olho para o horizonte e tento pular do prédio mais alto,
mas não tenho coragem ou ânimo nem para subir as escadas.
Ó, eu insosso e sem sucesso:
vá ser algo na vida, homem!
Vá cuidar de algo que não seja o jardim de sua insignificância
da qual colhe tantos frutos insignificantes como você!
Ah, deveras grande é a decepção que cultivamos
quando percebemos, enfim, que nada deu certo.
Tudo quanto era sonhos pueris torna-se farinha, migalhas...
Farinha...
Sou um pó do castelo que ruiu por inteiro?
Ou as cinzas da carta endereçada a deus que queimou-se em brasa?
Algo sem matéria pronta,
Sou o poema que surge ou sou o papel que joguei no lixo?
Não sei.
Posso ser ambos,
E, sobre isso, pouco me importa ser algo agora.
Apenas espero chegar logo o dia de amanhã
onde não haverá mais amanhã algum.
Quem sabe consigo essa sorte
de não existir mais, em breve?
Mal sabia eu quanto eu custaria...
Vendi-me a preço de bananas...Sim, bananas!
Sou eu um banana, um conto de réis sem sentido.
Levaram-me de mim e pronto.
Ficou um resto vago, insosso.
Sou um cão que ladra sem rumos.
Sim, um cão.
Um cão desperdiçado nas soleiras das portas...
Um cão perdido, malfadado, deveras.
Um cão perdido, malfadado, deveras.
Sou daqueles cães que se vê na rua
e, em vendo, se tem dó
das pulgas que o infestam.
Tenho dó de mim?
Não, tenho pena do que não fui.
Seria eu algo melhor caso o fosse,
Caso pudesse ter sido.
Caso visse a mim mesmo
como vejo hoje.
Saberia eu não ser melhor
que um cão às soleiras das portas que
Sequer querem ser abertas.
Mas, confesso, parte de mim soa em dó.
Sim, tenho dó de mim em partes!
Sim, tenho dó de mim em partes!
Preciso confessar. Pronto!
Mas não sou ausente do que sou.
O que sou, sou por inteiro.
Sou a melhor versão de mim
Dentro daquilo que consegui fazer-me.
Mas, sim, sou um reles qualquer.
Sim, sou um nada que teme tanto e quase tudo.
Mas não temo temer, nem nego o temor.
Tenho pavor dos que se enganam
Tomando-se por corajosos...
Corajosos trêmulos.
Feições estéticas de coragem
Que não se perpetuam em ações corajosas.
Coragem exige desprendimento,
Bom senso e visão crítica refinada.
O que seria dos atos de coragem, também,
Sem indignação? Ora...
...
Sou um ancião no corpo ainda jovem
que insiste em viver aguardando algo melhor
que insiste em viver aguardando algo melhor
enquanto suas esperanças e energias acabam.
Esvaem-se pelas janelas da casa aberta
Que sou, fui, entendendo que há
Um mundo bom, de pessoas boas.
...
Coitado do meu corpo.
Coitado do meu corpo.
Coitado de mim?
Coitado de mim!
Quem dera eu recebesse novas esperanças
Coitado de mim!
Quem dera eu recebesse novas esperanças
Mesmo que com olhos de assombro.
Mas...
Nada.
Nada!
Não me espanto e nada mais me causa alarde
Nada.
Nada!
Não me espanto e nada mais me causa alarde
ou - sinceramente - comoção!
Tornei-me tão reles como aquele que nem mesmo conhece
a insignificância de si mesmo!
Tornei-me tão reles como aquele que nem mesmo conhece
a insignificância de si mesmo!
Mas tento entender-me,
Naquilo que sou, o que há!
Sem temor de ver aquilo que jamais fui,
Aquilo que tantos esperaram
- e que até persegui ser, mas
Sinto-me hoje em paz sendo um cão.
Cão deitado às soleiras das portas.
Ora aqui, ora acolá,
Aguardando um afago despretensioso.
Um resto de mesa farta qualquer...
E não digo de alimentos do corpo, tão somente.
Desconheço o que as pessoas têm para dar.
E desconheço o que eu mesmo tenha,
Afinal, desconheço o todo que sou
ou quem sou, de fato.
Mas sei bem que não me incomoda mais em nada
Saber que não sou aquilo que quiseram de mim,
Que esperavam para mim.
Até para ser cão às soleiras da porta,
Há de se aprender a ser tolerado
Pelas pessoas donas das portas, claro.
Nada mais desagradável que ser enxotado, entendo.
Mas sei viver em paz indo de poeta em porta
Recebendo apenas o resto que as pessoas me dão.
Afinal, nesse mundo: quem tem algo mais a oferecer de si senão restos?
Fragmentados em nossa egolatria
Nos discursos esteticamente premeditados,
Vivendo personagens que não somos:
Damos sempre restos. Restos...
Há nada mais que isso nos conteúdos que temos sido enquanto pessoas
Nesse mundo cada vez mais virtual
E sem portas abertas para nada.
Apenas queremos receber.
Receber. Receber.
Carências sem fim.
Quem não aprende a amar a si mesmo,
Passa a ser um ser humano solitário
Mesmo que na multidão.
E dou gargalhadas quando alguém me olha,
Vê-me um cão às soleiras das portas
e sente pena de mim.
Estou muito mais rico agora.
Rico, pois preciso de pouco.
Espero muito pouco, pois aprendi a entender:
Somos pessoas que se educaram a doar pouco.
Receber muito.
Cobrar sempre.
Por isso: não ladro, apenas deito às soleiras
e contento-me com as migalhas alheias.
...
Eu, do alto de minha sobrevivência ao longo dos dias,
olho para o horizonte e tento pular do prédio mais alto,
mas não tenho coragem ou ânimo nem para subir as escadas.
Ó, eu insosso e sem sucesso:
vá ser algo na vida, homem!
Vá cuidar de algo que não seja o jardim de sua insignificância
da qual colhe tantos frutos insignificantes como você!
Ah, deveras grande é a decepção que cultivamos
quando percebemos, enfim, que nada deu certo.
Tudo quanto era sonhos pueris torna-se farinha, migalhas...
Farinha...
Migalhas...
Farinha, sim!
Não me resta mais que aceitar minha nulidade,
Farinha, sim!
Não me resta mais que aceitar minha nulidade,
Seguir pisando na farinha que fiz de mim,
Debruçado em minhas mãos
Olhando as migalhas que me dão.
Isso!
Justo!
A farinha que sou do pão que poderia ser?
Justo!
A farinha que sou do pão que poderia ser?
As migalhas dos outros, por certo,
Ainda me nutrem de alguma maneira.
Poético e trágico.
Poético e trágico.
...
Sou um pó do castelo que ruiu por inteiro?
Ou as cinzas da carta endereçada a deus que queimou-se em brasa?
Algo sem matéria pronta,
sou uma coisa perdida qualquer que
olha-se e apieda-se de si mesma!
Ah, que futuro torpe é esse, meu Deus?
Quantas noites passei em claro achando que estava a traçar nortes...?
Hoje, sem nortes e sem nada além de vislumbres do passado distante,
sinto, em novo vislumbre,
Ah, que futuro torpe é esse, meu Deus?
Quantas noites passei em claro achando que estava a traçar nortes...?
Hoje, sem nortes e sem nada além de vislumbres do passado distante,
sinto, em novo vislumbre,
que nem sou, pois não fui o que queria ser;
nem sou o que espero ainda,
pois, na verdade, tanto faz agora.
nem sou o que espero ainda,
pois, na verdade, tanto faz agora.
Tanto faz o que não fui.
Tanto faz o que nem sou.
Tanto faz cada um que depositou em mim ideias sem meu aval.
E nem considero-me algo para ser isso ou aquilo de certo ou de errado.
E nem considero-me algo para ser isso ou aquilo de certo ou de errado.
Sou o que sou, pronto!
Mas fazendo-se novo a cada dia.
Dito isso, tanto faz se sou vivo ou morto
- ou se sou reles ou um homem de sucesso.
Apenas de olhar minha existência, bate-me uma enorme preguiça.
Dito isso, tanto faz se sou vivo ou morto
- ou se sou reles ou um homem de sucesso.
Apenas de olhar minha existência, bate-me uma enorme preguiça.
Daquelas que, ao bater, você tem vontade de caçoar de si mesmo!
Caçoo de mim!
Dou gargalhadas.
Caçoo de mim!
Dou gargalhadas.
Caçoo das pessoas!
Dou gargalhadas.
Afinal, que sou eu além de essas linhas insanas, malfadadas,
em um papel que será jogado fora?
Afinal, que sou eu além de essas linhas insanas, malfadadas,
em um papel que será jogado fora?
...
Sou o poema que surge ou sou o papel que joguei no lixo?
Não sei.
Posso ser ambos,
E, sobre isso, pouco me importa ser algo agora.
Apenas espero chegar logo o dia de amanhã
onde não haverá mais amanhã algum.
Quem sabe consigo essa sorte
de não existir mais, em breve?
Basta! Basta!
Ah,... onde estou eu que não me encontro?
Basta! Basta! Já me cansei de procurar.
Onde estaria um ser enfadonho como eu?
Pensei diversas vezes que havia me encontrado.
Olhei tantas vezes para o lado achando que me veria ali,
mas não. Nunca me acho. Persigo, sigo e nada.
Nada!
Basta!
Não quero mais saber de mim.
Estou cansado de viver percorrendo o rastro do que fui,
do que sou.
Tento encontrar algo que seja eu.
Pego-me pelas mãos tentando sentir a mim mesmo,
mas não sinto nada, não me causando calor algum.
Sou um reles como outros tantos reles como eu.
Sou um insucesso que conquistou seu ápice em si mesmo!
Pronto. Aplausos para a bestialidade do ser que fala.
Sou eu. Sou eu!
Ouçam o que eu digo: não quero dizer nada!
Não me perguntem, nem me procurem.
Eu mesmo não sei onde estou nem o que sou.
Basta!
Basta!
Corro daqui e dali tentando agora não me encontrar, deveras.
Estou farto. Estou insano. Estou cansado.
Cansaço.
Cansaço.
Quantos mais suspiros hei de dar achando-me cansado?
Quantos mais assombros terei ao olhar para mim e
não me identificar comigo?
Ah, quem dera eu fosse um outro qualquer,
um comum que perambule pelas vias públicas
sem nem saber quais horas já se passaram no dia...
Ah, cansei de correr em vão ao redor de eixos que desconheço.
O tempo não se mede pelo que passou, mas sim pelo que deixa de vir.
Não quero então perder mais nada.
Se perdi-me de mim, que tenho eu que ver com isso?
Pouco me importa o eu quebrado e perdido que há por aí.
Não me quero em entrelinhas.
Não me quero em suspeitas de onde irei estar.
Se estou perdido, deixem-me perdido.
Basta!
Basta!
Não quero saber de mim!
Quero apenas seguir dia após dia e, com sorte,
encontrar meu fim!
Basta!
Basta!
Cansei de estar cansado e perseguindo-me.
Não sou osso para cão qualquer encontrar-me.
Basta!
Basta!
Não farejo mais que meus medos e insanidades.
Deixem-me ser louco e medroso.
Deixem-me ser só e vazio.
Deixem-me tal qual estou: chato, ranzinza e cético.
Sou um cão sem dono que perdeu-se ao perseguir o próprio rabo.
Deixem-me com minha desorientação vil e meu completo desajuste.
Pronto!
Basta!
Basta! Basta! Já me cansei de procurar.
Onde estaria um ser enfadonho como eu?
Pensei diversas vezes que havia me encontrado.
Olhei tantas vezes para o lado achando que me veria ali,
mas não. Nunca me acho. Persigo, sigo e nada.
Nada!
Basta!
Não quero mais saber de mim.
Estou cansado de viver percorrendo o rastro do que fui,
do que sou.
Tento encontrar algo que seja eu.
Pego-me pelas mãos tentando sentir a mim mesmo,
mas não sinto nada, não me causando calor algum.
Sou um reles como outros tantos reles como eu.
Sou um insucesso que conquistou seu ápice em si mesmo!
Pronto. Aplausos para a bestialidade do ser que fala.
Sou eu. Sou eu!
Ouçam o que eu digo: não quero dizer nada!
Não me perguntem, nem me procurem.
Eu mesmo não sei onde estou nem o que sou.
Basta!
Basta!
Corro daqui e dali tentando agora não me encontrar, deveras.
Estou farto. Estou insano. Estou cansado.
Cansaço.
Cansaço.
Quantos mais suspiros hei de dar achando-me cansado?
Quantos mais assombros terei ao olhar para mim e
não me identificar comigo?
Ah, quem dera eu fosse um outro qualquer,
um comum que perambule pelas vias públicas
sem nem saber quais horas já se passaram no dia...
Ah, cansei de correr em vão ao redor de eixos que desconheço.
O tempo não se mede pelo que passou, mas sim pelo que deixa de vir.
Não quero então perder mais nada.
Se perdi-me de mim, que tenho eu que ver com isso?
Pouco me importa o eu quebrado e perdido que há por aí.
Não me quero em entrelinhas.
Não me quero em suspeitas de onde irei estar.
Se estou perdido, deixem-me perdido.
Basta!
Basta!
Não quero saber de mim!
Quero apenas seguir dia após dia e, com sorte,
encontrar meu fim!
Basta!
Basta!
Cansei de estar cansado e perseguindo-me.
Não sou osso para cão qualquer encontrar-me.
Basta!
Basta!
Não farejo mais que meus medos e insanidades.
Deixem-me ser louco e medroso.
Deixem-me ser só e vazio.
Deixem-me tal qual estou: chato, ranzinza e cético.
Sou um cão sem dono que perdeu-se ao perseguir o próprio rabo.
Deixem-me com minha desorientação vil e meu completo desajuste.
Pronto!
Basta!
Chega de lamentar. Brindemos à vida!
Viver, de fato, nos é uma tarefa dura.
A vida, apesar de dádiva, nos adoece ou cura;
Depende de como encaramos cada dia.
Se eu enxergo na vida apenas os sofrimentos,
Como poderei curtir alguns momentos?
Ou ainda encontrar um tanto de paz que me acalme?
Sem paz, não há harmonia e, assim, resta sofrer!
Dói quando tentamos superar a vida, e não viver...
Quem dera encarássemos a existência com alegria.
Sim, alegria! Custa tanto encontrar dela um pouco?
Será que, pedindo a Deus alguns sorrisos, sou um louco?
Ora, quem dera pudéssemos todos gargalhar sempre.
Gargalhadas diante dos sofrimentos, diante das tristezas...
Gargalhar, mesmo sem motivo, diante das incertezas.
Quem dera isso nos fosse cotidiano e fácil!
Não sendo, resta viver a cada dia tentando mais:
Mais um pouco de paz e um pouco menos de "ais".
Chega de lamentar. Brindemos à vida!
A vida, apesar de dádiva, nos adoece ou cura;
Depende de como encaramos cada dia.
Se eu enxergo na vida apenas os sofrimentos,
Como poderei curtir alguns momentos?
Ou ainda encontrar um tanto de paz que me acalme?
Sem paz, não há harmonia e, assim, resta sofrer!
Dói quando tentamos superar a vida, e não viver...
Quem dera encarássemos a existência com alegria.
Sim, alegria! Custa tanto encontrar dela um pouco?
Será que, pedindo a Deus alguns sorrisos, sou um louco?
Ora, quem dera pudéssemos todos gargalhar sempre.
Gargalhadas diante dos sofrimentos, diante das tristezas...
Gargalhar, mesmo sem motivo, diante das incertezas.
Quem dera isso nos fosse cotidiano e fácil!
Não sendo, resta viver a cada dia tentando mais:
Mais um pouco de paz e um pouco menos de "ais".
Chega de lamentar. Brindemos à vida!
quarta-feira, 13 de julho de 2016
No amor ou em Deus, quiçá
Ninguém nunca disse que amar
É garantia de felicidade!
Ser feliz é hábito! Custa a se criar...
E depende de insistência, é verdade.
O mundo está repleto de tristezas.
Não raro, nós também choramos...
Diante das angústias e incertezas,
Caídos, desesperados: oramos!
Deus nos aparece não como pessoa,
Nem como figura outra qualquer.
Deus é uma espécie de paz que ressoa
Dentro de nós, da maneira que nos convier!
Deus pode ser o amor, de fato!
Também pode nos ser fonte de temperança.
Deus pode também surgir de um simples ato
De alguém que nos incentive a esperança.
Não é para se crer nEle como um humano.
Deus não é gente, nem coisa palpável.
É algo metafísico... Ao ateu, beira o insano.
Mas Deus é, sim, algo que faz-se insondável.
O bem, o amor, são coisas pra se sonhar.
E Deus pode, sim, ser a fôrma do bem maior que há!
Nas religiões, o homem tem oportunidade de se melhorar.
Que creiamos em algo então; no amor ou em Deus, quiçá...
O segredo da vida
Qual seria o segredo da existência? Não raro, temos essa pergunta - ou alguma semelhante a ela - passando pelas nossas cabeças. Isso é um benefício de ser humano. Os outros animais, ao que parece, não têm essa capacidade. Apenas existem e seguem suas rotinas ditadas pelos seus instintos. Nós, pelo contrário, humanos que somos, temos nossos anseios e nossas dúvidas. Temos, em última análise, nosso livre-arbítrio. Isso nos torna especiais? Não. Apenas somos diferentes. E ter livre-arbítrio nem sempre é das melhores coisas para se ter. Quem nunca parou para pensar assim, pense comigo: não seria melhor que agíssemos sem escolhas, que tudo fosse ditado por instintos e que não precisássemos parar, pensar, entender o que a vida espera de nós para, dia após dia, existirmos fazendo nossas escolhas? Não seria melhor sermos como os demais animais: agindo pelos instintos e pronto? Não sei, mas tenho pensado que essa coisa de livre-arbítrio é ótima quando não estamos refletindo o suficiente. Será?
Quando paro e penso: "eu deveria ter tomado outro rumo na vida? ou "eu fiz bem em ter escolhido isso ou aquilo?", fico num momento tenso. Acho que eu estaria bem mais contente se não ficasse me perguntando coisas assim. Geram ansiedade tais perguntas. Sou sim, e muito, um ser ansioso. E a multiplicidade de escolhas não ajuda em muito. Dessa forma, olho os outros animais com uma certa inveja. O cão não quer pensar em mais nada a não ser latir quando não gosta de algo ou alguém e comer. Para isso, abana o rabo e tudo fica certo. Vez ou outra, também apenas pelo abanar do rabo e de pequenos latidos felizes, ele quer brincar. Pronto. Seu dono já entende e tudo fica certo.
Cães não precisam pensar muito - se é que pensam. E são felizes assim. Os gatos são um pouco distintos. Querem coisas e manipulam a afetividade do dono de acordo com suas intenções. Se precisam de comida, entrelaçam pelas pernas do dono e olham com olhar de "coitado de mim...". O dono percebe que, naquele olhar, está ali a vontade de comida, ou de afeto e logo se entrega. Saciados de carinho ou de comida, eles seguem suas vidas. Não raro, somem da casa, desaparecem dos donos e só voltam horas ou dias depois... Os gatos também não precisam de muito para receber sua contra-partida da vida.
E os outros animais? Seguem também seus instintos e vivem assim muito bem! Seguem sem pensar sobre as escolhas que têm de tomar. As formigas não querem pensar que estão trabalhando como escravas, de pouco e pouco... Seguem trabalhando carregando sofridos fardos, sendo diminutas e despendendo todo um esforço enorme em sociedade sem refletirem muito acerca disso. As abelhas vivem tomadas pelas responsabilidades da colmeia e trabalham diuturnamente para manter aquilo ali, sem pensar, sem ver se estão sofrendo ou não naquilo. Não há debate sobre felicidade ou infelicidade no mundo animal para além da esfera dos "animais humanos". Dessa forma, entretanto, somos feitos para ter que escolher mediante nossas intenções, não meramente mediante nossos instintos - embora os tenhamos. Assim, escolher um prato de comida não é simplesmente um ato de pronto. A gente pensa, escolhe a melhor pedida a depender do preço, do tipo de refeição etc. Não há uma "ração" que nos sustente e pronto. Precisamos escolher a comida pelo cheiro, pelo sabor, pela hora do dia em que vamos comê-la. Difícil? Aparentemente sim.
Se fôssemos escolher apenas por instinto, talvez não sobrevivêssemos. Temos mesmo que pensar. E, pensando, vamos nos entendendo conosco mesmos. Aprendendo o que mais nos apetece, o que menos nos agrada. Não raro, passamos uma vida inteira sem fazer escolhas diferentes. É comum haver pessoas que optam sempre pelas mesmas coisas, pelo mesmo pedido do cardápio, pelas mesmas cores da camiseta... Há os que vivem sempre mudando. Ora o paladar para comidas e bebidas, ora as cores da camiseta, ora o tipo de carro... Não?
Se fôssemos animais comuns, não aprenderíamos tanto diariamente sobre nós mesmos. De fato, nem são todos de nós que pensam sobre si, sobre os aprendizados da vida humana. Boa parte de nós apenas vive e segue em suas obrigações. Mesmo assim, diferimos dos demais animais, pois, apesar de tantos de nós terem uma vida regrada, guiada por obrigações e demandas repetidas, ainda nos existe a possibilidade de despertar e agir diferente. Mas isso não é comum a todos. Não somos muito formados a debater coisas e muito menos fomentados a entender de nossas peculiaridades humanas - digo das coisas espirituais, morais etc. Somos preparados desde o berço para escolhas predeterminadas. Apesar de sermos livres, nos ditam os destinos desde cedo. Algo daquilo que temos por "inconsciente coletivo". Não? Essas escolhas já são determinadas muito antes dos momentos em que iremos nos deparar com elas. Como assim? Vamos pensar:
Por exemplo: fazer faculdade é uma escolha! Algo opcional. Mas que colocamos como fardo já quando crianças quando perguntamos: "o que você vai ser quando crescer?". E meninos e meninas se veem sonhando com carreiras de astronautas a médicos, professores a jogadores de futebol. Mas somente quando as crianças crescem é que terão mesmo de escolher. Porém, se a criança nos olha e diz que não fará faculdade, pronto! Todos estranham e se perdem. Acreditam que há ali um jovem rebelde. Nem pensam se a vida dele(a) seria melhor sem um curso superior. Quem sabe ser mesmo jogador de futebol não faria meu filho mais feliz? Ou quem sabe se ele fosse um agricultor comum que tivesse no plantio e no cultivo de hortaliças sua parcela de felicidade na Terra?
Há muita felicidade além dos muros de faculdades, mas não estamos preparados para isso ainda. Dessa forma, instintivamente, somos doutrinados a nascer e crescer, terminando os ensinos primário, secundário e depois terceiro grau... Terminada a faculdade, temos a escolha da profissão comum ou a escolha de seguir na vida acadêmica com mestrados e doutorados. Pronto! Roteiros traçados. Predeterminados. Mas isso é quase "instinto social" uma vez que é socialmente imposto! Não? Instinto é algo interno, do ser, do animal, mas o "inconsciente coletivo" - as coisas que a sociedade espera de nós (e para nós) - é quase um instinto imposto. Algo que vem de fora e nos empurra por caminhos. Quando vemos: onde estamos nós em relação aos nossos sonhos?
Nesses dias, fiquei observando crianças brincando. Elas riam e aproveitavam o momento de brincadeira todas juntas sem esperar nada daquele momento a não ser exercer a felicidade que lhes é própria. Em momento algum havia ali algo que não fosse alegria. Crianças não tem ódio, ou preconceitos, ou tristeza. Se algo disso existe é porque adultos já "adoeceram" essa criança com medos, preconceitos e ódios seus. Crianças são seres alegres na pureza total que a alegria tem. Mas, de fato, com o tempo, retiramos essa pureza e colocamos como "alegria" os degraus que obrigamos jovens a seguir, a subir. Crianças são ensinadas a crescer logo, tornarem-se adultos promissores enquanto jovens prodigiosos que devam ser. Dessa forma, a criança logo logo será cobrada sobre ter excelentes notas, a competir com os que eram amigos delas e a se cobrarem ser melhores que os outros. Pronto! Quando fazemos isso, eis que estragamos um pouco o futuro da humanidade.
Criamos na lógica do parágrafo anterior, naquela criança - aquele ser inicialmente puro e feliz - a demanda por competir e ganhar. Sempre ganhar e ser melhor que os outros. Obrigamos crianças desde cedo a aprenderem que subir degraus, sofrer para, no sofrimento, conquistar coisas que todos esperam, haja nisso sua felicidade. Mas e a criança feliz que existia? Ela permanece? Não sei. Mas vejo uma enormidade de adultos infelizes formados nessa lógica de competição e de "degraus" para se escalar... E, disso, apenas vejo uma enorme questão sobre: é bom ou não ter direito a escolhas? Os instintos nos ditam ordens ou o olhar da sociedade é que nos serve como instinto? Entendem? Somos dotados de livre arbítrio mas, desde cedo, temos os olhares e cobranças da sociedade nos ditando o que devemos ou não fazer. Isso é muito pior do que existir apenas seguindo instintos...
Afinal de contas: nem eu mesmo entendo minhas dúvidas. Mas, insisto em duvidar da vida, das coisas, dos hábitos, dos "instintos sociais impostos" e, perguntando para mim mesmo sobre a relevância de tudo, acabo entendendo algo mais de mim e algo menos do mundo. De fato: procurando respostas, encontro mais e mais perguntas. Talvez seja instinto meu perguntar. Mas a vida não tem me explicado tanto... Por isso, sigo perguntando e esperando algo, mas não sei bem o que esperar.
Quem sabe encontro um guru um dia que me dê todas as respostas quanto ao que vejo e reflito, sem concluir nada? Os cães me ensinam a ser feliz diante das pequenas coisas. Os gatos me ensinam a ser livre e independente. Mas a sociedade me ensina a entender que: ou me insiro nos moldes ou estou sendo um ser revoltado, inquieto, desajustado. Ops... E me sinto assim mesmo: desajustado! Isso é péssimo! Melhor então me adequar logo à realidade das demandas para a vida em sociedade. Afinal, somos ensinados a dar respostas prontas às perguntas que a vida nos dá e não a perguntar coisas à vida. Preciso me calar. Preciso aquietar minhas perguntas, minha mente... Mas ainda não entendi como.
Ademais, tenho dois sonhos para concluir com o tempo. É provável que eu permaneça tendo esses dois sonhos e talvez não os concretize jamais. Mas quero: 1) me tornar sábio com o passar dos anos - não apenas velho; 2) quero morrer contemporâneo - e não saudosista, apegado a tempos passados e triste por sonhos que não conquistei. Querendo essas duas coisas, ainda vou andando e batendo cabeça no eu que sou e no eu que espero. Quem dera houvesse um instinto em mim que me retirasse dessa demanda de querer ser essas duas coisas. Queria agir sem pensar muito, sem sofrer pelas coisas que deixo de fazer, sofrer por uma espécie de perfeccionismo que insisto em ter... Tento me aprimorar diariamente, mas dói. É mesmo batendo cabeça nas paredes que entendemos que as paredes são intransponíveis. Aprendendo isso, aprendemos a procurar janelas e portas. Elas mostram horizontes. Paredes não!
Invejo em muito os cães, os gatos e os demais animais que apenas seguem instintos e roteiros. Basta a eles abanar o rabo ou receber um afago e um bocado de comida e pronto, estão felizes. Eu ainda não entendi nada sobre a vida e fico perguntando mais e mais coisas. Entenderei um dia? Quem sabe? Até agora apenas entendi que o segredo da vida é persistir caminhando com ou sem perguntas na cabeça. Quanto menos se perguntar, menos inquieto você fica e mais você consegue se ajustar aos ditames sociais. Preciso disso. Ser desajustado é um saco...
Insistir em viver sem aguardar respostas é necessário! A vida é menos sôfrega assim. Só isso! Subir o topo dia após dia das demandas que nos aparecem é o que se faz necessário para ajustar-se à vida em sociedade. Tentar aprender a cada dia mais de si e dos "porquês" da vida, nem tanto. Um dia, quem sabe, encontro em mim as respostas que espero ou acabo sendo o sábio que sonho ser? Até hoje, não encontrei nada disso. Mas o segredo é esse: insistir sempre? Por ora, apenas me oriento a: existir, sempre.
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